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sexta-feira, 2 de março de 2018

Vinte mil léguas submarinas

...oh happy days...

Sempre gostei de me ver como um animal com tendência aquática. Pelas horas no duche, por exemplo, ou pelo facto de estar inscrito num Centro de Desenvolvimento Muscular - ginásios é para maricas - no qual me dedico de corpo e alma à modalidade de boiar na piscina. Até já tive um chefe que me disse: Oiça, à água que você mete, se lhe pintarem umas pistas na careca, mais parece o Slide & Splash. Bom tipo, o chefe. Pena o atropelamento e fuga que o deixou paralímpico do pescoço para baixo.

Não é pois de estranhar que me tenha parecido uma ideia muito catita agraciar os alunos da aula de Hidroginástica com a minha participação. Está claro que a minha intenção era ser mais um, ajudar a equipa, remar todos para o mesmo lado, o que importa é o grupo, sem os meus colegas nada disto seria possível e isso tudo, levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo. De tal maneira que até evitei, propositadamente, vestir os meus espetaculares Speedo que, diga-se em abono da verdade, me ficam muito bem. O abono ajuda, por ser uma verdade tããããooo evidente. 

Isto era sobre o quê? Ah, exatamente! Fiz questão de comparecer com um singelo calçonete preto, basto discreto e largueirão. A minha mais que tudo que nem saiba que fui nestes preparos. Não gosta nada daqueles calções, a cachopa. Diz que fico a cheirar a chulé das virilhas. Mas eu pensei: Oh Silvas, quem é que nos vai agora cheirar as virilhas na Hidroginástica? E procedi a ligar-lhes, para perguntar se andavam no sítio tal e, em andando, se iam à Hidroginástica. Ninguém ia, um descanso. 

( Pausa para contrição: 
Era uma piada demasiado suculenta, ‘mor. Sabes que as minhas virilhas são só tuas. Mais ninguém mas snifa que eu não deixo. Siiiim, todo polvilhadinho de pó-de-talco. Não zanga, não? Não faz piada parva com Nelson Évora, não? Pueeaaaaseee? Estou tão fodido, credo.)

...

Afinal, o que vem a ser isto da Hidroginástica? É fácil de perceber, e o nome ajuda um bocado, que se trata de um grupo de fulanos e fulanas aos pinchos dentro de água. Tipo a minúscula piscina de um  aldeamento manhoso em Quarteira, com mais putos ranhosos do que cloro por metro cúbico. Só que são os bisavós dos miúdos. Um gajo pensa: Fuoda-se, só espero que esta merda tenha um sistema de aspiração central de cadáveres no fundo, ao número de velhinhos que vai quinar, fica isto mais pejado de corpos a boiar do que uma ETAR no The Walking Dead. Mesmo o cheiro há de ser parecido. Fixe para a questão das virilhas.

Já sei que estão todos indignados, a achar que sou uma besta que não respeita ninguém e que me ponho a fazer troça de toda a gente, como se eu próprio não caminhasse para velhote. É mesmo essa a questão: eu vi-os a caminhar. Dos balneários para a piscina. Todo um festival de artroses e joanetes, de costas doridas e semicorcundas, de peles caídas e dentes em falta, de ais, uis e entãos está melhorzinha. Pá, desculpem qualquer coisa, mas parecia mais que tinham vindo de jogar com o Canelas do que iam para a Hidroginástica. 

À frente deles todos, a instrutora. Uma moça fresca e viçosa, com ar de quem não se ia meter na água com aquela trupe, nem que lhe pagassem o turno a dobrar. Alto! Há que tomar, discreta e modestamente, um lugar à frente dos velhadas. O melhor aluno fica sempre na carteira da frente, já se sabe. Qual Nelson Évora da natação sincronizada. Incha!

Caso nunca se tenham apercebido, escutai com atenção o Tio Silva: os velhinhos enganam. São uma raça de gente dissimulada, levada da breca, ora agora parece que sim e, vai-se a ver, nada disso. Trôpegos até a la borde de la piscine, perros a agarrarem-se às escadas, a ranger de tudo quanto é articulação a descerem os degraus e de repente, não mais do que de repente Senhor, plumas!

Quase que oiço as trombetas do Céu, voam em círculos perfeitos pequenas fadas, são tão foooofaas! É isto o nosso elemento primordial, não haja dúvida. Aquele em que os decrépitos de ainda agora se tornam nos ágeis anfíbios do momento. Autênticos Aquamen, todos enrugados das trombas.

Ainda assim, o cenário parece muito favorável. Uma piscina cheia de anciãos, com um alto e espadaúdo mancebo - um vosso criado - à frente da turma. Raisparta se não vou ser o maior deste tanque. Andar aos pulinhos dentro de água é-me praticamente inato. A mãezinha teve muitas vezes que se amarrar a coisas pesadas, para não andar aos pinchos como uma bola de basquete, quando estava grávida de mim. Da Esperança do Mundo, portanto. Até acho que foi aí que inventaram a expressão e tudo.

Ora começa a dança, pulinhos, mexe os bracinhos sem levantar água, pulinhos, levanta a perna esquerda para a frente, pulinhos, agora a direita, pulinhos. Well, não se pode dizer que seja muito entusiasmante, lá isso não. Não fosse estar a pensar que uns 80% da turma já devia estar à beira do afogamento ou da síncope, acho que já tinha adormecido.

Agora alça da perna esquerda para trás e toca com a mão direita na ponta do pé. Hã? Esta merda agora é acro-ioga em fato de banho? Disse como? A perna...espera... Estou dentro de água, foda-se!, eu sei lá qual é a perna esquerda. Aguenta, aguenta, acho que lhe apanhei o jeito. Troca o quê? Qual ao contrário? Devagar, caralho, que já vou no segundo pirolito à conta das pernas trocadas. Como assim passa a esferovite por trás das costas e faz bicicleta com as pernas? Isso é sequer possível? Meti-me com os tarados do Kama Sutra underwater para a terceira idade, kéjbêr? Opá, já sei que é de papo para o ar, esta merda virou-se sozinha, que queres que lhe faça? Uma moça tão nova e já a gritar tanto, chiça. Estou a tentar, estou a tentar, vão-se rir da puta da vossa prima, velhos dum cabrão. Oh senhora, mas como é que eu posso levar os joelhos ao peito, dependurado num chouriço de esponja? Cá está, o melhor que se consegue: uma barata a dançar breakdance enquanto sofre um ataque epiléptico.

Viro-me para olhar para os colegas. Todos em movimento, maldita gravidade alterada. Como é que ainda estais vivos é que me espanta. E com um ar vermelhusco, cansados mas sadios. Só espero que não se tenham mijado todos pelas pernas abaixo, credo. Havia de ser obrigatório o uso de fraldas, daquelas de os bebés levarem para a água. Em tamanho xxl, já se vê, que Speedos apertados não ficam bem a toda gente. A partir de uma certa idade, os indivíduos e as indivíduas deslargam-se com alguma facilidade. Digo eu, mas sou uma pessoa muito nervosa.

Acabou! Ufa, finalmente. Eles vão saindo, as dificuldades de locomoção a fazerem-se pagar mal põem um pé em seco. Eles e os seus sorrisos trocistas, filhasdaputa. Ri-te, ri-te, quando deixares de aparecer porque faleceste, eu também me vou rir. E aproxima-se a porca Nazi que tem a mania que manda nisto tudo:

- Oiça, à quantidade de água que você bebeu, se engolisse um escorrega... - Interrompo:

- ...era o Slide & Splash, já sei. Faça cuidado a atravessar a rua, hein?! Vivemos dias complicados, cara senhora.

E fui embora, disposto a gastar tanta água quanto possível na minha merecida e retemperadora banhoca. Acho que aquilo do TRX é mais o meu género. Não sei, é malta mais nova e uma vez estava a tocar o Run to the hills e assim. Um dia destes experimento.




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus IV - focus




sim, é verdade: ainda não esqueci.
aliás, como esquecer uma noite de pesadelo quando diariamente ainda me custa a sentar? fui sodomizado, à bruta, por um bando de lenhadores bretões, sem apelo nem agravo, nem direito a um carinho e muito menos um banho de rosas, no final de um acto que se repetiu por mais quatro vezes. ao invés, ganhei um andar novo para os próximos tempos e que mo fazem questão de recordar – não só na leitura diária de alguns pasquins, como na rede social que frequento, e invariavelmente no trabalho…

“estás diferente, Miguel! cortaste o cabelo? ah, não, não é isso! estás de saco cheio, não é? deixa lá… olha, dá cá um 'high five' qu'isso passa!“… ou “ó Lima, já leste o último conto da Enid Blyton, 'Os Cinco no Dragão'? muita bom, pá! tão ou melhor do que o 'white album' dos The Beatles!"… ou “ó Mane, levaste cinco na pá que nem podes sair do quarto para a Salah. vais demorar a ficar Firmino!“… e riem-se, as bestas. era quem lhes arrebentasse as ventas com os tijolos do Marega, que eu, agora, não posso nem com uma Corona… adiante.

nos dias a seguir à hecatombe foi muito complicado arranjar Espírito – não só para suportar aquelas provocações baratas, próprias de quem só segue a Champions pela tv e se baba somente com os desaires do único competidor português na mais prestigiada competição mundial de clubes, mas principalmente para escrever. assim se justifica esta ausência, com o correspondente pedido de desculpas, não só a ti, mas também ao dono deste salutar estaminé – por que é um bálsamo em dias de tormentosa crise.

nos momentos a seguir ao apito final, a raiva era imensa e amandei com uns quantos tweets para a ‘timeline’ da coisa, a ver se passava. debalde. a fúria era muita mas não compensava o desgosto (bem superior à natural frustração que se seguiu). recordei-me do desastre de Munique, em 2015 e dos humilhantes 6-1. e dos 5-0, em Londres, em 2010, ante um Arsenal que fez de nós Fuciles num dia péssimo. e de uns 4-0, em Manchester, em 1997, com muitas Costas largas. curiosamente três resultados fora do nosso reduto… é que no Dragão como, em tempos, nas Antas, é suposto sermos nós a mandar. infelizmente não foi o que aconteceu, como sabemos e por tudo o que entretanto já foi escalpelizado por quem de direito nestas andanças.

a minha concentração para o quotidiano azul-e-branco só regressou ao final da manhã de Domingo quando o pikachu lá de casa perguntou quando é que jogava o FC Porto, se eu ia ao Dragão e se o poderia levar também. respondi-lhe que jogávamos perto de casa dos Avós maternos, pelo que teríamos que ver o jogo pela tv. então, no alto dos seus seis anos, ele disse que antes queria ver o Cartoon Network… há-de chegar o dia em que o seu foco, em dia de jogo, será outro. não me iludo, nem me preocupo.

numa partida de sentido único, foi gratificante perceber que, com esta Equipa Técnica e com o plantel à sua disposição, ainda há pergaminhos que se fazem por honrar e que, a seguir a uma derrota, o adversário que se segue é quem terá que efectivamente “pagar a factura“. desta feita, calhou ao Rio Ave “do“ Spalletti do Ave passar uns momentos desagradáveis…

o retomar da liderança do campeonato não apaga a dor (igualmente física) da passada Quarta-feira mas, por um outro lado da questão, recentra a nossa concentração para o objectivo mais importante desta época: a conquista do campeonato.

e é por essa razão que o jogo de mais logo, na Amoreira e se a bancada entretanto não ceder, é o desafio mais importante deste ano – não porque e como diz o “chavão do futebolês“ seja o imediatamente a seguir ao anterior, mas porque se trata de uma partida de duas partes de 22'30" cada, sem direito a intervalo e em que entraremos literalmente a perder por 1-0.

afigura-se uma tarefa muito complicada, para uma equipa a denotar algum desgaste físico e que invariavelmente tem que lutar com muitos adversários, em cada jogo – e não me refiro só aos jogadores da outra equipa, os quais certamente que estão muito “motivados“ #alegadamente com o que os Césares do nosso comezinho futebolzinho tuga transportam nas suas malas Louis Vuitton, diz que carregadas de muita esperançosa Boaventura…

aliás e se dúvidas houvessem do que se afirma, os instantes finais do jogo de ontem, em tondela, comprovam que, se viermos a conquistar o tão desejado e ambicionado título de Campeão Nacional, este será um feito que superará, não só as nossas melhores expectativas, mas também muitos opositores – a começar pelas forças da Segunda Circular e de todo um Centralismo serôdio, atávico e a tresandar a mofo (e já para não mencionar o ultraje que é a continuação desta partida que foi interrompida, por ordens superiores, do Comandante da Protecção Civil presente no Estádio, em Janeiro último, devido a «questões de segurança»…).

portanto e em suma:
será bom para a Nação Portista que o “focus“ se mantenha no Importante e que nos alheemos do Acessório – isto é, que esqueçamos, nem que seja por momentos, a dor de Liverpool e concentremos todos os nossos esforços no apoio à Equipa para a obtenção do ceptro de Campeão.

é um pouco como a imagem ali em cima: podemos não reparar na superfície frontal que se desloca para o Golfo do México, se nos concentrarmos somente nas outras superfícies. é que depois, chegados lá, só com roupinha de Verão e sem um agasalho, não saberemos onde é que fica a Feira de Custóias mais próxima, o que poderá ser traumático… é que pode dar-se o caso de virmos a acordar na banheira de um hostel rasca, suturados porcamente na zona do abdómen e com esse 'plus' de um andar novo… sim, outro andar novo.

Miguel Lima | 92º minuto
(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A Mesa do Canto: 4 those about to amamentate the Tributary Authority... (Com Famel_ZundAPP)



Determinei de mim para comigo um tempo limite para encontrar uma resposta decente ao Grande Mistério da Humanidade que aqui tinha deixado ontem. Já se sabe que os Grandes Mistérios são melhores de um dia para o outro, parece que apuram. Pensei que horita e meia me bastaria. Como não estava a correr assim tão bem, decidi dar-me mais uns 4 minutinhos. A verdade é que 96 minutos depois, ainda não tinha percebido porque é que andam os motards em protesto.

Aos 99 minutos, entra pela porta um tipo em tronco nu e capacete. Opá, é que nem de propósito, assunto arrumado! Tinha que ser lagarto...

- Olha lá pá, mas o que andas tu a fazer nesse preparo? - Enquanto lhe espeto um bagaço à frente.

- A ensacar bacalhau demolhado para congelar, está claro. - Um trago, fundo do copo contra o balcão.

- Pois, pergunta parva. - Reviro os olhos. - Porque raio é que vocês, os motomobilizados, são contra inspeções periódicas aos vossos ruidosos veículos? - Outro bagaço, outro trago.

Roda o banco do balcão, tira o capacete e sobe para cima da mesa do canto. Ninguém esperava menos. Os velhos viram-se instantaneamente para ele, já de sorriso a meia haste. 


...

Olá, amamentadores da Autoridade Tributária.

Ora bem.. pediram-me uma opinião sobre isto e eu vou dar. Já dizia o Herman José que as “opiniões são comos as vaginas. Quem tem uma, dá-a se quiser”. Eu, como sou uma puta sem emenda, dou-a toda.
Quando me pediram opinião sobre esta coisa das Inspeções Periódicas Obrigatórias nas motas, partiram logo de princípio que eu seria contra porque sou motard, motoqueiro, moto-rato, moto-etc. Errado! Sou a favor. Calma!! Passo a explicar, antes de me arremessarem fezes ou pedras!

Ando de mota há 20 anos. Não andei sempre na mesma, mas andei sempre nas que têm duas rodas. As que têm 4, para mim, não são motas. Não sei se isso chega para ser motard. Se calhar não, se calhar sim. Achem o que quiserem porque estão num país que se diz livre e o achar ainda é grátis. Sou a favor porque, além de ser motociclista, também sou ciclista, automobilista e outros istas. Só não sou é fascista.
Feito o enquadramento extenso e não quadrado, elenco agora os principais motivos que me levam a ser a favor das IPO nas motas:
  • Nestes 20 anos a andar de mota, perdi amigos que morreram a cavalo em motas mais leves que a Carolina Patrocínio e mais potentes que peidos do Manuel Serrão. A falta de fiscalização sempre permitiu esta merda. Motas tipo pífaros com a velocidade de mísseis Norte-Coreanos. Se as IPO resolverem este caos de potência/peso/lógica, sou a favor;
  • Não gosto de tunning e azeite martelado. Obviamente, nas motas também não gosto dele. Existem motas que têm tantos piscas e outros acessórios ESSENCIAIS para a segurança do motard e dos outros, como o Passos Coelho tem jeito para a política. Ou seja, zero. Se as IPO resolverem esta merda, sou a favor;
  • Como não gosto de música de Tony Carreira e da Ana Malhoa, também não gosto de ouvir motas que andam como um caracol, mas fazem mais barulho que uma betoneira dentro duma cabine telefónica. Gosto de dormir descansado e a poluição sonora é algo que não me assiste. Se as IPO resolverem esta merda, sou a favor;
  • Matrículas do tamanho dos colhões do Cavaco Silva. Ou seja, minúsculas. Percebo que é fodido andar com uma matrícula com o tamanho dum outdoor do Isaltino Morais atrás. Dá cabo da beleza das motas e coiso e tal. Mas há o outro lado. Imaginem que a vossa filha, pequena e inocente - sim, gosto de apelar ao coração com exemplos à Pedro Chagas Freitas - atravessa a passadeira e vem um gajo de mota e lhe acerta. Se ele não tiver uma matrícula visível e fugir, as testemunhas (se as houver), agarram-se ao pau e dizem só a cor da mota. Relato este exemplo pois sei dum episódio semelhante que deu merda a sério. Se as IPO resolverem isto, sou a favor;
Pronto, é esta a minha opinião. Vale o que vale. Ou seja, zero! Podem não concordar com ela e acusarem-me de não ser uma verdadeiro motard, porque não estou contra as IPO porque sim. Estimo que se fodam, assim como vocês estimam que eu me foda. Assim, a existência humana acaba por ser bonita. Digo sempre o que acho pois não alinho em manadas. Peço desculpa por isso.

Agora, adeus. Vou fazer uma panela de canja. Estou com uma gripe do caralho e a tossir mais alto que uma DT 50cc com escape de rendimento da Fuego!

Um abraço.


Famel_ZundAPP | @Famel_Zundapp


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Saltou da mesa, pôs o capacete enquanto espirrava e saiu. Cabrão, não pagou os bagaços!

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Mais cincazero, Silva!

...oooppsss, sorry, enganei-me no cincazero...

...mas estes foram do bem! Do jogo em si, a gente despacha-se num instante: aos 20 minutos já o FCP estava a ganhar por dois, com uma bola na trave e outra salva em cima da linha. Pressão alta, recuperação de bola em zona de ataque, maior rapidez do que adversário e mais agressividade para ganhar as segundas bolas, muita decisão má sobre o que fazer com a chicha. Chegou e ainda sobrou para quarta-feira que vem. Foram cinco, podiam ter sido um pouco mais, se bem que não muito, porque a eficácia esteve altíssima, ainda que o melhor futebol tivesse aparecido nos últimos 20 minutos. I wonder why... Desconfio é que não teríamos tido uma partida tão descansada se fossemos jogar esse bom futebol de inicio. Vai daí, fuck it!

Ah, é verdade, o Iker voltou à baliza. Vai-se a ver, está mais gordo. Concordando com a titularidade do Espanhol, porque é o melhor do plantel, não o teria feito agora. A menos que o Sá tivesse suplicado muito. Mas lá está, eu não teria tirado o Oliver da equipa depois do Besiktas...

Como dois parágrafos parece pouco para um post e não tenho nenhuma novidade acerca do meu estudo sociológico "Estupendas cenas da pornografia Mundial e a sua influência no conflito étnico do Sudão", vamos conversar um pedacinho sobre coisas a propósito do FCP vs Rio Ave de ontem.

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Coisa 1 - Liverpool

Estratégia: pressão alta, intensidade e agressividade positiva. Objetivo: ganhar a bola em zonas adiantadas, encurtando o caminho para a baliza. Como ideia, não está nada mal. A aplicação pode ser complicada, mas contra o Rio Ave resulta sempre bem.

O problema não é o adversário, é o árbitro. Acertas na bola, mas raspas no jogador? Falta. Encostas-te ao rapaz que tem a bola, segue, segue, até ele ficar sem ela, momento em que? Falta. Carrinho para recuperar o esférico? Pá que abuso! Falta. O gajo teve uma embolia e caiu redondo - salvo seja! - e tu procedeste a avançar para a baliza? Espera, alguma coisa deves ter aprontado, seu traquinas. Falta. Há cinco dois minutos que ninguém se atira para o chão a balir de dores lancinantes? Deve-me ter escapado uma sarrafada ou outra. Pelo sim, pelo não, vou marcar uma falta.

Reparem, nem sequer vou discutir a Xistralhada do critério. Apenas porque o assunto não é este jogo, está claro. O assunto é o segundo golo do Liverpool no Dragão. Como, mas como, posso esperar que o Marega não achasse que tinha pelo menos 1 minuto para ficar a rebolar no chão? Porque é que a equipa não haveria de levantar o braço e deixar-se estar descansada? É o que nos ensinam, em campo, durante cinquenta jogos. Os milhões dos orçamentos, o pacing, a intensidade, a santa cona do assobio e os colhões do mudo, podem todos ser muito verdadeiros, mas o pior de tudo é termos que jogar outro jogo durante um ano inteiro.

Fosse um Xistra do estrangeiro, um Xáistra ou Xistre ou von Schïstr ou a puta que o pariu, a apitar-nos contra os de Anfield, não havia segundo golo para ninguém. Fosse um árbitro de futebol a apitar-nos ontem e teríamos dado oito. Quer dizer, dependendo do minuto de jogo. Se fosse depois de o cérebro do Brahimi ter ido tomar banho, se calhar dávamos só seis.

Imagino um trabalho muito complicado para um treinador do FCP. Na maior parte do tempo, tem que dizer aos moços: Pá, oh Orelhas, tens que ser mais meiguinho, não sei, não lhes tires a bola, fica só lá a olhar para eles ou assim. Pode ser que se hipnotizem a olhar para os abanos e adormeçam. E mesmo assim, não abuses, que olhar fixamente para o adversário pode ser conduta antidesportiva. Oh tu aí, o armário, um metrinho de perímetro de segurança, tajóbir? Se te chegas mais do que isso, ainda levas amarelo.

De longe a longe, chega-se ao pé dos mesmos tipos e: Pá, oh Hector, tu morde-lhes os calcanhares, não os deixes da mão rapaz. Oh tu aí, o armário, só cais se te derem um tiro, tajóbir? E mesmo assim, é se for audível. Se for com silenciador, continuas a correr que te fodes, andor meu menino.

A jogar em casa, contra o macio Rio Ave, o FCP foi mais agressivo e intenso do que contra os Saxões do Demo? Muito mais! Ontem, cometemos 25 - VINTE E CINCO! - faltas, contra 9 - NOVE! - de quarta-feira. Acreditam nisso? Really?

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Coisa 2 - Miguel Cardoso

Já sabem que eu sou um embirrantezinho de merda. Ainda por cima, quando desata toda a gente a tecer grandes loas a alguém, eu fico desconfiado. Menos se for a mim. Aí, percebo lindamente.

Ora então, oh Miguel, amigo, deixa-me dizer-te que se me desse na gana de mandar num clube endinheirado - pois claro que me deixavam, homessa! - a primeira coisa que eu fazia, era garantir que nunca te contrataríamos. Depois de isso estar nos estatutos vitaliciamente, já me podia retirar para a minha herdade, que seria todo um atol nas Maldivas, e plantar frutos vermelhos. Gosto de sangria de Perignon com groselhas acabadas de apanhar, qual é o mal?

Becabecabecabeca a identidade, rebéubéubéu a coragem, renhónhó o espetáculo, blabla houvessem mais destes. Pá, tudo certo. E aquela coisa estupidamente sobrevalorizada a que temos o hábito de chamar...errr...espera...é como mesmo?...ah, já sei, aprender!? 

Tenho imensa pena pelo Miguel, sendo eu insuspeito porque gosto daquele tipo de futebol, mas o problema não é o modelo. É a burrice. 

Broda, fazer minetes é bom. Para além do mais, é coisa para colocar as pessoas bastante perto do orgasmo - mineteiro e minetada, já se vê - mas a coisa complica-se se à quinta vez ainda não percebeste que APENAS isso não chega. Vai-te valer umas quantas palmadinhas condescendentes nas costas e ZERO orgasmos. Precisas de fazer mais alguma coisa, moço. Qualquer dia, rebentam-se-te os tomates em cheio nas tuas próprias trombas. Canoijo!

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Coisa 3 - Ser Campeão!

No inicio deste ano, decretei que o Porto é Campeão. Foi logo a seguir ao assalto à mão armada em Santa Maria da Feira, com tentativa de violação por via anal incluída. Nessa altura, ainda não tinha quase caído uma bancada e ficado um jogo a meio. Hoje, essa metade por disputar apresenta-se, por motivos diferentes, tão relevante como a batalha de Terras de Santa Maria.

Eu devia saber que para o FCP ser Campeão, tem que ganhar o Campeonato duas vezes. Burrice minha, desculpem. Ainda acabo a treinador do Rio Ave.

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Grandes Mistérios da Humanidade: Porque raio é que os motomobilizados são contra inspeções periódicas aos seus ruidosos veículos? Organizam arruadas e até aparecem ex-Presidentes de Câmara lá misturados e o caraças. Gajas com as mamas à mostra é que nem vê-las! É uma cena um bocado panasca para motard, não acham? Vou investigar...

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Rojões com sarrabulho e uma malga de verde tinto



Há vários fatores que me levam a preferir que o Braga perca jogos, exceto quando são contra lampiões ou lagartos. Sendo que, no caso dos primeiros, parece que os próprios bracarenses preferem levar na pá.

Não que antipatize com a cidade, até pelo contrário, está-se bem por lá e já fui muito feliz no Bom Jesus. Quais pecado? Tenho culpa que instalem hotéis no monte? Mas assim cumássim, eu cá sou um labrego bonacheirão e ando quase sempre todo contente. Ajuda muito a vida correr bem no âmbito da sorte ao felatio, diz que ajuda. 

De todo o modo, acontece que sou por Guimarães. Sempre por culpa da companheira de expedições, mas também da Taberna do Trovador, do Café Oriental, do mau gin do Coconuts, dos 3 filmes por dia no cinema, dos castelinhos e dos jesuítas, dos passeios de mão dada pelo empedrado das ruas onde nunca nos perdemos. Os sítios são o que lá vivemos e eu perco-me de amores por Guimarães.

O que não invalida que fique todo contentinho quando o FCP enraba violentamente e sem lubrificação o Vitória. Cinco vezes. Lá está, é uma paixão assolapada. O pessoal de Braga que não se amofine, temos sempre preferências nesta vida. A gente senta-se à roda de uma posta de bacalhau e discute isso, ok?

...

Ai, espera, isto era por causa da bola! Na série “Bela minhota”, passámos de um injusto empate em Moreira de Cónegos - que é quase Guimarães - para uma merecida vitória sobre os burmelhos de Braga. Inchem, bem feito! O povo ficou todo feliz, porcakilo em Moreira foi uma vergonha, majisto com o zbordem rubro - dass, é que lhes corre tudo mal! - até deu gosto. 

Conforme esperado, a malta vê a bola depois de olhar para o marcador. Até tem o seu sentido, mas não significa que estejam certos. Sobretudo porque não estão. É mais por isso.

Seja como for, o que era efetivamente essencial era ganhar o jogo. Ainda lhe juntámos o facto de ganhar bem, sem mácula. Daí a escolhermos o Sérgio Oliveira como MVP no mesmo jogo em que o Alex Telles fez um - outro! - hattrick de assistências, somando piscinas e boa decisões pelo corredor, é mesmo de quem lhe parece boa ideia festejar, à luz do telefone, uma vitória aos 75 minutos de jogo. Malta, isso é como o unicórnio: aquece a Alma, mas não existe. Se acreditamos que o público influencía o desempenho da equipa, então temos que ser responsáveis no nosso papel e não nos pormos a transmitir a ideia errada para dentro do campo.

Esteve mal, o Oliveira? Nem por sombras. Esteve até muito bem, para o que o Oliveira faz. Desde logo, fez coisas que o Óli, sem veira, não faria: ganhou algumas duas bolas de cabeça na luta do meio-campo, entre outras boas recuperações; e marcou um golo que o outro não marcaria, por ser má’canito e por ter tendência a não estar na área, a dar cabo da marcação ao adversário. De resto, muito certinho o Sérgio, sem grande risco nem grande rasgo, mas consistente, mormente na primeira parte. Claro que quando se tratou de recuperar a posição e ir atrás dos adversários que se lhe escapavam, a coisa piorou um bocado. Lá foi indo, chegando quando chegasse, embora se deva louvar o esforço que foi patente. É perder dois quilitos em cada nalga e ainda vai a tempo de ser o jogador que, na verdade, é. Só que não sabe...

No geral, a equipa entrou bem de novo. Claro que toda a gente diz que no sábado sim, entrámos a pressionar, a dominar, a querer ganhar, arroz de tomate com pataniscas, intensos, os seios da minha prima, a raça, o querer, a tragédia, o horror. Tudo ao contrário do jogo anterior. Mas é só porque ganhámos, porque no fundo, não foi nada assim tão diferente. Não entendam mal, foi bom! E a relva muito melhor, a testemunhar que se acabou o chuto para a couve, às costas do Moussa. Gosto.

A diferença talvez esteja no facto de o adversário ter tido duas aproximações à nossa baliza, contra zero a meio da semana. E ter marcado um golo. Ao passo que nós tivemos menos oportunidades. Tenha-se em conta que estes minhotos são mais capazes que os das camisolas feias, o que explica uma menor inclinação do jogo. De qualquer maneira, uma boa primeira parte, com um resultado justo, se bem que escasso.

A segunda metade foi piorzinha, foi sim senhor. Os anormaloides decidiram subir mais um pedacinho e apertar com o nosso meio-campo. Apesar da disponibilidade do bom do Hector que corria a todo o lado, mesmo que nem sempre saísse bem depois de recuperar a bola, a equipa começou a berrar por um terceiro médio. Alguém que nos deixasse ter mais tempo a bola e injetasse algum sangue fresco, e frio, ao nosso jogo. E o treinador pensou: Oh, xósberrar maijumcadito, não se vão habituar mal.

Quando por fim se decidiu, tratou de quebrar a monotonia. Entre a opção de meter o médio de posse que tinha a aquecer - como sempre - ou o falso ala capaz de fazer o terceiro médio, posição que lhe exige menos conhecimento da dinâmica dos colegas e da equipa, o treinador resolveu quebrar a monotonia da previsibilidade: Oh Pálinho, anda cá. Baijentrar ali para o meio de nenhures, nem avançado, nem médio, atento ao central ou ao tronco, cuidado para não levares com o Hector em cima e resolve-me lá uma equação do terceiro grau enquanto cantas as janeiras. Anda, rápido, siga. 

Resultado, andou o mister a conversar com meia equipa na linha lateral, a tentar explicar uma coisa que, aparentemente, nunca tinha treinado. Ou então aquela malta faltou a esse treino.

Apesar da confusão, ter deixado o Oliveira mais fixo e ter um Herrera capaz de fazer três jogos seguidos devolveu-nos algum controlo. Depois, quem tem um Yacine e não o deixa a ganhar mofo no banco, merece sempre o que o rapaz consegue fazer. Que é pouco maijómenos tudo. Pumbas, trêzum, depois de um valente Sá nos ter salvo de novo empate. A seguir...foram mais luzinhas.

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No fundo, a malta tem razão. Isto é bom quando se ganha e ponto final. Eu cá também fico (ainda) mais contente. Não preciso é de fazer de conta.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Lagosta suada



Os moços lá do antro onde evoluo de modo assinalável ao nível da musculatura, descobriram que, desde que frequento assiduamente o espaço, a conta da água subiu drasticamente. É o que acontece quando juntam uma pessoa de impecável asseio a um bando de grunhos badalhocos.

Se é para tomar banho, é para tomar banho. Se era para me passar por água, esperava que chovesse e ia para o carro todo nu, percebido? Ah porque o senhor demora duajóras no chuveiro. E? Não sou nenhum anão enfezado, pelo que tenho um perímetro vasto para lavar.

O que não lhes digo é que muita sorte têm eles de eu teimar em cortar a gadelha muito curtinha. Nem que parte do tempo não estou a tomar banho, embora a água corra abundantemente. Estou a pensar em coisas parvas, como vir para aqui contar-vos que os cabrões agora põem aquilo a ferver!

Pareceu-me que tinham encaixado isto como gente decente e estava tudo bem. Mas os suínos, pelos vistos, querem guerra. Ainda por cima, julgam que são finórios. Eu já me tinha preparado, à conta dos meus espetaculares atributos no âmbito da meditação e do mindfulness e do acro-ioga (sim, existe!), para a eventualidade de não aquecerem a água no período em que a minha tarifa me permite ir para lá banhar-me.

Vai que, malandros, utilizaram a tática inversa: Água fria está muito visto, bora majé aquecer isto até cozinhar o anormal. Deste modo, cada vez que aciono o chuveiro, parece que entro num forno de fundição da Siderurgia Nacional.

O que os moinantes não sabem, é que na minha rua toda a gente me chama Silva, a Tocha Humana. É uma coisa de família. Por isso, fiquem descansados, meus licorzinhos de jenipapo, contínuo a demorar tooooodooooo o meu muito merecido tempo a enxaguar-me, enquanto penso em coisas, muitas e várias, boa parte das quais não fazem sentido nenhum.

Só que, sempre preocupado com o meu semelhante - ainda que em versões mais atrasadas e com menos extras e isso tudo - revolta-me que esta sanha persecutória contra mim, possa estar a prejudicar outros utilizadores. Pobres coitados, devem andar a gastar metade do orçamento que tinham para comer mão de vaca com grão e salsichas e atum e essas coisas que os pobres comem, em Biafine. Acho mal e não posso ficar quieto perante esta clara injustiça. Por isso, decidi mandar uma epístola - nós, os Silvas, não escrevemos cartas - à gerência.

Digam lá o que acham, como se isso fosse fazer diferença. Mando ou compro um fato de amianto e desafio o cancro?

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Cara Gerência do xxxxxxxxxxxxxxxx,,

Tendo notado o muito significativo aumento da temperatura média da água dos duches, venho informar que se trata de uma medida que não produzirá o efeito desejado: Impedir-me de demorar basto tempo no banho. 

Na verdade, tomar banho com água a ferver é uma tradição familiar, por parte da mãezinha. Adoramos. Só quando fica tudo cheio de vapor e não se vê nadinha em redor, a parecer a Choupana em dia de jogo, é que estamos bem. É tipo o nosso desporto favorito, entendem? Há quem lave a roupa interior na água do banho, nós cozemos batatas. E legumes. Já se vê que mantemos uma alimentação muito regrada, com muitos vegetais e fruta e assim. Tudo biológico. E vegan. Menos as postas Mirandesas e as alheiras de caça e o joelho de porco e o robalo ao sal, descontando o sal, e os filetes de espada, descontando o milho frito, e o marisco, descontado a maionese. De resto, é tudo vegan.

Aliás, em África, quando éramos riquíssimos, havia uma Unidade de Queimados ao lado de cada casa de banho, na enorme mansão colonial que habitávamos. É certo que nunca as usámos, mas a Avó tinha muita relutância em deixar médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e os senhores das três ambulâncias - sei lá eu em que parte da cidade me posso queimar, disse o Avô - no desemprego. 

Por isso, deixem-se de subterfúgios parvos e tomem as vossas decisões. Compreendo que, por um lado, temam pelo futuro da espelunca que fingem dirigir, se as contas continuarem a subir. Por outro, já se sabe que se eu me chateio e me traslado para a concorrência, lá se vai metade da clientela. É fazerem as contas, é o que eu acho. 

Atentamente,

Silva

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Notas para uma comédia portuguesa



Cenário: Um parlamento. Em cada extremidade do palco, um coro em forma de bancada.

ATO ÚNICO

(Abrem-se as cortinas, a luz incide exclusivamente no centro do palco, num homem de calças e casaco de abas de grilo azul petróleo, com lantejoulas prateadas, e cartola vermelha, igualmente em lantejoulas. Uma bengala branca e botas de plataforma, também brancas, com solas vermelhas. Cai um microfone de fio do alto da cena. Artur Albarran grita para o microfone.)

- Portuguesas e portugueses, bem-vindos à vossa vida. Hoje, o combate fratricida, a batalha sem tréguas, a luta sem quartel, o drama, a tragédia, o horror. Legaliza-se ou não se legaliza?

Quem quer saber se os bancos já voltaram a incentivar o consumo desmedido e irresponsável, quem se rala com jogos de futebol comprados, quem quer saber das promiscuidades, do chico-espertismo, do tráfico de influências, do dá-cá-o-meu-antes-que-se-acabe, dos Vieiras, uns Silva e outros Filipe, dos Frasquilhos, dos Engenheiros, da mui rara alta costura, do Século em que vivemos, das bombas de hidrogénio, dos loucos no poder, da terra queimada? (Cala-se e olha de uma ponta à outra a plateia. Espera-se que haja silêncio.)

Ninguém, pois claro. Vamos ao que nos importa. Senhoras e senhores, meninos e meninas e selvagens de todas as idades, convosco os da Esquerda e os da Direita. (Iluminam-se os coros nos dois flancos do palco, trajando conforme será descrito. Artur Albarran retoma a narração, usando a bengala para apontar,)

No canto direito, de camisolas às bolinhas amarelas, calções verde choque e pantufa de pelúcia cor-de-rosa, os Estúpidos. (Aplausos e gritos de incentivo)

No canto esquerdo, de pijama macacão arco-íris, mais Estúpidos. (Aplausos e gritos de incentivo. Nota: garantir igual intensidade em relação aos anteriores concorrentes)

(Apagam-se as luzes. Acende-se apenas o foco superior, iluminando o coro da esquerda)

- Devemos legalizar! (Gera-se burburinho concordante.)

- Eu sou contra. (Empurram o velhote para fora do coro.)

- Se és contra, tens que sair daqui. E não podes ser contra. Se estás na esquerda, tens que ser a favor.

- Porquê?

- Olha, boa pergunta. (Conferenciam uns com os outros, coçando as cabeças) Não sabemos porquê, mas é assim que está escrito, é assim que deve ser. Já és a favor?

- Não, continuo contra. Para opiáceo já basta a religião, companheira camarada. E porquê isto agora?

- Porque diz que é melhor fazermos qualquer coisinha que nos mantenha a aura cool que gostamos de ter. Já sabes que isto de ser Poder retira algum glamour. Pronto, lembramo-nos do chamom.

(Uma das da trupe de macaões desce do coro, ao encontro do velhote. Fala-lhe de forma condescendente.)

- Oh, sabes, avôzinho, a malta gosta de fumar umas brocas enquanto discute coisas nas reuniões.

- A revolução? A clandestinidade? A luta do proletariado?

- Hã? Não, pá. É mais férias e onde se come bem e barato e assim. Para além de que dá um ar bestialmente progressista isto das legalizações generalizadas, tájavêr? Está bem que para ti deve ser chato, por que lá se vai a clandestinidade e depois não tens nada que dizer. Para não dar muita cana, vamos por isto da medicina. Ainda por cima, vê lá tu bem, faz sentido! (Dá uma palmada nas costas do outro.) É preciso ter sorte, hein? À pala disso, incentiva-se o cultivo, esquece-se o consumo e fica a gente à vontade. Já ando de olho numa rede de coffee-shops.

- Então e porque não dizem logo as coisas assim?

- Olha, boa pergunta. (Vira-se para o coro, à espera de resposta. Todos abanam as cabeças que não.) Não sabemos, deve ser porque sim, o hábito de não dizer as coisas como elas são e isso tudo. Já és a favor?

- Não. (Apanha um chuto no rabo. A moça volta a subir ao coro.)

(Apagam-se as luzes. Ouve-se uma gargalhada coletiva do outro lado do palco. Ilumina-se o coro da direita. Riem agarrados à barriga.)

- Oh coisinho, que estás tu a fazer? (Um virado para outro que fuma um cigarro de enrolar.)

- A fumar uma ganza, porquê? Há que manter os hábitos dos nossos ajuntamentos, não? Acho que ainda não chegaram os franjinhas. Esses é que trazem a coca. Para já, só há disto, amanha-te. (O outro dá-lhe uma sapatada na mão.)

- Estúpido, pá. Então não vês que agora não se pode? Por causa disto da legalização. Temos que encontrar argumentos científicos contra.

- Oh, isso é fácil. Nem valia a pena ter desperdiçado erva tão boa. Diz aos tipos que aumenta as tendências suicidas e dá cabo da cabeça aos indivíduos. Parece que ficam com uma gandamoca, pronto.

- Ou então bêbados. O vinho também fájisso, poi'faz?

- Ya, bem visto, foda-se. Mas fica a pessoa agarrada à droga, é uma chatice para se ver livre daquilo.

- Como com os antidepressivos, calmantes, analgésicos, soporíferos e tutti quanti?

- Ya. E o vinho. Foda-se. Olha lá, então e se fossemos a favor?

- Não podemos. Se fossemos a favor tínhamos que estar do outro lado, não podíamos estar aqui à direita.

- Porquê?

- Olha, boa pergunta. (Conferenciam uns com os outros, coçando as cabeças) Não sabemos porquê, mas é assim que está escrito, é assim que deve ser. Porque sim, o hábito de não dizer as coisas como elas são e isso tudo. Já percebes?

- Não.

- Então és comunista. (Dá um chuto no rabo do outro.)

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domingo, 7 de janeiro de 2018

O 1º contra o 10º


Ontem jogaram os B. Pelo ruído  que se vai fazendo à volta do jogo, fiquei com a impressão que tinha percebido tudo mal e se tratara de uma partida importante e de um resultado soberbo. Fui confirmar: de facto, o primeiro, nós, recebeu o décimo. Digamos que foi assim um FCP vs Tondela. Ganhámos trêzum, o que é saboroso, porque todas as vitórias o são. Mas não extraordinário.

Bem sei que eram os lampiões e que são sempre jogos mimimimimimimi, fuck it. A diferença de valor, e de valores, entre as duas equipas é o que a classificação espelha. A grande novidade, é a mesma que acontece em 4 jogos por época - mais a final da International League - a esta equipa: a malta pôs-se atenta. Isso é bom, como a vitória e o facto de sermos líderes também nesta competição. Daí a pensarmos que o Folha já é o maior treinador do Universo conhecido ou que o Dalot devia sacar o lugar ao Ricardo ou ao Alex - ou a ambos, porque o miúdo sozinho faz as duas laterais e não é preciso mais ninguém - vai uma certa distância. Sosseguem lá as passarinhas um bocadinho. Pirilaus para dentro, vá.

Já que do jogo em si não há muito a retirar, dada a naturalidade do domínio, e sua materialização, da melhor equipa, foquemo-nos no que é verdadeiramente relevante neste escalão: os putos e o seu percurso até à A. E, se tiverem paciência, uma ou outra lateralidade. Esperai, abre-se um Mula Velha, pagam vocês, um queijinho de cabra e o salpicão alentejano em azeite que sobrou do Natal. O entretenimento para os dentes é por conta da casa.

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Toda a gente, e não só por cá, saliva pelo Diogo. Eu até pluralizava e dizia os Diogos. Porque são dois - na verdade três, mas trataremos disso noutra altura - pois é claro que o Costa não é um jogador mediano. Defender o penalty de ontem, valerá alguma atenção ao nosso jovem Baía. Sendo que não foi aí que ganhou o estatuto de especialista nestes lances, isso vem de trás. Podia assumir a baliza da A? Sim, podia. Mas não é preciso. Se fosse, como aconteceu com o Vítor, estou certo que não seria pelo Diogo que perderíamos o que quer que fosse. É um grande redes, vai ser um fabuloso redes. De equipa grande. Vou até mais longe: no dia em que este miúdo discutir o lugar com José Sá e João Costa, e não está longe, será uma questão de tempo até ser ele o titular. A menos que continuemos a comprar guarda-redes...

O Dalot, pois claro, o Dalot. Ele assiste com o esquerdo, marca com o direito, corre o jogo todo com os dois, corta de cabeça e empurra com os braços. É óbvio que não engana e parece - parece! - senhor de uma maturidade que lhe permitirá lidar com os pinguinhos que vai provocando em múltiplas cuecas. Já faz parte do plantel A, embora jogue na B. Como no caso anterior, não precisamos de saltar nenhuma etapa. As laterais da equipa principal estão preenchidas e bem entregues. Não fosse esse o caso, ou saia alguém, não podíamos estar mais tranquilos. Pessoalmente, preferiria que não acontecesse. Porque tenho receio - bastante até! - que não víssemos o Diogo a entrar, sorriso de puto estampado, no Dragão, na festa de apresentação da equipa. Na próxima época, não jogará na B.

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Ontem mesmo, enviei uma mensagem da categoria "Herege, quem te enfiasse uma chapada nesses dentzékera", para os restantes Cavanis: "Quase que valia a pena trocar de treinador da A, só para aproveitar este tipo". Era o Fede.

Vinde, vinde comigo até à primeira vez que me lembro de se ter falado deste catraio na Tasca. Janeiro de 2016. Como se vê, não foi nenhum caso de amor à primeira vista. Foi mais um caso de belatrancaketumandas, sim senhor. Aposto que abres a boca e estragas tudo. E a partir da época seguinte à que analisávamos então, o moço começou a botar faladura. Podemos ficar erectos a pensar nas vitórias que o Dalot nos vai dar e nas que o Costa nos vai guardar, mas o Fede é um orgasmo inteiro. Muitas outras vezes voltou o moço à Tasca e tenho a certeza de que a minha opinião acerca dele é mais do que conhecida pelos frequentadores. E por malta que tem tempo para ouvir podcasts também. Oh vidinhas sociais tristes, hein?

O Fede está fora daquele bloco dos Diogos, porque ao pensar na mensagem ali de cima, descobri que estou errado. Não, não é nada frequente, mas lá acontece. Aliás, posso estar errado, é mais isso. Ufa. Vai-se a ver, o Fede cabe no FCP de Sérgio Conceição. Como? Como alternativa a Brahimi.

Tenho-vos dito várias vezes que uma das nuances de que mais gosto no futebol dos A, é quando o bom do Yacine se solta da ala e vem para o meio. E para a outra ala. E para dentro da área. A la Messi. Aqui há atrasado, desconfiei do que andava o Folha a fazer ao Varela. Agora, já não tenho dúvida nenhuma: uma das lacunas do nosso plantel está resolvida. Quando não puder, e só quando NÃO PUDER, haver Brahimi, temos Varela. Sem um pingo de receio, sem uma hesitação. Com a equipa tão confiante, tão segura de si, tão oleada, o miúdo faz o lugar de cadeirinha. Haja tomates.

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Algumas reações ao jogo de ontem, deixaram-me triste. Porque detesto ver nos meus a hipocrisia que condeno nos outros. Um lampião foi (bem!) expulso e saiu do campo fazendo um 4 para a bancada: Assobiem à vontade, eu sou tetra. Pode ser treta, dá igual. O que pensaríamos nós se um dos nossos o fizesse no Seixal, cinco dedos esticados para a bancada? Nesse caso, porque fazemos de conta que o miúdo não merece o ar que respira?

Que foi? Irrita-me que venham com argumentos parvos, do tipo: ah, é assim que querem a pacificação blablablabla. Foda-se, que tem isso a ver? Nada! E vocês sabem, porque eu sei que vocês sabem. Sejamos melhores do que os outros, sim? Para os podermos criticar descansados.

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

The SEDCAS experiment II: A prisão em si

NOTA PRÉVIA: The Sedcas experiment será(?) um conjunto de textos de dimensão indeterminada, inspirados por, feitos a partir de e em torno de imagens do grande SEDCAS. Este formato blogueiro e a pouca destreza do dono do tasco ao nível da cibernética, não favorecem as verdadeiras estrelas deste e dos próximos(?) posts desta série: as fotografias. A solução é mesmo saltarem para o site e deliciarem-se. E contratarem o moço, se for caso disso. Sim, ele paga pela publicidade.

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Um dia eu fujo. Hoje não que chove. Em dias assim, prefiro ficar monótono no alto da colina, debaixo do coberto, a deixar-me perder na folhagem da árvore grande. Muito desatento ao que se passa em redor, absorto no gesto automático da mão à boca, o fumo expelido em argolas espessas.

À copa, posso chamar-lhe mar. Não há Chefe de Turno que o possa impedir. Esta liberdade da mente é o terror de toda a ordem. Entre duas fumaças, gostava que me viesse - só por um apetite - um poema sobre o mar: As ondas desbastam o penhasco. Uma coisa assim, agreste. Uma fúria de água contra rocha negra, o Mar do Norte a rebentar em vagas de Vikings na costa da Normandia. E eu Thomas, no rumor da baía de Swansea, assaltado por uma estrofe súbita, toda arestas.

À copa, posso chamar-lhe deserto. Talvez seja o gosto amargo da beata que me seca a boca, a garganta uma nuvem de fumo e pó. Não há Senhor da Portaria que mande no meu horário, posso desertificar-me em paz. Fingir que o mescal me alucina e o deserto de Sonora se enche de mulheres nuas, a pele de um negro tão negro e brilhante que é quase azul. Arrasto-me, uma personagem de Bolaño, à beira da morte, provavelmente colecionando cadáveres e telas de obscuros pintores impressionistas da América do Sul. Acenderia outro cigarro, se o tivesse, antes de deixar cair na areia manchada de sangue o coldre e me entregar nos braços suados da miragem.

É pena que chova. Este tempo deixa-me as pernas moles e a vontade embaciada. De outro modo - uma azeda presa nos dentes - aí me veriam, serpenteando monte abaixo, pela sombra do arvoredo, até à saída. Não sei porquê, mas vou de chapéu de palha e camisa aos quadrados, solta por fora das calças, sem botões apertados. O calor que deve estar. Desço devagar, mastigando os passos, sem pressa. Não há por que a pessoa se apresse, em tendo a certeza de para onde vai e de quem a espera. Vou lento, aproveitando o Verão, mas inexorável. 

Vou para ti, para esse sabor a sal e Sol, eterna praia, férias permanentes. Não há Doutor Diretor que me roube delas.

By Sedcas | www.sedcas.pt
Iria, digo, não fosse a chuva. Chovendo, não saio. Podias vir visitar-me.



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- Quer um cigarro, senhor Zé? - Diz-lhe, simpática, a bata branca.
- Pois claro, muito obrigado xôtôra.
- Enfermeira, senhor Zé, enfermeira. - Sorri-lhe. Ele faz um gesto com a mão: é a mesma coisa. Ela acende-lhe o cigarro.
- Quando nos despacharmos, podia fazer o favor de me levar para dentro. Esta chuva... - Hesita. - Parece que me deixa as pernas moles.




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A prisão em si: ...esquecido, adormeceu.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O senhor Silva duvida de Deus

Atravesso uma fase de profunda dúvida teológica. A Fé esvai-se-me a cada segundo. O que ainda não é lá muito grave, porque isto começou há uma meia hora. O facto permanece: começo a desconfiar que Deus não existe. 

Ou então não é Senhor assim tãããoo absoluto do Universo and beyond. Vai-se a ver, tem que submeter as decisões a um Parlamento de deputados angélicos, daqueles que recebem subsídios de deslocação porque mantêm residência fiscal no Quinto dos Infernos, embora morem ali mesmo ao virar da esquina. E raramente aparecem para as discussões, menos se for para aprovar novos subsídios para a manutenção das asas. A brincar, a brincar, só em penas, é para cima de um balúrdio. Já para não falar das asas haute couture, que se a pessoa não se pode apresentar mal, o anjo ainda menos. Qual o crente que ia confiar num anjo mal enjorcado, com um manto da Primark e asinhas da Megaloja Família Feliz?

A culpa deste meu estado de descrença é do comboio. Eu uso basto a ferrovia e dado o espetacular funcionamento do Wi-Fi - é gratuito, só não funciona. - e o facto de a minha viagem média demorar umas horas, passo demasiado tempo a enervar-me com a existência...dos outros passageiros. Esta manhã concluí que é muito provável que Deus não exista ou que esteja atafulhado de burocracia e não possa cuidar das coisas verdadeiramente importantes.

- Como a Paz no Mundo. Não é, minha rabanadinha? - Bebe um golo de café, sem tirar os olhos claros do tasqueiro.

- Hã? 

- Nada, nadinha, foi o que eu disse. Panasca. - Pelo meio do resto do cimbalino.

- Hã?

- Na Tasca. Não disse nadinha na Tasca. Não lavástujóbidos de manhã?

- Distraído cá com as minhas coisas. É sessenta cêntimos. - E deixa-me é ir dar a volta às bifanas, antes que isto piore.

Se Deus existisse, havia pessoas que não tinham telefone, nem computadores, nem merda nenhuma que pudesse servir propósitos lúdicos enquanto em trânsito. E nem dados móveis. 

Podiam ter pernil de porco à vontade, mesmo que fossem Venezuelanos. Agora, dispositivos que lhes permitissem falar aos berros com outros fulanos e fulanas enquanto a pessoa precisa de dormir, porque teve que alçar os glúteos da cama - opá, adoro esse rabo miúda. Não sei se já te tinha dito. - às cinquimeia da manhã, isso não tinham eles! 

Sempre que alguém está prestes a adormecer num transporte público e outro humanóide grita: Tô? Tô? Isto a rede é fraca, fala maijalto. Já cá Tô, pareçunvião, carago. Poijé, poijé. Já parou em Coimbra, agora é sempasgaçar até Lisboa. É dos novos. Se fosse o a seguir, parava em todas. Tô? Tô? Olha, numtoiço, vou desligar. Até porque me dói a garganta de estar aqui a falar aos berros.

Vejamos, pessoas, não! 
                                      ( suspiro )
                                                     A minha mãezinha não tinha telemóvel. Por isso podia achar que se eu estivesse em Londres, ela devia falar mais alto ao telefone do que se eu estivesse na rua de baixo. Isso quer dizer que se punha aos gritos, mas era dentro da sua própria casa. Não era diretamente nos tímpanos de outros cinquenta pobres desgraçados, a maioria dos quais gostava mesmo era de dormir um pedacinho. 

Ainda que fossem horas de gente decente andar fora dos lençóis, porque raio quereria eu saber da vida dojôtros? Reparem, provoca vergonha alheia nas pessoas normais, quando vocês se põem a conversar em pleno metropolitano: Alô, atão, tátudo? O filhadaputa do Martins tá fodido comigo. Hã? Não quero saber disso panada, tá fodido, caralho.

E é assim que aqui vou, os olhos raiados de vermelho sono e vermelho raiva, prestes a completar duas horas e trinta minutos de suplício. Mas - oh alegria, salve maravilha! - repimpado no meu assento, partilhando a playlist de um energúmeno, uns dez lugares à frente. Depois de ter iniciado a viagem a saber de onde vinha, para onde ia e o estranho traçado que, pelos vistos, a Rede Nacional Ferroviária tem dentro da sua cabeçorra: Tô? Tô? Sei lá ondebai. ‘Inda deve parar em Leiria. Ou no Cartaxo. O Forever Young pode soar mal, ai pode, pode.

Não resisti e levantei-me. Fui ver. A cabeçorra confirmou-se. Mas não era playlist nenhuma. Era vídeos do Youtube. Ah modernaço!

Na plena posse das suas anunciadas - ou prometidas? - capacidades, Deus restringiria de modo menos democrático o acesso a dados móveis. Dado o regular desfuncionamento da rede gratuita da CP, é forçosamente pelos seus próprios meios que os estúpidos acedem à internet em plena carruagem. Gastam a guita toda nisto e ficam sem cheta para comprar aquelas cenas altamente avançadas, chamadas auscultadores? Fones. Assim já percebem? Ou acham mesmo que é desnecessário?

Perdida a humildade, dados os meus pensamentos ímpios e segregantes, deixo-me embalar no último fio da minha insanidade. Imagino-me numa gabardina estranha. Imagino-o a dizer-me “lEmbe-mos”. Já quase a fechar os olhos, oiço o disparo. Descanso em p...
A voz anuncia a paragem terminal. Foda-se!

...

- Oh Pedro, kestamerda? Querem um subsídio de risco por andarem descalços? A sério? - Incrédulo perante o requerimento.

- Pois, Senhor. Diz que se constipam com mais facilidade...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

The SEDCAS experiment I: A marcha de Um

NOTA PRÉVIA: The Sedcas experiment será(?) um conjunto de textos de dimensão indeterminada, inspirados por, feitos a partir de e em torno de imagens do grande SEDCAS. Este formato blogueiro e a pouca destreza do dono do tasco ao nível da cibernética, não favorecem as verdadeiras estrelas deste e dos próximos(?) posts desta série: as fotografias. A solução é mesmo saltarem para o site e deliciarem-se. E contratarem o moço, se for caso disso. Sim, ele paga pela publicidade.

Saibam que este texto é longo, saibam que não é sobre bola, saibam que não tem graça nenhuma, nem fala particularmente mal de alguém. Não sei como ficará formatado nos vossos telefones, mas eu, se fosse a vocês, andava já para baixo até à imagem e lixava-me para o resto, embora fosse suposto que ela vos viesse a surpreender de alguma forma. Dentro da minha cabeça passam-se coisas. Mas lá está, fui eu que escrevi, portanto já sei o fim. Aliás, não sei. Nenhum de nós sabe...


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- Um caminha. Pouco mais faz. Se puder imaginar uma linha reta, é provável que Um a prossiga desde sempre. O mesmo acontece se preferir uma série de curvas e contracurvas. O meu caro amigo só muito raramente deixa a imaginação entregue à simplicidade. – Puxa uma longa fumaça do seu cigarro.

- Ora, seria um paradoxo, isso da imaginação simples. Que não da simples imaginação, já se vê. Antevejo um "mas", acertei?

- Pois claro. Digamos que, se lhe quisermos percecionar uma direção, o que está longe de ser líquido, Um marcha. Desfila, na minha mais sincera opinião.

- Ah, mas isso parece soberbo. – Aproxima-se, interessado, inclinando-se para a frente na poltrona. – Quando o diz assim, dá-lhe uma certa graça, não acha? Desfila. – Repete de olhos fechados, a ver a palavra a formar-se no lago da sua mente. Uma mulher a emergir da água, água ela mesma.

- Bom, detesto conspurcar a imagem, mas não é bem um desfile gracioso, embora tenha os seus momentos. É capaz de ser mais Ovar do que Veneza, percebe?

- Mais divertido do que bonito?

- Mais Carnaval do que Arte. Um caminha, marcha, anda. Mas a coreografia é caótica e nem vale a pena começarmos a discutir a cenografia.

- Assim tão má? – Franze um sobrolho apenas. Uma qualidade que Austin muito inveja.

- Oh, tem dias. – Reflete por um segundo. – Pois, dias. Não vá o meu caro julgar que se trata de um curto trajeto de horas. Ou uma corrida de minutos. Por momentos caminha, noutros marcha, por vezes desfila. Tem alturas que corre, alturas que dança. O cenário acompanha, isso é certo. O que não quer dizer que seja continuamente bonito. Aliás, visto friamente, é quase sempre basto desengraçado.

- Muito previsível. – Volta a recostar-se no seu assento almofadado, estofado com fino tecido, comprado a retalho numa feira de segunda mão, cruzando as mãos, as suas, que são primeiras e únicas, sobre a proeminente pança.

- Agora utilizemos a tecnologia ao dispor e aproximemos a imagem. Repara na multitude de grilhetas? E chamo a sua atenção para esta espécie de névoa que sucede a Um. Aqui, mesmo atrás. – Aponta com uma luzinha vermelha, fazendo círculos na tela.

- Sim, sim, que curioso. Tenho a certeza que as suas engenhocas modernas conseguem chegar-se ainda mais.

- Não duvide por um instante. – Com ar de menino a mostrar um brinquedo novo, certo do espanto que irá causar, senão inveja. – Esteja preparado.

Não discorramos sobre quanto muda no Universo na fração indetetável, mas muito real, de tempo que vai entre carregar num botãozinho e isso produzir algum efeito. A nossa missão aqui, se alguma, não é essa. Apesar de dar vontade. Resistamos ao impulso e concentremo-nos na tela. Como faz agora Mr. Deluxe, que se levantou de um salto, contrariando a gravidade agravada pelo seu abdómen distendido. E fica assim, as banhas ainda a abanar, de boca aberta, por um instante. Até conseguir pronunciar:

- Mas…mas…Austin! É toda uma parada! – O outro cruza as mãos atrás das costas e deixa-se estar, satisfeito, a balançar sobre os seus próprios pés.


À frente, Um. Aos seus tornozelos prende-se um número indeterminado, e indeterminável, de correntes. Embora finas como capilares, todas, algumas deixam a certeza da sua indestrutibilidade. Outras nem tanto, apesar de demonstrarem o firme propósito de se manterem alapadas à perna de Um.

Pela frente, nada. Só lá muito longe uma ideia ténue de propósito, muito para lá do vácuo próximo. As bermas do suposto caminho realizam-se a cada instante, a cada passo. Nelas se erigem as bancadas apinhadas. O movimento aqui é frenético: as raças misturadas, os géneros múltiplos, os transeuntes - de copo na mão e frituras em punho - visitam as bancas de merchandising e confraternizam alegremente. Quando não estão empenhados em aplaudir ou vaiar o desfile lá de baixo, está claro.

Porque escolhem uma das posições, não se sabe. Nem importa. Decidem na hora, pelo que mais lhes apetece, num momento de rara pureza da espécie. Como quem se cruza com alguém numa carruagem de metropolitano e pensa: partia-te as trombas todas, só não faço ideia porquê.

Logo atrás de Um, a ala dos Eternos. Entenda-se a Eternidade como o que de facto é: o período durante o qual existe. No caso vertente, Um. Ou os Eternos. De todas, é a ala mais pequena, mas o batalhão mais feroz. Armados até aos dentes, prontos – julga-se – para dar a vida e a camisa, são aqueles de quem Um se despede todas as noites. Não obrigatoriamente por palavra, gesto ou presença. Mas sempre. Mesmo que num fugaz lampejo da mente, instantes antes de se deixar a pessoa de lembrar do que a mente continuará a fazer, entregue a si própria por umas horas. Apenas.

Estes são os que podem determinar de forma mais intensa o ritmo da marcha. Um para e puxa, se Algum se atrasa. Algum puxa e para Um, se tem que descansar. De cada, desprende-se toda uma nova parada que interage com a de Um, num caos de interligações venosas e descargas elétricas mais intrincadas do que um cérebro. De macaco.

Os figurinos da Ala dos Eternos são muito diversificados, acompanhando frequentemente o que veste a disposição de Um, assim como, noutro passo a seguir, impõem a Um a cor do seu estado de Alma. O efeito é estupendo para o público: uma paleta de cores e suas emoções, indo do lúgubre ao orgasmo em segundos, pontilhando os mesmos momentos de alegria e dor, luxúria e amor filial e, dada a parada que agora Austin descreve ao seu embevecido amigo, uma dose reforçada de infantilidade. E momentos de pura razão, abotoados até ao pescoço, em colarinhos de folhos e rendas e espartilhos pela cintura. Abaixo, uma boia com a cabeça de um pato e fio dental, as plantas dos pés em areia muito fina. Logo a seguir uma galocha a desbravar um oceano de lama peganhenta, o tronco nu no Verão do alpendre, cigarro ao canto da boca e uma melodia familiar: tananananaaa tana tana tanananaaa sooo, so you think you can tell…

Segue-se o rebanho dos zombies. Sempre de grande impacto para os espetadores, esta ala arrasta-se atrás de Um sem muita conversa audível, para além dos seus típicos grunhidos cinematográficos, quase por obrigação. A verdade é que deve ser muito maçador estarem sempre a emitir aquele som arranhado da garganta. Já para não dizer que dá cabo das cordas vocais à pessoa, mesmo que morta. Mas enfim, cada um será para o que morre e as tradições são um tanto rígidas nesta dimensão. Assim parece.

Para o que importa, lá vão, braços estendidos e vísceras de fora, decompondo-se pelo caminho, mas estranhamente intactos. Como que cristalizados num momento, nem sempre o da Morte, nem sempre eles mesmos. Imagens que Um guarda, pessoas que toma por suas, ainda que o tempo o vá fazendo duvidar de que seriam estas que insiste em carregar. Pode muito bem ter-se esquecido, tê-las construído em peças, como se fossem legos de palavras, gargalhadas, lágrimas, cheiros e tons de voz.

Se todos são de facto cadáveres ou se estão vivos de um ponto de vista biológico, não podemos saber. Em alguns casos, nem Um o saberá. Importa apenas que caiam na categoria dos que morreram para esta parada. Ou mataram o porta-estandarte, uma delas. Por permanecerem de tanta relevância, aqui caminham, poucos metros atrás de Um.

É muito curioso perceber que esta é, com frequência, a zona do descanso. Como se Um se entregasse nos braços dos mortos-vivos: uns mordem-lhe a carótida, outros catam-lhe os longos cabelos que não possui, outros tomam-no no colo, todos o protegem à sua falecida maneira. Não é que não seja um pouco nojento – gore, é como se diz, de forma um pouco eufemística, talvez. Acrescentaria Austin. – mas é aparentemente retemperante, este abandono do concreto. Ora, nem isso podemos dizer, sendo perfeitamente realistas.

O estado não é de transe ou de total vazio da mente – mindfulness, apesar do paradoxo, meu caro Deluxe. – muito pelo contrário. Os mortos mortos e os mortos vivos, todos caminhando sem parança do seu desengonçado jeito, são bestialmente concretos. Existem e conversam com Um, afagam-lhe o antebraço, compreensivos, ou cutucam-lhe o peito com o indicador esquelético, incentivando ou acusando, isso não temos como descobrir. Não a esta segura distância, pelo menos. Também não seria correto afirmar que Um repousa, tal a refrega de valentes mordidelas e alguns encontrões. Diremos, por respeito à verdade, que se encontra. No mais profundo da Morte, qualquer que seja o seu estado, revê os traços de si e refaz o seu caminho. Renova-se. É certo que parece um pouco tolo, ninguém o nega.

Siga a dança para a ala dos Frequentes. Como o nome deixa perceber, são uns que não sendo permanentes estão muito presentes. Manifestam-se em socalcos, uns quantos bastante profundos, traçados na pele de Um. Juntos constituem uma profusão de tempos deveras assinalável. Mistura-se o passado e o futuro, numa orgia de conjugações que constroem grande parte do presente. Antecedem e derivam, inferem e deduzem, estão e já foram. De todas, são a ala mais ativa, a longa distância. Dir-se-ia um formigueiro em plena atividade, só que sem carreiros ordenados nem tarefas explicitas. O trânsito do Cairo, um souk sem turistas, a China se fosse transferida para o Lichtenstein, com todos os seus pacientes chineses.

Eis aqui chegado o primeiro carro alegórico: de baloiços suspensos em altas traves, balançam seminuas mulheres, de generosos peitos e curvas inatacáveis, sorrindo e acenando permanentemente à multidão. Nas laterais, poetas lançam aos pés descalços do povo do peão rascunhos das suas obras inacabadas; intercalados por romancistas muito improváveis que leem, aos gritos, capítulos completos das suas novelas. A um canto, recria-se um openspace, onde anacrónicos mangas de alpaca despacham ofícios relativos ao julgamento de um inseto gigante. Bem no centro da viatura, Kant e Schopenhauer jogam à sueca contra Descartes e Engels, enquanto uma profusão de gregos faz grande alarido, aguardando a sua vez no bota-fora. Entre todos, pelo meio da Vida, crianças em estado adulto correm atrás de uma bola. Às vezes de espelhos. Dos altifalantes, berram i am the law; em ocasiões sussurram, gelando o sangue do mais destemido, you’re a beast, evil one; e é frequente todos pararem quando uma sereia toma o microfone e canta whatever walks in my heart will walk alone. Não se sabe se é figurino ou metade peixe, só que todos os marinheiros caem mortos.

Tossindo o fumo negro do escape do carro à sua frente, vem a ala do Enjoo. É uma imensa massa de indivíduos não anónimos que condicionam, das mais díspares maneiras, o ritmo do desfile. Têm a fabulosa qualidade de liquefazer o asfalto, atrasando a trupe. E de criar com essa pasta ondas que balançam e balançam a mole, vai e vem, sooooobe e deeeesce, de cá para lá e para os lados e vamos de novo, do princípio, sem quase sair do lugar. Daí o nome - concluirá vitorioso Mr. Deluxe, entrelaçando os dedos por altura do seu mítico umbigo.

Sendo grande a anterior, é ainda maior a seguinte. É fácil de concluir à vista desarmada, basta olhar para a mancha de marchantes que enche todo o campo de visão, nos seus trajes multicolores e feitios variados. Soltam foguetes e lançam morteiros, disparam confettis e balas de canhão, festejam e matam. Um não os conseguirá nomear, mesmo que tenha de alguns a vaga impressão de os reconhecer. Talvez do supermercado. Todos se cruzam, por algum motivo, no caminho e lhe atrasam ou adiantam o passo, consoante as necessidades do seu único propósito: caminharem também eles.

Encerra-se agora o cortejo, com grade algazarra em volta do segundo carro alegórico: um enorme, desproporcional, imenso ponto de interrogação sobre rodas. Conduzido por um palhaço de ar um tanto aterrador. Mais Joker do que Batatinha. O sinal de pontuação escorre sangue, suor e lágrimas. O que seria um belo cliché. Nada como fechar a estória com uma frase feita, criando empatia transversal com a audiência. Só que cheira a rosas brancas e flores campestres amarelas e tulipas quase negras. A ovos estrelados e a caril de camarão, em dias marcados. Lá se vai a chave de ouro.

À medida que avança, a um tempo arrastando-se e planando quase diáfano, aumenta a comichão em pontos determinados das costas. As asas distendem-se.


By Sedcas | www.sedcas.pt



- Que desilusão, Austin. Mudam-se uns sinais e algumas referências e podia muito bem ser você a desfilar. Tenho até a impressão de ter adormecido em algumas partes. – Arenga Mr. Deluxe, bebericando de um balão de vinho tinto aquecido.



- Ora, vá-se foder, sim, Deluxe? Mudando isto e aquilo, pode ser Um qualquer.