terça-feira, 22 de novembro de 2016

O dia em que Charlize salvou a Humanidade e Pacotes de Açúcar




Andava intrigado com isso do desafio do boneco. Achei que, sendo uma coisa que existe lá na ciberlândia, a minha especialista em redes sociais me poderia esclarecer. Bem boa que é. A especialista.

Mas foi-se a ver, a moça também não tinha um conhecimento aprofundado da questão. Fiquei logo a perceber que é uma cena que não sorteia viagens, não oferece bilhetes para espetáculos, nem dá desconto em lojas de sapatos. Recolho sempre alguma informação nesta fonte, mesmo quando não sabe patavina dojassuntos. E lavo a vista.

Como não sou de me ficar, arrisquei tentar estabelecer alguma forma de comunicação não digital com a centennial que mora lá em casa. Pumbas, o Gates devia ter desligado a internet, porque ela dispendeu uns dois minutos, à vontadinha, para me explicar o que raio é o mannequin challenge. Com o seu ar de sãocoisasmuintafixejequetunentendes, cota.

De posse da informação relevante sobre o tema, pude concluir pela minha cabeça: É estúpido! Bastante, até.

Epá, olha ali uma sessão de mindfullness no topo daquela elevação. Ou será o desafio do boneco? Ena, uma aula de ioga em pleno Parque da Cidade. Naaaa, é o coiso dos manequins. Será que aquilo é um gajo a cagar num descampado, ou estará alguém atrás de uma moita a filmá-lo? 

Com o disparate da água gelada pela cabeça, ainda a pessoa se divertia um pedacinho. Quando escolhiam uns recipientes grandalhões e depois não tinham unhas pójagarrar, por exemplo. Catrapimbas, lá levava o outro com um bidão cheio de água e gelo pelos cornos. Podia ser chato para a cervical do sujeito, majera uma barrigada de riso. É como ver gordos a estamparem-se. É basto estúpido, mas tem graça. O kékuma pessoa há-de fazer? Pois rir-se, já se sabe.

Agora isto? Caramba, trata-se de um mero apelo à lanzice. Fiquem práí, paraditos ohfaxabor, ninguém mexe uma palha. Parecem a equipa de funcionários de uma repartição pública. Em horário de expediente, está claro. Que najóras livres são pessoas bastante ativas. Diz que são. 

Olha, o Varela lançado em profundidade também dava um  belo desafio destes.

Como se não bastasse não ter sentido nenhum, ainda é pouco original. Quer dizer, há quantos séculos é que isto já foi inventado pelo Mestre Manoel de Oliveira? Há um, pelo menos. 

Desde o "Aniki Bóbó, na Residencial Cabinda" - aquele com a Lovelace, que era ligeiramente mais nova que o Mestre. E mais funda, também. Diz que era. - que o homem filmou mannequin challenges unjatrásdojôtros. Ele era pessoas paradas, bichos parados, mobílias paradas, até águas o tipo conseguiu parar. Foi o cabo dos trabalhos, à conta da mosquitagem. Esses, nem o Mestre pôde manter sossegados.

No entanto, como sempre e para ser muito irritante, existem aspetos positivos nesta modinha. Desde logo, aposto que há menos frases do Pedro Freitas, aquele que é uma Chaga no plural, nos murais de senhoras de idade. Devem andar todas a filmar challenges nos salões de chá, todas esborratadas de batom burmelho e assim.

Não é preconceito, que eu nem conheço as senhoras, é só que para ter paciência para tanta repetição e tanta frase feita, é pessoas à beira do Alzheimer. Diz que é. 

Para não ser um bota de elástico - sou um avôzinho bem cool, yeeey - proponho-me desde já a aderir a este movimento viral. Mas quero a vacina em antes, que na minha idade uma pontadita de ar qualquer, amaijóbirus, e pumbas, já foste! Portantos pá, a minha sugestão é:

Fazer um desafio do boneco com a Charlize Theron. É a moça a sair do banho e kétinha aí, babe. I challenge you! Fazconta que estás a limpar o soalho, Charlizinha. Majé como deve de ser, de joelhinhos, ahpoijé minha menina. Assiiiiiim mesmo, agora não mexe mais. Durante umas duajóras, vá.

- Ai sim?! Muito lindo isso. Pareces um velho babado. Olha mas que bem, babe. - Com aquele olhar de sabeskevaispagálas. E é todajuntas! Não é que tenha medo, mas inspira-me um certo receio, pronto.

- Hein?! Não, não, meu docinho. É eu a rénar cusrapazes. Já se sabe, juntam-se os moços e sai disparate. Eheheh. - Só espero que não se note que me treme a voz. Nota-se, pois nota? Bolas.

- Sim, sim, muito rénadios, os cachopos. Menos brincadeira e mais legumes em juliana, meu menino, que a sopa não se faz sozinha.

- E é já, minha flor. Ai ajóras que isto já são. Ainda bem que me avisaste, Sol da minha vida. - A trote para a cozinha.

- Vê lá não apanhes nenhum escaldão. A Charlize de gatinhas, pfff... - De raspão, apanho-lhe o olhar. Não era hmmkinteressante, poi'não? Naaaa! Na?

...

- Pedro! - Exasperado. - Kestamerda agora? Não se mexem? - A olhar pela grande janela.

- Pois, Senhor. Acho que é para depois colocarem naquilo da nuvem. - A consultar calhamaços à pressa.

- Hã? Mas as nuvens não são minhas, késbêr?

- Errrr, esta parece-me que não, Senhor. - Atemorizado. - É uma nuvem de informação, acho eu. 

- E é que não se mexem de todo, olha prákilo. - Surpreso. - Epá, é demasiado estúpido. Vou extingui-los, 'safoda, estou farto deles e dos seus disparates.

- É para já, Senhor. - Saca a maquineta da extinção. O outro apura o olhar na janela.

- Ui, kékilo? Ui, oh Pedro... É a Charlize a sair do banho, de quatro patas? É, não é? - Às voltas com a maquineta, ele olha também.

- Sim, Senhor, é. Olhe lá, isto para extinguir é verde-código-verde, ou só código-verde? - Profissional.

- Espera, Pedro, espera. Vamos dar-lhes mais um bocadinho, talvez... - De olhos muito abertos. E focados.

...

Pensava: Foda-se pá, se tenho de fazer mais um repolho em juliana, corto os pulsos, quando ele escancarou a porta da cozinha e avançou em passo decidido, quase marcial. Esfreguei ojolhos para ter a certeza que era mesmo ele. Aquele estilo não assentava no que até então lhe tinha visto. Ainda bem que não estava a picar cebolas.

Ele estacou diante de mim. Disse:

- Viva, Silva. 

- Olá, caro Fantasma Sagrado.

- Hã?

- Nada, nada, sou só eu a brincar com traduções literais... - Interrompeu-me com um gesto: Stop! Tão assertivo que me arrepiou. Que se teria passado?

Abriu-me a mão e colocou-me um papel amachucado nela. Virou as costas e saiu, no mesmo passo estugado, firme, um pouco arrogante até, com que tinha entrado.

Alisei o pacote de açúcar e li:

"Um dia, perdes o medo ao escuro e serás temido. Hoje é esse dia!"

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Soundtrack to Mr. Holly Ghost: (No more) Fear of the dark.

domingo, 20 de novembro de 2016

Rol de raros e estranhos fenómenos, por Q.Q. Silva



O senhor Quintino Queirós, nasceu Quevedo, como seu pai e, antes dele, o seu distinto avô. Do casual casamento do nome próprio que o padrinho lhe deu, em homenagem a um tio que não chegara a conhecer, e os apelidos das árvores familiares que em boa hora o fabricaram e trataram de parir, chegou-se ao estranho QQQ das suas iniciais.

Se os Queirós nunca sonharam com um elegante zê que lhes aristocratizasse o apelido, já os Quevedo transportavam, orgulhosos, a bandeira de Brasão, para onde quer que fossem. De mãe lavradeira - da terra e do corpo, que nunca a sua cama foi conhecida pela monotonia - e pai patrão, não viria ao Mundo um Quintíno com anagrama dúbio. Ficou Silva.

O senhor Quintino Queirós Silva carrega impante o brasão dos Quevedo e os olhos sonhadores dos Queirós. Segundo duas ou três balzaquianas aqui da terra, não envergonha a ascendência quando se trata de lhes abrasoar a pele. Acrescente-se o orgulho nas origens, manifestado em todos os cumprimentos e apresentações:

- Muito gosto, Quintino Queirós Silva, nado e criado no Entroncamento, aqui acabado por voltas da vida e do coração. Um seu criado. - Se se trata de público feminino, que os homens não merecem criadagem que lhes alivie os fardos. O Quintino é que sabe.

Fica evidente que pouco surpreende o senhor QQ Silva, de tão habituado ao fenomenal, inusitado e inesperado. Mormente ao nível do tubérculo, do legume ou do bicho amestrado. Da batata cuja metade trazia impressa uma figura do Santo Sudário, à abóbora que só à força de grua se conseguiu transportar, passando por um vitelo que era a cara chapada do seu tio Inácio. À época que andava a estudar para padre. O Inácio.

A isto dedicou a sua vida, com assinalável sucesso. Às costas da desnecessidade de ganhar sustento e do tempo livre que isso tende a deixar às pessoas. E respetivas mentes. QQ Silva é Caçador de Raros e Estranhos Fenómenos. Assinala-os, sem perder tempo a analisá-los. Afinal, quem nasce em terra com nome tão honesto - pois que de um entroncamento de facto se trata - não precisa de fingir que tudo se explica.  

Quando astros se alinham de determinada forma - não sou astrónomo e nem astrólogo, pelo que não faço ideia quais astros e, ainda menos, qual forma. A de um legume, se calhar. - desatam a acontecer coisas fenomenais de seguida. O senhor Q explica.


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ROL DE RAROS E ESTRANHOS FENÓMENOS RECENTES, por Q.Q.Silva

1) O senhor Silva, o tasqueiro, pede desculpa em público.

Assisti há pouco a este estranho e raro acontecimento, capaz de relegar para os confins do esquecimento a descoberta da galinha que punha ovos de madeira. Daqueles de cozer as meias. 

O senhor Silva tasqueiro, posto defronte de um cliente, falou em tom suficiente para que todos ouvíssemos e pediu-lhe desculpa. Reproduzo para memória:

- Nuno, tu sabes que há coisas tuas com que simpatizo. Olha, por exemplos, o cabelo e a barba ralos e dessa cor sal e pimenta; os óculos para o quadrado; as origens Africanas. Pá, se fosses em bonito, eras até parecido com alguém que eu conheço. Já do lado da bola, tenho-te semidesancado amiúde e já te disse que não estou nada convencido. Mas sabes, desculpa pá. 

Eh lá, arreda. Nada de abraços e lágrimas e panascagens afins. Ainda não somos íntimos e contínuo pouco convencido. Mas devo-te este honesto pedido de perdão. Porque a verdade, meu caro, é que a sermos roubados no limite da escandaleira - e não no topo da pouca vergonha, como acontece - estarias em estado de graça. Serias o líder do Campeonato, estarias na 5ª eliminatória da Taça e já tinhas limpo lampiões e lagartos pelo caminho. Foda-se, erajomáior, rapaz. É assim que se criam - e que se impedem - ajondas. Olha, as verdes e encarnadas, por exemplo.

Assim, és só um burro que tão depressa acerta, como falha. Na! Só falha. És um manso, como o Presidente. Quando podias ser um tipo cheio de classe, que mesmo roubadinho não lhes liga nenhuma. O FCP é uma miséria e vamos a caminho do fim. A saque, ao abandono, sem rumo nem glória. A culpa é de quem manda. E tua. 

De quem vê doze penalties, em onze jogos, serem esquecidos e, mesmo assim, defende que com um Presidente a sério e um treinador em condições ganhávamos cincazero, é que não é! Achas? Não, pá, apontar baterias para os nossos lindos pés é que nos fará caminhar melhor. Tens dúvidas disso? Pois. Eu também.

Por mim, peço-te, para já, desculpa. Desculpa por ter demorado a perceber que, repito, devias estar à frente do Campeonato, em frente na Taça e a preparar, em ombros, a qualificação para a próxima fase da Champions. Onde estamos porque nos apuraste. É isto.

2) A Frente Fria do Campo Grande

Há noticias perturbadores acerca da existência de uma Frente Fria permanente, o que é raro e estranho, na zona do Campo Grande, em Lisboa. O fenómeno começa a ser basto documentado.

Ao que se sabe, a Frente Fria do Campo Grande baixa quando lhe dá na gana, provocando a súbita mudança de estado dos gases que resultam da evaporação. Digamos que estamos, por disparate, num balneário, a fumar um cigarro eletrónico. Chupa-se a coisa com força, salvo seja, para matar o vicio. Se, por bidisparate, quisermos expelir o vapor que restar, após o percurso pulmonar, nas trombas de alguém, pode bem acontecer que a Frente Fria acabe por liquefazer o fumo. Parecendo que não, pode ser desagradável.

3) A Burrice Humana

Não sendo um fenómeno raro, torna-se cada vez mais estranha a capacidade do Homem ser completamente tapado. 

Há algumas décadas apenas, um tipo pequenito e algo enfezado, moreno, crê-se que de linhagem judaica, escreveu um livro. Os iluminados fartaram-se de rir com aquilo. Tanto, que lhe entregaram o poder numa bandeja, pouco depois. Confiantes.

Afinal, era evidente que tudo aquilo eram exageros próprios de campanha. Para além de que eles próprios seriam, sempre!, o garante da normalidade.

Pelo Mundo fora, a populaça fez piadas ao longo dos anos. Com o bigode, o cabelo, o tom de voz irritante, o discurso estupidamente radical. Enfim, com o anúncio de viva voz de tudo o que estava por vir. E memes. Ai, espera, memes ainda não havia.

Hoje há protestos em Nova Iorque, e memes, em outras cidades também, e memes, porque outro moço com o cabelo esquisito se apresta a fazer aquilo que...disse que ia fazer. E elegeram-no. Numa bandeja de prata.

Credo.
  
4) Um Crescente, uma Estrela, um Estúpido perigoso (outro)

O Presidente da Turquia saiu por cima de uma recente tentativa de golpe de estado. Que por terem estado, alegadamente, envolvidos nela, tenham sido detidos milhares de militares, juízes, professores e etécéteras, é capaz de ser revelador do grau de confiança que a dita sociedade civil tem no seu Presidente. Da militar nem se fala.

A Liberdade de Expressão parece que também ficou com termo de identidade e residência. Bem como algumas outras liberdades fundamentais, ocidentalizantes. 

O raro e estranho fenómeno, no entanto, é que este senhor, cavalgando a sua importância estratégica, ainda manda postas de pescada. É mais arrotos

Ou seja, a Turquia quer ser Europa, Unida, mas deixem lá isso da Liberdade e assim, que chatice. Que mal tem uma pena de morte por outra? Mas se vão ser picuinhas, então óspois não se admirem que bazem mais uns quantos. Olha, com um bocado de sorte, criam uma Companhia concorrente. E aceitam a Turquia do Erdogan a partner.

Se fosse cavalgar um ananás panado em gravilha e cavilhas enferrujadas é que ele estava bem. Embora fosse igualmente estranho. Mas não propriamente raro, já se sabe.

5) A Fé

Eu quero muito, muito, muito acreditar. Eu quero, eu posso, eu vou acreditar. Que estranho. 

Mas não se esqueçam, geringôncios, que nós sabemos que a CGD é pública. Por isso, os gestores da CGD são administradores de uma entidade pública. O que os obriga a cumprir os mesmos requisitos de todos os outros. E estamo-nos a cagar de bastante alto para os compromissos, mesmo que escritos, que V.Exas. assumam. 


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Somos comuns e temos senso. Nada podeis contra nós. Mas queremos acreditar. E vamos. Vou?


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Soundtrack to rebellion: Vivam o Povo e rebeldia!

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- Pedro, tens algum anticiclone, ou outro fenómeno climatérico do género, estacionado no Campo Grande?

- Hã? Quem é que desenterrou esse desassunto, Senhor? - Incomodado.

- Oh, o do costume...

- Raisparta! Vou ter que mudar o bicho de poiso, que maçada. Irra, fulaninho embirrante!

- Estou farto de te dizer...


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Mesa do Canto: Hora do conto (com Lápis Azul e Branco)


A verdade, verdadinha, é que a Tasca cumpre uma importante função social: Tomar conta de maduros. E de menos maduros. E do catraio de uma moça de olhos claros, de vez em quando.

É a modos que um "Bichos Carpinteiros", onde as senhoras deixam os seus mais que tudo; os seus maijómenos importantes; os antejaqui que em casa a moer-me a paciência; e um ou outro nemmaceguinha te queria. E lá vão, lampeiras, à sua vida, às suas compras, afazeres, Bertos ou meros esparrejamentos em sofás, deixando os programas vespertinos de televisão - onde andam as baleias nestes tempos de reality shows e apresentadoras romancistas? - drenarem-lhes os poucos miolos que lhes sobram. De aturarem os que eu gosto de aturar. Em sendo pago, pois claro.

Portanto, era mais que tempo de adequar a oferta e criar um espaço lúdico-pedagógico: A hora do conto. Como o cómodo é escasso e as moscas abundam, arruma-se tudo à volta da Mesa do Canto e entrega-se a cabeceira a um pedagogo. Dos lúdicos.

Que o rapazote tenha arranjado um fato de Lápis, qual personagem de uma Rua Sésamo da vida, já é bónus do artista convidado. Advém-lhe do brio profissional e não acresce ao cachet. E o que a malta gosta de bonecada.

Ele pigarreia para aclarar a voz. Os velhos imitam-no, por vício de pigarrear. Os restantes inclinam-se para a frente nas cadeiras, com as mãos entrelaçadas entre as pernas abertas. O puto abanca-se no chão, com as pernas à chinês. Eu decreto:

- Silêncio, vai começar.

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Astérix e a Romanização

Esta estória não se passa no tempo de Astérix, Obélix e Ideiafix. Esta estória passa-se muitas, muitas gerações depois. 


Naquele tempo (perdão, Senhor), este trio de heróis liderava as aventuras da tribo de irredutíveis gauleses que se recusava terminantemente a vergar perante o invasor romano, fazendo da manutenção das suas tradições e costumes de gauleses um ponto de honra. 

No tempo desta história, a aldeia gaulesa já mal se conseguia reconhecer. Já não havia heróis, para começar. Ou se calhar havia, mas noutras paragens. E, mais importante, os ideais da famosa tribo ficaram soterrados sob as areias do tempo. 

Não sei quantos chefes já lideraram a aldeia desde Abraracourcix, mas foram seguramente alguns. A irredutibilidade esbateu-se, as luzes brilhantes do império romano tornaram-se progressivamente irresistíveis e os chefes, um após o outro, foram estendendo a passadeira vermelha ao invasor. Houve até um que deixou o seu cargo na aldeia para ir fazer política para Roma. E os que não chegaram tão longe, foram abrindo os portões da aldeia. 

O peixe de Ordemalfabétix, por mais robusto que fosse para zaragatas, foi preterido pela oferta trazida por grandes mercadores de outros ponto do Império, sacrificando o sabor do "mar de Lutécia" pela poupança de sestércios. O mesmo em relação ao negócio de armas de Éautomatix, cujo neto se viu forçado a fechar, abandonando também ele a aldeia à procura de uma vida melhor para si e para a sua família. Tal como Assurancetourix, o bardo, que foi forçado a juntar-se a uma trupe de saltimbancos e até Panoramix, trocado pelo engodo do sistema de saúde público romano. Sobrou apenas o artesanato de menires em miniatura para turistas. Grande parte das crianças da aldeia vai estudar para Roma, onde acaba por se fixar pela maior facilidade em exercer o seu ofício.

O chefe de agora aparenta querer retomar onde Abraracourcix parou, mas a inércia dos seus conterrâneos e os tentáculos do Império não lhe vislumbram uma tarefa fácil. Logo veremos se mais cedo ou mais tarde não seguirá também inebriado pelo odor do poder.

Infelizmente, o problema não é exclusivo da famosa aldeia. É transversal a todos os territórios ocupados pela macrocefalia da capital. A romanização é uma triste realidade e por vezes parece ser um processo imparável. Os políticos de Roma montaram um sistema, aperfeiçoado ao longo dos tempos, que concentra na capital os recursos de todas as províncias, essencialmente para benefício próprio. 

Este sistema faz engordar Roma, ao mesmo tempo que esvazia o restante do Império, reduzindo-o a mera paisagem. Isto, inevitavelmente, provocou um movimento migratório de todas as periferias para o centro romano, que se estende já por várias gerações, ao ponto de actualmente grande parte dos habitantes da capital não serem romanos. Há um melting pot de gente de muitas tribos e aldeias dos quatro cantos do Império que, perante o irresistível desejo de se integrarem na sociedade romana, se transformam em romanos da noite para o dia, renegando as suas origens.

Durante muitos anos, foi através do desporto que a aldeia conseguiu manter a sua identidade, quando os demais sectores da sua sociedade já se haviam rendido aos impostos pela capital do Império. Não o desporto favorito de Obélix, o espancamento de romanos, mas o "foutbôle", o jogo mais apreciado por todo o Império. 

Como não poderia deixar de ser, para os romanos este era um jogo de XI contra XI, mas no final tinham que ganhar sempre eles. E assim foi durante décadas, até que um jovem e destemido chefe da equipa gaulesa desafiou e derrotou o poderio romano. 

Esse domínio de décadas da principal equipa romana, a única que tinha permissão para ganhar e para contratar os grandes jogadores de todo o Império, e portanto, a única que poderia brilhar quando defrontava equipas de outras civilizações e impérios, gerou em todas as províncias romanas uma enorme onde de apoio, alargando a sua base de apoio a todo o território - incluindo na "nossa" aldeia gaulesa. Esse apoio transmitiu-se de pais para filhos, de geração para geração, subsistindo ainda hoje como a maior base de apoio de todo o desporto interno.

Qualquer político romano que se (des)preze, jamais poderia desperdiçar esta muleta e deixar de cavalgar esta onda fácil. Jamais alguém em Roma se atreveria a desaproveitar qualquer oportunidade de se associar a uma vitória das equipas romanas, por mais insignificante que fosse. Folclore gratuito para todos, sempre que possível, granjeando simpatias e evitando que se olhe para outras coisas entretanto.

Voltando à aldeia gaulesa e ao bravo chefe da equipa da aldeia, foi no seu consulado que os papéis se inverteram, inaugurando um inédito período de glória ímpar em todo o Império, mobilizando atrás de si todos os verdadeiros gauleses, da sua aldeia e de muitas outras espalhadas por toda a Gália. A história de sucesso foi tal que por todo o Império, e até em Roma, se conquistaram muitos novos apoiantes. 

No entanto, nem todos na aldeia ficaram agradados com o estrondoso sucesso do (agora já não) jovem chefe e do seu clube. Alguns foram sodomizados pela tal onda romana ou simplesmente herdaram a sodomia. E aos seus olhos de lacaios, nada como enfrentar os seus "irmãos" gauleses para agradar os mestres romanos e, quem sabe, arrecadar alguma migalha vinda da capital.

Hoje, o chefe já não é jovem nem destemido. E na aldeia já não há quem faça frente à sufocante romanização. Não há? Há pois! Milhares de gauleses estão dispostos a defender a sua aldeia perante todo e qualquer invasor. Só falta quem os volte a mobilizar em torno de uma bandeira que os una.

Qualquer semelhança com outra qualquer realidade é puramente intencional.

Lápis Azul e Branco,

Este senhor opta por escrever na ortografia antiga. Bota de elástico.
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Quando pedi ao Lápis que ocupasse a Mesa do Canto, para explicar porque é que os de lá de baixo parecem condescender mais com as suas paixões fintabolisticas - muitas vezes deixando-me na dúvida sobre quem é, de facto, bairrista - previ uma crónica de opinião. Direta, ao bom estilo Lapisiano. Já se sabe que não fez nada do que eu lhe disse!

Em vez disso, Sua Senhoria mandou o seu labrego entregar-me o ópus acima. Que tem tudo, mais a extraordinária qualidade de nos deixar a pensar. Para além do cuidado na metáfora. Tasca style, arrisco do alto da minha proverbial modéstia.

Por isso, obrigado três vezes, pá. Uma delas pela inveja. Porque raio não havia de ser eu a escrever todos os bons posts? Não percebo...

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Soundtrack to kindergarten: Cry for Pompeii

domingo, 13 de novembro de 2016

Nomes - Pot-pourri




No seu passo para sempre lento, calculado ao centímetro da dor permanente, aproxima-se do seu banco ao balcão. Não se senta, mas estende-me uma folha rasgada à pressa. Diz-me, num tom baixo como as nuvens da tarde que chove:

- Não acabou, Silva. Ainda não. - E sai, devagarinho, com ar satisfeito, por não se julgar inútil.

Leio.

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"Nomes - Pot-pourri

Entardecia.

A chuva escorria, miúda e persistente, acumulada em grandes gotas nas vidraças. Era cinzento lá fora e um pouco mais escuro aqui. 

O céu pesado, a água a encher de pontos transparentes a imagem do Mundo, uma motorizada a cruzar o silêncio - podia ser uma sirene de emergência, se aqui fosse um prédio alto - dois latidos isolados e, algures do fundo da mente, o crepitar de um toro numa lareira.

Entardeci.

Paralisado na cama por fazer, fixo na janela, com receio de quebrar o lento - oh, tão lento - transcorrer dos minutos, sou um lançar de dados em camisolas grossas de lã. Ou uma língua na boca que torna o cobertor desnecessário. Um pijama quente, deitado de costas na carpete da sala, enquanto crianças me saltam na barriga. 

Passa a motorizada, graniza na janela, enche-se o Mundo do cheiro a castanhas assadas.

Anoitecia.

As mãos dormentes por debaixo da cabeça. Passou muito tempo? Nestes dias, é difícil saber quantas horas são entre entardecer e anoitecer. É sempre quase escuro. 

Se pudesse - mas podia! não posso? - virar-me para o outro lado, haveria um candeeiro de luz fraca e amarela aceso, uma pilha de livros inacabados, algumas fotografias e um lugar vazio. O meu. Ocupado à vez, por cada um de mim.

Anoiteci.

Uma mão terna a esfregar uma dor de barriga inventada. A paixão a cravar-me unhas nas costas. O fumo de um cigarro. Uma dúvida de Português ou de História. Equações passadas à pressa, para manter a (in)sanidade no banco de trás. Uma noite de bifes com pimentos. Lá longe, onde se conduziam carros azuis.

E então tu cantarolaste ninániná.

E então tu sorriste, com o cabelo caído sobre metade do rosto, e mordeste o indicador.

E então tu puseste a minha mão na tua barriga. E ela mexeu-se.

E então vocês cresceram tanto.

E então tocou "Nasce Selvagem" a plenos pulmões e dedos a tamborilar no volante, a janela aberta e a cinza a pingar do cigarro dele.

E então tu deste uma gargalhada rouca e tiveste um ataque de tosse.

E então, súbito, o inicio da noite era Verão e todos riamos.

Hoje amanheceu tanto Sol. 

Obrigado."

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The living and the dead keep coming back, into my arms

terça-feira, 8 de novembro de 2016

#NEStodoculpadErrera


Parece que sinto aqui um nó, pá...

Parto de uma pergunta simples, a questão seminal na verdade: Porquê?

Porque é que a equipa que dominou todo o jogo, que chegou à merecida vantagem, que tem o adversário encostado às cordas, o estádio em delírio ao seu lado, desiste? Se entrega à forca, na esperança de que o carrasco se atrase e o crime prescreva? Porquê?

Porque, sendo jovens, acreditam que a função do soldado é obedecer e depois pensar. Seguem a ordem, o sinal. E assim morreram, morrem e morrerão, muitos milhões. Boa parte dos quais inocentes. O que é muito mais grave que o FCP não ter querido - porque pôde - ganhar aos lampiões, depois de um banho de bola.

Já toda a gente falou - e refalou - acerca do jogo de Domingo, pelo que basta fazerem o rali das tascas - aqui mesmo na coluna ao lado - e já ficam a saber tudo. E ainda viram uns tintos de eleição. 

Também podem ler "A Bolha" e conhecerem o Herói do Povo. Todos os dias me sinto um pouco mais Africano. E Galego.

No entanto, sendo tempo de arejar a Tasca - tenho saudades do chinfrim e do barulho dos copos e de gente a falar alto - não resisto a meter a colher. Até porque creio que, partilhando genericamente da maioria das opiniões, em alguns detalhes penso de forma diferente.


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Como seguramente repararam - não vejo porque outro motivo seguem o futebol, senão para aquilatar do meu grau de razão - a equipa que eu escolheria para jogar de inicio contra o 5LB, não teve nada a ver com a que NES escolheu. 

Fez ele muito bem, porque o FCP entrou bem, continuou bem, meteu os lampiões dentro do buraco de onde nunca deviam ter saído. É nos buracos que os vermes estão bem. De tal forma que ao intervalo a coisa podia estar resolvida e a malta já podia passar a segunda parte a combinar onde ia jantar e assim. De vez em quando olhava-se para a relva, para ver quem tinha marcado mais um golo dos azuis. Se lhes apetecesse.

Mas o intervalo não fez mal a ninguém. Pelo contrário, provocou yet another indisposição ao melhor jogador dos energúmenos. Pumbas, incha vomitão de um cabrão, já lá mora o primeiro. E nos cinco minutos seguintes, parecia que iam morar mais uns quantos.

That's all folks

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NES montou a equipa, gizou a estratégia, é o responsável primeiro e máximo pelo excelente FCP que esteve Domingo em campo. Vulgarizou o Tricolocampeão Nacional, ao ponto de o Arouca e o Brugges terem parecido melhores equipas. Que não são.

Curiosamente, mais em 433 do que em 442. Curiosamente, dando à "nossa" filosofia o seu cunho de rapidez e objetividade. Curiosamente, deixando para Oliver o que é de Oliver e oferecendo-lhe uma linha de passe vertical, mais duas laterais e mais o Silva. 

Estou-me um pedacinho a danar para essa história da raça e da entrega e do ADN e de fazer florzinhas nas bordas dos cadernos e assim. Acho que isso tudo faz parte dos contratos principescos que esta malta toda - os nossos e os outros - assina. Era o que faltava que não fossem solidários e abnegados e dessem tudo em prol da equipa. Ainda assim, parece - e é espantosamente aceite - que nem sempre acontece e que é um feito consegui-lo. Nesse caso, é mais um mérito que se deve, e este é transversal a toda a época, acrescentar à conta de NES. Thumbs up, mate.

Desafortunadamente, fico a pensar: Se o cobardolas do Artur não tem impedido que o Silva marcasse aos 25 minutos da primeira parte, o que seria de nós? O que nos reservaria toda uma segunda parte, pelo menos, de aflição, vendo aquela espécie de Tondela a acreditar cada minuto mais, inspirado pela inexplicável paralisia do Brasão Abençoado? 

Ouviste bem, oh pessoa que não sabe desenhar, O-BRA-SÃO-A-BEN-ÇO-A-DO! É uma bandeira estúpido! Avança, imortal, indomável, azul, branca. Vês, pela ordem que quiseres, de cor, sem hashtags, sem paneleirices, que a poesia não é para panascas. Panasca!


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O meu problema não é que tenhamos empatado. Quer dizer, é, claro, também. Mas o meu maior problema é que nos forçámos a empatar. Não me venham com o Horta. Foda-se, eu estive lá.

Não aconteceu NADA que não tivéssemos provocado: O aparente domínio do último quarto de hora, as bolas paradas, as recuperações consecutivas de bola contra...ninguém. Fomos nós que abdicámos, não foram eles que conquistaram.

Se NES tem - pode ter! a confirmar - o mérito de ter chegado lá, à equipa e à forma de jogar que nos pode levar a algum lado, também é responsável pela mais estapafurdia estratégia de jogo de que tenho memória: Marcamos, seja contra quem for, e defendemos muito. E defendemos mal. E não queremos a bola, só queremos que o jogo acabe. Depressa, enquanto não estamos a perder. Faz sentido? Não. 

Mas se o homem chegou ao futebol daqueles 65 - sim, para mim foram 65 e estou a ser generoso - minutos, então é porque é rapazinho para perceber que se encontra perante uma escolha importante:

1) Investe forte em fraldas para adulto, por forma a minorar a sua compulsiva tendência para se borrar todo, e mantém a equipa subida, intensa, ameaçadora. É que, ao contrário do que o próprio quer dar a entender, isso não depende assim tanto de quem entra e de quem sai. Vejamos:

Compreendi todas as substituições. Discordei de todas. Mas a mim ninguém paga para tomar decisões, portanto bico calado, trabalho de NES. 

Com Danilo, Ruben e Otávio no centro, o FCP tem toda a capacidade para ter bola e a manter longe da sua baliza. O chuto desesperado para a frente treina-se à semana, não é característico destes jogadores.

Ajudados por Layun numa ala e Herrera na outra então, não há meio-campo adversário que cheire a chicha. Resta-lhes mandar bolas da defesa para os pinheiros lá da frente. E o jeito que nos dá ter centrais em boa forma. Inchem. 

Só que não. Porquê? Mistério.

2) Torna a nossa saída para o contra-ataque letal. Com médias próximas dos 100% de eficácia. De modo a que qualquer adversário do FCP que se apanhe a perder pense: Tamos fodidos! Ou vamos para a frente e levamos 4, ou perdemos só por 2. Caralho pá.

Simeone demorou uns anos a conseguir fazer isso em Madrid. Com muito dinheiro disponível. Não temos o tempo nem o dólar. Portanto, teríamos que ter o génio. Terá NES?

A única certeza que tenho é que é este o homem que vai mandar até ao fim deste ano, pelo menos. Cá estarei, nas suas costas, pronto a desancar quem se atrever a tentar bater-lhe. O NES é nosso, quem lhe bate somos nós e fodemos as trombas a qualquer paspalho que se habilite a duvidar disso!

Sim, eu disse ano. Your call, Holy Spirit. Mas, por favor, sem desenhos, nem hashtags, nem lugares comuns que me fazem corar.


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E Herrera? Uns crucificam-no, outros, apologéticos, defendem que "meh, não foi assim nada de especial". Já esta manhã li, inclusivamente, alguém que defende que o tipo fez bem. Teve foi azar. E também já me disseram que a culpa foi do Pinto da Costa, que não o vendeu. 

Mantenho a esperança de assistir, em vida, à apresentação do argumento de que a culpa é da droga da porta 18 e do Orelhas, que outra explicação não existe para o lampião se ter conseguido desviar.

Estão todos, claro!, errados.

Devia ter sido Brahimi. Porque seguraria a bola mais longe, porque era capaz de fintar os mecos todos e fazer golo ou, pelo menos, eles pensariam nisso. Devia ter sido Brahimi, porque os 4 minutos passariam mais depressa entre uma falta e uma caixinha junto à bandeirola de canto. Deles. Devia ter sido Brahimi, porque em vez de tentar acertar no palhaço para ganhar um lançamento, teria agarrado a bola e, provavelmente, sido derrubado. 

Isto é totobola à segunda. Mas se eu fosse obrigado a fazer o Totobola à sexta, devia ser treinador do FCP.

Herrera errou! Grave e estupidamente. E sim, perdemos dois pontos por isso. Se fosse um frango de Casillas, a culpa era de quem? Se fosse um penalty falhado por Oliver nos descontos, a culpa seria de quem? Foi uma Maiconada do Herrera, a culpa é minha?

Ah, não, mas depois ninguém cortou o canto.

Mesmo dando de barato que o ponto é o canto NÃO dever existir, como desculpar Herrera com isso? Vejamos, o 5LB beneficiou de 9 cantos. Um ressaltou na cabeça de Felipe e acabou no poste. Outro deu golo. E 7, foram tão perigosos como o Kaviedes solto na área, a ser enrabado pelo Roberto Dinamite. 

Em todos, o 5LB aproximou um jogador do marcador da bola parada, na expetativa de um canto curto. Em todos, o FCP, por Corona ou Otávio a maior parte das vezes, colocou um jogador nessa linha, impedindo aquele desiderato.

Todos? Não, um canto resiste ainda e sempre à inteligência. O de Herrera. Aquele que Herrera não apenas provocou, na pior altura possível da pior forma que se pode imaginar, mas ainda conseguiu transformar no único que o 5LB conseguiu bater de forma diferente. Porque se esqueceu de estar onde devia. Apagou. Riu para não se sabe onde. Distraiu-se. Maiconou. Twice

NES dobrou-nos, Herrera abriu-nos as nalgas e, não contente, empurrou o massajador facial até ao fundo. Sem lubrificação. Porra, dói.

Vamos pois matá-lo? Nem pensar. Nada contra um insulto ou outro nas redes sociais. Afinal, se servem para os moços se pavonearem e hashtagarem tudo e mais qualquer coisa, então é natural que sirvam para ouvirem do que não gostam. Digamos que se recuas para os últimos 30 metros, todo borrado sem se saber porquê, e metes o Herrera... É natural que acabes por não ganhar.

Seja como for, o Herrera é nosso, já foi - e voltará a ser! - muito útil, é um ativo importante e parte do grupo. Deve ser respeitado enquanto tal e recuperado, se for caso disso. O que não significa que não lhe gritem ójóvidos: Tavas a pensar em quê, oh filhadaputa? Voltas a fazer isso, vou-tástrombas!

- Eu também.

- E eu.

- E eu.

- Eu ia já, posso?

- Não! No es todo culpa de Herrera.


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Soudtrack to NES: Come on, get up!

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Com um grande e sentido OBRIGADO ao Miguel e ao Jorge e à minha Queen Bee - aquele "diverte-te" valeu por um grande "amo-te" - por terem tornado o Domingo num belo dia, nevertheless.

domingo, 6 de novembro de 2016

A verdadeira história da Morte de Figueiredo


Para um propósito meramente informativo, "Morreu Figueiredo" seria suficiente. Encerrava-se o assunto em meras duas palavras, um verbo afeta o substantivo, dá-se duas sacudidelas de mãos e está feito. Não é como se houvesse muito mais para informar, acerca da morte de Figueiredo ou de outra qualquer de qualquer outro apelido. Morreu, já está.


Muito ao jeito daquele senhor, supremo somítico, que, posto perante o pagamento mínimo de cinco palavras para um anuncio na secção de necrologia, optou por "Morreu Maria. Vendo Opel Corsa". Fechada uma vida, é enorme a quantidade de coisas que passam a ser inúteis. A começar por um Opel Corsa a mais.



Acontece que, não por escolha, vim a ter acesso a dados relevantes quanto ao acaso em apreço. São detalhes de uma ordem de estranheza tal, fenómenos tão improváveis, que não me resta outra alternativa que não contar. Partilhar um laivo de loucura, poderá ser?


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A Morte tinha claro que estava atrasada. Sabia também que os atrasos fazem parte da sua rotina, ninguém lhos aponta, ninguém lhos cobra. Compensa-os com uns quantos adiantamentos. Mas agora, via-se perante o esgotar de toda a tolerância. Era mais que tempo, Figueiredo devia morrer.


Foi por isso que, mal pôs os olhos no relógio, junto à máquina de café, alertada pelo primeiro e único "sabes, P.inho, a mana não dura muito mais" - nas raras lágrimas que não soube evitar em público - saiu disparada através das paredes, em vez de tomar, como era seu hábito, os passos tranquilos do corredor. 


Gostava de percorrer devagar aquele corredor, espreitando distraída para dentro das salas, imaginando as auxiliares a vestirem as suas batas, ouvindo o tom da tosse dos pacientes internados, sentido-lhes o pulso a enfraquecer, anotando, de vez em quando, números de cama. 

Uma enfermeira atrasada - como a Morte de Figueiredo - sentiu um estranho arrepio na nuca ao deixar cair a bata sobre os seios nus; uma senhora acamada jurou ouvir a sua falecida mãe chamá-la para comer a sopa; instrumentos de medição avariaram inexplicavelmente; duas janelas bateram e a porta de emergência, ao fundo do corredor, abriu-se de par em par. Parecia que andava o Diabo à solta.


A Morte cruzou tão rapidamente a sala sete que nem o senhor da cama 25 morreu. Oh, paciência, há tempo para ele. Quando atravessou essa última parede, já afagando o alivio da missão quase cumprida, deu, uma vez mais, de caras com uma roda de gente. E as suas gargalhadas. As suas piadas negras e parvas. O cuidado com que alguém remexia a pasta que era suposto ser refeição. Enfim, a forma como, em torno de um leito de Morte, os discípulos bebiam ainda a água do Senhor. Da Senhora.


Já outras vezes a Morte se deixara atrasar por estas coisas. Mais fascinada que condoída. Hoje, teria que ser diferente, estilhaçados os prazos, pulverizadas todas as médias de sobrevida. Ah não, hoje fecharia o seu coração negro e seguiria em frente. Com as mãos a taparem os ouvidos, se fosse preciso. Só que se esqueceu dos olhos. 


Foi assim, determinada mas impreparada, que a Morte deu de olhar no olhar de Figueiredo. E especou. Ali ficou, meio gelada, meio paralisada. Presa de movimentos, pronto. 


A Morte passou a viver na parede da sala de Figueiredo. Quase paralela ao relógio branco, à esquerda do campo de visão de quem moresse na cama 28.

Quando todos saíam, as duas conversavam. Negociavam timmings, mediam cansaços, trocavam receitas, contavam coscuvilhices do pessoal. Espantosamente, a Morte aprendeu a rir e a gargalhar. E jurava que nem em dias de Vida se tinha sentido tão bem. Até que uma dor as vinha lembrar, retirá-las do seu descansado desfiar de minutos. E de memórias.


Todos os dias Figueiredo se entregava um pouco mais à sua Morte. Todos os dias lhe pedia mais outro, apenas. A Morte, lá do seu lugar na parede, nunca lhe disse que não. Até que voltou a doer muito. Demais. E Figueiredo estava demasiado cansada para imaginar, sequer, que lhe pudesse voltar a doer assim.


Enfermeiros puseram gente na rua, auxiliares trocaram-lhe a bata ensopada em suor e dor. Encontraram, sabe-se lá como - ou porquê - um intervalo de calma naquela guinada atroz. Deixaram Figueiredo para dormir. Ela olhou para a parede à procura de conforto e companhia. Disse para a Morte:


- Achas que eles entendem? Achas que eles já entenderam? Se me deixar descansar - tão exausta que estou - eles vão perceber, em tempo, que cada um é um pedaço de mim? Que juntos me revivem e, cada um por si, serão o pedaço de mim que me deixaram entregar-lhes? Poderei acreditar que se gostam para lá do Amor que me têm? Queria ter feito mais, sempre.


A Morte abriu o esgar que lhe faz as vezes de sorriso. Deu um passo em frente, por fim, e estendeu-lhe a mão. Disse:


- Não vai doer mais.


Não doeu.



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Figueiredo e a Morte balançavam os pés descalços, do topo do Penedo do Guincho, enquanto a matilha se despedia da sua Alfa. São vãs as despedidas de quem nunca parte. A Morte levou Figueiredo, mas nenhum destes, na areia, se convenceu a deixá-la morrer.

No pequeno rochedo, rodeado já de água, sobra um dos cinco. Olha para a praia da mesma perspetiva exata de Figueiredo. Entre aqueles, em roda, com as suas fraquezas e defeitos, cheios de um Amor que parece sem destinatário, mas perto, a distâncias que nunca foram tão curtas, está quem a Morte levou. 


Ele esfrega primeiro os olhos, certo de que as noites por dormir e a força para não chorar o fazem ver coisas. Depois procura a onda que o deixará sair da pequena rocha. Olha de novo. Sim, de todos eles, da sua soma, emerge de novo Figueiredo. 


Upa, ai está ela, a aberta seca para regressar à praia. Ele pensa:

- És mesmo parva, tinha que ser eu, pois era?


- Era um abraço, estúpido. - Responde-lhe no seu tom eternamente doce.



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A Morte e Figueiredo balançam os pés descalços do topo do Penedo do Guincho, enquanto pescadores estranham as cinco rosas brancas plantadas na areia. 


Voltarão, juntas ou à vez, a este lugar, sempre que lhes der na gana. E haverá flores na areia.



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A Morte viveu nos corredores do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, por mais de um ano. Passeou ao nosso lado e tomou café na nossa mesa. A Morte não é rancorosa, nem vingativa, mas é velha e sabe coisas. 


A Morte cheira a cancro e uma pessoa habitua-se. Aprendeu a gostar de sambas simples e alegres do Martinho da Vila e a despejar demasiados pacotes de açucar nos abatanados. A Morte gosta de sopa de peixe e de caril de camarão.

A Morte assistiu às consultas enfadadas e à resignação do Dr. Direndra. Aquele que era o General designado do nosso exército, estava derrotado à partida. Tão farto de ter que fazer de conta que...nunca fez.


A Morte sorriu com a bem-disposta esperança do Dr. Pedro Barradas e o seu bigode farfalhudo. Anotou no seu caderninho o carinho do seu tom e a sua capacidade para...fazer de conta. Com convicção.

Da mesma forma que recorda as explicações simples e cheias de luz - e os e-mails terroristas - do Dr. Nuno Gil, na Fundação Champalimaud, em Lisboa. Até à ausência de resposta, por extravio ou por a pergunta já não valer o esforço de responder.

A Morte conhece de cor os números de segurança social dos elementos de determinada equipa multidisciplinar, que permitiu que uma paciente vivesse um mês com um braço partido, sem nunca ter procurado a origem a da dor. De igual modo, regozijou-se com todos eles pelos resultados do primeiro ataque, frontal e decidido. Ainda o General era outro.

A Morte ficou tão chocada perante a frieza da Dra. Vanda, que não a matou. Nunca antes tinha visto alguém capaz de olhar um filho nos olhos e dizer-lhe:

- Mas oiça, ninguém vai salvar a vida à sua mãe, pois não? Vai dai, desinfete lá do caminho que eu tenho mais o que fazer. - Se não foram estas as palavras, foi isto que os nossos corações ouviram. O da Morte também.

A Morte deu um chuto na Dra. Ana Sofia, quando esta teve o desplante de dizer, em passo de corrida, a um irmão:

- Só estou aqui para urgências. Não me vai dizer que a sua irmã é uma urgência, pois não? O Dr. Pedro não tem falado convosco? Sabe em que estado está, não sabe? Agora desinfete lá do caminho que eu tenho mais o que fazer. - Quem não sabia do estado era a própria Ana Sofia, do fundo dos seus óculos fora de moda.

Mas também registou a sua humildade ao desculpar-se, perante uma sala de gente capaz de a fazer em picadinho.

A Morte orgulhou-se da competência e disponibilidade do Enfermeiro Ricardo. E de um outro, alto e magrinho, cujo nome lhe escapou. Assim como não esquecerá a arrogância de outro ainda, cuja identidade sexual é, no mínimo, dúbia.

A Morte enterneceu-se nos olhos doces e bonitos da Enfermeira Ana, quando dizia a uma roda de gente desfeita:

- Fiz o que gostaria que fizessem por mim. - É tudo o que vos pedimos, caros senhores.

A Morte não discute a competência, nem as condições de trabalho. A Morte compreende tudo e não esquece nada.

A Morte é Arya Stark. E todos nós somos a sua lista.


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Morreu Figueiredo. We've all been victims of a crime.


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Com uma vénia a Vinicius de Moraes - outro imortal - e à Última viagem de Jayme Ovalle.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Pai, o Filho, o in between e outras notas breves

Basta adicionar uma equipa e já está!.


Ontem teria sido um dia feliz, muito feliz, se não pudesse, por imperativo, ter ido ao Dragão. Teria sido um muito bom sinal, cá por coisas minhas que agora não interessam nada. A puta da Vida - andamos esquinados nestes tempos - ou da Morte, sei lá qual das duas é que toma decisões, não quis que assim fosse.

Regressei portanto, umas semanas depois, à minha Arquibancada. Desta vez, bem coladinho a um batalhão assinalável de descendentes dos inventores da batata frita. E vi um jogo que se resume muito rápida e eficazmente, mas com alguma proporção bíblica:

No inicio, era o Verbo. De encher. E andámos nisto uma boa meia-hora. 

Depois, fez-se Silva. O André.

De seguida, veio a Grande Noite. Dela saímos ilesos, às costas de San Iker.

É isto.


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Lá em cima, com espaço para ver a bola quase deitado, dei por mim a pensar no jeito que nos dariam o Heldon e o Kuca, naquela segunda parte. Malta habituada a defender nos últimos 30 metros e a partir dali, desabrida, para a frente. Na esperança de uma bola pingada que lhes caia do Céu, com mais trinta metros para correr. 

Oh well, janeiro está já ali ao virar de dezembro. Se quisermos ser poupadinhos, temos sempre o Marega...


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Quando revejo mentalmente o jogo, penso: Ena pá, este Belgas são uma equipa organizada, fisicamente dotada - salvo seja! - que troca a bola com competência e sai rápida para o ataque. 

Aí está algo que aparentemente podemos pensar de praticamente todos os adversários do FCP. Foi assim com o Copenhaga e com o Leicester. 

Os adeptos do Tondela também acham isso dos seus adversários. E nós do Tondela. O que me preocupa.


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NES escolheu os jogadores que pensa poderem interpretar melhor a sua filosofia de jogo, isso parece claro. Dava jeito que agora lhes explicasse qual é. Em muitas alturas, eles entendem tanto dela como eu, da Arquibancada. Hã? É para fazer o quê? A sério? Oh, tábem. Vai André!


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Iker e André. O Alpha e o Omega. O Principio e o Fim. O Pai e o Filho. E entre eles, o Espírito Santo. 

Acrescente-se milhão e meio à nossa contabilidade Ikeriana. E livrem-se de me mandar o miúdo para o banco.

Por ser justo, diga-se o que já toda a gente disse: Sólida a defesa, imperial o Danilo, coitado do Oliver.

Coitado, porque tem o azar de ser o único tipo em quem se pode confiar para ter a bola. E, por isso, é imprescindível colá-lo à primeira zona de construção. Aquela em que se constrói, não se decide. 

E que tal ouvirem o Lápis e botarem lá o Ruben? A oito, não a seis.


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E pronto, melhor isto que tudo ao contrário, incluindo o resultado. Para além de que, a seguir, nada disto importa. A seguir não importa se estamos bem ou mal, afinados ou todos trocados. Não importa quem joga ou quem treina.

O próximo, não é um jogo, não é futebol. É a honra da Nação, a elevação ou a queda da bandeira. Que avança, azul, branca, indomável, imortal. Vêm aí os lampiões.

Eu mudo de Arquibancada, que há cheiros que não suporto.


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Como é altamente improvável que aqui se volte a falar de bola antes de Domingo, adianto-vos - como se vocês quisessem saber - qual seria a minha equipa:

Iker; Layun, Marcano, Felipe, Telles; Danilo, Ruben, Oliver; Brahimi, Silva, Corona.

A menos que o Otávio treinasse muito bem no que resta da semana. Nesse caso, saltava o Ruben. Desculpa lá o mau jeito, Oli. Cincazero!


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Lá vou, assobiando na Cruz, levando a algum porto estes estranhos dias