quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Prova de Vida e ligeira pressão sobre a Mesa do Canto

Extorquido em www.distribuicaohoje.pt

- Olha, olha, o xôr Silva. - Pumbas, palmadão nos costados. - Então o que faz aqui no Mercado Abastecedor, e tão cedo, credo, o meu amigo?

Penso se esta será a pergunta mais idiota que se pode fazer a um tasqueiro, no interior de um local onde se vendem géneros alimentícios frescos. Não é. 

Respondo, a sentir duas costelas ligeiramente doridas:

- Estou à procura de forros para caixões. - Reviro ojólhos.

- Pois claro que está e faz você muito bem. - Completamente alheado. - Ainda bem que o encontro, estava mesmo para ligar para o seu estabelecimento. Mas depois ouvi dizer que tinha fechado e isso tudo. - Condoído.

- Claramente exagerada, essa notícia. Parece a morte do outro.

- Ah, pois, por isso os forros. 

- Hã? - Sinto- me a alucinar. Prefiro cogumelos. - Quais forros, homem?

- Ora, para o caixão. 

- Hã? - Esquecido.

- Oh, deixe lá, já não estou a entender nada disto. Parece uma conversa de mudos.

- De surdos. 

- Opá, tanto me faz o paralimpismo. Irra, que você sempre me saiu cá um chato. Olhe lá, preciso de reservar uma mesinha  na Tasca. É para amanhã.

- Pois considere a reserva feita, muito agradecido pela preferência. - Os idiotas clientes, são o meu tipo favorito de idiota. Acho-os fofinhos, até. - E é para quantos? - A fazer contas: tantozidiotas a tantojeuros dá tantos bilhetes prá bola.

 - Ah, não. - Coça o cocuruto. - Sou só eu, mesmo. Queria uma mesa a um canto, se não lhe parecer mal.

- Isso é que não pode ser nada, homem. Só tenho uma Mesa do Canto. E está reservada. - Com ar de arranja-se já outra.

- Ah, pois, que pena. Majolhe, eu posso esperar, não mimporta. A que horas vaga?

- Pois que não faço ideia, amigo. Pode ser depressa, pode demorar uma eternidade. 

- E você mantém isso reservado na mesma? Sem saber?

- Pois claro! - Resoluto.

- Que estranho. Porquê? - Torce a cara num ponto de interrogação.

- Porque a freguesia faz a casa, meu caro. Há coisas pelas quais vale a pena esperar.

- Como belas mamas, poijé Silva? Seu magano. - Pumbas, palmadão no braço esquerdo. Logo o dos quistos, porra.

 - Isso também, está claro. - Este até pode ser idiota, mas num é parvo nenhum.

Dói-me um braço.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Obituário



A morte é uma tipa eternamente inconveniente. Nunca chega no tempo certo. Não há noticia de alguém, alguma vez, ter dito, ou pensado: Ena pá, olha a Morte. Mesmo na horinha, sua marota. Ainda bem que apareceste. 

Mesmo quando se trata do falecimento de outros, que não do próprio, dificilmente se imagina o advento no momento oportuno. Ou gostamos do proximamente desaparecido - e a sua morte é sempre prematura; ou detestamos o coirão prestes a bater a bota - e, mais educação menos religião, em algum minuto pensamos com os nossos botões: Já vais tarde, seu coirão. Precisamente.

Digamos que, de um ponto de vista logístico, valorizando o conceito de entrega "just in time", a Morte é uma vergonha. Buuu, buu.

Está claro que é inevitável morrer, quanto a isso - batatas - nada a fazer. Um gajo já nasce a berrar e, a mim, ninguém me convence que à primeira palmada sentimos uma dor que nos põe a chorar. 

O que dizemos, a plenos pulmões, é: Fuooooda-seeee, eu não quero morrer! Buuuuuááááááá. Quem não chora, é porque está tão deprimido que já nem protesta. Ou já nasceu morto, naturalmente.

Apesar de tudo, de um ponto de vista prático, a utilidade de pessoas falecerem é inquestionável. Majé pessoas, não é eu. Nem pessoas que não me dá jeito nenhum que sigam desta para outra qualquer. Sinceramente, não vejo porque motivo não poderiam abrir uma excepção para mim e mais uma listinha seleta de indivíduos da minha preferência. É mais indivíduas, até.

...

O tema permite uma multiplicidade de abordagens tal, que dificilmente sairíamos daqui a horas de trabalhar o meio dia da tarde. Por isso, e com grande perda, deixem que me foque exclusivamente no motivo de vos vir secar a paciência hoje: A Morte não é indiferente ao banzé que dela se faz. E o alarido em seu torno, diz dos Povos.

Vejamos, morreu Mário Wilson. 

A maioria de vós, terá deste homem a mesma imagem que eu: Um senhor simpático, que treinou alguns clubes. Grande e reconhecido lampião, uma figura da agremiação de Carnide. Que tenha marcado o desporto em Portugal, pode ser mais discutível. Que seja um marco incontornável da nossa História e da nossa Cultura, ainda menos pacífico será.

Não se escamoteie a importância da bola na Vida, nada disso. Nem sequer a relevância de Mário Wilson para o Clube pelo qual se apaixonou. Tudo isso está muito certo e sou ninguém para tecer considerandos a esse propósito.

A mim, comum não apaniguado do dito grupo desportivo, em condições normais, a notícia devia deixar-me  aquele travo típico: Oh, coitado, morreu. Paz à sua Alma e esperança que a família e amigos se confortem neste hora de dor.

A chatice é que desenvolvi um pensamento analítico que me torna num idiota chapado. Quero dizer, as coisas fazem-me ter ideias e pensamentos e assim. Na maior parte das vezes, é coisas basto estúpidas. Deve ser esse o caso.

E então, estranho que tenha ficado hoje a saber muitas e muitas e muitas coisas sobre o falecido Mário Wilson. Todas desembocando numa grande certeza primordial: Mário amava o 5LB. 

E assim se explica o banzé. Todos os media transformaram o seu espaço noticioso num grande Obituário. Morreu Mário Wilson, o homem que jogou pelos calimeros, mas era dos de Carnide; o homem que se fez homem em Coimbra, mas era dos de Carnide; o homem que, enquanto treinador, ganhou um Campeonato Nacional e duas Taças de Portugal, pelo Carnide. 

Fiquei ainda a saber o que dele pensam - e quanto o consideraram sempre e o muito que com ele aprenderam - inúmeras figuras do nacional fintabolismo. A começar por gente de Carnide. 

E pronto, como era suposto, lá fiquei repreendendo-me por ter, até hoje, ignorado tanto e tantos. Em dado minuto, por breves instantes dele, cheguei até a decidir-me a estudar com afinco a História da Freguesia de Carnide.

...

Se vos disser que morreu Herberto Helder, não espero que todos abanem pesarosamente a cabeça, com ojolhos baixos. Porque sois ignorantes? Não. 

O espaço que o HH ocupou nos nossos quotidianos mediatizados, é bem menor do que o que lhe dedicaram pela sua morte. Mesmo sem saber se pugnava pela Freguesia certa, avisaram-nos da sua partida. Brevemente.

Provavelmente, o que se passa é que é mais fácil contar quantos milhões, de  todos os milhões que gostam de bola, são de Carnide. Muito mais fácil do que descobrir as dezenas, de entre os milhares que gostam de ler textos em forma de lista, que sentiram um certo vazio pelo desaparecimento do Herberto.

Simplifiquemos. Como unidade de medida, por grande respeito à propriedade privada, utilizemos a estação publica de TV.

A RTP dedicou à noticia do infeliz desaparecimento de Mário Wilson uma série de, pelo menos, 5 testemunhos, totalizando o tempo de antena de 3'50'' minutos. Estamos a ignorar, por não ter visto, o tradicional "A vida e obra" e, mesmo tendo um grau de certeza elevado, não estamos a considerar que a RTP passou, ou passará, o excerto de determinada gala do 5LB em que Mário Wilson interveio.

Herberto Helder será, segundo doutas opiniões, considerado, em tempo, uma figura à altura de Fernando Pessoa. Goste-se ou não da sua obra, o que esta asserção encerra para a Cultura de Portugal, para a sua História e, acima de tudo, para a parte mais importante do seu Património - que é a Língua - é de tal modo grandioso, que se sente o silêncio que nos invade a Alma. Caramba, Pessoa!

O Herberto morreu há mais de um ano, sabíeis? Se a resposta é não, é porque não estivestes atento ao nosso canal público. De facto, por época do seu desaparecimento, a RTP dedicou-lhe nos seus noticiários este excerto. Totalizando 1'25''.

...

Debato-me desde esta manhã com três insistentes desconfortos. 

O primeiro, é uma questão: O que quer isto dizer de Nós?

O segundo, é um esforço - que será bem sucedido! - de vencer preconceitos e estereótipos. Enfim, deixar-me de merdas. A bola é mais abrangente do que a Poesia - e então? Mas quanto disto tem a ver com a importância que nos ensinam a dar a cada uma?

O terceiro, é uma certeza absoluta: Nenhuma freguesia é um País inteiro.

...

Para cabal esclarecimento das Almas, diga-se:

Nada contra Mário Wilson. Pelo contrário, repito que me parecia um senhor muito cordial e equilibrado. E simpático, outra vez.

Herberto Helder não está entre os meus autores favoritos. Também não posso dizer que não gosto, porque não conheço o suficiente da sua obra para ter opinião. Sim, é deste tamanho a minha ignorância quanto ao assunto. 

...

A poem for obituary: Se o Sul é para trás e o Norte é para o lado, é para sempre a Morte.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A minha Champions é melhor cátua!



Exmos. Senhores que mandam na Cabovisão, agora Nowo,

Para além de terem um novo nome que mais parece um extremo Nigeriano condenado ao anonimato, devo dizer-vos que, enquanto provedor de serviços de telecomunicações, a vossa companhia é uma bela bosta.

A internet treme como um doente de Parkinson; o telefone emudece, qual executivo do BES posto perante uma Comissão Parlamentar; e a vossa oferta de canais de TV muda como se fosse a nova namorada do CR7: Duas vezes à semana e sem aviso prévio.

O vosso serviço de assistência ao cliente é composto por uma série de vozes jovens, simpáticas, bem-dispostas e absolutamente inúteis. Caramba, não é preciso proporcionarem sessões de sexo por telefone, mas, de vez em quando, podiam resolver um assunto qualquer. Tipo, saberem a morada da sede ou assim.

Até hoje, fui vosso cliente por uma razão e outra. A razão, é que preciso dos serviços que forneceis. A outra, é porque nenhum outro operador tem infra-estrutura na minha aldeia. Parecendo que não, não ter alternativa, melhora substancialmente a minha propensão para adquirir, repetidamente, os vossos serviços.

Mas tudo isto não será muito diferente em casa dos vossos concorrentes, nem sequer é, seguramente, uma grande novidade para vós. E eu não gosto de perder tempo a escrever coisas que toda a gente sabe. Quer dizer, gosto, mas não tendes nada a ver com isso.

O facto é que vos redijo esta carta eletrónica, para vos dizer algo de novo, digo, nowo, e basto agradável: Está tudo desculpado!

Terem tido o cuidado de transmitir, exclusivamente para mim, um jogo do FCP, diferente do que o resto da maralha viu, é de uma inexcedível atenção e um admirável cuidado.

Obrigado. Bem hajam.

Clique. Enviar.

...

Porque não pode haver outra explicação.  

Quer dizer, se andasse a desancar o NES por mudar muito a equipa e não criar rotinas e mandar para a bancada jogadores que tinham estado bem, não podia agora vir desancá-lo por... manter a equipa, jogar na mesma rotina, deixar o Adrián entrar de início. Não faria sentido nenhum, está claro.

No Universo Portista conhecido, e algumas partes do desconhecido também, há UM elemento que pode insultar qualquer treinador do FCP que não ponha o Herrera a jogar: É o Anónimo. O verdadeiro. Em todos os outros casos, soa a argumento da treta, arranjado à pressão, na esperança que ninguém note. Ou que estejam todos a fazer o mesmo. Por norma, estão.

Depois da narrativa do ui, o Campeão Inglês, uma grande equipa, grandes jogadores, vão abafar-nos, estamos bem arranjados; não seria lícito vir agora achincalhar a equipa por causa de um jogo em que nunca foi dominada, até muito pelo contrário.

Se andasse a avisar aos ventos que o NES é medroso e põe-se a jogar à equipa pequena; era tramado achar que entrar em 442 em Dexter, Laser, Lester, Coiso, sem nenhuma invenção de ultima hora, era a prova acabada de que estava todo borrado.

Como alguns terão comprovado no post anterior, eu teria jogado com outra equipa e outro esquema. De igual modo, saberão, yet again, que NES foi, para mim, uma escolha surpreendente. E não pelos melhores motivos. 

No entanto, o que não posso é construir uma história na minha cabeça e, depois, interpretar a realidade até a fazer corresponder a essa ideia. É ao contrário meus meninos, é ao contrário.

É por isto que tenho a certeza que os senhores que mandam na Cabovisao, tiveram a esplêndida ideia de transmitir um jogo diferente para mim. Que fooooofos!

...

Tábeeeeeiiiiimmmm, eu conto como foi.

Anunciámos a equipa a exibir um par de tomates bastante apreciável: Dois avançados, que estamos aqui para ganhar, não fosse alguém ter dúvidas. O racional baseava-se na lógica: Criar rotinas, aproveitar o bom balanço de Adrián contra a malta da rotunda, mostrar que sabíamos que não estava nenhum colosso do outro lado.

Entrámos bem e ao quarto de hora já podíamos ter feito 2 golos. Não fizemos por dois fios. Mas foi uma primeira parte equilibrada, em que não mostrámos a real diferença que existe entre as equipas. Acabámos penalizados com um golo, resultado de um cochilo de determinado Brasileiro. Quase empatámos de livre. 

Sem ter sido uma boa exibição, o resultado ao intervalo não era lá muito justo.

Na segunda parte, o treinador mexeu na equipa e no sistema. E mexeu bem! Porque melhorámos. Ainda estou a tentar perceber como é que melhorar a produção durante o jogo, significa que o treinador não sabe ler o jogo.

Até ao final, ficou claro que somos melhores. Perdemos algumas oportunidades de igualar, o árbitro palmou um duplo penalty descarado e terá poupado uma expulsão ao adversário. Ol'same, ol'same.

...

A balela final é que este era um jogo decisivo e que estamos em maus lençóis. Pues que no.

O que já se jogou deste grupo, deixa claro que o FCP é a equipa mais forte e o Brugges, com quem ainda não jogámos, é a mais fraca. Decisivos serão os próximos 3 encontros, que teremos que ganhar. 

Temos excelentes possibilidades de fazer 12 pontos nos jogos que faltam e acabar em primeiro do grupo. Mas o mais importante é entrar no Dragão, contra o Coiso, com 10 pontos. O que implica ir ganhar a casa do Cøisö.

Complicado? Nem por isso. Podemos ir de vela? Claro que sim. A acontecer, quererá dizer que não merecemos jogar a Champions. Porque é um grupo demasiado acessível para encontrar outra explicação. 

Mas não se enganem, não fomos eliminados ontem, nem ficou a sensação de que seriamos. Be honest!

...

Como não visito blogues ou fóruns dos inimigos, e evito falar muito de bola com eles, fico sempre com a mesma dúvida. Talvez vocês me possam ajudar. Os outros adeptos também são assim, autofágicos como nós?


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Vêm aí mais Coisos!


Diz que o FCP joga mai'logo na Bretanha. E que nunca lá ganhámos e que eles são maus e alguns são feios e, de uma maneira geral, conduzem em contra-mão. Uma desgraça completa. 

Está claro que fui investigar a fundo o adversário, para me preparar para a carga de lenha que é suposto levarmos. Posso desde já tranquilizar-vos: Não há motivo para tanto banzé.

Primeiros, vamos jogar contra uns tipos que são praticamente analfabetos. Pelo menos, têm grandes problemas de aprendizagem, mormente ao nível da dicção. Se para uma meretriz de classe baixa de um subúrbio cockney, isso nem é nada de transcendente - afinal, mmmmfff grrtshhhmmm schlec schlec mmmffTwentypoundsir, não é uma frase muito exigente quanto à pronúncia - para os supostos papões da Champions, sei lá, não me parece bem.

O facto é que desta vez o inimigo provem de Leicester. Mas eles estão todos convencidos que moram em Lester, ou Laister, ou lá como chamam aquilo. Era o mesmo que os nossos pensarem que são o FCP, aquela equipa de Portimão. Ah e tal, abreviámos para Porto, para facilitar. É que nem falar a nossa língua sabemos. Somos todos Jergos Juses. É triste.

Depoises, vai-se a ver os jogadores e aproveita-se muito pouco. Há lá um que diz que corre bastante, malgrado um problema com o álcool. E fica toda a gente muito preocupada, que o moço vai partir tudo e marcar quatro golos de cada vez que arranca e isso tudo. Quando está bom de ver que qualquer Marcano, com meia dúzia de pennies no bolso, o desvia para o tasco mais próximo. Oh jovem, pega lá uns trocos e vai mazé emborcar um copo de três, em vez de me estares aqui a moer a paciência. E lá vai ele todo contente, qual arrumador no Dragão em dia de jogo grande. Kécásaber do chaço do lorpa. Se não quiserem entregar os pennies todos ao Espanhol, dividam entre ele e o Brasuca. Se bem que...desconfio sempre um pedacinho do uso que os Brasucas dão aos pennies.

O comparsa de ataque do agarradinho, é um moço basto esquisito. Aliás, aqui entre nós, consta que o tipo já foi convidado para protagonizar o próximo The Human Centipede. Parecendo que não, o gajo ter alguns quinhentos cotovelos, dá imenso jeito à produção. Ainda estão a decidir no cu de quem é que lhe vão enfiar a cabeça. Eu cá, se fosse ao nosso Brasuca, punha-me a pau. Then again, isto os Brasucas e enfiarem-lhes coisas pelo rabo...enfim... Apesar de tudo, e do trabalho que pode dar, não passa de um rapaz alto e brutamontes, com mais queda para a MMA do que para a bola. Como em principio o árbitro não se vai chamar Martins, nem Almeida, nem Arremedo de Igreja, é tranquilo para o nosso lado.

No meio campo, destaca-se um tal de BebeÁgua. Deve estar bonito aquele balneário, deve. É este, maijósramadões, contra o Inglês bezano, tudo à estalada e ao pontapé. 

No resto da equipa, encontramos algumas caras conhecidas: O Homer; um moço daquelas pizzas muito famosas; o dono de uma fábrica de lubrificantes; um tipo com cinquenta sombras; e o Marega, que ainda é o único que tem uma ideia do que é jogar à bola. Ou vão-me convencer que Musa e Moussa não é apenas para disfarçar? Anda a embolsar dois salários, o espertalhão, ai anda, anda.

O único problema para nós, é o outro Argelino. O dos cotovelos normais. É uma espécie de Brahimi wannabe, on steroids. A questão, no entanto, resolve-se facilmente, entregando a titularidade ao nosso Uruguaio favorito e pondo-o a fazer o que faz melhor: Irritar o outro moço até ao desvario. Altura em que o árabe lhe há-de enfiar uma arroxada tal que o manda para o estaleiro mais um mesito. E ao arroxante para o banho, por volta da meia-hora. Assunto despachado.

Finalmentes, temos o treinador. Isto é, maijómenos. Trata-se de um simpático senhor Italiano, que nunca fez nada de jeito na vidinha, mas que teve o bambúrrio de arranjar uns padrinhos jeitosos que o vão desenrascando. Depois de ter treinado algumas das mais poderosas equipas do Mundo, tem o brilhante registo de ter ganho UM campeonato. Já da Segunda Divisão, ganhou três. Podemos pois concluir que é um treinadorzeco de segunda. Longe do carisma de um Mourinho, da inteligência de um Guardiola, da audácia de um Klopp, da...errr...importância metafisica de um Espírito Santo.


...

Em resumo, são um grupo de moços desfavorecidos, da periferia de uma cidade Inglesa - cujo nome não está lá muito claro para ninguém - com boa vontade, que se juntam todos os dias para umas peladinhas no centro da dita povoação. Sob o comando de um senhor que faz um espetacular molho de tomate para massa. Equipam de azul, não têm história na Europa e uma vez foram Campeões lá do País deles. 

Olha, é o Belenenses!

...

De um ponto de vista um pouco mais sério, logo muito menos interessante, estou um bocado farto de ver o Dexter, Lexter, Laister, Lester, Coiso, definido como uma equipa raçuda, intensa, rápida, humilde, forte, intensa outra vez e de novo rápida. Não sei pá, e jogar à bola? Também fazem? 

Às tantas, parece-me que se entrarmos com Casillas, Danilo e nove Ceifeiras-Debulhadoras, a coisa dá-se. Se não ganharmos, ao menos fica o milho tratadinho.

É claro que o Lobster, Laster, Lester, Coiso, é um belo conjunto, com ideias de jogo bem definidas e uma base de trabalho sólida. Perdeu apenas um jogador importante da equipa Campeã e recebeu alguns reforços importantes. Mas... mas não deixa de ser o Leicester. 

Caramba, isto não é o Barça, nem o Unaite, nem o Real, nem os Nazis. É importante voltarmos a ter a saudável arrogância de sabermos quem somos. Nós somos o FCP! Nunca fomos Campeões de Inglaterra, porque diz que é proibido, mas somos Campeões Europeus. Twice! Be very afraid. Que é como quem diz, borrem-se todos, seus panascas.

O Coiso não gosta lá muito de ter a bola, porque é chato para quem é raçudo e intenso e rápido e essas coisas todas que não implicam saber o que se vai fazer à chicha. Enfiar um biqueiro para o gajo dos cotovelos e esperar que o bêbado apanhe a segunda bola pode ser eficaz, mas não é Física Nuclear. 

Sobretudo se lhes lixarmos a profundidade, lhes sacarmos a bola, a trocarmos a preceito, os fizermos subir atrás dela e pusermos o Otávio, o Herrera, o André, a entrarem entre os laterais adiantados e os belos troncos sem rins que os tipos usam a centrais. Também são raçudos, são intensos, são brutos, mas não são lá muito rápidos. E quando deitarem os bofes pela boca, oferecemos-lhes um Argelino a sério. O nosso!

No fim do dia, sim, temos que igualar a raça e o querer. Temos que crer mais. De resto, no futebol, somos melhores. É hoje que morre este borrego!

Iker; Maxi, Filipe, Marcano, Telles; Danilo, Herrera, Oliver; Otávio, Layun, Silva.


...

- Senhor, são cinco horas. Quer leite na sua água quente? - Com a bandeja nas mãos.

- Um farrapinho, Pedro. E scones, há scones? Adoro scones. Até me babo todo. - Bate as palmas, como um catraio à espera de um chocolate, enquanto uma estranha chuva ácida dizima uma colheita, num recanto perdido de determinado planeta.

- Naturalmente, Senhor. Com manteiga, mesmo como gosta, e ainda morninhos. Trouxe-os agora mesmo o Espírito Santo. 

- Nham, nham, que bom. Depois lembra-me de agradecer ao rapazote. E trouxe-os de onde? - De boca cheia, qual Presidente da República a comer uma fatia de bolo-rei.

- De Licker, Lexus, Clister, Laister, Lester, Coiso...


...

Soundtrack to Lei-ces-ter: Primo Victoria!  


domingo, 25 de setembro de 2016

A Mesa do Canto: Leicenkirchen, Gelsenceister ou lá como se chama (com Felisberto Costa)



O Berto está com um ar um bocado enfadado. Para além de que, apesar do movimento razoável da manhã, está sozinho ao balcão. Ou tem uma canalização menos agradável para desentupir, numa urgência domingueira, ou não lhe agrada a ideia de almoçar carne de porco à alentejana. 

- Então pá, abandonado ao balcão? - Ele encolhe ojombros.

- Oh, quero lá xaber. - Encolhe-os de novo, o que prova que quer mesmo saber. - Até madmira o Xilva não extar ali ao fundo. Vai por lá uma grande animachão. - Tento espreitar por cima das cabeças, em bico dos pés. Só vejo cocurutos meio depenados.

- Quem é que está na mesa do canto?

- O xeu amigalhacho. Aquele muito pouco orichinal, ao nível da onomáxtica.  - Volta a meter o cachaço abaixo das omoplatas, enquanto emborca um fino com Favaios de um só trago.

- O Felisberto? Então o camurso não veio beijar a mão ao padrinho? Vai levar um calduço!

- É. Habitue-xe! Agora é uma extrela, já não liga a tachequeiroj. - Entredentes: - Até o nome tem que copiar óchôtroj, copião...

Deixa lá ver a que propósito é o ajuntamento, em vésperas de Champions...

...

"Num dia de Abril de 2004, à noite, chego a casa e digo à minha mulher: os cabrões dos Espanhóis fecharam-nos a empresa! Tou desempregado!

Um mês depois, o FC PORTO chega à final de Gelsenkirchen, um dia antes do aniversário do meu irmão. Uns dias antes, tou em casa do meu cunhado. Falamos de tudo, menos de futebol. Tocam à campaínha. É o “Chocha”. Boavisteiro dos 4 costados, pergunta-me: ó Berto num bais ber o Porto, carago? Olho para o ministro das finanças (vulgo a minha mulher) como cachorro que falhou o osso de vitela à última da hora. Ela olha para mim e diz: queres ir?

Meia-noite desse dia, o Dragão é um imenso mar de gente. Os Super Dragões, qual guarda pretoriana, controlam a ordem. Eu e o Chocha chegamos a uma barreira feita com dois paus atravessados. O SD pergunta-me: é para comprar bilhetes? – Nã, é para ver a paisagem! Claro que é para comprar bilhetes!

Doze horas depois, um portista e um boavisteiro saem do Dragão com um sorriso tal que nem a Colgate sonharia em fazer publicidade! Fazemos as mochilas, e lá vamos nós prá Batalha, apanhar o autocarro de sonho! A RTP ainda vai a tempo de entrar e, coincidentemente, faz-me uma pergunta estúpida, à qual respondo inteligentemente: se bamos ganhar? Claro, bamos trazer o caneco, caralho!!!

3 longos dias depois estamos em Gelsenkirchen. Chegamos de manhã e aproveitamos para ver a cidade, tirar fotos (que um maldito computador anos depois daria o peido, perdendo eu esta recordação memorável), comer numa roulotte turca, e o turco diz-nos num inglês arribeirado: fuck them, fuck them, ok?

Às 3 da tarde, o Chocha, hipocondríaco por vocação, doente por necessidade, já quer zarpar para o estádio. Oube lá, tás maluco ou quê?. Foda-se, bim ber o Puerto, num bim dormir pró estádio. Bamos mas é apreciar estas alemãs (se bem que algumas com o físico que ostentam sejam mais alemonas!)…

19.45h. Hora mágica. Direito a ver o jogo sentado, apanhamos com os SD. Toca a ver o jogo de pé. A hora e meia de sonho passa fugazmente pelos meus olhos. Dizem que a felicidade é efémera. Não acho. É talvez um bocadinho rápida de mais!

Carlos Alberto, Deco e Alenitchev marcam. Jorge Costa já canta em pleno jogo. Baía salta. Nós saltamos. Creio bem que todo o Mundo salta. Até lá em casa, a minha mulher deve estar aos saltos (salvo seja, não sejam maldosos). Já fui a muitos concertos rock, mas este será sempre o melhor da minha vida! Os solos de Deco, o baixo de Pedro Mendes, a bateria de Baía e os teclados de Alenitchev, ficarão para sempre gravados na minha memória!

Tempo de regressar a casa. Quinta pela manhã. Ao finalzinho da tarde entramos em Espanha. E mais uma vez, os cabrões dos Espanhóis implicam comigo. Quer dizer, não foi bem comigo, foi com o autocarro. Multa de muitos milhares de escudos e autocarro detido por 8 horas…

O Chocha entra em parafuso. Lembrou-se de repente que tem exame de condução na sexta! Apodera-se dele todo a hipocondria que se possa imaginar e desata aos berros. Tá a morrer! Uma a um ou dois a dois, o autocarro inteiro vem ver o que se passa com o gajo. Quer um hospital, diz ele! Como se o S. João ou Santo António estivessem ali ao virar da esquina, ali em terras Bascas! Como não sou médico, nem enfermeiro, radicalizo a coisa: Ó João, qué que foi pá? Foda-se, tás a dar um espectáculo.

- Dói-me a barriga. - Diz ele.

- Dói-te? Então é fácil. Bai lá fora cagar. Isso é merda acumulada. Até tás amarelo, cum caralho!

Sexta de manhã, saímos do aprisionamento involuntário pela guarda Basca – viemos a saber que, apesar de ter 3 motoristas, o autocarro tinha forçosamente que parar 8 horas para descanso. O Chocha, ao meu lado, não se cala com o exame de condução. Farto até aos cabelos digo-lhe: foda-se pá, deixa lá, é menos um morcom a estorbar na estrada.

Sexta à noite, entramos em Portugal por Bragança. E de repente, um cheiro nauseabundo invade o autocarro. Travagem brusca. O Chocha, no seu eterno optimismo, diz que os Espanhóis invadiram Portugal e lançaram gases lacrimogéneos. Se calhar, já nem existe gente em Portugal.

- Vai-te foder, João. Foda-se, quem devia lebar cum gás nas bentas eras tu!

O mistério, porém, é rapidamente resolvido. Um gajo, lá atrás, na “cozinha” do autocarro, já não suportava a comichão nos pés. Como tal, decidiu tirar as meias!

Sábado, 11h da manhã, Batalha. Somos os últimos dos últimos a chegar à casa-mãe. Se fosse uma corrida com descida de divisão, desceríamos logo dois escalões seguidos. Tanto assim é, que as pessoas param, olham para nós como se fossemos ET’s. De repente. a Batalha começa a bater palmas, a cantar PORTO, PORTO, PORTO!

Chego a casa. Antes de meter a chave na fechadura, cofio a barba de uma semana, ajeito o cabelo, meio comprido e gorduroso, com os dedos. Preparo-me para um entrada triunfal! Entro. Vou à cozinha. 

No frigorífico, um simples bilhete: fui à feira, volto já!"


...

Há umas valentes semanas, mandei um e-mail ao Felisberto que, como sabem, faz parte da "malta da Tasca". No meio de um ou outro disparate, dizia-lhe que achava que a Tasca precisava de um toque tripeiro, de um cheirinho de Ribeira e sotaque genuíno, colhido no Bolhão ou assim. E desafiava-o a ocupar, com caráter regular e tempo indeterminado, a "Mesa do Canto". Porque aqueles atributos sei eu que o Felisberto tem. E eu não.

Isto de pedir ajuda para apaziguar a minha preguiça, é algo em que penso há algum tempo. Entretanto, o Lápis fez o grande favor de palmar o melhor título de sempre para um espaço deste género. 

Como um roubo nunca vem só, entre o meu convite e a resposta do Felisberto, dou com ele contratado por um dos grandes. Corrijo: pelo maior! Ora, eu cá, se pudesse jogar no FCP, também não ia para o Recreativo de Trajouce. 

Mas o Felisberto teve a enorme delicadeza de, ainda assim, fazer o favor de enviar o texto acima. Que agora se publica, no contexto que creio mais adequado. Porque é na Champions que estamos a pensar. E porque, pensando, não nos devemos esquecer que somos um dos Campeões. Não somos nós que temos que temer. São eles. Todos. Mas isto só serve para alguma coisa, se esta convicção começar no balneário. No nosso.

A "Mesa do Canto" continuará a ser ocupada pela malta da Tasca. É uma ameaça. 

Obrigado Felisberto.

...

Soundtrack to Mr.Costa: Time marches!



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Teoria Política da Higiene Dentária


Ninguém é obrigado a escovar os dentes. Podemos desvalorizar o facto, podemos não lhe conceder atenção, mas lá por isso não deixa de ser verdade que se trata de uma escolha, do exercício do mais puro livre arbítrio. É também destas pequenas, mas significativas, liberdades que se faz a Democracia.

Não devemos descurar a forte pressão social para que todos lavemos os dentes. Há no ato de não compliance com esta norma, um imenso grito de rebeldia. Uma afirmação da individualidade, por oposição ao conformismo das maiorias. Pelo menos, e no caso vertente, da maioria de boca. Isto é, do que se diz, antes do que se faz. Dir-se-ia que estamos perante a assumpção de uma honestidade intrínseca, de um Neo-Liberalismo até, se visto na perspetiva individualista da corrente.

Numa Ditadura, poderia um qualquer líder achinesado, de cabelo à mete nojo, obrigar todas as pessoas a escovar os dentes, as vezes ao dia que melhor lhe aprouvesse. Bastaria decretar que todos os cidadãos tinham que lavar os dentes três vezes ao dia e pronto, aí estavam as fábricas Estatais de dentífrico a bombar quatro turnos diários. Neste cenário, seria inimaginável alguém erguer-se no seu lugar e proclamar, por atos ou palavras: Eu não lavo os dentes. Sob pena de estar a atentar contra a sua própria vida.

Concluí-se pois que há na Democracia uma certa tendência para a badalhoquice e para o mau hálito. Em compensação, encerra-se nela todo um vasto campo de escolhas possíveis e individuais. O que, naturalmente, significa uma maior probabilidade de termos pessoas mais felizes e contentes. Pois que escolhem os seus próprios caminhos.

Enfim, somos leitões, rebolando felizes no esterco.

...

O próprio conceito de Democracia, enquanto poder do Povo, remete para qualquer coisa com cheiro a refogado e chouriço e óleo de camiões e assim, se olharmos de um ponto de vista um tanto elitista. Cagão, vá. O que não se pode, é negar a alegria de belas chispalhadas regadas a carrascão, seguidas de épicos pães-de-ló e renhidas suecadas. Arrotando satisfeitos pela tarde fora.

Já olhando para o sistema enquanto garante da liberdade do indivíduo, devemos sempre atentar aos seus limites. É um cliché repetir que a minha liberdade termina onde começa a do próximo. Ainda que ele esteja atrasado e perca a vez, há que respeitar o seu direito e não invadir com a minha individualidade egoísta a sua bolha privada. Salvo seja. 

Para que se perceba bem, digamos que não é uma consequência do sistema Democrático que eu mije para cima de quem vai encostado à porta no metropolitano. Só porque me apetece verter águas, ao mesmo tempo que tenho vontade de desenhar as minhas iniciais na porta da carruagem. Sei lá, acho giro.

Este tipo de exagero no aproveitamento das liberdades que a filosofia Democrática pretende garantir, pode facilmente descambar num radicalismo, já à beira da Anarquia. Para uma Ditadura do Proletariado, vai um passo. À reação milíciana de Direita Radical, vai outro. 

E lá teríamos camisas negras e fardas de caqui a empestar o metro em hora de ponta, prontas a espetar à baioneta qualquer transgressor. Ou todo o bigode farfalhudo, com as calças a escorregarem abaixo da pança e rego à mostra. A milícia tende a estereotipar o militante de Esquerda.

O facto permanece: É do mais elementar sentido Democrático, aceitar que ninguém é obrigado a escovar os dentes.

...

O adiantar da manhã é sempre demasiado lento, quando são seis horas. E o anúncio do fim do Verão na brisa que se entranha pelos colarinhos, não ajuda. Sobretudo na memória de um corpo amado e quente, que fica para trás à velocidade dos solavancos do comboio. 

É talvez por isso que nem as considerações acima o distraem do insistente som. Grafá-lo é complicado. Opte-se então por explicar: É o som da língua a estalar nas beiças, enquanto percorre a dentadura. Um incomodativo tssshhccc, à distância estreita do corredor da composição ferroviária.

À beira da loucura, o fulano da estranha gabardina agita-se no seu banco isolado. Olha o companheiro de viagem, absorto na sua higiene bucal, com alguma insistência. Mas sem resultado prático. Tssshhccc, tssshhccc, e volta ao siso lá de trás. 

Por um instante detém-se. Apenas porque lhe é complicado deslizar a língua pelos dentes, enquanto enfia o indicador inteiro no nariz. Uma pequena gota, das duas que sobram, aumenta o volume do copo transbordante.

Sem alternativa que se apresente, intenta uma palavra, com a delicadeza que resta no seu frágil equilíbrio:

- Importa-se?!

Do assento do outro lado do corredor, a resposta surpreendida:

- Hã? Tssshhccc. Que foi? Tssshhcc. Tájólhar pradonde? Tssshhccc.

- Importa-se?! - Um tom mais alto.

- De quê, pá? Tssshhccc. Olhameste, olha. Opá, lEmbe-mos! Tssshhccc.

Só no momento em que os canos serrados colados à boca do tssshhquento o impedem de prosseguir tssshhcccando, é que se apercebe que, à luz da Teoria Política, está a ter uma atitude um tanto Ditatorial. Afasta este breve pensamento com a leve e libertadora pressão no gatilho.

A complicação que vai ser, raspar os miolos daquela janela. Seria melhor não os deixarem secar.

...

- A sério, Senhor! Isto é demais. Nem eu tenho estômago. Percebe-se lindamente a Ira Divina sobre este sujeito. É que começa a parecer perigoso. - Indignado.

- Pois, é capaz. - Pensativo.

- É capaz? É capaz? PelamordeSi, há que o colocar na ordem. E é já! 

- Pois, sim, é capaz. Não deixa de ser um barulho muito irritante...

- Não! Não posso crer que esteja a condescender. - Re-indignado.

- Quer dizer, pois, não, não é isso...

- Protesto! Protesto com grande veemência se esta situação passar em claro.

- Oh, claro que protestas. O cachopo bem me contou a figurinha que fizeste na Última Ceia. Tssshhccc, tssshhcc, não é, senhor Pedro? Já lavar essas dentuças, antes de fazer chover.

...

Soundtrack to bloodbath: Public enemy.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ecos de Tondela


Estou cheio de vontade de publicar um texto intitulado "Na montanha russa com o adepto". Para que se perceba que o malfadado carrossel não tem uma via única, de lá para cá. Pelo contrário, é um aparelho de diversão com múltiplos sentidos. Como se fosse um papa-reformas, conduzido por um geronte com glaucoma e cincapontozero de taxa de alcoolemia. 

Mas hoje não. Preciso de dizer duas ou três coisinhas a sério - ou quase, vá - antes que me dê uma embolia na veia saliente da testa.

Ou seja, isto não vai ter interesse nenhum. Mais vale rodopiarem já para os sítios onde a malta sabe da poda e faz quadros e desfia a História e "É Porto" e conhece os jogadores todos, incluindo aquele moço muito jeitoso que é extremo da seleção do Nepal. O Dalai, acho eu.


...

NES não seria a minha escolha para treinador do FCP. Já leram e ouviram isto em todo o lado. Aparentemente, NES não seria a escolha de ninguém. Com duas honrosas excepções: O Presidente do FCP e um moço que me deve um jantar. Lá por isso, não fiz de repetir isto o meu passatempo favorito. 

Pedir que se substitua o treinador à quinta jornada não é uma precipitação, é um acabado disparate. Para além de ser um crime lesa-FCP, a coberto de uma intenção que, acredito, pode parecer a melhor. De igual modo, bradar que o Presidente está morto e já vai tarde e que a solução é correr com ele em setembro - e não em abril, com eleições! - não se pode considerar exatamente um belo serviço na defesa do Clube. Está já ao nível da estupidez crónica, digamos.  

Não porque qualquer daquelas atitudes seja interdita ou, no limite, reprovável. Por quem sois - eu cá sou pelos Dragões, incluindo os da Daenerys - podeis desancar tudo e todos com afinco. O que não cola é que isso seja produtivo, do ponto de vista desportivo; ou honesto, do ponto de vista diretivo. O primeiro deriva da escolha do segundo que ocorre por eleição direta. Quer dizer que fostes vós, mais eu, que escolhestes NES. De alguma forma.


...

Por outro lado, ser apologético é igualmente contraproducente. O Copenhaga é uma bela equipa, composta por muito razoáveis jogadores, de tal forma que é campeão da Dinamarca? Não! São fraquinhos. O Tondela é uma equipa aguerrida, cheia de vontade, que dificulta muito a vida aos seus adversários mais poderosos? Não! São ainda mais fracos que o Copenhaga.

( Uma pequeníssima derivação, para assinalar a assinalável mudança de filosofia do Tondela de Petit: Do futebol positivo de olhos nos olhos, às linhas baixas e à canela até ao pescoço, vão quatro meros passinhos. Da primeira à quinta jornada. ) 

O que dizer então dos dois últimos jogos do FCP? Que não jogámos um peido! Aliás, uma bufa que fosse. O que é péssimo. Até porque vínhamos mostrando sinais, e não mais do que isso, bem interessantes. 

Posto isto, somos o pior FCP dos últimos oitocentos anos? Não! Longe disso. Desapareceu todo o potencial que, em coro, se andava já a apregoar? Não! Está lá, claramente. Estamos a aprender com os erros? Não sei! Tem a palavra o senhor Espirito Santo.


...

Só há dois motivos plausíveis para ainda estarem a ler isto:

a) Têm o blogue aberto por baixo de um site com estupendas mamas e chegou o vosso chefe. Lá tiveram que fechar a outra janela à pressa e fingir que estavam a perder tempo de trabalho a ler blogues. Está explicado o atraso do relatório e não há motivo claro para processo disciplinar. Menos mal, ainda dão duas de treta sobre a jornada.

b) Têm alguma curiosidade - mórbida? - em saber o que tem a dizer um Tasqueiro acerca do futebol.

Ainda que perceba melhor a primeira, não vou decepcionar os da segunda. Olá pai, tá tudo bem, obrigado. E aí por casa? Ainda bem. Sim, claro que dou. Beijinhos para as pessoas por aí também. Temos que combinar um dia destes ... isso, isso...


...

Percebo que o FCP possa jogar em 4-4-2 muitas vezes durante a época, nomeadamente em Portugal. No entanto, creio que não deve ser o 4-4-2 jesuíta ou vitoriano, com um avançado fixo e outro móvel. Para ser isso, vamos precisar de um ou dois anos para afinar o sistema. Sendo alternativo, não merece o investimento.

A matriz do FCP é em 4-3-3. E não há nenhum motivo para a deitar fora. Villas Boas ganhou tudo partindo deste sistema; Mourinho conquistou o Mundo com esta raiz. Sim, eu sei que o Porto do Zé jogou muitas vezes com 4 médios. Aliás, ganhou duas finais Europeias assim. Mas a maior percentagem de jogos, jogou-os em 4-3-3. E o seu 4-4-2 nunca se fez de um carro de assalto plantado na área e outro tipo a gravitar à volta dele. A identidade é a posse, a circulação, o domínio, a mobilidade.

O FCP 2016/17 pode formar uma grande equipa. Já sei que isso era a seguir ao Guimarães e ao Roma; e antes do Tondela e do Copenhaga. Percebem como é estúpido mudar assim em quinze dias?

O que NES tem que perceber, tão rapidamente quanto possível, é que para aplicar o seu futebol de esticões a esta matriz, não precisa de a descaracterizar. Claro que podemos contra-atacar e sair em ataque rápido e vertical. Mas isso vai acontecer-nos poucas vezes, em comparação com a quantidade de tempo que teremos que mandar no jogo e procurar espaço entre 22 pernas adversárias.

Como eu vejo, é essencial ao FCP não prescindir do talento. Aliás, é a chave. NES pode optar por Danilo, por uma questão de caparro e até de ajuda à defesa nas bolas aéreas. Desde que saiba que tem em Ruben uma melhor alternativa para os momentos em que, pura e simplesmente, não haverá o que defender. Mas o mais importante, está à frente destes.

Em 4-3-3, o FCP tem que jogar com Oliver e Otávio no meio. É demasiada arte? Demasiado risco? Não creio. Desde logo porque são dois jogadores com melhor reação à perda da bola que André André e Herrera, por exemplo. Depois porque, bem trabalhados, não serão piores recuperadores que Deco. Os espaços que poderão abrir nos Tondelas da vida, e não são poucos, viram-se nos últimos 10 minutos do jogo de ontem. E apenas com Oliver em campo. 

Neste sistema, as soluções para as alas são múltiplas. Com Brahimi e Corona podemos ter um carrossel deslumbrante, com trocas posicionais entre os médios e os extremos. Claro que pode ser um carrossel que nos deixe tontos e acabemos espetados contra um poste. Cabe ao treinador fazê-lo funcionar. O que não se pode é dizer que não existe matéria prima: Ainda sobram Jota, para verticalizar a ala; e Varela, para...fazer lá o que Varela faz e, de vez em quando, sacar um golo ou uma assistência.

Em determinados jogos e em muitos momentos da época, vai ser necessário acrescentar algum músculo ao meio-campo. Ou se opta por substituir um dos criativos, ou se acrescenta um médio. O ideal seria um Herrera em dia bom, mas é um bicho cada vez mais raro. Estará extinto? André André traz caráter, lucidez e boa posse, a maior parte das vezes. Mas fica a léguas dos dois minions, pelo que só será válido se deixar de se limitar a correr ao lado do adversário que tem a bola. E começar a tirar-lha...

Já se quisermos partir para o tal 4-4-2 de ataque, estaremos melhor servidos com um duplo A: André e Adrián. Porque se encaixam melhor na matriz Portista. Tratam melhor a bola, são moveis, têm talento. Fomos mais perigosos em Tondela no quarto de hora em que jogaram estes dois, do que no resto do tempo, com Depoitre. 

O Belga será útil, não tenho dúvidas, e tem as suas qualidades. Mas não para começar o jogo. Sobretudo quando já se percebeu que funciona como uma tentação irresistível ao jogo direto, vulgo bola para o pinheiro. Que nos fica mal, fazemos pior e resulta uma bela merda!

O último grande ponta de lança estático que vi foi Mário Jardel. Depoitre não é Jardel. E o futebol também não é o mesmo. É por isso que defendo que o Laurent poderá ser uma boa segunda escolha, mas não a primeira opção. Aliás, não foi para isso que foi contratado.

Pelo contrário, palmas para quem se lembrou de resgatar Adrián Lopez. E a pergunta que me ficou desde agosto: Se vamos usar dois avançados, porque é que o Kinder não cabeu?

- Não é cabeu, anormal! É coube.

- Uma bela coube me saíste tu, seu ganda molho de brócolos!


...

Uma nota final para André Silva e Iker Casillas, aos quais devemos o empate de ontem.

André falhou clamorosamente no lance em que não assistiu Adrián. A única forma de minimizar esse erro, seria ter feito golo. O erro permaneceria, mas o seu efeito seria inócuo. Alegar que André é jovem, que tem que crescer, que não é o que pintam e o peso da responsabilidade e a boca do corpo da tia ao lombo, não pega.

André Silva é o jogador de maior potencial a jogar em Portugal. E é já um dos melhores, senão o melhor, avançados do Campeonato. Quero lá saber se tem 20 anos ou a idade do Renato Sanches. É bom, joga, ponto final. E quando falha, aponta-se, como a todos os outros. 

Portanto, não compro a tese segundo a qual estamos mal servidos no ataque, porque o miúdo não chega e não se aguenta e o caraças. Ter um ponta de lança melhor do que André Silva, em havendo, está ao alcance apenas dos tubarões. Guardá-lo para quando estiver maduro é das coisas mais bestas que poderíamos fazer. E não estamos a fazê-lo. Até ver.

Iker salvou um ponto em Tondela. O que não é mais do que aquilo para que lá está. Se era para sair mal a cruzamentos e deixar entrar cada remate à baliza, deixava-se lá ficar o Wozniak até hoje. 

Isto dito, não é menos verdade que Casillas tem sido apontado como um dos pontos fracos da equipa. Mormente pelos seus próprios adeptos, sempre prontos a queimar um dos seus e a esquecer qualquer ponto mais positivo. Como não tenho essa má opinião de Iker Casillas, muito pelo contrário, vou tentar manter uma contabilidade de pontos para o mais titulado guarda-redes do Mundo.


Não se podendo dizer - certo? - que tenha sido culpado pela derrota no Campo Grande, para já a conta é: 
+ 1 ponto   

...

De óculos escuros, apesar de ser de noite, e de corta vento apertado até às beiças, no meio da multidão dos Arcos:

- Ora, caro senhor Simão de Betsaida, apesar do ajuntamento, isto até é divertido. Diga-me, quem será aquele moço alto, com ar de ter menos jeito para jogar a bola que os restantes?

- Deixe-me ver, caro Senhor...errr...errr... - O outro socorre-o:

- Trate-me por Silva, pela ironia. - E ri-se com gosto.

- Seja. Diz aqui que se chama Roderick, Senhor. - Leva uma cotovelada. - Silva! Senhor Silva, pois claro.

- Broderick? Aquele catraio que embirra com répteis gigantes? Pfff, marrãozito, não podia jogar nada.

- Não, Senhor. Silva, digo. Não é esse Rod... - Interrompe-o enquanto se levanta na bancada:

- Olha, olha, lá vai ele. Vai-se a ver, desceu-lhe o Mateus! Vai Brodecoiso, vai. - De braços no ar. - Gooooolooooo. - Rebenta numa gargalhada.

- Humm, oh Silva, isto não terá metido alguma batota Celestial pelo meio, não? - A cofiar as barbas.

- Silva é o teu padrinho torto. - Dá-lhe um calduço. - Olha lá o respeitinho. É bonito e eu gosto. Tájóbir oh labrego? - Aos gritos para o terreno de jogo. - Aprende que o único Jesus que pode tudo é o meu ma'novo! Incha!

As pessoas divertem-se na bancada com os dois tolinhos. Oh well...

...

Soundtrack to sanctity: What if ?

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Crónica da Champions - La Cucaracha


Por fim, chegou o dia do regresso da Champions para os nossos. O nervoso miudinho, típico da mais importante competição Mundial a nível de clubes, notava-se no pré-match e na bancada. Apesar da incontestável, e teórica, superioridade dos rapazes de azul e branco.

Talvez tendo isso em conta, o treinador socorreu-se de elementos mais experientes, promovendo, por exemplo, o regresso do capitão do ano passado. Não sendo propriamente virgens nestas andanças internacionais, a verdade é que os minutos acumulados na prova por muitos dos jogadores Portistas não eram assim tantos.

Conforme esperado, o adversário era constituído por uma série de guarda-fatos de medidas bastante generosas, que fariam a alegria de qualquer cachopa hiperconsumista. Ao nível do espaço de arrumação, pois claro. 

No entanto, conseguiram entrar melhor no jogo, superando a maior qualidade técnica da nossa equipa, com recurso ao pontapé para o farol. Seguia-se o estouro de bisontes para ganhar a segunda bola e respetivo chuveiro para a área. Como resultado, antes do quarto de hora já estávamos a perder por um.

Os meninos não se desorganizaram, nem desesperaram. Ainda com os Dinamarquecos por cima no jogo, uma jogada de belo recorte técnico - lá está! - repôs a igualdade. Até ao final da primeira parte, a coisa equilibrou-se, notando-se que o impacto da entrada tinha sido ultrapassado. O que fazia esperar melhor para a segunda parte.

E assim foi. Nos primeiros quinze minutos deste tempo, o nosso promissor ponta-de-lança - classe Mundial neste moço! - resolveu o jogo. Dois golos, vantagem sólida, equipa tranquila e adversário convencido. Tempo ainda para mais um golo, já nos descontos, conferindo ao resultado o aspeto da goleada expectável. Normal, portanto.

...

Assinale-se o ambiente alegre e relaxado que se viveu entre os familiares dos jogadores. Ao contrário de muitos exemplos nestes escalões, as mães não se insultaram nem puxaram os cabelos umájájôtras; os pais não correram ao longo da lateral a demonstrar conhecimentos inusitados acerca da mãe do bandeirinha; e não se ouviu um tio sequer, ou mesmo um padrinho torto, a ameaçar uns tabefes a um puto do outro lado; ou a atirar gravilha na direção do treinador da sua própria equipa. Muito bem.

Para encerrar o simpático cumbíbio, fez-se ao final do dia, já cair da noite, uma peladinha entre os ditos parentes. 

Nem a morrinha, que entretanto encharcou a cidade, assustou os valentes candidatos a futebolistas. Mais às suas respeitáveis panças, farfalhudas bigodaças e uma ou outra orelha mais proeminente.

Dado o apito inicial, atiraram-se de coração, mas sem muita alma, à contenda, transpirando as bifanas, panados, rojões do redenho, cerveja, couratos e morangueiro, da patuscada vespertina. Foi cá uma barrigada de riso que só visto. Contado, ninguém acredita.

Havia um que era muito feio. E jogava ainda pior cójôtros.

Foi isto.


...

Soundtrack to La Cucaracha: Ya no puede caminar...