Por fim, fui convencido a ver o "The Walking Dead". A mais que tudo usou aquela sua maneira única de me levar a fazer o que ela quer. Maijómenos assim:
- 'Moooor... - Em fundo fala o brasileiro no meu espertófone:
- Próximo êxêrrcicio, flexõiss. - A arfar:
- Diz, puf, puf. Filhadaputadepanasca, faz tu as malditas flexões, puf, puf. - Ela, sem tirar ojolhos do PC:
- Toda a gente que conhecemos já viu isto dos mortos caminhantes. Não queres ver comigo? - Brasuca:
- Próximo êxêrrcicio, ágáchamentôiss. - Eu, em posição de quem vai mandar um fax de braços estendidos:
- Não. Se toda a gente vê, eu não quero. Ai os meujoelhos. - Em pé, a ver se não me esbardalho. - Sim, sou assim tão embirrante. E não me ponho mais de cócoras. Dass, capaz de dar um jeito aos costados. - Viro-me para ela. Depois de meio agachamento e duas flexões, sinto-me o six pack do Rocky Balboa, há 20 anos atrás. Está de fones, ojolhos no ecrã, a poupar-me o olhar parecezomêpaicoatuidade, mas em mai'bonito. Diz:
- Anda, anda, vai começar. Tomas duche depois.
- Hein?! Já disse que não quero, porque acho que...
- Shhh, cala-te, já tá a dar.
Isto dos mortos que caminham - como o João do scotch, mas sem a bengala - tem um enredo simples:
Uns estão vivos, outros estão mortos mas não há meio de perceberem e querem comer os primeiros. Pelo aspeto e pela filosofia de vida, são assim uma espécie de adolescentes dos 80's a verem o "Marés Vivas". Baba incluída, mamocas balançantes excluídas. O que é pena.
Acho indecente a discriminação aos mortos-mortos. Não contam para nada. Ai estás vivo? Pega lá uma sachola e vai matar mortos. Dass, parece o 5lb a jogar contra o Belém.
Ah, espera, seu magano, isso não é lama de andares de motoquatro por as matas com ojamigos, mariconço. Tu estás é coberto de vísceras porque faleceste. Et pur si muove! Então vai já atrás da loira menos má, a ver se lhe afinfas uma dentada numa nalga. O amigo aí ao canto, o morto morto, faxabor de ir andando e não atrapalhar quem trabalha. É isto.
Quer dizer, se estiverem mortos mas conseguirem ficar de pé e emitir uns grunhidos, têm trabalho garantido. Vivos que utilizem a ferramenta de trabalho para dar cabo da cabeça aos outros, também. Parece uma repartição de finanças.
Mas agora encontro-me viciado nesta coisa e ainda me faltam umas 50 temporadas. O que me irrita é ninguém explicar como é que o apocalipse se deu. Nem porquê. Terá sido uma experiência militar? Uma bactéria que escapuliu? As tensões do Octávio terão sido um sinal? O Zika?
Enfim, na categoria de "diversão a ver monstrengos a serem espancados", não está mal. Mas o nosso jogo no galinheiro foi bastante melhor.
E então, esta manhã, num processo de transferência temporária desta velha carcaça para a Capital, dou com um bicho no casaco. A espreitar da aba, cheio de antenas e assim. Mesmo a pedir um piparote.
Só que é muito cedo e a parte de mim acordada é, exclusivamente, a parva.
Penso: E se este bicho estranho é o agente do fim do Mundo? E eu o paciente zero. Foda-se, vou esmagá-lo.
Espera, podia levar o bicharoco para Lisboa. Pimbas, soltar o Inferno no Seixal. Ou em Alcochete. Construía-se um muro alto ali por alturas de Leiria e pronto, ficávamos com os apitos só para nós! A ver se não recuperávamos os pontos todos ao Jergo. E mais bem governado que ficava o país.
Entretanto chegou o comboio e enfiei um piparote ao insecto que o desfiz. Quer dizer, pelo menos ainda não voltei a vê-lo...
- Pedro! - Imperativo.
- Sim, Senhor. - Atrapalhado.
- Já soltaste a praga? - Desconfiado.
- Sim, Senhor. Só que... - Atrapalhado.
- Ai! Eu vi logo. Fizeste tudo conforme combinado? O bicho pra cima do anormalóide e tal? - A ira a crescer.
- Sim, Senhor. Mas... - A coçar a cabeça.
- Porra pá, sempre a mesma coisa! Não fazem nada como deve ser. É o que dá esta treta dos empregos vitalícios. Qualquer dia dou-te um piparote que te desfaço.
- Pois, foi mesmo isso Senhor.
...