quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Mesa do Canto: Hora do conto (com Lápis Azul e Branco)


A verdade, verdadinha, é que a Tasca cumpre uma importante função social: Tomar conta de maduros. E de menos maduros. E do catraio de uma moça de olhos claros, de vez em quando.

É a modos que um "Bichos Carpinteiros", onde as senhoras deixam os seus mais que tudo; os seus maijómenos importantes; os antejaqui que em casa a moer-me a paciência; e um ou outro nemmaceguinha te queria. E lá vão, lampeiras, à sua vida, às suas compras, afazeres, Bertos ou meros esparrejamentos em sofás, deixando os programas vespertinos de televisão - onde andam as baleias nestes tempos de reality shows e apresentadoras romancistas? - drenarem-lhes os poucos miolos que lhes sobram. De aturarem os que eu gosto de aturar. Em sendo pago, pois claro.

Portanto, era mais que tempo de adequar a oferta e criar um espaço lúdico-pedagógico: A hora do conto. Como o cómodo é escasso e as moscas abundam, arruma-se tudo à volta da Mesa do Canto e entrega-se a cabeceira a um pedagogo. Dos lúdicos.

Que o rapazote tenha arranjado um fato de Lápis, qual personagem de uma Rua Sésamo da vida, já é bónus do artista convidado. Advém-lhe do brio profissional e não acresce ao cachet. E o que a malta gosta de bonecada.

Ele pigarreia para aclarar a voz. Os velhos imitam-no, por vício de pigarrear. Os restantes inclinam-se para a frente nas cadeiras, com as mãos entrelaçadas entre as pernas abertas. O puto abanca-se no chão, com as pernas à chinês. Eu decreto:

- Silêncio, vai começar.

...

Astérix e a Romanização

Esta estória não se passa no tempo de Astérix, Obélix e Ideiafix. Esta estória passa-se muitas, muitas gerações depois. 


Naquele tempo (perdão, Senhor), este trio de heróis liderava as aventuras da tribo de irredutíveis gauleses que se recusava terminantemente a vergar perante o invasor romano, fazendo da manutenção das suas tradições e costumes de gauleses um ponto de honra. 

No tempo desta história, a aldeia gaulesa já mal se conseguia reconhecer. Já não havia heróis, para começar. Ou se calhar havia, mas noutras paragens. E, mais importante, os ideais da famosa tribo ficaram soterrados sob as areias do tempo. 

Não sei quantos chefes já lideraram a aldeia desde Abraracourcix, mas foram seguramente alguns. A irredutibilidade esbateu-se, as luzes brilhantes do império romano tornaram-se progressivamente irresistíveis e os chefes, um após o outro, foram estendendo a passadeira vermelha ao invasor. Houve até um que deixou o seu cargo na aldeia para ir fazer política para Roma. E os que não chegaram tão longe, foram abrindo os portões da aldeia. 

O peixe de Ordemalfabétix, por mais robusto que fosse para zaragatas, foi preterido pela oferta trazida por grandes mercadores de outros ponto do Império, sacrificando o sabor do "mar de Lutécia" pela poupança de sestércios. O mesmo em relação ao negócio de armas de Éautomatix, cujo neto se viu forçado a fechar, abandonando também ele a aldeia à procura de uma vida melhor para si e para a sua família. Tal como Assurancetourix, o bardo, que foi forçado a juntar-se a uma trupe de saltimbancos e até Panoramix, trocado pelo engodo do sistema de saúde público romano. Sobrou apenas o artesanato de menires em miniatura para turistas. Grande parte das crianças da aldeia vai estudar para Roma, onde acaba por se fixar pela maior facilidade em exercer o seu ofício.

O chefe de agora aparenta querer retomar onde Abraracourcix parou, mas a inércia dos seus conterrâneos e os tentáculos do Império não lhe vislumbram uma tarefa fácil. Logo veremos se mais cedo ou mais tarde não seguirá também inebriado pelo odor do poder.

Infelizmente, o problema não é exclusivo da famosa aldeia. É transversal a todos os territórios ocupados pela macrocefalia da capital. A romanização é uma triste realidade e por vezes parece ser um processo imparável. Os políticos de Roma montaram um sistema, aperfeiçoado ao longo dos tempos, que concentra na capital os recursos de todas as províncias, essencialmente para benefício próprio. 

Este sistema faz engordar Roma, ao mesmo tempo que esvazia o restante do Império, reduzindo-o a mera paisagem. Isto, inevitavelmente, provocou um movimento migratório de todas as periferias para o centro romano, que se estende já por várias gerações, ao ponto de actualmente grande parte dos habitantes da capital não serem romanos. Há um melting pot de gente de muitas tribos e aldeias dos quatro cantos do Império que, perante o irresistível desejo de se integrarem na sociedade romana, se transformam em romanos da noite para o dia, renegando as suas origens.

Durante muitos anos, foi através do desporto que a aldeia conseguiu manter a sua identidade, quando os demais sectores da sua sociedade já se haviam rendido aos impostos pela capital do Império. Não o desporto favorito de Obélix, o espancamento de romanos, mas o "foutbôle", o jogo mais apreciado por todo o Império. 

Como não poderia deixar de ser, para os romanos este era um jogo de XI contra XI, mas no final tinham que ganhar sempre eles. E assim foi durante décadas, até que um jovem e destemido chefe da equipa gaulesa desafiou e derrotou o poderio romano. 

Esse domínio de décadas da principal equipa romana, a única que tinha permissão para ganhar e para contratar os grandes jogadores de todo o Império, e portanto, a única que poderia brilhar quando defrontava equipas de outras civilizações e impérios, gerou em todas as províncias romanas uma enorme onde de apoio, alargando a sua base de apoio a todo o território - incluindo na "nossa" aldeia gaulesa. Esse apoio transmitiu-se de pais para filhos, de geração para geração, subsistindo ainda hoje como a maior base de apoio de todo o desporto interno.

Qualquer político romano que se (des)preze, jamais poderia desperdiçar esta muleta e deixar de cavalgar esta onda fácil. Jamais alguém em Roma se atreveria a desaproveitar qualquer oportunidade de se associar a uma vitória das equipas romanas, por mais insignificante que fosse. Folclore gratuito para todos, sempre que possível, granjeando simpatias e evitando que se olhe para outras coisas entretanto.

Voltando à aldeia gaulesa e ao bravo chefe da equipa da aldeia, foi no seu consulado que os papéis se inverteram, inaugurando um inédito período de glória ímpar em todo o Império, mobilizando atrás de si todos os verdadeiros gauleses, da sua aldeia e de muitas outras espalhadas por toda a Gália. A história de sucesso foi tal que por todo o Império, e até em Roma, se conquistaram muitos novos apoiantes. 

No entanto, nem todos na aldeia ficaram agradados com o estrondoso sucesso do (agora já não) jovem chefe e do seu clube. Alguns foram sodomizados pela tal onda romana ou simplesmente herdaram a sodomia. E aos seus olhos de lacaios, nada como enfrentar os seus "irmãos" gauleses para agradar os mestres romanos e, quem sabe, arrecadar alguma migalha vinda da capital.

Hoje, o chefe já não é jovem nem destemido. E na aldeia já não há quem faça frente à sufocante romanização. Não há? Há pois! Milhares de gauleses estão dispostos a defender a sua aldeia perante todo e qualquer invasor. Só falta quem os volte a mobilizar em torno de uma bandeira que os una.

Qualquer semelhança com outra qualquer realidade é puramente intencional.

Lápis Azul e Branco,

Este senhor opta por escrever na ortografia antiga. Bota de elástico.
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Quando pedi ao Lápis que ocupasse a Mesa do Canto, para explicar porque é que os de lá de baixo parecem condescender mais com as suas paixões fintabolisticas - muitas vezes deixando-me na dúvida sobre quem é, de facto, bairrista - previ uma crónica de opinião. Direta, ao bom estilo Lapisiano. Já se sabe que não fez nada do que eu lhe disse!

Em vez disso, Sua Senhoria mandou o seu labrego entregar-me o ópus acima. Que tem tudo, mais a extraordinária qualidade de nos deixar a pensar. Para além do cuidado na metáfora. Tasca style, arrisco do alto da minha proverbial modéstia.

Por isso, obrigado três vezes, pá. Uma delas pela inveja. Porque raio não havia de ser eu a escrever todos os bons posts? Não percebo...

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Soundtrack to kindergarten: Cry for Pompeii

domingo, 13 de novembro de 2016

Nomes - Pot-pourri




No seu passo para sempre lento, calculado ao centímetro da dor permanente, aproxima-se do seu banco ao balcão. Não se senta, mas estende-me uma folha rasgada à pressa. Diz-me, num tom baixo como as nuvens da tarde que chove:

- Não acabou, Silva. Ainda não. - E sai, devagarinho, com ar satisfeito, por não se julgar inútil.

Leio.

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"Nomes - Pot-pourri

Entardecia.

A chuva escorria, miúda e persistente, acumulada em grandes gotas nas vidraças. Era cinzento lá fora e um pouco mais escuro aqui. 

O céu pesado, a água a encher de pontos transparentes a imagem do Mundo, uma motorizada a cruzar o silêncio - podia ser uma sirene de emergência, se aqui fosse um prédio alto - dois latidos isolados e, algures do fundo da mente, o crepitar de um toro numa lareira.

Entardeci.

Paralisado na cama por fazer, fixo na janela, com receio de quebrar o lento - oh, tão lento - transcorrer dos minutos, sou um lançar de dados em camisolas grossas de lã. Ou uma língua na boca que torna o cobertor desnecessário. Um pijama quente, deitado de costas na carpete da sala, enquanto crianças me saltam na barriga. 

Passa a motorizada, graniza na janela, enche-se o Mundo do cheiro a castanhas assadas.

Anoitecia.

As mãos dormentes por debaixo da cabeça. Passou muito tempo? Nestes dias, é difícil saber quantas horas são entre entardecer e anoitecer. É sempre quase escuro. 

Se pudesse - mas podia! não posso? - virar-me para o outro lado, haveria um candeeiro de luz fraca e amarela aceso, uma pilha de livros inacabados, algumas fotografias e um lugar vazio. O meu. Ocupado à vez, por cada um de mim.

Anoiteci.

Uma mão terna a esfregar uma dor de barriga inventada. A paixão a cravar-me unhas nas costas. O fumo de um cigarro. Uma dúvida de Português ou de História. Equações passadas à pressa, para manter a (in)sanidade no banco de trás. Uma noite de bifes com pimentos. Lá longe, onde se conduziam carros azuis.

E então tu cantarolaste ninániná.

E então tu sorriste, com o cabelo caído sobre metade do rosto, e mordeste o indicador.

E então tu puseste a minha mão na tua barriga. E ela mexeu-se.

E então vocês cresceram tanto.

E então tocou "Nasce Selvagem" a plenos pulmões e dedos a tamborilar no volante, a janela aberta e a cinza a pingar do cigarro dele.

E então tu deste uma gargalhada rouca e tiveste um ataque de tosse.

E então, súbito, o inicio da noite era Verão e todos riamos.

Hoje amanheceu tanto Sol. 

Obrigado."

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The living and the dead keep coming back, into my arms

terça-feira, 8 de novembro de 2016

#NEStodoculpadErrera


Parece que sinto aqui um nó, pá...

Parto de uma pergunta simples, a questão seminal na verdade: Porquê?

Porque é que a equipa que dominou todo o jogo, que chegou à merecida vantagem, que tem o adversário encostado às cordas, o estádio em delírio ao seu lado, desiste? Se entrega à forca, na esperança de que o carrasco se atrase e o crime prescreva? Porquê?

Porque, sendo jovens, acreditam que a função do soldado é obedecer e depois pensar. Seguem a ordem, o sinal. E assim morreram, morrem e morrerão, muitos milhões. Boa parte dos quais inocentes. O que é muito mais grave que o FCP não ter querido - porque pôde - ganhar aos lampiões, depois de um banho de bola.

Já toda a gente falou - e refalou - acerca do jogo de Domingo, pelo que basta fazerem o rali das tascas - aqui mesmo na coluna ao lado - e já ficam a saber tudo. E ainda viram uns tintos de eleição. 

Também podem ler "A Bolha" e conhecerem o Herói do Povo. Todos os dias me sinto um pouco mais Africano. E Galego.

No entanto, sendo tempo de arejar a Tasca - tenho saudades do chinfrim e do barulho dos copos e de gente a falar alto - não resisto a meter a colher. Até porque creio que, partilhando genericamente da maioria das opiniões, em alguns detalhes penso de forma diferente.


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Como seguramente repararam - não vejo porque outro motivo seguem o futebol, senão para aquilatar do meu grau de razão - a equipa que eu escolheria para jogar de inicio contra o 5LB, não teve nada a ver com a que NES escolheu. 

Fez ele muito bem, porque o FCP entrou bem, continuou bem, meteu os lampiões dentro do buraco de onde nunca deviam ter saído. É nos buracos que os vermes estão bem. De tal forma que ao intervalo a coisa podia estar resolvida e a malta já podia passar a segunda parte a combinar onde ia jantar e assim. De vez em quando olhava-se para a relva, para ver quem tinha marcado mais um golo dos azuis. Se lhes apetecesse.

Mas o intervalo não fez mal a ninguém. Pelo contrário, provocou yet another indisposição ao melhor jogador dos energúmenos. Pumbas, incha vomitão de um cabrão, já lá mora o primeiro. E nos cinco minutos seguintes, parecia que iam morar mais uns quantos.

That's all folks

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NES montou a equipa, gizou a estratégia, é o responsável primeiro e máximo pelo excelente FCP que esteve Domingo em campo. Vulgarizou o Tricolocampeão Nacional, ao ponto de o Arouca e o Brugges terem parecido melhores equipas. Que não são.

Curiosamente, mais em 433 do que em 442. Curiosamente, dando à "nossa" filosofia o seu cunho de rapidez e objetividade. Curiosamente, deixando para Oliver o que é de Oliver e oferecendo-lhe uma linha de passe vertical, mais duas laterais e mais o Silva. 

Estou-me um pedacinho a danar para essa história da raça e da entrega e do ADN e de fazer florzinhas nas bordas dos cadernos e assim. Acho que isso tudo faz parte dos contratos principescos que esta malta toda - os nossos e os outros - assina. Era o que faltava que não fossem solidários e abnegados e dessem tudo em prol da equipa. Ainda assim, parece - e é espantosamente aceite - que nem sempre acontece e que é um feito consegui-lo. Nesse caso, é mais um mérito que se deve, e este é transversal a toda a época, acrescentar à conta de NES. Thumbs up, mate.

Desafortunadamente, fico a pensar: Se o cobardolas do Artur não tem impedido que o Silva marcasse aos 25 minutos da primeira parte, o que seria de nós? O que nos reservaria toda uma segunda parte, pelo menos, de aflição, vendo aquela espécie de Tondela a acreditar cada minuto mais, inspirado pela inexplicável paralisia do Brasão Abençoado? 

Ouviste bem, oh pessoa que não sabe desenhar, O-BRA-SÃO-A-BEN-ÇO-A-DO! É uma bandeira estúpido! Avança, imortal, indomável, azul, branca. Vês, pela ordem que quiseres, de cor, sem hashtags, sem paneleirices, que a poesia não é para panascas. Panasca!


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O meu problema não é que tenhamos empatado. Quer dizer, é, claro, também. Mas o meu maior problema é que nos forçámos a empatar. Não me venham com o Horta. Foda-se, eu estive lá.

Não aconteceu NADA que não tivéssemos provocado: O aparente domínio do último quarto de hora, as bolas paradas, as recuperações consecutivas de bola contra...ninguém. Fomos nós que abdicámos, não foram eles que conquistaram.

Se NES tem - pode ter! a confirmar - o mérito de ter chegado lá, à equipa e à forma de jogar que nos pode levar a algum lado, também é responsável pela mais estapafurdia estratégia de jogo de que tenho memória: Marcamos, seja contra quem for, e defendemos muito. E defendemos mal. E não queremos a bola, só queremos que o jogo acabe. Depressa, enquanto não estamos a perder. Faz sentido? Não. 

Mas se o homem chegou ao futebol daqueles 65 - sim, para mim foram 65 e estou a ser generoso - minutos, então é porque é rapazinho para perceber que se encontra perante uma escolha importante:

1) Investe forte em fraldas para adulto, por forma a minorar a sua compulsiva tendência para se borrar todo, e mantém a equipa subida, intensa, ameaçadora. É que, ao contrário do que o próprio quer dar a entender, isso não depende assim tanto de quem entra e de quem sai. Vejamos:

Compreendi todas as substituições. Discordei de todas. Mas a mim ninguém paga para tomar decisões, portanto bico calado, trabalho de NES. 

Com Danilo, Ruben e Otávio no centro, o FCP tem toda a capacidade para ter bola e a manter longe da sua baliza. O chuto desesperado para a frente treina-se à semana, não é característico destes jogadores.

Ajudados por Layun numa ala e Herrera na outra então, não há meio-campo adversário que cheire a chicha. Resta-lhes mandar bolas da defesa para os pinheiros lá da frente. E o jeito que nos dá ter centrais em boa forma. Inchem. 

Só que não. Porquê? Mistério.

2) Torna a nossa saída para o contra-ataque letal. Com médias próximas dos 100% de eficácia. De modo a que qualquer adversário do FCP que se apanhe a perder pense: Tamos fodidos! Ou vamos para a frente e levamos 4, ou perdemos só por 2. Caralho pá.

Simeone demorou uns anos a conseguir fazer isso em Madrid. Com muito dinheiro disponível. Não temos o tempo nem o dólar. Portanto, teríamos que ter o génio. Terá NES?

A única certeza que tenho é que é este o homem que vai mandar até ao fim deste ano, pelo menos. Cá estarei, nas suas costas, pronto a desancar quem se atrever a tentar bater-lhe. O NES é nosso, quem lhe bate somos nós e fodemos as trombas a qualquer paspalho que se habilite a duvidar disso!

Sim, eu disse ano. Your call, Holy Spirit. Mas, por favor, sem desenhos, nem hashtags, nem lugares comuns que me fazem corar.


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E Herrera? Uns crucificam-no, outros, apologéticos, defendem que "meh, não foi assim nada de especial". Já esta manhã li, inclusivamente, alguém que defende que o tipo fez bem. Teve foi azar. E também já me disseram que a culpa foi do Pinto da Costa, que não o vendeu. 

Mantenho a esperança de assistir, em vida, à apresentação do argumento de que a culpa é da droga da porta 18 e do Orelhas, que outra explicação não existe para o lampião se ter conseguido desviar.

Estão todos, claro!, errados.

Devia ter sido Brahimi. Porque seguraria a bola mais longe, porque era capaz de fintar os mecos todos e fazer golo ou, pelo menos, eles pensariam nisso. Devia ter sido Brahimi, porque os 4 minutos passariam mais depressa entre uma falta e uma caixinha junto à bandeirola de canto. Deles. Devia ter sido Brahimi, porque em vez de tentar acertar no palhaço para ganhar um lançamento, teria agarrado a bola e, provavelmente, sido derrubado. 

Isto é totobola à segunda. Mas se eu fosse obrigado a fazer o Totobola à sexta, devia ser treinador do FCP.

Herrera errou! Grave e estupidamente. E sim, perdemos dois pontos por isso. Se fosse um frango de Casillas, a culpa era de quem? Se fosse um penalty falhado por Oliver nos descontos, a culpa seria de quem? Foi uma Maiconada do Herrera, a culpa é minha?

Ah, não, mas depois ninguém cortou o canto.

Mesmo dando de barato que o ponto é o canto NÃO dever existir, como desculpar Herrera com isso? Vejamos, o 5LB beneficiou de 9 cantos. Um ressaltou na cabeça de Felipe e acabou no poste. Outro deu golo. E 7, foram tão perigosos como o Kaviedes solto na área, a ser enrabado pelo Roberto Dinamite. 

Em todos, o 5LB aproximou um jogador do marcador da bola parada, na expetativa de um canto curto. Em todos, o FCP, por Corona ou Otávio a maior parte das vezes, colocou um jogador nessa linha, impedindo aquele desiderato.

Todos? Não, um canto resiste ainda e sempre à inteligência. O de Herrera. Aquele que Herrera não apenas provocou, na pior altura possível da pior forma que se pode imaginar, mas ainda conseguiu transformar no único que o 5LB conseguiu bater de forma diferente. Porque se esqueceu de estar onde devia. Apagou. Riu para não se sabe onde. Distraiu-se. Maiconou. Twice

NES dobrou-nos, Herrera abriu-nos as nalgas e, não contente, empurrou o massajador facial até ao fundo. Sem lubrificação. Porra, dói.

Vamos pois matá-lo? Nem pensar. Nada contra um insulto ou outro nas redes sociais. Afinal, se servem para os moços se pavonearem e hashtagarem tudo e mais qualquer coisa, então é natural que sirvam para ouvirem do que não gostam. Digamos que se recuas para os últimos 30 metros, todo borrado sem se saber porquê, e metes o Herrera... É natural que acabes por não ganhar.

Seja como for, o Herrera é nosso, já foi - e voltará a ser! - muito útil, é um ativo importante e parte do grupo. Deve ser respeitado enquanto tal e recuperado, se for caso disso. O que não significa que não lhe gritem ójóvidos: Tavas a pensar em quê, oh filhadaputa? Voltas a fazer isso, vou-tástrombas!

- Eu também.

- E eu.

- E eu.

- Eu ia já, posso?

- Não! No es todo culpa de Herrera.


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Soudtrack to NES: Come on, get up!

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Com um grande e sentido OBRIGADO ao Miguel e ao Jorge e à minha Queen Bee - aquele "diverte-te" valeu por um grande "amo-te" - por terem tornado o Domingo num belo dia, nevertheless.

domingo, 6 de novembro de 2016

A verdadeira história da Morte de Figueiredo


Para um propósito meramente informativo, "Morreu Figueiredo" seria suficiente. Encerrava-se o assunto em meras duas palavras, um verbo afeta o substantivo, dá-se duas sacudidelas de mãos e está feito. Não é como se houvesse muito mais para informar, acerca da morte de Figueiredo ou de outra qualquer de qualquer outro apelido. Morreu, já está.


Muito ao jeito daquele senhor, supremo somítico, que, posto perante o pagamento mínimo de cinco palavras para um anuncio na secção de necrologia, optou por "Morreu Maria. Vendo Opel Corsa". Fechada uma vida, é enorme a quantidade de coisas que passam a ser inúteis. A começar por um Opel Corsa a mais.



Acontece que, não por escolha, vim a ter acesso a dados relevantes quanto ao acaso em apreço. São detalhes de uma ordem de estranheza tal, fenómenos tão improváveis, que não me resta outra alternativa que não contar. Partilhar um laivo de loucura, poderá ser?


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A Morte tinha claro que estava atrasada. Sabia também que os atrasos fazem parte da sua rotina, ninguém lhos aponta, ninguém lhos cobra. Compensa-os com uns quantos adiantamentos. Mas agora, via-se perante o esgotar de toda a tolerância. Era mais que tempo, Figueiredo devia morrer.


Foi por isso que, mal pôs os olhos no relógio, junto à máquina de café, alertada pelo primeiro e único "sabes, P.inho, a mana não dura muito mais" - nas raras lágrimas que não soube evitar em público - saiu disparada através das paredes, em vez de tomar, como era seu hábito, os passos tranquilos do corredor. 


Gostava de percorrer devagar aquele corredor, espreitando distraída para dentro das salas, imaginando as auxiliares a vestirem as suas batas, ouvindo o tom da tosse dos pacientes internados, sentido-lhes o pulso a enfraquecer, anotando, de vez em quando, números de cama. 

Uma enfermeira atrasada - como a Morte de Figueiredo - sentiu um estranho arrepio na nuca ao deixar cair a bata sobre os seios nus; uma senhora acamada jurou ouvir a sua falecida mãe chamá-la para comer a sopa; instrumentos de medição avariaram inexplicavelmente; duas janelas bateram e a porta de emergência, ao fundo do corredor, abriu-se de par em par. Parecia que andava o Diabo à solta.


A Morte cruzou tão rapidamente a sala sete que nem o senhor da cama 25 morreu. Oh, paciência, há tempo para ele. Quando atravessou essa última parede, já afagando o alivio da missão quase cumprida, deu, uma vez mais, de caras com uma roda de gente. E as suas gargalhadas. As suas piadas negras e parvas. O cuidado com que alguém remexia a pasta que era suposto ser refeição. Enfim, a forma como, em torno de um leito de Morte, os discípulos bebiam ainda a água do Senhor. Da Senhora.


Já outras vezes a Morte se deixara atrasar por estas coisas. Mais fascinada que condoída. Hoje, teria que ser diferente, estilhaçados os prazos, pulverizadas todas as médias de sobrevida. Ah não, hoje fecharia o seu coração negro e seguiria em frente. Com as mãos a taparem os ouvidos, se fosse preciso. Só que se esqueceu dos olhos. 


Foi assim, determinada mas impreparada, que a Morte deu de olhar no olhar de Figueiredo. E especou. Ali ficou, meio gelada, meio paralisada. Presa de movimentos, pronto. 


A Morte passou a viver na parede da sala de Figueiredo. Quase paralela ao relógio branco, à esquerda do campo de visão de quem moresse na cama 28.

Quando todos saíam, as duas conversavam. Negociavam timmings, mediam cansaços, trocavam receitas, contavam coscuvilhices do pessoal. Espantosamente, a Morte aprendeu a rir e a gargalhar. E jurava que nem em dias de Vida se tinha sentido tão bem. Até que uma dor as vinha lembrar, retirá-las do seu descansado desfiar de minutos. E de memórias.


Todos os dias Figueiredo se entregava um pouco mais à sua Morte. Todos os dias lhe pedia mais outro, apenas. A Morte, lá do seu lugar na parede, nunca lhe disse que não. Até que voltou a doer muito. Demais. E Figueiredo estava demasiado cansada para imaginar, sequer, que lhe pudesse voltar a doer assim.


Enfermeiros puseram gente na rua, auxiliares trocaram-lhe a bata ensopada em suor e dor. Encontraram, sabe-se lá como - ou porquê - um intervalo de calma naquela guinada atroz. Deixaram Figueiredo para dormir. Ela olhou para a parede à procura de conforto e companhia. Disse para a Morte:


- Achas que eles entendem? Achas que eles já entenderam? Se me deixar descansar - tão exausta que estou - eles vão perceber, em tempo, que cada um é um pedaço de mim? Que juntos me revivem e, cada um por si, serão o pedaço de mim que me deixaram entregar-lhes? Poderei acreditar que se gostam para lá do Amor que me têm? Queria ter feito mais, sempre.


A Morte abriu o esgar que lhe faz as vezes de sorriso. Deu um passo em frente, por fim, e estendeu-lhe a mão. Disse:


- Não vai doer mais.


Não doeu.



...  


Figueiredo e a Morte balançavam os pés descalços, do topo do Penedo do Guincho, enquanto a matilha se despedia da sua Alfa. São vãs as despedidas de quem nunca parte. A Morte levou Figueiredo, mas nenhum destes, na areia, se convenceu a deixá-la morrer.

No pequeno rochedo, rodeado já de água, sobra um dos cinco. Olha para a praia da mesma perspetiva exata de Figueiredo. Entre aqueles, em roda, com as suas fraquezas e defeitos, cheios de um Amor que parece sem destinatário, mas perto, a distâncias que nunca foram tão curtas, está quem a Morte levou. 


Ele esfrega primeiro os olhos, certo de que as noites por dormir e a força para não chorar o fazem ver coisas. Depois procura a onda que o deixará sair da pequena rocha. Olha de novo. Sim, de todos eles, da sua soma, emerge de novo Figueiredo. 


Upa, ai está ela, a aberta seca para regressar à praia. Ele pensa:

- És mesmo parva, tinha que ser eu, pois era?


- Era um abraço, estúpido. - Responde-lhe no seu tom eternamente doce.



...


A Morte e Figueiredo balançam os pés descalços do topo do Penedo do Guincho, enquanto pescadores estranham as cinco rosas brancas plantadas na areia. 


Voltarão, juntas ou à vez, a este lugar, sempre que lhes der na gana. E haverá flores na areia.



...


A Morte viveu nos corredores do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, por mais de um ano. Passeou ao nosso lado e tomou café na nossa mesa. A Morte não é rancorosa, nem vingativa, mas é velha e sabe coisas. 


A Morte cheira a cancro e uma pessoa habitua-se. Aprendeu a gostar de sambas simples e alegres do Martinho da Vila e a despejar demasiados pacotes de açucar nos abatanados. A Morte gosta de sopa de peixe e de caril de camarão.

A Morte assistiu às consultas enfadadas e à resignação do Dr. Direndra. Aquele que era o General designado do nosso exército, estava derrotado à partida. Tão farto de ter que fazer de conta que...nunca fez.


A Morte sorriu com a bem-disposta esperança do Dr. Pedro Barradas e o seu bigode farfalhudo. Anotou no seu caderninho o carinho do seu tom e a sua capacidade para...fazer de conta. Com convicção.

Da mesma forma que recorda as explicações simples e cheias de luz - e os e-mails terroristas - do Dr. Nuno Gil, na Fundação Champalimaud, em Lisboa. Até à ausência de resposta, por extravio ou por a pergunta já não valer o esforço de responder.

A Morte conhece de cor os números de segurança social dos elementos de determinada equipa multidisciplinar, que permitiu que uma paciente vivesse um mês com um braço partido, sem nunca ter procurado a origem a da dor. De igual modo, regozijou-se com todos eles pelos resultados do primeiro ataque, frontal e decidido. Ainda o General era outro.

A Morte ficou tão chocada perante a frieza da Dra. Vanda, que não a matou. Nunca antes tinha visto alguém capaz de olhar um filho nos olhos e dizer-lhe:

- Mas oiça, ninguém vai salvar a vida à sua mãe, pois não? Vai dai, desinfete lá do caminho que eu tenho mais o que fazer. - Se não foram estas as palavras, foi isto que os nossos corações ouviram. O da Morte também.

A Morte deu um chuto na Dra. Ana Sofia, quando esta teve o desplante de dizer, em passo de corrida, a um irmão:

- Só estou aqui para urgências. Não me vai dizer que a sua irmã é uma urgência, pois não? O Dr. Pedro não tem falado convosco? Sabe em que estado está, não sabe? Agora desinfete lá do caminho que eu tenho mais o que fazer. - Quem não sabia do estado era a própria Ana Sofia, do fundo dos seus óculos fora de moda.

Mas também registou a sua humildade ao desculpar-se, perante uma sala de gente capaz de a fazer em picadinho.

A Morte orgulhou-se da competência e disponibilidade do Enfermeiro Ricardo. E de um outro, alto e magrinho, cujo nome lhe escapou. Assim como não esquecerá a arrogância de outro ainda, cuja identidade sexual é, no mínimo, dúbia.

A Morte enterneceu-se nos olhos doces e bonitos da Enfermeira Ana, quando dizia a uma roda de gente desfeita:

- Fiz o que gostaria que fizessem por mim. - É tudo o que vos pedimos, caros senhores.

A Morte não discute a competência, nem as condições de trabalho. A Morte compreende tudo e não esquece nada.

A Morte é Arya Stark. E todos nós somos a sua lista.


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Morreu Figueiredo. We've all been victims of a crime.


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Com uma vénia a Vinicius de Moraes - outro imortal - e à Última viagem de Jayme Ovalle.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Pai, o Filho, o in between e outras notas breves

Basta adicionar uma equipa e já está!.


Ontem teria sido um dia feliz, muito feliz, se não pudesse, por imperativo, ter ido ao Dragão. Teria sido um muito bom sinal, cá por coisas minhas que agora não interessam nada. A puta da Vida - andamos esquinados nestes tempos - ou da Morte, sei lá qual das duas é que toma decisões, não quis que assim fosse.

Regressei portanto, umas semanas depois, à minha Arquibancada. Desta vez, bem coladinho a um batalhão assinalável de descendentes dos inventores da batata frita. E vi um jogo que se resume muito rápida e eficazmente, mas com alguma proporção bíblica:

No inicio, era o Verbo. De encher. E andámos nisto uma boa meia-hora. 

Depois, fez-se Silva. O André.

De seguida, veio a Grande Noite. Dela saímos ilesos, às costas de San Iker.

É isto.


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Lá em cima, com espaço para ver a bola quase deitado, dei por mim a pensar no jeito que nos dariam o Heldon e o Kuca, naquela segunda parte. Malta habituada a defender nos últimos 30 metros e a partir dali, desabrida, para a frente. Na esperança de uma bola pingada que lhes caia do Céu, com mais trinta metros para correr. 

Oh well, janeiro está já ali ao virar de dezembro. Se quisermos ser poupadinhos, temos sempre o Marega...


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Quando revejo mentalmente o jogo, penso: Ena pá, este Belgas são uma equipa organizada, fisicamente dotada - salvo seja! - que troca a bola com competência e sai rápida para o ataque. 

Aí está algo que aparentemente podemos pensar de praticamente todos os adversários do FCP. Foi assim com o Copenhaga e com o Leicester. 

Os adeptos do Tondela também acham isso dos seus adversários. E nós do Tondela. O que me preocupa.


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NES escolheu os jogadores que pensa poderem interpretar melhor a sua filosofia de jogo, isso parece claro. Dava jeito que agora lhes explicasse qual é. Em muitas alturas, eles entendem tanto dela como eu, da Arquibancada. Hã? É para fazer o quê? A sério? Oh, tábem. Vai André!


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Iker e André. O Alpha e o Omega. O Principio e o Fim. O Pai e o Filho. E entre eles, o Espírito Santo. 

Acrescente-se milhão e meio à nossa contabilidade Ikeriana. E livrem-se de me mandar o miúdo para o banco.

Por ser justo, diga-se o que já toda a gente disse: Sólida a defesa, imperial o Danilo, coitado do Oliver.

Coitado, porque tem o azar de ser o único tipo em quem se pode confiar para ter a bola. E, por isso, é imprescindível colá-lo à primeira zona de construção. Aquela em que se constrói, não se decide. 

E que tal ouvirem o Lápis e botarem lá o Ruben? A oito, não a seis.


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E pronto, melhor isto que tudo ao contrário, incluindo o resultado. Para além de que, a seguir, nada disto importa. A seguir não importa se estamos bem ou mal, afinados ou todos trocados. Não importa quem joga ou quem treina.

O próximo, não é um jogo, não é futebol. É a honra da Nação, a elevação ou a queda da bandeira. Que avança, azul, branca, indomável, imortal. Vêm aí os lampiões.

Eu mudo de Arquibancada, que há cheiros que não suporto.


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Como é altamente improvável que aqui se volte a falar de bola antes de Domingo, adianto-vos - como se vocês quisessem saber - qual seria a minha equipa:

Iker; Layun, Marcano, Felipe, Telles; Danilo, Ruben, Oliver; Brahimi, Silva, Corona.

A menos que o Otávio treinasse muito bem no que resta da semana. Nesse caso, saltava o Ruben. Desculpa lá o mau jeito, Oli. Cincazero!


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Lá vou, assobiando na Cruz, levando a algum porto estes estranhos dias

sábado, 29 de outubro de 2016

Ziguezague e rosas brancas



Quem tem por hábito - será mais uma mania, valha-vos Deus! - passar na Tasca, calculará que ando com o feitio do costume, elevado a uma potência semelhante a um livre direto do Geraldão. E os filtros? Ui, se já eram muitas vezes difusos, agora são uma ausência quase tão grande como  a do Kralj numa baliza.

Ainda assim, voltarei na quarta-feira ao Dragão e, por isso, tratei de ficar a par do que se vai passando, para não fazer figuras tristes. E concluí que um gajo não se pode distrair. Armam logo um banzé que já nem São Francisco de Sales - Padroeiro dos surdos - os pode ouvir. Credo.

É, pois, uma bela, excelente, estupenda até, altura para fazer um ponto de ordem à mesa. Até porque ando com o estômago fraquinho como o ânimo e, quando se mete um zague repentino, acabo a vomitar-me todo no zigue.

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BLABLABLA

Ainda faz pouco tempo que andava tudo a desancar alegremente no Presidente, porque não falava. Ele eram os Campeonatos perdidos à conta disso, ele era a morte do ADN, o falecimento da Mística, as comissões, a senilidade, you name it. Eu, como acho que São Francisco de Sales é Padroeiro de cerca de 95% da população Portuguesa, não concordava lá muito com isso. Escrevi-o as vezes suficientes.

Agora, o Presidente parece que não se cala. Fala para o Canal; fala à margem do descerramento da placa; fala na inauguração da casa; na abertura da exposição; no trânsito engarrafado; e maijonde quer que o queiram ouvir. Os surdos.

E pumbas, procede a malta, em alegre cantoria, a desancar o homem. Porque fala demais? Nada disso, isso são preocupações de gente sem ADN, sem Mística, gentalha que deve - inclusivamente - ter tímpanos. O Presidente apanha porque não fala do que eles acham que deve falar. Sim, porque isto não basta chegar aqui e fazer o que lhe dizem. É importante é perceber o que querem que faça a cada momento, ainda que possam ser coisas contraditórias.

Afinal, de que deve o presidente falar? Dos vouchers, já se sabe.

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É A DEMOGRAFIA, ESTÚPIDO

De embirrante, o homem não se pronuncia sobre os ditos vouchers. Até parece de propósito, para chatear. Então não lhe ficava tão bem abrir as goelas e juntar-se à luta - que continua, Avante camaradas esverdeados! - do Bruninho? Isso é que era defender o interesse supremo do FCP.

Sabemos todos que, em Portugal, Jorge Nuno Pinto da Costa pronunciar-se a favor ou contra alguma coisa, é logo um passo decisivo para que o assunto se resolva a contento. Dos outros. 

É que se está mesmo a ver que um caso, alegadamente, sob a alçada do Ministério Público - do nosso, de Portugal! - ia caminhar velozmente no sentido mais azul e branco que possam imaginar. Bastaria um sinal do Presidente. Mas ele está senil e não quer saber do Clube e kerécomissões e isso assim.

Vai dai, apela-se a plenos pulmões que o FCP siga o SCalimeroP. Engrosse as fileiras dos batalhões LIDERADOS pelo Bruninho. Sim senhor, aí está um belo contributo para a recuperação da nossa grandeza: Ir atrás da Calimeragem. 

Oh senhores, deixai o lagarto tratar da questão que levantou, levá-la até ao limite. Perder, naturalmente. Mas se, por bambúrrio, ganhar, que mal nos advirá? Isso mesmo, lindos meninos: Nenhum!

Por isso, em vez de estarem preocupados em ter o que dizer, aprendam qualquer coisa com quem anda a virar frangos há mais de 30 anos. E que bem que vos têm sabido. Os pitos. No churrasco.

Depois, assisto a acesas discussões acerca do facto de alguém se deixar corromper por não sei quantos patacos, dentro de uma caixa, por baixo de uma camisola do Eusébio. Não percebo como se perde tanto tempo com coisas sem interesse nenhum. 

Olha, acho que deviam fazer disto o tema principal da próxima Assembleia Geral. Vejamos:

Em Portugal, podem não haver 6 milhões de lampiões. Mas há, seguramente, uns cinco. O nosso crescimento sustentado em vitórias, deve já ter-nos colocado a par da lagartagem. Acreditam mesmo que somos mais? Olhem que não, olhem que não. Somos só muito melhores.

Digamos que 1 milhão - provavelmente menos - são as pessoas que torcem genuinamente por outros Clubes. Malta que não conta para o Totobola portanto. Agora faça-se uma conta simples:

Em qualquer orgão colegial - a bem da tese, convencione-se que com 10 elementos - é muito provável que existam 5 lampiões, 2 lagartos, 2 pessoas como deve de ser e 1 gaja que tem que se despachar para ir às compras. De igual forma, em cada 10 pedreiros, escolhidos numa amostra aleatória estratificada, representativa da populção Portuguesa...pois, isso mesmo. Assim como no caso dos árbitros. 

O voucher não pretende comprar ninguém. É um mimo. Uma recordação que se entrega ao cachopo no dia de aniversário. Aqui tens, meu filho, a camisola que o teu avô usava quando iam os dois jogar à bola. Paz à sua Alma. Dá cá um abraço ao pai. Agora vai ajudar a tua mãe a lavar a loiça, sem fitas. E ele vai, feliz, de Alma cheia. Capisce?

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PORTO CANAL

Aquela questão demográfica deve ser combatida? Pois claro que sim, dizem as pessoas que conseguem alinhar dois pensamentos seguidos. E como? Crescendo. 

Para crescer, é fundamental que se comunique. Mas se vamos por-nos a falar exclusivamente para os profundamente religiosos do azul e branco - como somos nós que aqui estamos, gabo-vos a paciência! - ficaremos na mesma. Temos que ir além.

Para nós, além não é do Tejo. Não para já. É do Douro, do Minho talvez. Seremos tão mais fortes quanto mais representarmos uma Região. Alargada. Mais que o Porto, Portucale. 

É por isso que faz sentido o nosso canal ser generalista, mas regionalista; aberto ao País e ao Mundo, mas com uma perspetiva Nortenha das coisas. É por isso que faz sentido transmitir a Gala do Braga, por exemplo. E a do Guimarães. E os jogos do Canelas, já que estão a proibir a MMA em todólado.

Portanto, o Porto Canal não pode ser emitido de uma cave no Dragão, com o objetivo único de ser o MEU, O TEU, O NOSSO CANAL. Entendem, Luises?

Diga-se, por ser verdade, que eu não vejo o Porto Canal. Ou seja, não estou a emitir nenhuma opinião sobre o que é o dito cujo. Apenas sobre o que penso que devia ser.

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A GALA

Por falar em Gala, também nunca assisti aos Dragões de Ouro. Mas avanço já que acho absolutamente in-dis-pen-sá-vel que existam. Ao contrário da corrente que defende que é uma fantochada e que não serve para nada, portanto.

Mais, acho que deve ser uma festa do caraças, cheia de glamour, o máximo possível, com fotos numa passadeira azul e branca, dress code fato escuro, grandes rachas e decotes e a populaça apinhada por trás das barreiras, para ver as estrelas. Deve haver manifestações intensas de Portismo dos premiados e encerrar com O discurso do ano do Presidente.

Deve ter belos artistas e ainda mais belas gajas a desfilar, só porque sim. Claro que devem ser artistas reconhecidos, muito mesmo. Gente que, por exemplo, ponha não-Portistas a assistir à Gala do FCP. 

Podiam convidar-me a mim para ganir, que eu levava o Vassalo na bateria e o Lima nos samples. Era engraçado, muito Portista, mas não serve. Pois não?

Kerkásaber se os Deolinda falam do 5LB numa letra, ou quantos deles são estúpidos ao ponto de serem lampiões. Quantos dos Blind Zero são Portistas? O Fernando Ribeiro, dos Moonspell, é FCP. Os Moonspell são cinco. Se não é para ter o que dizer, é o quê? Tempo a sobrar? Problemas em entender a demografia?

Note-se que não se referiu nenhuma lassidão quanto aos convidados. Não se volte a convidar quem nos deseja mal, por escrito, todos os dias.

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O ANDRÉ

Um dos galardoados este ano foi o Silva. Merecido hein? Todos de acordo. 

Mesmo todos os que encheram caixas de comentários de impropérios contra a gestão danosa de deixarmos o ataque entregue a um miúdo, ziiig. 

Os que se indignaram por se ter arranjado a martelo um Belga desajeitado, em vez de um titular de caretas, para deixar o miúdo crescer, ziiig. 

Era no banco que teriam gostado de ver este Dragão de Ouro.

Ah, mas não, ele é protótipo do jogador à Porto. E ainda marca golos que se farta, por cima. Sempre se viu o que ali estava, prestes a explodir, era preciso ser ceguinho, zaaag. 

Infelizmente, vai ser despachado muito depressa, para alimentar a corja que agora manda nisto tudo, pobre menino, zaaag.

E eu vomito-me, pois claro que me vomito.

Do André, já aqui se disse tudo. Há mais de dois anos que ando a dizer coisas do André. Umas boas, outras más. 

O que importa é o timeline: As más foram há mais tempo. Chama-se evolução. E, honestamente, não sei onde vai parar. A uma Galáxia qualquer, de certeza.

O que define AS é o penalty em Brugges. Ele sabia que ia entrar. Mesmo que não entrasse, aquela frieza, a coragem, a confiança, definem o jogador. Como definem CR7. 

Não me lembro de mais nenhum termo de comparação, nascido em Portugal. Falamos daqui a uns anos, poucos, ok?

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MENTIRAS E ORÇAMENTOS

Já que tratamos do André, despachamos já esta treta dos Orçamentos.

Tinham propostas de 95 milhões, tinham, pfff, nem eu sou tão mentiroso. Era esta a "linha oficial" do bota abaixo quanto ao orçamento do buraco, certo? Mais, se tinham mesmo, porque não venderam? O Clube acima de tudo! O fairplay, becabeca, as contas, becabeca, as mais valias vezes a faturação menos a incongruência, becabeca. Incompetentes, ladrões, senis.

Se vendessem, estavam a assaltar o Clube, a hipotecar o seu Futuro e a destruir qualquer chance de Presente, naturalmente. Sem espinha dorsal, becabeca, sem Herrera o que será de nós, becabeca, o miúdo que ia crescer no centro do nosso ataque, becabeca, o plantel a dividir pelos ordenados elevado à mesma incongruência, becabeca. Incompetentes, ladrões, xéxés.

De seguida, vem outro orçamento. Aqui d'el Rei que é suicida, arriscado, Cristo na Cruz tinha mais hipóteses de se safar que nós com estas contas. 

E manifestam-se genuinamente surpreendidos, como se JNPdC não andasse a arriscar há mais de 30 anos. Sempre. Tanta conta que sabem fazer, podiam fazer esta: Quantas vezes correu bem, menos quantas vezes correu mal, igual ao grau de confiança que deviam ter. Eu tenho.

Ui, sim, sim, 115 milhões em vendas, lá se vai o miúdo que era para passar o ano no banco, mais o Mexicano que ainda há-de ser louvado, mais a Fernandinha. Essa até já foi andando, para se ambientar. Esquecem que só no fim desta época desportiva saberemos se são mesmo 115, ou menos, ou mais até. 

Seja como for, olhando para o André, apetece-me gritar: AQUECE RUI PEDRO, QUE VAIS ENTRAR. E tão quente que ele tem estado...

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ISTO NÃO É UMA AMEAÇA...

Ele saía do mercado com três rosas brancas numa mão - onde parecia ainda notar-se o hábito de serem apenas duas - e uma recarga de vela na outra. Das de cinquenta cêntimos.

A senhora com o colete amarelo e uma caixa de esmola ao peito, aproximou-se sorridente. Disse rastreio, investigação, tratamento, cuidado, apoio. E estendeu a caixa.

Ele disse:

- Não é a melhor altura.

Ela retorquiu:

- É sempre boa altura para ajudar. Para salvar vidas.

Um dique explodiu na mente. Sabemos nós, vendo de fora, porque se notou nos olhos. A torrente desbravou caminho:

- Sabe, o que eu acho hoje é que isso nos vai levar a todos. Os que não forem, morrerão de solidão. É isso que eu acho, minha senhora. Estou perfeitamente a lixar-me para os seus rastreios, para a sua investigação da treta, para a quantidade de balelas que me querem impingir, enquanto a Morte me cerca, me mata pedaço a pedaço, membro a membro, susto a susto, Amor por Amor.

Calou-se. Ela aproveitou para pestanejar. Senhoras outras entreolharam-se de espanto e indignação.

- Mas... - Arriscou ainda. 

- Mas nada. Falamos daqui a algum tempo. É certo que estarei diferente e verei com outros olhos o seu pedido. Agora, minha senhora, agora vou para casa fumar 50 cigarros, comer enchidos e toda a carne processada que encontrar, com batatas muito fritas. E ovos estrelados em banha de porco. Regados a tinto carrascão e refrigerantes mega-açucarados, carregadinhos de corantes e conservantes. É isso que vou fazer. Com licença, que tenho onde deixar as minhas flores. E acender a minha vela.

- Pfff, que mau feitio. - Disse uma senhora, enquanto apanhava os sacos que tinha pousado no chão.

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Soundtrack to bad temper: Hates us all!


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Do Silêncio - O Céu devia esperar


Olá, sou eu. Como estamos hoje, meu Amor? 

Chegámos tarde, pois claro, mas fizemos boa viagem. A casa está inteira, tudo no sítio, os bichos cheios de saudades e alguma fome. As meninas estão bem, a mais velha a cruzar um Céu qualquer - cuidado pá, desvia-te, acho que eles conduzem mal - a patroa pronta para as suas lutas. A pequenita não queria ir à escola hoje. Estava a tentar encontrar o bright side de se sentir triste, sem conseguir ainda entender muito bem a dimensão dessa tristeza. Não lhe vou dizer que não acaba amanhã. 

A Vida continua.

Só que não. Às vezes não continua. Como é que pode ser a mesma Vida? Tínhamos que estar juntos para te poder tentar explicar o Silêncio. Não é trágico, nem dramático, mas oprime. É pesado e pastoso, como a comida do Hospital, sabes? Não flui, é um monólito imenso de negrume. Como se, só por existir, manifestasse a sua Eternidade. 

Oh, não sei explicar-te assim. Precisava de te dar a mão e desviar o meu olhar do teu, para sentires só nos dedos - e não nos olhos - o que te quero dizer. É como se fosse absoluto. O Silêncio absoluto, impossível de ser pensado ou descrito. Tão grande e tão profundo, que só de sabê-lo se percebe que não se move. Vou tentar rodeá-lo, apanhá-lo à traição, enganar o que não se deixa levar. É uma boa ideia, não é?  

Estás só a dizer "pois, pois" a ver se me calo depressa, certo?

Olha, não estou lá muito contente com isto de já não ter com quem ser pequenino. Parece que me deram dois pontapés e me obrigaram a sair de casa. Vê lá que me sinto demasiado velho para não poder ser um catraio. 

Sim, está bem, eu sei, não se acabaram os colos. Mas pensa lá, quantas vezes me deste colo? Não é isso, pois não? É a liberdade de ser quem me apetecer. É haver quem diga "vai ficar tudo bem" e isso fazer sentido. A paz de isso bastar, mesmo que eu não mexa mais uma palha. Era. 

O pretérito que te rouba é meu inimigo. Figadal. Sim, sim, esqueço, espera aí que já esqueço. Não sou como tu. Se puder, atropelo-o. Os. Atropelo-os, a todos os pretéritos que me obrigam a aprender a viver esta Vida toda nova.

É uma merda, isso sim. Enquanto pudeste substituir as perdas, eu consegui ser o mesmo. E agora tenho medo de não saber quem sou. 

Que queres que te diga? Se era para saber de ti, tinha ligado a um dos bebés ou ao Zé. Vim só maçar-te comigo, mesmo. E habitua-te, porque não tenho planos para deixar de fazer isto. Apesar de seres uma mal-educada que não responde.

Agora, o mais perto de ti que consigo estar é rodeado dos pedaços de Amor que semeaste. Preferencialmente, os nacos maiores. Por estes dias, foram uma espécie de ninho. A roda onde, ainda assim, me fiz sentido. Eu sei que devia ser ao contrário, desculpa por isso. Mas acho que não consigo. É que eu carrego todo este Silêncio negro e absoluto e cheio de ódio mastigado. Eu não Amo como tu, mana.

Eles continuarão a espalhar a tua palavra. 

Eu vou atrás, confio. Mas hey, nós vamos falando. Até já.


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Com ar um tanto comprometido:

- Então, Pedro, temos gente nova?

- Sim, Senhor. - Profissional.

- Chama aí, que quero dar as boas-vindas. 

- Pessoalmente, Senhor? - Surpreendido e excitado com a solenidade da ocasião.

- Sim. - E vira-lhe as costas, enquanto o enxota com um sacudir dos dedos. O outro regressa rapidamente:

- Senhor. - Olhos no chão, envergonhado.

- Ah, sim, pois. - Olha à volta. - Então, onde está? 

- Diz para esperar um pedacinho. Está lá fora a fumar, com a mãe...