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| Dale Ruff / Springfield Union News |
A proibição do incesto é, reconhecidamente, a base da sociedade. Costumamos chamar-lhe família. Não só resolve os problemas da consaguinidade, como obriga a malta a conviver com outras gentes e tal. Senão podia bem dar-se o caso de ficar tudo fechado em casa a ver os novos episódios dos X-Files. Mães, pais, avós, primos e irmãos. Sem que se soubesse bem quais eram o quê a quem. E ainda menos de quem era a responsabilidade de dar a papa aos tolinhos.
A Sociedade é uma coisa importante para as pessoas. Vá que nenhum homem é uma ilha - nem o Demis Roussos foi, embora tivesse perímetro para isso. Acontece que se me ponho a pensar nestas coisas sociais, chego sempre à conclusão que o verdadeiro alicerce de tudo é mesmo o individuo. O fulano, pronto. E na base dele, a ignorância.
Era mai'bonito, confesso, se agora discorresse sobre as maravilhas da curiosidade, o fogo de partir à descoberta do que não se conhece. Enfim, da ignorância como ignição do imenso incêndio da alma. E de facto, esse será um tipo. Mas a que conta, mesmo, mesmo, mesmo, é mais trivial. Sendo que também não é a ignorância de ser burro.
Ignoramos, ponto. E é disso que vivemos. Ignorar permite-nos manter a zona de conforto e permite aos outros pensarem melhor acerca daquela coisa que poderia, eventualmente, retirar-nos de lá. Como se lhes disséssemos: Olha pá, vou fazer de conta que não percebi isso, de modo a que possas fazer de conta que não o disseste/fizeste/provocaste. E assim, poderemos continuar tranquilamente a fazer o que quer que estivéssemos a fazer. Que não era isso, digo-te já.
É ajuizado o outro aproveitar esta oportunidade. Caso contrário, é provável que venha de lá um molho de bróculos: Ai sim? Ai ele é isso? Então pega lá isto tudo de volta e mais uma tonelada de coisas chatas para ti. Ou vais ignorá-las? Não que isso possa resolver o problema inicial, está claro. Mas nem esse é o objetivo. O que se procura é que o outro fique com tanta coisa para resolver, ele próprio, que não tenha tempo nenhum para voltar a pensar na questão que levantou. Que nos era desconfortável. E, por isso, optámos por ignorar. Nem que seja à custa de tanto trabalho.
Também é frequente ignorarmos sem esta resma de considerações associadas. Uma ignorância mais superficial, talvez, mas igualmente eficaz. Podemos fazê-lo num duplo sentido:
a) Deixamos no ar aquela sensação de 'evespensarketenhopaciênciapressetipodmerda. Mas de forma polida, sem provocar nenhum confronto. A existir, terá sido o outro a iniciá-lo, normalmente com a onomatopeia "mastutásmaignorar?". E nós, plácidos e serenos, ou ofendidos e em surpresa, respondemos: Eu? Mas estamos a aparvalhar, é? O que foi, diz lá? Seja qual for o motivo desta ignorância, passou a ser demasiado pequeno/parvo/mesquinho para fazer sentido. Se não fosse, não teria passado tão despercebido, certo? Resta ao outro a vergonha e o ressentimento. Ao um sobra o tempo que não terá que despender a pensar num assunto para o qual, claramente, não tem solução/resposta/interesse. Resolvido.
b) Opta-se pelo estado mais puro da ignorância. O sou surdo, ceguinho e tapado como uma porta. Nem ouvi. Não vi, não reparei. Não entendi. Esta é uma atitude, antes de mais, profundamente altruísta. Todo o nosso esforço está concentrado no outro. Em dar-lhe a oportunidade de não nos maçar. Eu fazconta que não oiço, tu fazconta que não deste um piu. Resolvido.
Não menos importante é a auto-ignorância. Aliás, é até a mais importante de todas as formas de ignorância. Ignoro-me. Ignoro as partes de mim que me não são assim tão convenientes em cada momento. Ignoro que tenho uma ganda penca e gozo com ajorelhas do Herrera.
- Quem tem uma grande o quê, Silva?
- Tinto, senhor Monteiro da Silva?
- Oh Silva, diga lá, é quem?
- Está a sair Berto, deixa só derreter o queijo.
- Silva, aqui, aqui. - Acena com o braço. - Estava você a dizer que... - Interrompo:
- Que são trêjeuros e bintecinco. E é muito rápido, ohfaxabôr!
Digamos que - ainda que inconscientemente, de forma não deliberada - ignoramo-nos de modo a podermos reivindicar. A verdade é que se antes de pedirmos/reclamarmos/protestarmos o que seja, fizermos um auto-exame acerca do que é podre em nós, permaneceríamos calados. E ressentidos por não dizermos. E furiosos com o nosso ressentimento. Culpa de alguém, que não nós, naturalmente. Basta ignorar que fui eu que me calei para poder expiar a minha fúria em alguém que me calou.
A merda é ter noção disto. Escrevem-se posts sem piada nenhuma e sem ponta por onde se lhes pegue, se calhar. No fundo, é um disparate pegado, mas tem boa intenção. O que queria dizer é que a ignorância é uma coisa boa. Que nos permite viver tão felizes quanto possível. Quiçá, roçar o Éden.
- Aquela do Clube de Xetrip, Xilva? Xeu ganda maluco! A Eden, munta boa.
- O Éden, Berto. O!
- 'Ochpoij, xe não ximporta, traga a minha continha. Kinda tenho que pachar no Banco. Xempre a correr, xempre a correr...
Atente-se em São Mateus: "Bem-aventurados os pobres de espírito, que deles é o Reino dos Céus". Existem duas interpretações para a frase. Ou bem que se refere aos tolos, ou então aos ignorantes, no sentido de burros. Usamos a expressão para ambos e está despachado o problema. À luz desta Psicologia da Ignorância, a coisa pode ganhar um sentido terceiro: Os pobres de espírito são, na verdade, os que ignoram tudo o que os pode desviar do caminho. São os conformistas mais abnegados. Deles o Reino dos Céus.
O que Mateus quer - mesmo! - dizer, é que o Reino dos Céus será dos humildes. Dos que aceitam que há coisas que não podemos, nem é suposto, compreender. Um Mundo invisível para lá da nossa inteligência. Que os orgulhosos tomam por medida da inteligência Universal. O Reino dos Céus é dos crentes, portanto. Não dos tolos, nem dos burros, nem da malta que assobia para o ar, nem dos que são lestos a apontar, antes que os apontem. Imaginem uma placa à porta do Reino dos Céus que diz "Para sócios apenas". É maijómenos isto. Ignorantes.
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- Tájaber Pedro? Não te dizia? Irra, mais à vossa teimosia. Um gajo não se pode lembrar de tudo. Queria ver se existisses desde sempre e para sempre, se te lembravas de tudo. Dass.
- Tem razão, Senhor. - Corado. - Peço, em meu nome e de toda a equipa, mil perdões. Sempre entendi assim. E depois, já se sabe, o Mateus...
- Pá, tábem, deixa lá isso agora. Trata é de devolver essa malta toda ao Magalhães Lemos e assim, que já não tenho paciência para tolinhos. Eu Me perdoe, credo.
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