segunda-feira, 28 de maio de 2018

O Corpo de Deus

- Valha-me Eu Mesmo, que desperdício de
Livre Arbítrio, credo. - Abana a Grande Cabeça, um tanto incrédulo, um tanto desiludido. - Sinto uma ânsia cada dia maior de corrigir este pequeno erro. 

- Passou ainda muito pouco tempo, Senhor. Somos uma espécie muito jovem, é natural que sejamos parvos. - Tenta amenizar, o factor corporativo a falar mais alto.

- Talvez, talvez. Não deixo de sentir que correria melhor se tenho apostado nas centopeias. - Cofia as barbas. 

- Argh, Senhor, tão feias, cheias de patas. Olhe a experiência em Znodar... - Arrisca.

- Que tem? Já viste as gavetas das meias e cuecas dos Znodarianos? Im-pe-cá-beis, pá!

- Vai-se a ver é porque não há assim muitos Znodarianos... - Entre dentes.

- Kié? Outra vez isso de ficarem sem a cabeça à primeira queca? Um detalhe, Pedro, um detalhe. Para além de que Louva-a-Deus é um nome muito feliz para uma espécie. Eu acho. E olha, não sei, mas cá pra mim, os teus amiguinhos lá de baixo não andam longe de pensar que isso é boa ideia. Equidade a sério é ser a fêmea montada à canzana, para nem ter que ver o macho, e quando estiver assegurada a continuidade da espécie, zás, arranca-se-lhe a cabeça à dentada. Aposto que ainda aprovavam uns subsídios para isto. - Esboça um sorriso.

- É a juventude, Senhor, verá. E talvez pudéssemos usar outros termos. - Olha em volta, preocupado. - Não é lá muito boa altura para dizer macho e fêmea, é um bocado confuso. Coisas de jovens, já se vê.

- Mas foda-se, oh Pedro, em tão pouco milénio já fizeram merda de caraças, não? Não há paciência. E depois é esta soberba que não se entende. Consideram-se tanto e tão e tudo, que lhes parece sempre adequado perderem tempo com as merdas mais inimagináveis. Vou é acabar com as subtilezas. Ai agora um maluco no poder a ver se entendem, ai agora umas catástrofes naturais a ver se acordam, e nada. Nadica! Uma praga é que vai ser. Manda-se os de Znodar invadir aquela trampa e comer-lhes as cabeças a todos. A eles e a elas e aos entretantos, a ver se não acham logo estupendo serem os géneros diferentes.

- É isso que o irrita, Senhor? A sério? - Indignado. - A fome, a guerra, as criancinhas, a Maria Leal a cantar, enfim, toda uma cornucópia de desgraças a pedirem a atenção Divina e é com isso que se preocupa? 

- Pois claro! Eu tenho um Universo para manter em equilíbrio. Lá tenho tempo para pormenores? Agora, o género é um factor crítico da Criação. E o Criador sou Eu!

- É um pedacinho culpa Sua, havemos de convir. - A muito medo. - Com essa coisa de “à imagem e semelhança” e da Santíssima Trindade, que é 3 em 1, melhor que o champô das estrelas de cinema. É sempre Ele, o Senhor? Se sim, como é que Ela é “à imagem e semelhança”? E a mulher do Zé? Pelos vistos a Mãe não era da Trindade. Não parece lá muito equitativo em termos de género, não...

- Muito engraçadinho, o senhor Pedro. É pena o cancro terminal que o manda da Vida Eterna para melhor, não é?

- Hã? Isso pode-se? - Em pânico.

- Pergunta parva, hein? Mas não tenhas medo, com a dificuldade em arranjar criadagem em condições nesta Eternidade, desculpo-te mais esta, oh pescador. Pá, à imagem e semelhança é uma metáfora. Também é sabido que Sou todas as coisas e não vês malta a defender o direito de se sentir uma bolota, apesar de ter sido batizado Maria, pois não? E não me apetece agora falar disso do Espírito Santo ser Pai de Si Próprio. Foram tempos complicados... - Pensativo. - Caramba, não me rala que se engalfinhem por qualquer disparate e que se ponham a discutir pintelhos até à exaustão, mas pilas são pilas e con... - Interrompido:

- Senhor!! - De olhos muito abertos.

- Ora Pedro, queres que lhe chame o quê? Senaita? Rata? Pipi? Isso é que são lindas palavras, é? Opá, fartinho até aos colh... - Interrompido:

- Senhor!!

- Enfim, como se fazer a luta pela igualdade fosse igual a abolir toda a diferença. Como se o primado da tolerância pudesse ter raiz na intolerância ao contraditório. Cansado, eu estou.

- Pois, está claro que eu sou um mero Santo, não posso compreender o Grande Plano Cósmico na sua infinita totalidade, mas ainda assim, que não sei, pensei que o preocupava mais a Eutanásia do que quem é que é contra rapar as sovaqueiras e outras pilosidades quejandas.

- Qual Tânia? Não conheço nenhuma Tânia, era concerteza alguém muito parecido comigo. Nunca lá estive. 

- Não, Senhor, não é Tânia nenhuma. É aquela coisa do suicídio assistido, da morte programada.

- Naturalmente, Pedro. É sempre programada. É nascer que já se fica logo com ela agendada, qual é a questão?

- Ora, Senhor, o direito sobre a Vida e a Morte é só Seu, não podem agora os vivos, ou os mortos, para o que importa, virem decidir se... - Detém-se perante a grande manápula levantada.

- Quero lá saber! Morrerão, assim tenham nascido. É esse o Meu Desígnio, nada mais.

- Mas...mas... a Doutrina... é sabido que é Pecado Mortal porem-se as pessoas...

- Poupa-me pá, não me metas nessas picuinhices. Aiai que isso é Eu que mando e ninguém mais mete a pata, vai já tudo para o Inferno, sem passar pelo Purgatório e receber dois contos, se não for Eu a mandar. Vais quinar anyway, mas só quando eu disser, pumbas bem feito. Soa um pedacinho a falta de confiança, não? Parece a Divindade que tem que ser um ditadorzeco no trabalho, para compensar a porrada que leva em casa e isso tudo. Eu Sou. Ponto. É quanto basta. E estou muito abatido de vos aturar, mais aos vossos disparates. - Deixa cair a cabeça entre as mãos.

- Pronto, pronto. - Passa-Lhe um braço pelas costas. - Também precisa de se distrair um bocado. Olhe, aproveitemos o feriado e vamos fazer qualquer coisa diferente. Sei lá, criar uma nova espécie ou assim.

- Feriado? É feriado de quê?

- Corpo de Deus, Senhor.

- Hã? Mas se Sou incorpóreo! Como assim o Meu Corpo? Era o que faltava! Ainda me meto numa série de chatices por ter as pernas depiladas à conta de andar de bicicleta ou assim. Nem pensar, quais Corpo de Mim quais carapuça!

- É o que diz aqui, Senhor, eu não tenho a culpa.

- Gafanhotos. São amorosos, os gafanhotos, mais aos seus saltinhos. Upa, upa, poing, poing. - Salta á roda do outro. - Não achas, Pedro?

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terça-feira, 15 de maio de 2018

Os olhos e os óculos

Lamento, mas existe uma probabilidade estatística não negligenciável de que sejas menos bonita do que te vejo. Embora seja certo que não te minto e que te olho. Ainda que me afaste, posto nos meus óculos já progressivos, com as mãos atadas atrás das costas, impossibilitado, portanto, de acrescentar tato à visão, és-me assim tão linda. Está claro que me recuso a enfiar um saco de plástico na cabeça, com buracos rasgados por altura das vistas, ainda que disso beneficiasse a exatidão do resultado da experiência. Anularíamos o efeito do olfato, esse sentido primordial, animalesco, que me traz no teu cheiro a minha casa. Por outro lado, correria o risco de asfixia o pobre sujeito posto à prova. Um teu criado. Recorramos a uma mola, pronto, que me vinque o nariz a bem da ciência. Sendo seguro que a esta segura distância não te provarei, espetem-se dois tampões nos respetivos ouvidos, não vá à tua gargalhada estragar os pressupostos do ensaio, e teremos anulado todos os sentidos, exceto esse de ter olhos e ver. 

Se uma comissão de estudo, um conselho de sábios, uma máquina espantosa, uma nova tecnologia alienígena, puder comprovar que te vejo mais bonita do que aquilo que és, então é porque tenho as portadas escancaradas para um pátio em Aboim, onde um ruminante improvável pasta os arbustos rentes ao muro. De dentro do quarto, a minha Alma vê-te passar, lenta, lânguida, descendo a estrada - será um caminho de terra batida? - em direção ao terreno da festa. Uma coluna presa ao poste de iluminação pública, virada diretamente para os meus ouvidos, debita - ainda não deram as sete - Avés a esta Maria, Senhora do lugar e das Almas que se atreverem - oh tu, meu pobre - a olhá-la através das suas janelas. Tão bonita.

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Sou-te assim honesto, porque me debato com a irremediável dissonância entre Eu na minha mente e Eu no meu espelho. Nosso.

Regressemos aos meus óculos. Esses que uso para trabalhar, que têm uma griffe que agora não me lembra, à conta de uma promoção qualquer na compra das lentes. Como se tivesse sido imprescindível mudar as vidraças e, nesse caso, já se aproveitou e trocaram-se também os caixilhos.

Ponho as lunetas e o meu cérebro diz-me Clark Kent, intelectual sexy, maduro ma non troppo, os olhos meramente cansados de tanta letra, fantásticos poemas, donzelas arrebatadas, horas de estudo aturado dos Grandes Mistérios, hmmm disse sutra, cavalheiro com o seu ar Nespresso, what else?

Posso tirar a camisola, certamente, e deixar arejar os peitorais e o abdómen desinchado, talvez possa reparar nos pequenos traços dos músculos costais, e passear-me assim, os meus soberbos óculos nas ventas, pela casa, ao calhas. Quem sabe nos cruzamos no corredor, tu incauta, eu irresistível, o gato por entre as nossas pernas.

Pelo caminho o maldito espelho. Em dependendo do comprimento das barbas, um velhote de óculos ou um labrego em tronco nu.  E lá nos chocamos, inevitáveis, a meio caminho da casa de banho, tu compenetrada, eu um urso, o gato a exigir que o sirvam.

Deve acontecer, porque é uma regra implícita da tendência do Universo para o equilíbrio, que também tu sejas múltipla. E eu guarde nos olhos apenas a verdadeira. Tão bonita.

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Deste desequilíbrio da beleza entre nós, resulta uma meia-verdade insofismavel, como os atrasos da ferrovia portuguesa: podias arranjar melhor. Só meia, porque mas.

Olha, logo para primeiros, podias enrabichar um moço novo, todo ele photoshop, passa-lhe uma pessoa a mão e nada se gelatina, tudo rijinho - não seja porca, minha senhora - tudo definido como deve de ser. 

Mas ías acabar a rir-te comigo, numa visita esporádica em nome dos bons velhos tempos, da pressa desajeitada, do fôlego mecânico, do tédio de não saber aproveitar o tédio. 

Os meus pés sujos da terra ocre, estendidos para fora da sombra do alpendre; o escuro do interior da casa, onde as moscas se refugiam do calor, a contrastar com a alvura do teu vestido de linho. Depois ias dizer “mas a pessoa passa-lhe a mão...” e eu ia disparar pelo caminho colonial mal alcatroado, montado numa motocicleta, direitinho à liquor store em Hikka. No portão, o teu vestido esvoaça numa última gargalhada que a velha empregada desdentada partilha - como se percebesse uma palavra, raisparta a mulher - e guarda no sari gasto. Voltarei mais cedo e menos bêbado do que o aconselhável para o aumento da tensão dramática, a velha terá feito biryani de galinha, com vegetais cortados muito miúdos, como tu gostas - como raio podia saber? - e condimentado na medida certa de uma Lion lager. Comeremos os três com as mãos, no quintal, e tu anunciarás que tencionas prolongar a estadia, ao que ripostarei, implacável, que não podes ficar mais do que cem anos.

Um século depois, encaixados na rede pendurada das palmeiras, dir-me-ás ao ouvido, afagando o meu peito enrugado, “uma pessoa passava-lhe a mão e tudo o que lhe apetecia era o teu caril de frango”. Felizmente, comprei a liquor store de Hikka ou teria que ir afogar a raiva para a dependência de algum banco. O progresso, como nas lentes dos meus óculos. 

Antes de a motorizada desaparecer no pó da curva, ouvirei o anúncio da Toda Poderosa: fico só mais cem, não vás esquecer-te de alguma data importante.

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Eu bem sei que é fraco argumento, este de combater estupendos abdominais com especiarias. Mas é só porque as pessoas tendem a não perceber a importância do picante na língua. O modo como ela procura apaziguar-se em paladares doces, texturas macias, como se fosse absolutamente necessário desfazer as camadas de uma fatia de bebinca uma a uma. Na boca. Liquefazendo-se. 

Tu não subestimas estas indiossincrasias orais. É uma vantagem nossa, dos que nascem com a língua a arder, que tenciono utilizar em meu favor. E em teu, sempre que me der sede. Não me vou agora por a mudar uma equipa que ganha consecutivamente há tantos campeonatos.

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Só assim! (outra carta ao Dragão Vila Pouca)



Grande Dragão Vila Pouca,

Podia mentir e dizer que foi para si um dos meus primeiros pensamentos, no eclodir da - yet another - festa, desta nova vitória, em mais um momento de libertação, como se uma nuvem cada dia mais negra deixasse de pairar sobre as nossas cabeças. Em cima de cujas o céu, afinal, nunca caiu. 

Não foi dos primeiros, foi até dos últimos. Numa sequência interrompida por outros pedaços da Vida, o coração a fugir apertado para os lados de Águeda - é outra história - e a correr transbordante de alegria para a nossa casa, o nosso Dragão. Todos vós enchendo o ecrã que teve que ser a minha janela para a alegria, essa que eu, perdoe a imodéstia, merecia tanto ter partilhado. Mas o que importa é que se deu, conforme previsto, conforme necessário, porque nem sempre a injustiça de uns homens se sobrepõe ao mérito de outros homens.

Às tantas, numa linha de raciocínio que é certo que envolveu cânticos e alguns abraços; que deve ter passado por muitos lugares e outras tantas pessoas; que é muito provável que tenha incluído belas mamas - só porque sim; lá cheguei a si. Salvo seja, que de mamas o meu amigo é uma vergonha. 

Certo é que tanta curva e contracurva das sinapses - juro-lhe que por vezes as oiço rebentar - cheguei a uma espécie de palco elevado, uma coisa em redondo, toda ela engalanada de azuis, como não podia deixar de ser. Nessa clareira da mente, nesse sítio onde se concluía, definitivo, aquele pensamento, entre os pulos e os gritos dos nossos heróis, eles próprios feitos adeptos, imbuídos da nossa alegria, afinal apenas mais umas dezenas no mar dos milhares que os rodeavam, como há muito - horas de vitória incluídas - não via, nesse exato instante em que mais uma sinapse fez pum e foi fogo de artifício sobre o viaduto, o silêncio repentino disse-me: Só assim!

Só assim era possível. Só passando por arbitragens como as da Feira, de Vila das Aves, de Moreira; pelo desrespeito em nossa própria casa, a mesa posta para os convidados, gostemos ou não deles, por obrigação desta educação antiga - diz que somos regionais e pequenos - quando nos impediram de ganhar ao 5LB; pelos erros próprios em Paços; pelas dúvidas existenciais do Restelo; só vivendo o momento de afirmação, sustentado numa crença inabalável, de vencer no covil do inimigo; sempre mantendo a par a luta lá fora, pelos poucos meios de que dispomos, e a raça, a emoção, os golos dentro do campo; só assim seria possível. Só assim! 

Quando me dava por contente pela minha conclusão, dei consigo. Lá estávamos, encostados ao murete em frente da porta 4. Os anos tinham andado um pouco para trás e fazia Sol, mesmo que não lhe possa já dizer se era Verão. Como sempre, eu defendia uma postura de recato, de competência e retidão, sem chafurdar nas lamas que tão claramente já vislumbrávamos. E estava artilhado de argumentos para todos os gostos, desde a nossa posição hegemónica - da qual você já duvidava basto - que não nos permitia ser guerrilha, até à superioridade que eu notava em campo, com a posse e o passe e uma cultura de equipa tão grande que já não me parecia caber num país tão pequenino. E mesquinho.

Isto não é Inglaterra, Silva! Se continuamos com esta postura mansa, somos comidos. Mas fazer barulho não chega, é preciso que lá dentro, no campo, as tropas consigam vitórias. Senão tudo esmorece. Este Clube foi feito de sangue, suor e lágrimas. Só assim, Silva, só assim!

Só assim, Vila Pouca, só assim. Obrigado.

E agora, estou aqui a matutar. Será que esta retumbante vitória nos deixa mais próximos de ser Inglaterra? Era bom, não era?

Um grande abraço, Campeão.

Silva

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sábado, 5 de maio de 2018

Árvores frequentes, por Tininho Silva (com preâmbulo do tasqueiro)

Preâmbulo

É necessário que compreendam que o tio Deolindo era um homem bom. Nessa aceção que estão agora mesmo a fazer, mas também naquela outra que nós, homens antigos, comummente reservamos para as mulheres. Boas. Isto é, o tio era um tipo bestialmente bem parecido, coisa que aparentemente corre na família há gerações e não se crê estar a ponto de deixar de correr. Se pensarem que dentro desse corpo bem nutrido e torneado, com janelas nos seus olhos negros e expressão máxima num sorriso franco e fácil, morava um verdadeiro pinga-amor, rapidamente concluirão que partia corações com a mesma facilidade com que o bom do Yacine parte rins.

Quem não se habilitava a deixar que lhe partissem o coração, era a minha tia. Eita, mulher rija e de convicção arreigada. Ainda hoje. Sempre foi tacitamente aceite que sobreviveria ao seu esbelto marido, tanto quanto não restam dúvidas de que este sempre lhe seria - e foi - caninamente fiel. Apesar de tudo. Digamos que era uma alma de caçador, sempre atento, à espreita, incapaz de resistir ao thrill of the chase, mas no fundo - e nos momentos de todas as verdades - um vegetariano da melhor estirpe. Exceto em casa, como comprovam os meus muitos e parecidos primos e primas. Ainda que de todos, apenas um seja mesmo, mesmo meu primo de coração.

Assim será mais fácil entenderem os risinhos aparvalhados da menina do guiché do Registo Civil, assim que pousou os azuis olhos no mancebo - pareceu novo até morrer de velho - que lhe sorria do outro lado do vidro. De tal maneira que nem reparou no olhar fulminante da senhora, criança ao colo, que acompanhava o dito cujo. Abençoada de mamas, mas fraquinha da inteligência, a moça era toda mãos a alisar o cabelo e a puxar o decote até onde podia e ih ih ih diga-me lá o senhor ao que vem.

- Pois registar aqui o catraio, já se sabe.

- Ai tão novo, nem idade tem para ser pai. Ih ih ih. E que nome lhe quer dar a senhora sua sortuda? Perdão, digo, esposa. Ou nem tanto? - A esperança a encher-lhe os olhos e a inchar-lhe o peito. Para fora do decote.

- Tininho, tininho nessa cabeça, minha menina. - Instou a tia. O tom gélido que sempre conseguiu empregar, deixava-nos a todos em sentido, fosse por ser demais a correria ou hora de dormir. Já. Sendo que para se sentir tamanho receio, é imprescindível ter mais dois dedos de testa do que esta rapariga do Registo Civil. É atentar na resposta:

- Nessa Cabeça? Isso é o apelido?

- Não, credo! O apelido é Silva, pois então.

- Ah, muito bem, minha senhora. E desculpe qualquer incómodo. Para a compensar, aqui tem com a maior eficácia possível e jamais vista, a Certidão do seu menino. Vosso, maldita sorte.

- Como assim? Nem o nome lhe demos. - Disseram, balbuciando em uníssono, os meus queridos tios.

- Naturalmente que disseram, como se pode bem ver pelo preenchimento da respetiva Certidão. Aqui está, leio-vos:

Nome próprio: Tininho
Apelido: Silva

Os tios entreolharam-se de espanto, a menina disse:

- Queriam que fosse Da Silva, era? Haviam de ter feito o reparo em tempo útil, agora está o cachopo registado.

É deste modo que o meu primo, ao contrário do que muitos pensam e outros tantos especulam, não se chama Catarino, nem Albertino ou Tino, simplesmente. É mesmo Tininho o nome dele. É um melómano. Característica que o habilita a ser o crítico de música residente da Tasca, por muito que o senhor Monteiro da Silva o olhe um tanto de lado. Enfim, o Monteiro tem a sua razão, mas há sempre alturas em que o sangue fala mais alto.

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Review de"Often trees", Blind Zero - por Tininho Silva

Em mãos, na verdade em ouvidos, para sermos completamente honestos, o muito aguardado segundo álbum dos portuenses Zero Cego. Sucessor do raivoso, um tanto grungico - quase obrigação da época em que foi lançado - e pearlajamado "Trigger". Apesar de que o escriba terá seguramente ouvido mais faixas deste primeiro opus do Zero, do que de todos os discos do Guedes wannabe, Veder. Acho eu que é assim que se chama. Ou então é Vader. Um deles. E sejamos francos, havia naquelas guitarras e nas vocalizações, uma vontade intrínseca de ser Metal. Um sinal muito positivo, a aguardar confirmação.

Comecemos pelo principio a análise a este "Árvores frequentes" - para título, não faz lá muito sentido, mas os artistas, enfim... - que é como quem diz, pela capa. Na categoria "discos com assentos na capa", podemos dizer que apresenta um sofá bem catita, todo ele em capitonê. Daqueles em que dá gosto a pessoa ficar refastelada, a ver o FCP a ser campeão. A arte trazer uma reminiscência do Dragão não está nada mal para inicio.

Está claro que não cometeremos a injustiça de nos pormos a comparar com outros lançamentos, igualmente com repouso para o traseiro na capa. Aos homens o que é dos homens, aos Deuses o que é dos Deuses. E não estou a falar do mê primo, mesmo que os WC Toillete - conjunto do qual tive a felicidade de participar - tivessem passado ao lado de uma grande carreira. Penso que foi do 33, para o Campo Mártires da Pátria. Era daqueles com lagarta no meio, grande para caraças. Há outros assentos que, mesmo se menos convidativos, habitam o Olimpo da descarga elétrica e com os quais mais vale não competir. Tipo, são o FCP dos discos com coisas para a gente se sentar na capa. E vêm em azul e branco e tudo, os maganos.

A minha grande dúvida em relação aos Zero, sempre foi qual o caminho que tomariam, dos vários que o anterior trabalho - Trigger - deixava antever. Libertar-se-iam das amarras da época e deixariam as guitarras conduzi-los por uma jornada revivalista pelos bons velhos 80s, sendo nomes maiores da New Wave of Traditional Heavy Metal? Ou acabariam seduzidos pelo éter e pelas moças bem boas de mamocas ao léu, às cavalitas dos seus namorados de ocasião, nas grandes arenas deste Mundo, e liderariam o movimento Hair Metal / Glam Rock, tão fracamente representado no nosso país? Lá hair tinham os moços com fartura. Sem verbalizar, suspeitava que nem uma, nem outra. Havia ali um laivo de intelectualidade que me deixava de pé atrás. Cá pra mim, aquilo ia dar um post-punk caviar ou derivar para o lado progressivo. Mais Dream Theater do que Zé Cid, está claro. Mas quais Procupine Coiso qual carapuça, deixai as árvores em paz, chiça!

Afinal, foi-se a ver, nada. Isto é, nem para uns lados, nem para os seus inversos. Ou então tudo, depende do ponto de vista. Condicionado por uma série de protótipos de disco destes cachopos que fui ouvindo, predispus-me a passar meia hora, mais os descontos de um jogo dos lagartos em Tondela, a maldizer as músicas e os autores e a minha vida e isso tudo. Como não sangrei do nariz depois de ouvir o disco uma vez, ouvi mais duas, a ver se me convencia da bela trampa que de lá tinha saído, pois os tipos continuam a insistir em não fazer aquilo que fariam melhor: Metal. E nada. Acabei soterrado ao peso de ter gostado, genuinamente, de muitas das canções. Pronto, algumas. Raios, mais do que era suposto, se queria escrever um post com piada para a Tasca. Dei por mim a pensar: estes rapazes haviam de gostar dos últimos álbuns dos Ope... naaaaa, deixa lá os elogios para o fim.

As músicas:

Lake, Escape (isto tem um feeling 70´s que lhe fica a matar), Palm (lake reprise?). Até o Still Loving You - sim, todos os discos têm o seu - resultou muito bem, sim senhor. Chama-se Won e aposto que passou na rádio. Estas são as boas. A muito boa merece o nome completo: The Siren

Há maijumasquantas, como diria o mê primo, porque isto dos discos compactos e das pen e assim, é coisas muito grandes que levam muita tralha e os conjuntos vêem-se gregos para encher aquilo. Se calhar foi por isso que estes fizeram também uma K7. A fita cai muito bem ao som orgânico - tem instrumentos a sério este disco, pois tem? - que percorre todo o álbum,

No fim, não sabia bem se me apetecia ir a correr ouvir o Big Brother ou se sucumbia ao elogio maior à obra. E confessava que me lembrei mais do que uma vez que há algum tempo que não ouvia...


Stay heavy  \m/
Tininho



terça-feira, 1 de maio de 2018

O homem no Castelo Alto


Nunca lhe foi confortável a exposição. Habituou-se, é certo, como nos habituamos às coisas inevitáveis dos nossos dias. Ainda assim, o rumor da turba lá fora, os cânticos, o seu nome repetido vezes sem conta, continuam a deixar-lhe a barriga fria e as orelhas quentes. Em seu redor há um alvoroço de camareiros, de assessores, estrategas, peões de brega e outro povo miúdo que desconhece em absoluto. Não aumenta o ritmo nem diminui o passo, faz o corredor inteiro à mesma pouca velocidade, sem gritar uma ordem, sem dar uma palavra, limitando-se a receber papeis anotados, post-it amarelos rabiscados, muitas palmadas nas costas e um ou outro suspiro contido de alguma secretária invisível. De vez em quando, responde com o "hum-hum" que lhe é característico. Os poucos que o conhecem de facto, diriam de imediato que está nervoso.

Abrem-lhe uma porta, passa o limiar da confusão e está, por fim, só, na ante-câmara dos seus aposentos privados. Exceto pelo mordomo surdo e mudo e cego. Faz soar o seu sininho e, em menos de um fósforo, a divisão alberga o Estado Maior. É com eles que assomará ao varandim.

...

Ocupando todas as faixas da imensa avenida, as varandas de todos os edifícios, os passeios, os tejadilhos dos automóveis, as copas das árvores, os terraços e os telhados, o Mar Vermelho saúda a uma voz o Líder Imortal. Logo abaixo do varandim, por dentro do cordão policial, os altos dignitários da Nação prestam, ainda outra vez, homenagem ao orgulho da Pátria. As forças de segurança, ainda um tanto confusas - ainda agora estavam convencidas de que seria uma detenção e logo se tratava apenas de policiamento da festa - pugnam para que a paz prevaleça. 

Na primeira fila do Povo, os intelectuais notáveis, os políticos anónimos, os autarcas comuns, os artistas de várias castas e diferenciadas qualidades. De cada lado da avenida, um palanque. O da esquerda mais engalanado, o da direita menos elegante. Neste, apinham-se os jornalistas, com e sem carteira, as câmaras de televisão, os microfones das rádios, circulam charros, bebem-se cervejas, canta-se, pula-se, abraça-se. Ah, a alegria no trabalho. No da esquerda, alinham-se marciais as medalhas dos diversos ramos das Forças Armadas, os juízes, os oficiais de justiça e duas ou três prostitutas, das mais finas.

O sorriso sai-lhe franco por debaixo do bigode. Ei-lo, o seu Povo. Há um arrepio, mais de alívio do que de emoção, que lhe percorre a espinha. Oh sim, ele sabe, hoje aclamado, bajulado, levado em ombros, se deixasse que o tocassem. Amanhã, arrastado, amarrado à traseira da primeira carrinha de caixa aberta, pelas ruas da amargura. 

Mas isso que importa agora? À sua frente derrama-se a fundação e o sentido de todo o seu Poder. Felizmente, não têm a mínima noção, os pobres ignorantes. Ou fazem por não a ter, o que dá igual, senão ainda melhor. Ao vê-los assim, eufóricos, apaixonados, embevecidos perante o Guia de todas as Vitórias, sabe que os próximos tempos serão tranquilos. 

Bem-vinda que será alguma calma, tão conturbado e periclitante foi o passado próximo. Ora, próximo que tenha sido, não deixa de ser isso mesmo: Passado. E acena à multidão que entra em delírio.

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As notícias que lhe chegam da Zona Livre são francamente animadoras. Como era inevitável, mais uma batalha perdida aprofundou as cisões, a contestação subiu de tom, aparentemente não há quem se entenda. Reconforta-se nestas novidades, por oposição ao que suou nos dias em que o vislumbre de uma derrota lhe anunciou o esboroar do Império, a implosão das fundações do edifício, enfim, o Fim. Pior que isso, o principio do Fim e não o derradeiro suspiro, a morte súbita. Antes os primeiros passos de um longo e tenebroso calvário que em vez de um mártir fulminado, o tornaria um pária indesejado. Lembra-se:

- Oh Domingos, hum, hum, e essa coisada dos filmes? Está resolvida? Hum hum?

- Nem por isso, meu caro, nem por isso. Apareceu mais um. Não entendo, parecem tirados de uma qualquer realidade paralela. Percebes alguma coisa disto, Luís?

- Hum...hum...

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Another one bites the dust!


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Com a devida vénia ao inigualável e eterno talento de Philip K. Dick

domingo, 22 de abril de 2018

A lista de compras do senhor Monteiro da Silva

Procrastino no penúltimo cigarro, as luzes já apagadas, a mente à procura de desculpas plausíveis para deixar as limpezas para amanhã. Acordar às quatro, ter isto aberto às seis e vinte, não tem que estar sempre um brinco, correr com a malta mais cedo, ver-vos antes de dormir.

Predisponho-me a acabar o dia neste copo que sobejou da melhor garrafa que hoje se vendeu. Sorrio-me da lembrança do Berto Faz-Tudo a sair atrás da rapariga dos olhos claros, as mãos apertadas dentro dos bolsos, o puto em cabriolas à volta deles - oooh Marega, ooooh Marega - ela a olhar para o balcão antes de atravessar a porta, ele um lagarto resignado, o miúdo um alvoroço só. Cinco alvoroços. 

Chegamos a um compromisso, me, myself and i: limpamos as mesas, deixamos a máquina a lavar, enxagua-se o chão e o balcão pela manhã. E a cozinha. Damn.

Imagino-te a apreciares-me, a traçares a rota mais simples e eficaz para a recolha da louça, a minha rotação tropical gingando entre cigarro e copo, os nervos a eriçarem-te os pelos do braço, um assomo de alívio quando saio do balcão, os olhos espreguiçando-se pela sala. E lá vou, um Brahimi de chávenas e canecas e pratos, serpenteando pelo caminho mais difícil e improvavel, mais bailado do que trabalho. Ah sim, meu Amor, tudo é arte, tudo tem a sua estética. Upa, um pires pelo ar, meia pirueta, agarra-o com a outra mão. Às vezes partem-se, mas eu não te conto.

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Na mesa do senhor Monteiro da Silva, uma folha arrancada do seu bloco, esquecida:

Lista de compras
  • Azeite
  • Alhos
  • 1 polvo (grande)
  • Alfa Semedo
  • Batatinhas (assar)
  • Salsa
  • Lucas Evangelista
  • Colorau
  • 1 cebola (pequena)
  • Renato Santos (?)
  • Guardanapos
  • Queijinho seco
  • Calleri
  • Não esquecer: Palmas desceu
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Em casa, tu obrigar-me-ias a trocar a salsa por coentros. Mas o que mais estranho, é porque raio quer ele colorau para fazer Polvo à Lagareiro?

...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus XI - traição



«traição!», bradou ele. e desatou numa correria desenfreada, qual fuga para a frente, rumo a um local incerto e que só existia na sua mente.
como chegara ali e àquele ponto, isso agora não interessa para nhaga, porque são contas de um rosário que não vale para este totobola.


diz quem viu que foi tudo contra-natura. e, como contra factos não há argumentos, ninguém se conformou. ainda hoje está muito difícil o consenso, aliás, daí um silêncio surdo e muito mudo sobre o sucedido - o que não significa que a “bolha“ esteja prestes a rebentar…
afirma quem não presenciou - que também os há - que nunca se viu algo assim, nos últimos tempos. que tudo se compeliu em direcção a uma catástrofe que, de tão evidente que era e que facilmente se percebia, só quem nela participou é que estava ceguinho de todo. «e isso é inadmissível», acrescentaram.
quem não compreendeu nada do que se estava a passar à sua frente e até já tinha deitado tudo para detrás das costas, ficou ainda mais paneleiro dos olhos porque nem queria acreditar no que se estava a precipitar em sua direcção - logo ele que até já tinha previsto alguns cenários, mesmo que hipotéticos.
quem tinha a responsabilidade máxima de dizer alguma coisinha, por mais singela que fosse, tal como o tinha feito num Passado recentíssimo, ficou pior do que um boneco de cera num qualquer museu da cidade - porque estes, ao menos e a bem da Verdade, ficam s-e-m-p-r-e calados para o público que os visita, dado que sabem que há silêncios que são de ouro.
quem adora botar faladura nestas ocasiões e invariavelmente em sentido contrário, adorou (e muito!) aquelas cenas, não poupando esforços em encontrar defeitos onde nunca antes tinha visto uma virtude que fosse; quem gosta de opinar sobre factos viu a sua tarefa complicada porque o que tinha acontecido fora mau - apesar de não ter sido péssimo.


¬ e agora? o que é que vai ser feito de ti?
¬ agora, vou retemperar energias. as necessárias para as finais que se avizinham.
¬ «finais»? plural? mas quais finais?! não perdeste todos os acessos às ditas?
¬ fingi que as disputei. há mais de oito meses que ando em Batalhas de uma guerra só. finalmente chegaram as finais. doze pontos. todo o Céu por esses doze pontos.
¬ que os Aliados estejam connosco!


“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Putas e finais, com Eugénio



Sou um tipo derreado. Cansadamente exausto. Naquele estado em que os indivíduos falam para a pessoa e ela lhes acena com a cabeça, enquanto reza aos Santinhos da sua devoção para que não esteja a anuir a propostas de sodomização mútua, envolvendo a equipa de râguebi da Casa de Pessoal dos Estivadores de Mogadíscio. Ainda por cima, tenho sempre azar nos sorteios.

É um fastio muito acentuado desta coisa do “ainda não ganhámos nada”, “a quantidade de pontos que ainda vamos perder”, “we’ll always have Restelo e Paços”, “é com os últimos que vamos deixar fugir esta merda”. Boa parte dos que assim me extenuam, não há uma semana lengalengavam “só a vitória no galinheiro se aceita, nenhum outro resultado pode servir, nunca, é o fim, kaput, game over”. Fartinho debujóbir. 

Portanto, se o FCP não ganhasse, era o fim. Em tendo ganho, muita cautela que estamos quase a perder. Ora fodam-se, sim?

Começo a acreditar que em consequência disto, cria-se aquele mui visto, sempre irritante e mentecapto estado de espírito da final. É tudo finais. O Setúbal em casa, uma final; o Marítimo na Madeira, ui, os penalties de uma finalissima; o Feirense, tremei tripeiros, lembrem-se do que nos tem feito esta autêntica laranja mecânica de Terras de Santa Maria. 

Depois admiram-se que os cachopos pareçam meninos de coro, acabados de chegar ao dormitório do Colégio Militar ou assim. Ai que o adversário, um colossal Vitória de Guimarães de Peseiro - lá está! - nos marcou um golo. Credo, ainda se perde o (yet another) jogo das nossas vidas. Vai ser o fim. Procedamos a borrar-nos todos, dada a trampa que somos. Quanta responsabilidade, quanto peso, quanta tragédia, tanto relógio, tanta pomba assassinada, não quero para mim tanto veneno... Fuck it, já sei que já perceberam, mas eu gosto de citar Eugénio e a casa é minha.

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Rapazes, nada disso! Estais à frente de um Campeonato arbitrado por Bruno Paixão, João Capela, Luís Godinho, Bruno Esteves e outros camaradas igualmente dados ao sacerdócio; em que disputastes partidas como as da Feira, Moreira e Vila das Aves; em que empatastes a zero com golos ignorados, como o de Herrera, na vossa própria casa - la casa de un hombre es su castillo - contra o todo poderoso adversário; em que errastes clamorosamente como nos ditos Paços e Restelos; e em que resgatastes o lugar que vos pertence por justiça, ganhando orgulhosamente no terreno do inimigo.

Já chega de desconfianças e tremores. Que mais há a provar? É chegada - e já vem atrasada - a hora de encher os peitos e empinar o nariz. São eles quem tem a temer, os pobres Vitórias, os incautos Marítimos, os despromovidos Feirenses, pobres coitados. Abri alas, saudai o Campeão, vinde testemunhar o poder e o brilho do Primeiro! 

Trinta mil mareguianos caralhos vos enrabem se ainda não acreditam, se ainda desconfiam, se acham mesmo que são finais. As finais são apertadas e fechadas e tensas. Parecem nubentes ansiosas mas indecisas. Não é aí que estamos, senhores. Senhor. Sérgio. 

O que somos é o guerreiro cheio de cicatrizes - é certo - que emana o poder das suas múltiplas vitórias, a pele tisnada do Sol dos campos de batalha cobrindo os músculos hiperdesenvolvidos. O matulão de cabelo ao vento, instilando pavor e inveja nos adversários e arrancando suspiros e íntimas humidades às castas donzelas. É isso que sois! 

E agora o herói entra no bordel da terra e é festejado, agraciado, a sua voz incontestada, o seu ouro largado sem cuidado. Ai de quem lhe toque. Não vem para descansar, vem para foder as suas putas, mesmo as que ousarem fingir que resistem. Não são finais, não são nubentes, são o prémio da Glória que fizestes por merecer. Experientes, macias, infalíveis, perfumadas e cheias de tesão. Tomai-as!

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As coisas quando têm que ser feitas, não há como começar logo a fazê-las. Diz que visitamos um prostíbulo esta noite...







terça-feira, 17 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter : opus X - alive&kicking



ambiente próprio de um Clássico, quentinho qb e que se distingue de um ‘derby’ exactamente por isso mesmo.
no exterior estava tudo preparado ao milímetro e com atenção redobrada ao mais ínfimo pormenor, para que não houvesse violações dos perímetros de segurança, tão características por aquelas bandas e tão useiras e vezeiras pelos (in)suspeitos do costume. já no interior, tudo crepitava de calor humano, na ânsia de que o confronto tivesse início o mais rápido possível e os artistas surgissem para lhes satisfazer o seu ”glorioso” Ego. assim aconteceu e não foi preciso esperar muito para se perceber que seria um jogo disputado taco-a-taco.


a partida começou equilibrada, pese embora um maior ascendente dos da casa, apoiados pelo seu público, o qual rejubilava a cada vergastada infligida no adversário. é o que se diz de quem tem ”as costas quentes”…
já os forasteiros evidenciavam um manifesto incómodo por estarem a ser subjugados pelo arqui-rival e manietados na sua forma de jogar, tão característica ao longo deste campeonato (também) feito de E-toupeiras: pressão alta e jogo directo para os atacantes, poderosos no confronto físico com os defesas contrários. como tal não era possível, o pontapé para a frente foi o que mais se viu nos primeiros vinte minutos, para desespero do seu timoneiro, o qual não parou de se insurgir com os seus por não estarem a executar o plano de (pelo menos) uma semana intensa de preparos e de intenso trabalho.
apesar deste incómodo geral, o verdadeiro perigo tardava em surgir, até ao momento em que um deles surge isolado em frente ao último defensor e o obrigou a brilhar, parando um tiro que felizmente foi mal desferido e não causou mossa maior. foi esse o momento para que também houvesse retaliação por parte de quem não era bem-vindo naquela (espécie de) ”arena” e infligisse um pouco de ‘frisson’ na batalha.
chegados ao intervalo da contenda, o domínio da partida estava repartido e ninguém poderia afirmar-se superior ao outro – pese embora uns relatos enviesados de quem está acostumado a desvirtuar a Realidade e/ou a sonegar esta última a seu bel-prazer.


a pausa para retemperar energias foi benéfica para os que vinham de fora, os quais entraram com a ”pica toda”, resolutos em decidir a luta a seu favor. não se pouparam a esforços, impondo a sua lei e fazendo sofrer o adversário onde mais lhe doía: em sua própria casa. conseguiram causar dor, castigando-os com ataques fulminantes que tardavam em se materializar no que era tão desejado: a sua derrota. tal viria a acontecer mesmo no fim, pela parte de quem, em confrontos anteriores, fora alvo de chacota pelos adversários e inclusive de revolta pelos que também lutam pela mesma cor do estandarte. coisas complicadas de se perceber quando, na refrega de um combate, todos os que estão do nosso lado são válidos, para o tão necessário equilíbrio de forças…
em suma e para a História fica o resultado final: seis agentes feridos, sete detenções e o disparo de «tiros de aviso» por parte das forças de segurança.






aqueles números deveriam envergonhar, mais do que o mandante pelo apoio ilegal a esses «grupos organizados de sócios», que «nunca sube» da sua existência e que (literalmente) goza com o pagode – talvez porque usufrui de uma imunidade desportiva e de uma impunidade regulamentar como mais ninguém nesta República de bananas –, deveriam fazer corar de vergonha o responsável político pela gestão deste tipo de conflitos e que há dias afirmou «a Lei das Claques é ineficaz, não funciona. há poucos adeptos registados em relação ao número de clubes. queremos tornar a Lei eficaz». esse pamonha, se tivesse Brio, não só pelo cargo político que (ainda) detém, mas sobretudo pela sua pessoa, há muito que já teria resignado; pelos vistos e como o ”tacho” é apetecível, permanece em funções, num total desplante para com quem tem pedido Justiça neste ”faroeste” em que se tornou o comezinho futebolzinho tuga…


outra personagem menor do panorama político nacional e que se confunde com o desportivo, é o que, em tempos não muito idos, alarvemente disse «os grupos de adeptos organizados do 5lb deveriam registar-se para ficar como os outros [sic] mas, até agora, isso não tem sido um problema para o IPDJ nem para a polícia»…
alguém me pode informar se o sr Baganha já se demitiu ou se alguém já prestou esse favor ao País, no seguimento do que aconteceu nas imediações do antro de Carnide, e que envolveu os ilegais e assassiииos de Sempre? é para sossegar o espírito de alguns que invariavelmente alegam uma «invasão» ao Centro de treinos, na Maia e que, mais do que desconhecer a envolvente ao Estádio Vieira de Carvalho, ignoram a entrevista do actual Presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) ao DN, há um ano e que, entre outros considerandos, referiu que «não podemos dizer que eram elementos dos SuperDragões porque não se identificaram como tal ao Artur [Soares Dias]».



post scriptum pertinente:
para quem tem a paciência em ler os meus rudes considerandos e eventualmente estaria à espera de uma análise ao Clássico, peço desculpa pela desilusão mas há factores que não podem (devem?) ser sonegados porque se relacionam, de forma indelével, com o jogo que é praticado dentro das quatro linhas – e desde que o Caniggia se retirou do Futebol.



“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus IX - murro no estômago



então, tudo bem contigo? como tens passado? benzinho? pois, eu também. têm sido dias complicados, num regresso a um Passado nada distante e que só esteve “maquilhado” desde que esta época começou.
diz a lenda que «só és derrotado quando desistes de lutar!». nós fomos copiosamente derrotados ainda a Batalha não tinha começado e se estavam a ultimar os preparativos para a dita cuja – porventura mal, a começar pela escolha da cor da “armadura”, a qual terá confundido inclusive os próprios soldados, que aguardavam por envergar a sua cor natural num desafio clássico e contra um histórico rival (e já não foi a primeira vez que tal aconteceu… porra!) . explico.


desde a última vez que nos encontrámos, perdemos a importantíssima partida em Belém.
para os mais incautos, convém recordar que foi aquela que precedeu a uma perda de pontos em Paços de Ferreira e sucedeu a uma pausa para compromissos internacionais (também) da selecção de jogadores do Jorge Mendes, de preparação para essa montra que é um Mundial de Futebol – uma pausa que eu também adjectivei de «benéfica» porque acreditei que seria possível, naqueles quinze dias, recuperar alguns índices (sobretudo físicos) da equipa do nosso coração. debalde.
diz que nada disso aconteceu e que até perdemos um dos nossos pêndulos do meio-campo para o início da próxima época… abreviando (mais) uma estória triste, esbanjámos uma vantagem de cinco pontos por culpas muito próprias e que me recordaram, entre tantos exemplos, um jogo contra o Nacional, em Março de 2015; ou um outro, em Novembro de 2016; ou aquele, em Março de 2017, contra o Vitória FC. não sei se dá para perceber o fio condutor a todas essas derrotas, mesmo naqueles em que empatámos?… ficámos sempre aquém das nossas possibilidades e quando dependíamos só de nós para ultrapassarmos o arqui-rival. em todos esses momentos, parecemos o spórtém. o spórtém, porra! que, se não é no Natal, é na Páscoa; e, se não é nesta festividade, encontram sempre uma data autofágica para comemorar! Jesus, como eu não gosto n-a-d-a de ser equiparado a essa agremiação verde-pijaminha!… mas, cada vez mais, neste Passado recente, é ele o nosso ponto de encontro porque os outros, os novos campeões feitos de tretas, estão invariavelmente «dez anos à frente» – e mesmo que seja só a um ponto, no presente campeonato das e-toupeiras. e é aqui que, para mim, reside todo o busílis da questão: já não conseguimos ombrear com a influência megalómana de um #EstadoLampiânico dentro de um Estado de Direito e que tudo controla neste último, numa desfaçatez travestida de Democracia, e em todos os seus sectores inclusive no da Justiça.
ah!, e para quem julga que já caiu a ficha aos adeptos afectos ao carnidense, mas que andam arredados da realidade das redes sociais, desenganem-se! não se iludam! esta imagem aqui é bem real e comprova que os rabolhos dos lampiões vivem numa realidade virtual completamente paralela à nossa. aliás, desde há um mês que diariamente os ouço a delirar «rumo ao hexa». sim, hexa! o nosso bi-tri!
portanto, há toda uma impunidade que grassa pelos lados de Carnide e que os faz acreditar convictamente que nada do que tem sido publicamente denunciado e que, para nós, envolve comprometedoras trocas de mensagens electrónicas os irá demover da prossecução desse objectivo e que não é uma peta pegada, antes pelo contrário. e se Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, imagine-se daqui a um
mês, se formos impotentes para reverter a Realidade actual… já esteve mais longe a hipótese de emigrar, sim senhor…




os pastéis que nos fizeram comer, em Belém, apesar da “canela” ter sido polvilhada por nós, tiveram a sua confecção nos bastidores da cozinha, por parte de elementos alegadamente afectos a uma agremiação que nasceu de uma fusão de dois clubes nas traseiras de uma Farmácia, assim reza a acta e numa época em que a grafia impunha o “Ph” mas que aquela nada refere… mas, destas polémicas com datas de fundação, todos os clubes têm o seu quinhão e não é este o ponto desta prosa. adiante.
estou convicto que o Sérgio Conceição sabia da armadilha que lhe estavam a preparar, a começar na forma como, na véspera, o 5lb conseguiu os três pontos no jogo contra o Vitória SC e a terminar na nomeação de um apitador que adora ver-nos provar «do próprio veneno. adora de paixão e o Brahimi que o diga desde aquele episódio, em Braga, na época transacta. e, vai daí, até é melhor não dizer nada…
acontece que, para mim, não a anteviu como seria conveniente porque, desde o primeiro toque na chichinha e para lá do meu nervosismo (que não conta nada para este totobola) pressenti que esta “queimava” nos pés de uns jogadores que fisicamente estão presos por arames – e só que não viu o último jogo, no Dragão, ante o Aves poderá afirmar o contrário.
sim!, estou a tecer uma crítica a um treinador que admiro porque a considero construtiva: há um imenso mérito no que já se construiu até à data destas linhas, mas persiste-se no erro de só se apostar num determinado núcleo de jogadores de um plantel exíguo e apesar dos empréstimos obtidos na última janela de transferências, a qual não envolveu qualquer «criminologia de alta qualidade». independentemente de nomes, continuo a não perceber por que raio é que não há consistência nas entradas de jogadores na equipa para substituir outros eventualmente fatigados: tanto são convocados e postos somente a aquecer, como na convocatória seguinte seguem directamente para a bancada, para posteriormente só alinharem nos últimos cinco minutos da partida. esta situação tem sido recorrente e transversal a todos os sectores e, repito-me, é indiferente a nomes de jogadores. para mim, este aspecto é fundamental para o ataque que se deseja ao que resta de um campeonato viciado desde a sua génese: convém que todos os elementos que constituem o plantel estejam focados nas próximas cinco jornadas e nos quinze pontos em disputa. t-o-d-o-s.
e que se os mentalizem para a importância dos jogos a seguir ao do próximo Domingo, mormente os que envolvem duas deslocações complicadíssimas à Madeira e a Guimarães. os adeptos que têm composto um verdadeiro #MarAzul de apoio à sua Equipa do Coração merecem-no mais do que ninguém e como não me canso de o repetir, porque têm sido inexcedíveis no seu apoio, inclusive o financeiro.




numa prosa que já vai longa e que remete para outros tempos, noutro espaço igualmente aprazível mas mais solitário na sua redacção, convido-te a ler atentamente o que está plasmado na imagem acima.
não pretendo ser instigador de Violência gratuita, mas confesso que tenho saudades desses tempos. e destes aqui. porque, como agora não há uns "apertões" nos momentos-chave, os pés-de-microfone e os sabujos sentem-se impunes para praticar o que designo de #jornalixo. os exemplos são múltiplos e transversais aos mais variados títulos, sejam eles da Imprensa ou da Televisão, pelo que não te irei cansar com
eles. mas confesso que, se houvesse uma voz firme no Clube, seria muito complicado o dia seguinte para quem permitiu que se ouvisse este nojo aqui e sem qualquer reparo pela parte de quem de direito.

“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O batismo na Fé ou Ver a bola com jetlag



Olha, só eu e tu agora. Esquece todas as vezes que eu te disse que era preciso fazermos diferente, que a mesma solução para todos os problemas era insuficiente, que chegaria a altura em que as montanhas se agigantariam e os ratos aprenderiam as suas lições. Sim, ignora isso tudo. Façamos de conta, ainda que por sete breves instantes, que eram devaneios de quem tinha pouco com que se ocupar.

Sei lá, como se fosse Pessoa a brincar de Caeiro por lhe sobrar do tempo que determinara para Reis. Deixa, não é importante entenderes a metáfora - que se fodam essas também! - tudo o que interessa é a essência da mensagem. Eheh, nem de propósito, A Mensagem. Ah, nada, era só eu a tergiversar de novo. A perder-me, é isso que quero dizer. Foquemo-nos: esquece!

Ficamos aqui os dois até ao fim. Eu prometo-te que caminho ao teu lado até morrermos ambos ou tu saíres em ombros. Nunca mais falaremos de alternativas e de planos diferentes para desmoronar os inimigos. Partiremos de dentes cerrados para cada batalha, no conforto daquilo que sabemos fazer. Apenas! Sem mais um pingo do que seja. Aqui esconjuramos todos os acessórios, todas as curvas que não as absolutamente necessárias e expectáveis, qualquer vislumbre de diferença. Só estarei feliz quando te ouvir gritar às tropas as ordens de sempre.

Seremos vitoriosos então, ao lombo dos rapazes que transportarão a nossa bandeira, na profunda segurança do same old same old. Avançarão de olhos fechados, cada um a conhecer a distância exata do outro, lá longe, no meio das linhas inimigas, quase já nas suas costas, na verdade, onde detonará a nossa paixão que sobrevoou todo o imenso campo de cada guerra. Se nos rechaçarem, a segunda vaga será a mais terrível, marchando sobre o sangue dos seus irmãos caídos, como antes, como antigamente, como no dia primeiro e em todos os que se seguirão de hoje em diante. De hoje, ouviste bem? Porque estou aqui a dizer-te para esqueceres!

Na verdade, acho que estou a pedir-te desculpa. Está claro que eu não tenho a culpa, toda a gente sabe disso. É como a fome no Mundo, tão fora do alcance da nossa responsabilidade. E no entanto... Também sentes o remorso, pois sentes? Por tudo aquilo que certamente poderias fazer e não farás. É esse o sentimento. Desculpo-me por tudo o que te pedi e tu, sem me ouvires, fizeste e não quero que voltes a fazer, ainda que não saibas e não te interesse o que desejo.

Não voltarás a pedir que tenham calma e paciência. Porque eles ficam ansiosos na calma e nervosos na paciência.

Não voltarás a mandar refrear a sede de sangue. Mesmo que saibamos que muitas vezes ela nos tolda a razão e dá asneira. Isso agora não interessa nada. Eles secam sem a cavalgada e o choque, perdem-se em flores como meninas no demasiado tempo que ganham, espantam-se na serenidade bucólica e deixam-se adormecer.

Não mais tentarás dar ordem ao estouro de gnus. É um estouro, deixá-lo estourar e embalar no clamor dos cascos sobre as pedras os nossos sonhos, enquanto o inimigo se vê perante a carga, tantas vezes desnorteada, dos nossos Invictos.

Pelas sete eternidades que nos faltam, farão o que lhes ensinaste. Que é tudo o que eles sabem fazer. Porque é no que os doutrinaste e é nisso, apenas, que eles acreditam. Repara, estou a converter-me por esta vida que acaba em maio. Abençoa-me, entrega-me o teu Livro sagrado e eu jurarei sobre ele, um joelho no chão, a minha lealdade ao Grande Dogma. 

Ouve, é tarde agora. Não vamos demorar-nos sobre o que podia ter sido, à volta do que potencialmente podíamos ter tido, em elipses de recursos desperdiçados ou usados fora do tempo e do lugar. O que nos resta é o que aqui nos trouxe e isso não pode ser pouco. Pelo contrário, meu caro, será tudo:

O fim da longa espera, o grito, já não de revolta mas de conquista. A queda do Mal, o triunfo cliché do Bem. É isso que será, se esqueceres e te agarrares ao que sabes. Sabemos. Apenas. Comigo, com todos. Vamos! 

...

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Do Golfo e de outra derrota



Eu acho que alguém me devia pagar para criar um blogue de viagens. Sou o tipo ideal, acreditem, desde que me mandem em lazer. Pá, nem me importo de ver os e-mails de trabalho duas vezes ao dia, pronto.

A questão é que parece que perco todo o sentido crítico. Adoro tudo. A comida pode não ser espetacular, mas a novidade dos sabores compensa-me plenamente. O tempo pode não estar lá essas coisas, mas hey, a maravilha que é lá estar no off season, a experimentar tudo o que os magotes de gente ao Sol vão esconder. É certo que o alojamento parece uma pensão manhosa na Brandoa, mas não há nada que chegue a este viver o sítio real, como se fosse indígena. Enfim, eu gosto mesmo é de laurear a pevide, de andar no laru, de alçar o rabo de casa e pôr-me na alheta. Se me quiserem pagar por isso - aliás, pagar isso, ponto! - é garantido que vou escrever maravilhas do local. No mínimo, de alguma coisa no local e de certeza que vou clicar na opção “voltarei”.

Depois há o “outro lado do Mundo”. Ainda que um pouco desviado na Geografia e no tom do castanho das gentes, alegro-me no cheiro das especiarias e na cor do Oceano. Aqui é Mar, mas acreditem que a água sabe ao mesmo. A localização permite-me cumprir a quota mínima de headshakers para que a minha Alma Indica se sinta igualmente em casa. Quero dizer, num upgrade de casa, como se o primeiro Mundo, de repente, tivesse invadido Hikkadwa.

A pessoa olha para a fotografia e pensa no Caribe, no Pacífico talvez, pode até condescender no Índico Maldiviano, em ilhas das Seychelles enfim. O Golfo são guerras e petróleo e explosões e mulheres de burca, no mínimo de hijab, e areia a perder de vista. Ou então imitações caras de grandes metrópoles, com espírito de Las Vegas, sumptuosos recreios infantis para os verdadeiramente ricos. Consigo ainda cheirar isso daqui, estereótipo à parte, mas a estrada foi marcando as diferenças, apesar dos poucos quilómetros e da mesma bandeira.

Voltarei, sempre que puder, mesmo que não me tenham pago. Mas deviam. Fiquem com o nome e mantenham o espírito Tuga alerta: de vez em quando aparecem promoções imperdíveis em RAS AL KHAIMAH.

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Eu acho que alguém me devia ter feito jogador de futebol. Seria um daqueles que todos os treinadores gostam de ter. O repositório de mística do balneário, o capitão - com ou sem braçadeira - que grita com os companheiros e os mete na ordem, a voz do treinador em campo, o exemplo de raça, de querer e de crer, o homem do nervo, do sacrifício e da superação. O orgulho no emblema estampado no rosto de cada vez que entrasse em campo, os olhos cheios de água ao ouvir o clamor do estádio a culminar o hino: Porto, Porto, Poooooorto! Huuuuaaaaaa!

Tenho tudo, ainda agora, na calvície grisalha. Só me falta saber jogar à bola. Get it mister?

Nem por isso? Então pegue lá meia horinha de explicações. À borla. E vamos a isto que este caneco não nos vai escapar!

quarta-feira, 28 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VIII - pausa




é complicado escrever quando não há assunto “do bom”. diz que até a prima Vera entrou por aí, mas eu não a vi e ao contrário do meu nariz, que a (pres)sente todos os dias – e não, “nariz” não é um eufemismo para qualquer outra parte proeminente do meu corpo… adiante.
não pretendo maçar o leitor com uma qualquer dissertação sobre os benefícios desta pausa para compromissos dos jogadores afectos a um certo e determinado empresário (com alguns dos seus negócios de “mendilhões” a serem alvo de investigação por parte dos sistemas fiscais de «ambos os dois» lados da Península…), para o tão necessário retemperar de energias da nossa equipa do coração – inclusive para essa tão desejada recuperação de quatro jogadores fulcrais para o futebol por ela praticado, esta época e que há muito se encontram no “estaleiro”. deixo essa tarefa para as bancadas dos Universos Porto do canal do Clube e para as culpas dos Cavanis dos podcasts da moda – assim eles se resolvam a gravar mais um episódio do programa, tão prometido e tantas vezes adiado. mais um pouco e igualam uma célebre entrevista de um ilustre presidente, reservada (para calendas) ao canal de televisão do Estado e subsidiado com verbas de todos os contribuintes portugueses independentemente da sua cor clubista…
também não me apetece discorrer sobre as mais recentes revelações dos e-mails que envolvem aquela agremiação que ao início os negou com quantos pintelhos tem o seu presidente ao cimo da sua boca e que, agora, se diverte a ameaçar cidadãos com processos na mesma Justiça que vai negando recursos hierárquicos a um dos seus principais arguidos. delego essa função para as toupeiras habituais nestas alturas – vulgo pés-de-microfone, sabujos, cartilheiros e avençados habituados a difundir a Propaganda do Estado Lampiânico que lhes impingem, nos costumeiros “Órgãos de Comunicação” tão afectos a essa gloriosa causa e que, em tempos, se deliciavam com tudo o que eram escutas divulgadas no YouTubiu por um qualquer tripula e agora clamam por «Paz» no nosso comezinho futebolzinho tuga, enterrando a cabeça na areia mais fundo do que aquele outro órgão que lhes penetra “a alma” diariamente, sem aviso prévio, sem dó nem piedade, e que eles, pelos vistos, tanto gostam e ainda imploram por mais.
muito menos quero abordar a paupérrima prestação das modalidades (ditas) “amadoras” que envergam o Brasão Abençoado ao peito e que, este final-de-semana, nos envergonharam. mais do que querer passar a ideia de que pretendo seguir em frente e ignorar um problema sério, não pretendo repetir o que o Paulo Miguel Castro afirmou aqui, a partir dos 50’ do programa e que eu subscrevo. na íntegra.
acima de tudo, mais do que chegar rapidamente esse 02 de Abril que tanto tarda, quero e desejo que esta espécie de “mini-férias” não tenha consequências nefastas para as sete finais que faltam para o que resta do Campeonato, a que se acrescenta a meia-final de acesso a esse jogo que anualmente se pratica no Estádio Municipal de Oeiras. assim Sérgio Conceição tenha presente a importância dessas “batalhas” e que a mensagem esteja a passar para todo o grupo de trabalho. quem alimenta o vasto #MarAzul que acontece desde a primeira jornada e que, mais uma vez, se prevê que venha a encher mais um estádio – desta feita, o de um dividido Belenenses –, merece-o. e mais do que ninguém!

“disse!“


Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)


quarta-feira, 21 de março de 2018

Do Amor e da Derrota


Escuta, uma noite destas separámo-nos. Não te sei dizer se de papel passado e tudo, mas deixámos de nos conceder esta prerrogativa da vida em comum. Como se algum dia a nossa vida tivesse sido comum. O mais estranho é que passámos todo o tempo da negociação que isto sempre envolve numa espécie de limbo. Posso garantir-te que eu e tu olhámos para o tempo a passar, para os requerimentos a decorrerem os seus prazos e, muito provavelmente, para o ar de espanto e secreta revanche mesquinha de muitos dos que terão, eventualmente, falado connosco acerca, como se tudo fosse apenas provisório. Como se soubéssemos de fonte muito segura que no fim não haveria desenlace, não este.

Víamos os acontecimentos como se estivessem dentro da vida de outros, a acontecerem-nos perante os olhos, sem que os parássemos porque aquilo não ia passar-se. Como não ia, nenhum de nós precisou de sair da sua fortaleza de razão, de dar um pequenino passinho na direção do outro que nos teria posto a correr aos dois. Para quê? Era tão evidente que este nó no estômago desapareceria de súbito, tão estupidamente claro que nunca - mas nunca, percebes? - iríamos deixar que um dia alguém chegasse a uma folha deserta e escrevesse: Escuta, uma noite destas separámo-nos.

É pois sem perceber bem como, que me vi sentado a uma mesa redonda, branca, de cadeiras brancas, tudo a fazer lembrar aquele mobiliário lacado de antigamente, de lado para ti, como é costume sentarmo-nos em mesas redondas só os dois, de forma a que não fiquemos muito longe, fora do alcance da mão. Mas super-design, está claro. Ou não, não tenho a certeza. Só sei que ninguém, em nenhuma esfera do saber ou sentir, alguma vez achou de mau gosto as tuas mesas e as tuas cadeiras. Sim, porque eram tuas, na tua casa. Assim, tua. Não nossa. Eu continuava com o estômago às voltas e a pensar: Mas quando raio é que acaba o disparate e volta tudo ao normal?

Sei hoje que tu pensavas pouco mais ou menos o mesmo, acrescido de um azedume sem razão aparente. Afinal, eu estava certo de que tinhas percebido que a razão era minha e que não poderia, jamais, fazer de conta que não a tinha. Enquanto tu te limitavas a não querer dar o braço a torcer, mais nada. Mesmo agora, aqui chegados. Como te podes atrever?

Do que falámos não sei. Sei que a tua amargura tinha tudo a ver com uma namorada muito jeitosa que eu devia manter à época. Ainda tenho muita pena de nunca a ter visto. Mas pronto, era do conhecimento geral, e teu muito em particular, que ela existia e as fotos - penso que haveriam fotos ou redes sociais ou alguma prova mais credível que estas linhas - comprovariam que era muito apresentável. Oh, que digo? Sabíamos todos que era um espanto, pronto. E só mesmo essa parte do teu fel por mim é que não conseguias disfarçar tão bem. Tudo o resto em nós era urbanidade e familiaridade e uma certa cumplicidade que sobrevivera. Tanto que sei que me aprestava a subir ao andar de cima, como se isso fosse vulgar, para desancar a mais nova por não se ter despedido do pai, antes de ir dormir.

Eu o mesmo. Mas tu, ai tu, tão outra. Engordaste a olhos vistos e ficaste tão menos bonita. Com o cabelo armado, à professora primária de antanho. Já se vê que o saia-casaco castanho, naquele tecido estranho que parece cheio de borbotos, com saia abaixo do joelho e os sapatos pretos, de salto baixo, à balzaquiana, não ajudavam nada a compor-te. E eu pensava: Caramba, mas porque é que se me rebola desta maneira o estômago, à conta desta senhora? Porque estarei tão angustiado por não se acabar já de repente esta situação inusitada e tudo voltar atrás? E, sobretudo, porque é que tenho tanta certeza que quando tudo estiver de novo no seu lugar, também tu serás tão bonita como te recordo?

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Escuta, uma noite destas o Porto perdeu com o Paços de Ferreira. Tu já dormias quando cheguei, porque acrescentei tertúlia à derrota: um bando de tipos a carpirem-se diante de cervejas geladas e molho de francesinha. E eu vinha acabado, moído de rever as bolas que deviam ter entrado, chateado da chuva e dos quilómetros e de toda a gente a dormir. Por nada. Perdemos, foda-se.

Devo ter adormecido relativamente depressa. Tu sabes que quanto maior a chatice, mais depressa e mais profundamente durmo. Fujo. E foi então que o meu inconsciente se decidiu a colocar-me perante uma verdadeira derrota. Não sem ter o cuidado de me apaparicar e te deixar claro o que te faria perderes-me. Como de repente serias uma pessoa amarga e feia e gorda e com as gengivas todas arrepanhadas e os dentes cariados. Lembrei-me agora mesmo disto da boca, não estou nada a inventar! Ninguém te pegava, pelo que permanecerias minha. Acho que era esse o objetivo do extreme make-over.

Confesso que acordei zangado contigo. Porque a razão era mesmo - repara, eu sei isto! - minha, independentemente de qual fosse o problema. A esse, desconheço-o. E tu esperaste que eu relevasse esse facto em beneficio do teu orgulho e deixaste-nos cair. Deixámos. Na certeza de que o outro acabaria por evitá-lo. Perdemos, como o porto em Paços. E em nenhum pedacinho do meu sonho eu quis saber do futebol. Aí tens.  

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quarta-feira, 14 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VII - xadrez



"na Vida, ao contrário do que acontece no xadrez, o jogo continua após o xeque-mate."

correu muito mal, não foi? pois foi. e deu razão ao postulado #6 das Leis de Murphy: «se se perceber que uma coisa pode dar errado de quatro maneiras e, mesmo assim, conseguirmos ‘driblá-las’, uma quinta surgirá do Nada».
e foi precisamente isso que aconteceu, na cidade destes senhores do Rock aqui, ante o time local que equipa com uma cor demasiado rubra para o meu gosto: não deu para marcar seis golos e “virar” a eliminatória, tal como eu esperava. ao menos ganharam-se dois novos valores para a equipa principal: Bruno Costa e Diogo Dalot – sendo que este último é que é a “quinta” cena do sr. Murphy, porquanto que, com o valor da sua cláusula de rescisão fixado em meros 20 M€, tal são «peaners» para os tubaralhos da Europa, tanto é o seu potencial. esperemos que ainda seja possível a renegociação do seu contrato…

quanto ao que aconteceu em Paços de Ferreira, ainda estou doente (literalmente).
na partida disputada em terras do Vale do Sousa aconteceu o disposto no nr. #9 das malfadadas leis, e que refere que «acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série». ele foi a meteorologia (com uma intempérie que ninguém contava em pleno Inverno); ele foi o vento forte (com um sorriso particular do jeBus, neste capítulo); ele foi o estado do ervado da Mata Real (sem ironias, exceptuando os recintos dos três grandes, considero que mais nenhum estádio reúne condições de excelência para intempéries como a do passado Domingo – e não me refiram o Alvaláxia sff…); ele foi o anti-jogo elevado ao Absurdo de toda a equipa do Paços; ele foi a basta Paixão aliada a um complexo Xistrema; ele foi tudo isso que Sérgio Conceição referiu na Conferência de Imprensa, mais um maletim ‘Louis Vuitton‘, repleto de muita Boaventura, #alegadamente expedido por via dos Césares desta vidinha. em suma: ele foi o diabo a sete, mais t-u-d-o o que já se contava que poderia acontecer e um saco de tremoços, e tendo em linha de conta o que as E-Toupeiras vinham escavando ao longo da semana.
agora, para mim, depois de um jogo desgastante para a Champions, acho que não se consideraram as “outras” incidências que antecedam a partida e pertinentemente expostas aqui, via shôr Bala – a saber:
« também convém recordar que, esta época, perdemos pontos em 4 jogos. para além dos dois Clássicos, empatámos com o Aves (que na altura ia em 16º) e com o Moreirense (que ia em 15º). não podemos perder mais pontos nestes jogos. é absolutamente imperial não dar oxigénio ao mais directo perseguidor.»

sem pretender ser maçudo e contestar, na praça pública, decisões e/ou escolhas que competem ao Treinador, só não compreendo a aposta num Corona letárgico e que comprovadamente ainda não ultrapassou o drama familiar (Jesús, que jogo horrível! mais um…); as entradas tardias do Gonçalo e do Otávio na partida; o Paulinho não calça porque?…; que mal é que fez o Óliver para ir para a bancada?… são só dúvidas e sem qualquer maledicência na sua exposição.
por outro lado, deu para perceber que o Waris não é reforço para esta equipa, porque voltou a desaproveitar uma oportunidade e logo num jogo em que tinha que marcar a diferença – assim como o Hernâni; que a lesão que o Victorio Páez sofreu em Anfield Road veio na pior altura (cucaralhinho, ó Murphy!); que os “patinhos feios” Herrera e Marega são pedras basilares, quase autênticos “cisnes”, no estilo de jogo que Sérgio Conceição implementou; que o Sérgio Oliveira deixou os ‘huevos’ algures, de Janeiro de 2015 à presente data (e #alegadamente com muita pena para a sua companheira).

concluindo (e baralhando):
E-Fodido perder assim, sobretudo porque fica esse E-Amargo de boca de que não se fez tudo o que estava ao nosso E-Alcance. agora, E-Lidar com a amargura, esquecer (se for possível) a E-Azia e começar a preparar convenientemente o ‘derby’ já do próximo Domingo. E-Isto mesmo, pura e simplesmente e sem E-Esquemas.
muito do xadrez deste campeonato passa pelos embates do próximo final-de-semana – e assim se justificam a imagem acima, bem como a citação que supostamente pertence a um escritor e bioquímico americano, mas nascido na Rússia, no início do século transacto, de seu nome Isaac Asimov (investiguem…). se teremos pela frente um adversário que, contra nós, é sempre aguerrido e bravo, tentando ultrapassar o “remendado” complexo que fica próximo da rotunda que lhe empresta o nome – alguém se lembra do que aconteceu em 2003/2004? eu não me esqueço… – já o 5lb terá uma fogaça complicada para digerir, lá pelas terras do taberneiro desta casa, assim como o sportém receberá um sempre afoito Rio Ave (e por mais “invenções” que o Spaletti dos Arcos teça).
acima de tudo, é importantíssimo vencer a nossa partida, onde estará presente o #MarAzul que acompanha esta Equipa desde o início da época. é esta a minha última palavra num texto que já está longo: o reconhecimento público e o apreço por tod@s que têm emprestado muito do seu tempo para apoiar incondicionalmente o nosso Amor comum. indubitavelmente muita da sua Força passa por vós e como bem têm reconhecido os nossos artistas.
[já sobre as obras de remodelação do balcão que o proprietário deste espaço está a encetar, ficarão para outra oportunidade.]

“disse!“


Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)