Há dias em que nem me lembro se o vi. Oh, está bem, tem dias em que nem penso se o vi ou não. Tudo o que importa é acabar a limpeza, guardar o que for de guardar, para que não se estrague, enrolar o cachecol à volta do pescoço ou atirar um casaco leve para trás das costas e correr para casa.
Mas é certo que ele cá esteve. Perdido em risadas e a perder no dominó belga, no meio dos velhos; a trocar canções e lições, na mesa dos putos; a discutir a bola ao balcão, com os maduros; a tirar os seus próprios finos, se me vê atrapalhado com a cozinha, dos quais mantém uma contabilidade tão rigorosa que acaba por pagar sempre um a mais. Pela ousadia, Silva.
Miro-o daqui, de longe, fundido na paisagem da Tasca, integrado neste cenário que já nem eu sei se é mesmo imaginário. É o Original. O Primeiro. O Antigo. Aquele que meteu o nariz e entrou mesmo. E ficou. É mobília. Da que se trata e restaura e nunca se vende.
Olho-o sempre com a ternura que se deve a quem não abandona. Aos que fazem da nossa casa a sua casa, não por abuso, mas por genuíno prazer. Por bondade, tantas vezes. Está ali, absorto no ecrã do seu espertófone, a deixar correr o fim de tarde, por uma vez sozinho. Na mesa do canto.
Passo por trás e deixo-lhe o calduço da praxe. Provoco-o:
- Então xoné, tens algum pé a gelar?
- Ambos os dois. - Sorri, sem levantar a cabeça.
- Já não me sento contigo há uns tempos. Como vai isso, meu velho?
- Velho é o senhor seu tio, se não se importa.
- Oh sim, sim, és um mancebo, tu. Era rapares os pelos e vestires uma saia travada e havias de ver a mocetona que davas.
Passa um puto em direção à saída. Atira-nos um "b'noite, senhores". Digo-lhe:
- Aí tens. Senhores. És o velho Senhor Lima. Deus te guarde.
Pela primeira vez, ele presta-se a olhar para mim. Entre nós, a garrafa de verde Alvarinho que não me lembro de lhe ter servido. Por uma qualquer magia - tão corriqueiras nesta taberna são as coisas fenomenais - oiço-lhe, bem no fundo da minha mente, o pensamento.
...
diz que sou «velho»...
é capaz de ser verdade, no sentido em que invariavelmente já me tratam por «senhor», bastas vezes e em diferentes situações - e não será pela barba estilo 'taliban' (a minha esposa acha que é mais 'talibom'...), que mantenho desde o último Natal.
diz que sou «velho»...
talvez o seja, para alguém nado na colheita de '75 e aos olhos da juventude de agora. mesmo assim, considero-me um ganapo na flor da idade e apesar de estar a atravessar a fase da Ternura e com uma elegância condor (i.e., amiúde com uma dor aqui, com uma dor acolá).
diz que sou «velho»...
se aqueles «são os trapos», então estamos esclarecidos: não me considero um farrapo, pese embora anseie por ele a seguir à consoada de Natal, no dia 24, para um almoço que se prolonga sempre para lá da hora do jantar. é que ele há velhas tradições que não mudam, e o deleite em degustar um bom de um farrapo velho, pelas Festas, é uma delas.
diz que sou «velho»...
agora que vou pensando nisso, talvez haja um pingo de coerência nessa afirmação. por exemplo: ainda não me acostumei às Novas Tecnologias, às quais sou um velho do Restelo e, a quase todas, céptico por natureza (defeito?). e é assim, nesta velha (gasta?) forma de não me convencer, à partida, pelas novas formalidades plenas de conhecimento técnico e científico, impingidas (sobretudo) por desideratos comerciais, que o esboço das postas de pescada lá do sítio resvalam inevitavelmente para a folha A4 dobrada a meio (velho hábito para ganhar mais proveito na escrita) e para a caneta (obviamente que de cor azul) mais próximas. faço um esforço para escrever directamente naquele quadro em branco, presente numa tela do computador lá de casa - não posso dizer que amiúde também escrevo no trabalho, mesmo que seja nas minhas pausas para almoço, pois não?... pois não. não convém. e até já sou considerado "velho" para procurar um novo e tudo, não é?... pois é... -, mas falta-me aquela "magia" dos meus gatafunhos ganharem vida no velho canhenho de anotações várias, diversas e diversificadas - as quais não giram redonda e redundantemente em torno do mundo do esférico rolando sobre a erva, mas sobretudo neste.
diz que sou «velho»...
porventura já o serei e com a consciência de que frequentemente vou adquirindo tiques próprios dos meus progenitores, quando estes tinham a minha idade e eu era um proveta chavalo, «com borbulhas no rosto» e que adorava ir jogar à bola com os meus Amigos, para o Parque da Cidade, naquele lugar tido como "só nosso" e onde os espectadores dos nossos dotes futebolísticos eram as árvores, espetadas no solo, que o circundavam. agora, tenho o neto deles e dos meus sogros, a recordar-me a felicidade de uma nova etapa na minha vida: a Paternidade - provavelmente um chavão gasto, estafado, velho, mas que renasce todos os dias dentro de mim.
diz que sou «velho»...
quiçá haja uma insuspeita conformidade nessa ideia, bem lá no fundo do meu Ser. e se tal significar que resiliente e resolutamente não renego as minhas origens, que carrego a honra dos nomes das famílias que me trouxeram a este mundo, que não vendo os Valores que me transmitiram "por um prato de lentilhas", e que a Felicidade também se encontra nas coisas mais simples desta vida - como a de uma bola a beijar as redes de uma baliza adversária, e para lá do velho bordão do dinheiro que, por exemplo, dizem possibilitar a compra de um iate novo, carregadinho de meninas noviças, acaso credoras desse brioso epíteto de laborarem numa profissão duvidosa (no sentido em que ninguém duvida de onde vêm, para onde vão e como o farão, não sei se me faço entender?...) -, pois que assim seja!
diz que sou «velho»...
se os seis parágrafos anteriores o indiciarem, então seja: sou velho. mas sou feliz! e de nada me arrependo ao longo destes 41 anos de existência, porque tudo o que fiz foi em consciência - de um «velho» certamente, mas que ainda é muito novo e que tem que comer muita "chichinha" para adquirir o que "os mais velhos" apelidam de Experiência de Vida.
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Ele termina o seu copo. Olha-me de forma estranha.
- Então pá? Estás bem? Fixaste em quê? Estás aí calado há um bom minuto.
- Hã? Nada, desculpa. Acho que me perdi por um momento, Senhor Lima.
Esboça um sorriso franco, mas triste. Como que uma nuvem passageira que tapa o Sol numa tarde de praia. Diz-me:
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e, acredita!, dentro das coisas mais banais da Vida e menos importantes para o seu significado, não há felicidade maior do que o sentir o Futebol Clube do Porto no nosso íntimo. e, claro!, já se sabe que estado de Alma não se explica por palavras, porquanto que estas ficarão sempre aquém do que invariavelmente se sente.
por último e não menos importante: foi graças ao «senhor Lima» e à ventura de me ter conduzido para o Amor incondicional e indefectível à cor azul-e-branca - «indomável, imortal», como reza O poema - que tenho o grato gosto de poder partilhar essa benção com alguns, velhos conhecidos também das andanças da bluegosfera, e contigo,Silva.
e, agora, se me dás licença, vou ficar aqui, na mesa do canto, a passar a limpo umas linhas (#notmadeinporta18) de pensamentos que estava a ter. Traz-me o velho computador, se não te importas. vai!
Miguel Lima | Tomo III
Este senhor opta por escrever na ortografia antiga. Velho.
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Espero que o Miguel não leve a mal os pequeníssimos ajustes ao seu texto original. Creio que serão quase imperceptíveis ao próprio, tendo servido, exclusivamente, para dar sentido à minha "estória". A itálico, a parte verdadeiramente importante deste texto, o original do velho Senhor Lima.
O meu agradecimento fica nas linhas que lhe acrescentei. Espero que seja claro e suficiente. Pelo sim, pelo não, OBRIGADO, meu velho.
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Soundtrack to good ol' Mr. Lima: We remember...












