O Outono é uma chatice. Ai que lindas, as folhinhas amarelas; ai que cheirinho, as castanhas a assar; ai que fofinha, a camisola de lã; ai que princesa, de galochas a chapinhar nas poças. Ui que belo ataque de espirros à custa da humidade; ui que ternurentos, os ácaros a voltarem a casa; ui que bela desculpa para o outro me encharcar amiúde. Danei-me - pumbas! - um anti-histamínico pró bucho. Depois pago em sonhos estúpidos, já se sabe:
"Eu conheço este pátio interior, tapado dos olhos da rua pelos prédios altos, mirado apenas pelas suas traseiras de roupas estendidas. Reconheço os cheiros a frito e assado que transbordam das portas abertas dos anexos. Aposto que reconheceria algumas das pessoas, das raparigas, dos seus irmãos, das suas mães e sobretudo - Deus me livre - dos seus pais e respetivas armas de caça guardadas em cima dos roupeiros. Mas por qualquer milagre deste sonho, em nenhum dos momentos em que perpassam o cenário lhes vejo os rostos ou sequer lhes vislumbro as formas. Sei que passam, é tudo.
Pelo contrário, a senhora gorda, de bata xadrez lilás, debruçada no peitoril da janela, vê-se bem que tem uma barba bem tratada. Sei que conheço a personagem, está apenas fora do contexto aqui. Conversa com outra senhora, igualmente debruçada, de lenço na cabeça e ouvido atento. Tento ver as fuças desta, a imagem como que se foca. Foda-se! Parece mesmo...eu. E que lenço tão foleiro.
- Ah pois vizinha, é como lhe digo. Era jantares, roupas, bilhetes para espetáculos, era um versetavias que nem a senhora queira saber. - A poupa abana ao ritmo da sua concordância indignada.
- Não me diga. Mas para toda a gente? - Pergunta a outra, enquanto acena a alguém que passa lá em baixo. - Ah Dona Beatriz, lá vamojindo.
- Para toda a gente e mais quem aparecesse. Uma vergonha! Deu cabo do dinheiro todo a oferecer coisas a homens, pode acreditar no que lhe digo. Deus me perdoe, mas gente assim não merece estar ao pé de pessoas de bem. Era expulsá-la já do prédio. Por mim é quando quiserem, que este corrupio de gente nas escadas não deixa ninguém descansar. - Pigarreia, para aclarar a voz arrastada.
- Oh vizinha, veja lá como são as coisas, hein?! Ainda há pouco tempo andavam tão juntinhas, a cochichar pelas esquinas quando andavam às compras. - A gorda barbuda interrompe:
- Shhh, cale-se, nem malembre disso. Enganadinha keu andava. - Benze-se.
- Olhe, não se esqueça que ela sabe daquela historia do empregado que aí veio para lhe instalar as câmaras de segurança. E que depois parece que andou a assaltar apartamentos aí pela vizinhança e que andava metido em nem sei já que esquemas . - Olha um sabélisabemostodos na direção da outra.
- A vizinha não me venha com essa história! - Exalta-se. - Sabe muito bem que não gosto desse assunto. Pra mais, quem cá andava era a outra lambisgóia que minfeitiçou o homem. O que tenho eu que ver com isso? Hein? Vá, diga lá. Não a corri aqui de casa ao pontapé assim que pude, não? - Cruza os braços em cima dos volumosos seios.
- Não se amofine senhora! Não estou a dizer que a culpa é sua, majolhe que o marido é o mesmo e, já se sabe, as pessoas falam. Estou só a avisá-la porque a considero... - Ia apostar que acrescentou "umabesta", no meio de um espirro.
- Ela que me fale nisso, se quer ver como elas lhe mordem. Só a vergonha que é a chusma de miúdos insurretos que praí vem amais os dela. A senhora nem tem ideia. Armam tamanho banzé. Não há quem tenha sossego.
- Já ouvi dizer, sim senhora. Enfim, são novos. No fundo, também nós temos os nossos e sabe Deus... - Não a deixa terminar:
- Ah, mas é que nem compare! Estes já me partiram os vasos das escadas e tudo. Lindas que estavam as minhas hortenses. E ainda pior. - Debruça-se de novo para se aproximar dos ouvidos da outra. - Veja bem que até bombinhas de Carnaval andaram a rebentar. E não foi lá dentro de casa, que ainda era o menos. Atiravam-nas pela janela da sala. Acha isto normal? Acha que devemos ficar mudas e quedas, acha? A senhora está muito mole, olhe que não a fazia assim. - E abana a cabeça, abanando, por conseguinte, a poupa.
- Não sei, não sei, sabe que procuro sempre ver todos os lados. Por exemplo, lembra-se quando os seus primos vieram desmandados rua abaixo a desancar tudo o que mexia? Olhe que também não foi bonito, não senhor. - Afasta-se um pouco, receosa da reação.
- Já sabia que me vinha com essa! Você é cá uma finória maijomenos, sim senhora. Isso ainda foram reminiscências do tempo das meretrizes que andavam cá por casa. - Funga e escorre-lhe uma lágrima. - Agora anda tudo na ordem, que os pus direitinhos.
- Não sei se foi você ou se foi aquele primo do meu marido e os amiguinhos dele. Sabe, o grandalhão. - Solta um risinho trocista.
- Esse estava bem era preso, brutamontes. Não é boa rês esse moço, há-de concordar comigo.
- Concordar consigo? Eu tenho é que ir tratar de vida, que o almoço não se faz sozinho. E olhe, a senhora não se fique. Dê-lhe água pela barba, pelo bigode neste caso, e conte comigo para desabafar. Se for preciso, imponha-se. Parta-lhe a cara e puxe-lhe os cabelos. Sabe que eu não posso com a mulher nem pintada d'oiro. - E desaparece da janela.
A outra murmura, enquanto apalpa a roupa estendida, a ver se está seca:
- É d'oiro, é. Estás cá prá próxima, tu. Logo vês se é doirado..."
...
Doutora, não é possível que a Gronelândia seja uma terra assim tão boa para criar os miúdos. Se eu prometer que só vou a uma consulta por mês, ou de dois em dois, a doutora volta? Acordado até pareço medianamente normal, mas os sonhos...credo! Uma por trimestre, vá. E prometo não analisar a sua relação conjugal ou os traços de caráter do seu mais velho. Vá lá...
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Soundtrack to dreams: Insanity!
















