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terça-feira, 15 de maio de 2018

Os olhos e os óculos

Lamento, mas existe uma probabilidade estatística não negligenciável de que sejas menos bonita do que te vejo. Embora seja certo que não te minto e que te olho. Ainda que me afaste, posto nos meus óculos já progressivos, com as mãos atadas atrás das costas, impossibilitado, portanto, de acrescentar tato à visão, és-me assim tão linda. Está claro que me recuso a enfiar um saco de plástico na cabeça, com buracos rasgados por altura das vistas, ainda que disso beneficiasse a exatidão do resultado da experiência. Anularíamos o efeito do olfato, esse sentido primordial, animalesco, que me traz no teu cheiro a minha casa. Por outro lado, correria o risco de asfixia o pobre sujeito posto à prova. Um teu criado. Recorramos a uma mola, pronto, que me vinque o nariz a bem da ciência. Sendo seguro que a esta segura distância não te provarei, espetem-se dois tampões nos respetivos ouvidos, não vá à tua gargalhada estragar os pressupostos do ensaio, e teremos anulado todos os sentidos, exceto esse de ter olhos e ver. 

Se uma comissão de estudo, um conselho de sábios, uma máquina espantosa, uma nova tecnologia alienígena, puder comprovar que te vejo mais bonita do que aquilo que és, então é porque tenho as portadas escancaradas para um pátio em Aboim, onde um ruminante improvável pasta os arbustos rentes ao muro. De dentro do quarto, a minha Alma vê-te passar, lenta, lânguida, descendo a estrada - será um caminho de terra batida? - em direção ao terreno da festa. Uma coluna presa ao poste de iluminação pública, virada diretamente para os meus ouvidos, debita - ainda não deram as sete - Avés a esta Maria, Senhora do lugar e das Almas que se atreverem - oh tu, meu pobre - a olhá-la através das suas janelas. Tão bonita.

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Sou-te assim honesto, porque me debato com a irremediável dissonância entre Eu na minha mente e Eu no meu espelho. Nosso.

Regressemos aos meus óculos. Esses que uso para trabalhar, que têm uma griffe que agora não me lembra, à conta de uma promoção qualquer na compra das lentes. Como se tivesse sido imprescindível mudar as vidraças e, nesse caso, já se aproveitou e trocaram-se também os caixilhos.

Ponho as lunetas e o meu cérebro diz-me Clark Kent, intelectual sexy, maduro ma non troppo, os olhos meramente cansados de tanta letra, fantásticos poemas, donzelas arrebatadas, horas de estudo aturado dos Grandes Mistérios, hmmm disse sutra, cavalheiro com o seu ar Nespresso, what else?

Posso tirar a camisola, certamente, e deixar arejar os peitorais e o abdómen desinchado, talvez possa reparar nos pequenos traços dos músculos costais, e passear-me assim, os meus soberbos óculos nas ventas, pela casa, ao calhas. Quem sabe nos cruzamos no corredor, tu incauta, eu irresistível, o gato por entre as nossas pernas.

Pelo caminho o maldito espelho. Em dependendo do comprimento das barbas, um velhote de óculos ou um labrego em tronco nu.  E lá nos chocamos, inevitáveis, a meio caminho da casa de banho, tu compenetrada, eu um urso, o gato a exigir que o sirvam.

Deve acontecer, porque é uma regra implícita da tendência do Universo para o equilíbrio, que também tu sejas múltipla. E eu guarde nos olhos apenas a verdadeira. Tão bonita.

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Deste desequilíbrio da beleza entre nós, resulta uma meia-verdade insofismavel, como os atrasos da ferrovia portuguesa: podias arranjar melhor. Só meia, porque mas.

Olha, logo para primeiros, podias enrabichar um moço novo, todo ele photoshop, passa-lhe uma pessoa a mão e nada se gelatina, tudo rijinho - não seja porca, minha senhora - tudo definido como deve de ser. 

Mas ías acabar a rir-te comigo, numa visita esporádica em nome dos bons velhos tempos, da pressa desajeitada, do fôlego mecânico, do tédio de não saber aproveitar o tédio. 

Os meus pés sujos da terra ocre, estendidos para fora da sombra do alpendre; o escuro do interior da casa, onde as moscas se refugiam do calor, a contrastar com a alvura do teu vestido de linho. Depois ias dizer “mas a pessoa passa-lhe a mão...” e eu ia disparar pelo caminho colonial mal alcatroado, montado numa motocicleta, direitinho à liquor store em Hikka. No portão, o teu vestido esvoaça numa última gargalhada que a velha empregada desdentada partilha - como se percebesse uma palavra, raisparta a mulher - e guarda no sari gasto. Voltarei mais cedo e menos bêbado do que o aconselhável para o aumento da tensão dramática, a velha terá feito biryani de galinha, com vegetais cortados muito miúdos, como tu gostas - como raio podia saber? - e condimentado na medida certa de uma Lion lager. Comeremos os três com as mãos, no quintal, e tu anunciarás que tencionas prolongar a estadia, ao que ripostarei, implacável, que não podes ficar mais do que cem anos.

Um século depois, encaixados na rede pendurada das palmeiras, dir-me-ás ao ouvido, afagando o meu peito enrugado, “uma pessoa passava-lhe a mão e tudo o que lhe apetecia era o teu caril de frango”. Felizmente, comprei a liquor store de Hikka ou teria que ir afogar a raiva para a dependência de algum banco. O progresso, como nas lentes dos meus óculos. 

Antes de a motorizada desaparecer no pó da curva, ouvirei o anúncio da Toda Poderosa: fico só mais cem, não vás esquecer-te de alguma data importante.

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Eu bem sei que é fraco argumento, este de combater estupendos abdominais com especiarias. Mas é só porque as pessoas tendem a não perceber a importância do picante na língua. O modo como ela procura apaziguar-se em paladares doces, texturas macias, como se fosse absolutamente necessário desfazer as camadas de uma fatia de bebinca uma a uma. Na boca. Liquefazendo-se. 

Tu não subestimas estas indiossincrasias orais. É uma vantagem nossa, dos que nascem com a língua a arder, que tenciono utilizar em meu favor. E em teu, sempre que me der sede. Não me vou agora por a mudar uma equipa que ganha consecutivamente há tantos campeonatos.

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Só assim! (outra carta ao Dragão Vila Pouca)



Grande Dragão Vila Pouca,

Podia mentir e dizer que foi para si um dos meus primeiros pensamentos, no eclodir da - yet another - festa, desta nova vitória, em mais um momento de libertação, como se uma nuvem cada dia mais negra deixasse de pairar sobre as nossas cabeças. Em cima de cujas o céu, afinal, nunca caiu. 

Não foi dos primeiros, foi até dos últimos. Numa sequência interrompida por outros pedaços da Vida, o coração a fugir apertado para os lados de Águeda - é outra história - e a correr transbordante de alegria para a nossa casa, o nosso Dragão. Todos vós enchendo o ecrã que teve que ser a minha janela para a alegria, essa que eu, perdoe a imodéstia, merecia tanto ter partilhado. Mas o que importa é que se deu, conforme previsto, conforme necessário, porque nem sempre a injustiça de uns homens se sobrepõe ao mérito de outros homens.

Às tantas, numa linha de raciocínio que é certo que envolveu cânticos e alguns abraços; que deve ter passado por muitos lugares e outras tantas pessoas; que é muito provável que tenha incluído belas mamas - só porque sim; lá cheguei a si. Salvo seja, que de mamas o meu amigo é uma vergonha. 

Certo é que tanta curva e contracurva das sinapses - juro-lhe que por vezes as oiço rebentar - cheguei a uma espécie de palco elevado, uma coisa em redondo, toda ela engalanada de azuis, como não podia deixar de ser. Nessa clareira da mente, nesse sítio onde se concluía, definitivo, aquele pensamento, entre os pulos e os gritos dos nossos heróis, eles próprios feitos adeptos, imbuídos da nossa alegria, afinal apenas mais umas dezenas no mar dos milhares que os rodeavam, como há muito - horas de vitória incluídas - não via, nesse exato instante em que mais uma sinapse fez pum e foi fogo de artifício sobre o viaduto, o silêncio repentino disse-me: Só assim!

Só assim era possível. Só passando por arbitragens como as da Feira, de Vila das Aves, de Moreira; pelo desrespeito em nossa própria casa, a mesa posta para os convidados, gostemos ou não deles, por obrigação desta educação antiga - diz que somos regionais e pequenos - quando nos impediram de ganhar ao 5LB; pelos erros próprios em Paços; pelas dúvidas existenciais do Restelo; só vivendo o momento de afirmação, sustentado numa crença inabalável, de vencer no covil do inimigo; sempre mantendo a par a luta lá fora, pelos poucos meios de que dispomos, e a raça, a emoção, os golos dentro do campo; só assim seria possível. Só assim! 

Quando me dava por contente pela minha conclusão, dei consigo. Lá estávamos, encostados ao murete em frente da porta 4. Os anos tinham andado um pouco para trás e fazia Sol, mesmo que não lhe possa já dizer se era Verão. Como sempre, eu defendia uma postura de recato, de competência e retidão, sem chafurdar nas lamas que tão claramente já vislumbrávamos. E estava artilhado de argumentos para todos os gostos, desde a nossa posição hegemónica - da qual você já duvidava basto - que não nos permitia ser guerrilha, até à superioridade que eu notava em campo, com a posse e o passe e uma cultura de equipa tão grande que já não me parecia caber num país tão pequenino. E mesquinho.

Isto não é Inglaterra, Silva! Se continuamos com esta postura mansa, somos comidos. Mas fazer barulho não chega, é preciso que lá dentro, no campo, as tropas consigam vitórias. Senão tudo esmorece. Este Clube foi feito de sangue, suor e lágrimas. Só assim, Silva, só assim!

Só assim, Vila Pouca, só assim. Obrigado.

E agora, estou aqui a matutar. Será que esta retumbante vitória nos deixa mais próximos de ser Inglaterra? Era bom, não era?

Um grande abraço, Campeão.

Silva

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sábado, 5 de maio de 2018

Árvores frequentes, por Tininho Silva (com preâmbulo do tasqueiro)

Preâmbulo

É necessário que compreendam que o tio Deolindo era um homem bom. Nessa aceção que estão agora mesmo a fazer, mas também naquela outra que nós, homens antigos, comummente reservamos para as mulheres. Boas. Isto é, o tio era um tipo bestialmente bem parecido, coisa que aparentemente corre na família há gerações e não se crê estar a ponto de deixar de correr. Se pensarem que dentro desse corpo bem nutrido e torneado, com janelas nos seus olhos negros e expressão máxima num sorriso franco e fácil, morava um verdadeiro pinga-amor, rapidamente concluirão que partia corações com a mesma facilidade com que o bom do Yacine parte rins.

Quem não se habilitava a deixar que lhe partissem o coração, era a minha tia. Eita, mulher rija e de convicção arreigada. Ainda hoje. Sempre foi tacitamente aceite que sobreviveria ao seu esbelto marido, tanto quanto não restam dúvidas de que este sempre lhe seria - e foi - caninamente fiel. Apesar de tudo. Digamos que era uma alma de caçador, sempre atento, à espreita, incapaz de resistir ao thrill of the chase, mas no fundo - e nos momentos de todas as verdades - um vegetariano da melhor estirpe. Exceto em casa, como comprovam os meus muitos e parecidos primos e primas. Ainda que de todos, apenas um seja mesmo, mesmo meu primo de coração.

Assim será mais fácil entenderem os risinhos aparvalhados da menina do guiché do Registo Civil, assim que pousou os azuis olhos no mancebo - pareceu novo até morrer de velho - que lhe sorria do outro lado do vidro. De tal maneira que nem reparou no olhar fulminante da senhora, criança ao colo, que acompanhava o dito cujo. Abençoada de mamas, mas fraquinha da inteligência, a moça era toda mãos a alisar o cabelo e a puxar o decote até onde podia e ih ih ih diga-me lá o senhor ao que vem.

- Pois registar aqui o catraio, já se sabe.

- Ai tão novo, nem idade tem para ser pai. Ih ih ih. E que nome lhe quer dar a senhora sua sortuda? Perdão, digo, esposa. Ou nem tanto? - A esperança a encher-lhe os olhos e a inchar-lhe o peito. Para fora do decote.

- Tininho, tininho nessa cabeça, minha menina. - Instou a tia. O tom gélido que sempre conseguiu empregar, deixava-nos a todos em sentido, fosse por ser demais a correria ou hora de dormir. Já. Sendo que para se sentir tamanho receio, é imprescindível ter mais dois dedos de testa do que esta rapariga do Registo Civil. É atentar na resposta:

- Nessa Cabeça? Isso é o apelido?

- Não, credo! O apelido é Silva, pois então.

- Ah, muito bem, minha senhora. E desculpe qualquer incómodo. Para a compensar, aqui tem com a maior eficácia possível e jamais vista, a Certidão do seu menino. Vosso, maldita sorte.

- Como assim? Nem o nome lhe demos. - Disseram, balbuciando em uníssono, os meus queridos tios.

- Naturalmente que disseram, como se pode bem ver pelo preenchimento da respetiva Certidão. Aqui está, leio-vos:

Nome próprio: Tininho
Apelido: Silva

Os tios entreolharam-se de espanto, a menina disse:

- Queriam que fosse Da Silva, era? Haviam de ter feito o reparo em tempo útil, agora está o cachopo registado.

É deste modo que o meu primo, ao contrário do que muitos pensam e outros tantos especulam, não se chama Catarino, nem Albertino ou Tino, simplesmente. É mesmo Tininho o nome dele. É um melómano. Característica que o habilita a ser o crítico de música residente da Tasca, por muito que o senhor Monteiro da Silva o olhe um tanto de lado. Enfim, o Monteiro tem a sua razão, mas há sempre alturas em que o sangue fala mais alto.

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Review de"Often trees", Blind Zero - por Tininho Silva

Em mãos, na verdade em ouvidos, para sermos completamente honestos, o muito aguardado segundo álbum dos portuenses Zero Cego. Sucessor do raivoso, um tanto grungico - quase obrigação da época em que foi lançado - e pearlajamado "Trigger". Apesar de que o escriba terá seguramente ouvido mais faixas deste primeiro opus do Zero, do que de todos os discos do Guedes wannabe, Veder. Acho eu que é assim que se chama. Ou então é Vader. Um deles. E sejamos francos, havia naquelas guitarras e nas vocalizações, uma vontade intrínseca de ser Metal. Um sinal muito positivo, a aguardar confirmação.

Comecemos pelo principio a análise a este "Árvores frequentes" - para título, não faz lá muito sentido, mas os artistas, enfim... - que é como quem diz, pela capa. Na categoria "discos com assentos na capa", podemos dizer que apresenta um sofá bem catita, todo ele em capitonê. Daqueles em que dá gosto a pessoa ficar refastelada, a ver o FCP a ser campeão. A arte trazer uma reminiscência do Dragão não está nada mal para inicio.

Está claro que não cometeremos a injustiça de nos pormos a comparar com outros lançamentos, igualmente com repouso para o traseiro na capa. Aos homens o que é dos homens, aos Deuses o que é dos Deuses. E não estou a falar do mê primo, mesmo que os WC Toillete - conjunto do qual tive a felicidade de participar - tivessem passado ao lado de uma grande carreira. Penso que foi do 33, para o Campo Mártires da Pátria. Era daqueles com lagarta no meio, grande para caraças. Há outros assentos que, mesmo se menos convidativos, habitam o Olimpo da descarga elétrica e com os quais mais vale não competir. Tipo, são o FCP dos discos com coisas para a gente se sentar na capa. E vêm em azul e branco e tudo, os maganos.

A minha grande dúvida em relação aos Zero, sempre foi qual o caminho que tomariam, dos vários que o anterior trabalho - Trigger - deixava antever. Libertar-se-iam das amarras da época e deixariam as guitarras conduzi-los por uma jornada revivalista pelos bons velhos 80s, sendo nomes maiores da New Wave of Traditional Heavy Metal? Ou acabariam seduzidos pelo éter e pelas moças bem boas de mamocas ao léu, às cavalitas dos seus namorados de ocasião, nas grandes arenas deste Mundo, e liderariam o movimento Hair Metal / Glam Rock, tão fracamente representado no nosso país? Lá hair tinham os moços com fartura. Sem verbalizar, suspeitava que nem uma, nem outra. Havia ali um laivo de intelectualidade que me deixava de pé atrás. Cá pra mim, aquilo ia dar um post-punk caviar ou derivar para o lado progressivo. Mais Dream Theater do que Zé Cid, está claro. Mas quais Procupine Coiso qual carapuça, deixai as árvores em paz, chiça!

Afinal, foi-se a ver, nada. Isto é, nem para uns lados, nem para os seus inversos. Ou então tudo, depende do ponto de vista. Condicionado por uma série de protótipos de disco destes cachopos que fui ouvindo, predispus-me a passar meia hora, mais os descontos de um jogo dos lagartos em Tondela, a maldizer as músicas e os autores e a minha vida e isso tudo. Como não sangrei do nariz depois de ouvir o disco uma vez, ouvi mais duas, a ver se me convencia da bela trampa que de lá tinha saído, pois os tipos continuam a insistir em não fazer aquilo que fariam melhor: Metal. E nada. Acabei soterrado ao peso de ter gostado, genuinamente, de muitas das canções. Pronto, algumas. Raios, mais do que era suposto, se queria escrever um post com piada para a Tasca. Dei por mim a pensar: estes rapazes haviam de gostar dos últimos álbuns dos Ope... naaaaa, deixa lá os elogios para o fim.

As músicas:

Lake, Escape (isto tem um feeling 70´s que lhe fica a matar), Palm (lake reprise?). Até o Still Loving You - sim, todos os discos têm o seu - resultou muito bem, sim senhor. Chama-se Won e aposto que passou na rádio. Estas são as boas. A muito boa merece o nome completo: The Siren

Há maijumasquantas, como diria o mê primo, porque isto dos discos compactos e das pen e assim, é coisas muito grandes que levam muita tralha e os conjuntos vêem-se gregos para encher aquilo. Se calhar foi por isso que estes fizeram também uma K7. A fita cai muito bem ao som orgânico - tem instrumentos a sério este disco, pois tem? - que percorre todo o álbum,

No fim, não sabia bem se me apetecia ir a correr ouvir o Big Brother ou se sucumbia ao elogio maior à obra. E confessava que me lembrei mais do que uma vez que há algum tempo que não ouvia...


Stay heavy  \m/
Tininho



domingo, 22 de abril de 2018

A lista de compras do senhor Monteiro da Silva

Procrastino no penúltimo cigarro, as luzes já apagadas, a mente à procura de desculpas plausíveis para deixar as limpezas para amanhã. Acordar às quatro, ter isto aberto às seis e vinte, não tem que estar sempre um brinco, correr com a malta mais cedo, ver-vos antes de dormir.

Predisponho-me a acabar o dia neste copo que sobejou da melhor garrafa que hoje se vendeu. Sorrio-me da lembrança do Berto Faz-Tudo a sair atrás da rapariga dos olhos claros, as mãos apertadas dentro dos bolsos, o puto em cabriolas à volta deles - oooh Marega, ooooh Marega - ela a olhar para o balcão antes de atravessar a porta, ele um lagarto resignado, o miúdo um alvoroço só. Cinco alvoroços. 

Chegamos a um compromisso, me, myself and i: limpamos as mesas, deixamos a máquina a lavar, enxagua-se o chão e o balcão pela manhã. E a cozinha. Damn.

Imagino-te a apreciares-me, a traçares a rota mais simples e eficaz para a recolha da louça, a minha rotação tropical gingando entre cigarro e copo, os nervos a eriçarem-te os pelos do braço, um assomo de alívio quando saio do balcão, os olhos espreguiçando-se pela sala. E lá vou, um Brahimi de chávenas e canecas e pratos, serpenteando pelo caminho mais difícil e improvavel, mais bailado do que trabalho. Ah sim, meu Amor, tudo é arte, tudo tem a sua estética. Upa, um pires pelo ar, meia pirueta, agarra-o com a outra mão. Às vezes partem-se, mas eu não te conto.

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Na mesa do senhor Monteiro da Silva, uma folha arrancada do seu bloco, esquecida:

Lista de compras
  • Azeite
  • Alhos
  • 1 polvo (grande)
  • Alfa Semedo
  • Batatinhas (assar)
  • Salsa
  • Lucas Evangelista
  • Colorau
  • 1 cebola (pequena)
  • Renato Santos (?)
  • Guardanapos
  • Queijinho seco
  • Calleri
  • Não esquecer: Palmas desceu
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Em casa, tu obrigar-me-ias a trocar a salsa por coentros. Mas o que mais estranho, é porque raio quer ele colorau para fazer Polvo à Lagareiro?

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

O batismo na Fé ou Ver a bola com jetlag



Olha, só eu e tu agora. Esquece todas as vezes que eu te disse que era preciso fazermos diferente, que a mesma solução para todos os problemas era insuficiente, que chegaria a altura em que as montanhas se agigantariam e os ratos aprenderiam as suas lições. Sim, ignora isso tudo. Façamos de conta, ainda que por sete breves instantes, que eram devaneios de quem tinha pouco com que se ocupar.

Sei lá, como se fosse Pessoa a brincar de Caeiro por lhe sobrar do tempo que determinara para Reis. Deixa, não é importante entenderes a metáfora - que se fodam essas também! - tudo o que interessa é a essência da mensagem. Eheh, nem de propósito, A Mensagem. Ah, nada, era só eu a tergiversar de novo. A perder-me, é isso que quero dizer. Foquemo-nos: esquece!

Ficamos aqui os dois até ao fim. Eu prometo-te que caminho ao teu lado até morrermos ambos ou tu saíres em ombros. Nunca mais falaremos de alternativas e de planos diferentes para desmoronar os inimigos. Partiremos de dentes cerrados para cada batalha, no conforto daquilo que sabemos fazer. Apenas! Sem mais um pingo do que seja. Aqui esconjuramos todos os acessórios, todas as curvas que não as absolutamente necessárias e expectáveis, qualquer vislumbre de diferença. Só estarei feliz quando te ouvir gritar às tropas as ordens de sempre.

Seremos vitoriosos então, ao lombo dos rapazes que transportarão a nossa bandeira, na profunda segurança do same old same old. Avançarão de olhos fechados, cada um a conhecer a distância exata do outro, lá longe, no meio das linhas inimigas, quase já nas suas costas, na verdade, onde detonará a nossa paixão que sobrevoou todo o imenso campo de cada guerra. Se nos rechaçarem, a segunda vaga será a mais terrível, marchando sobre o sangue dos seus irmãos caídos, como antes, como antigamente, como no dia primeiro e em todos os que se seguirão de hoje em diante. De hoje, ouviste bem? Porque estou aqui a dizer-te para esqueceres!

Na verdade, acho que estou a pedir-te desculpa. Está claro que eu não tenho a culpa, toda a gente sabe disso. É como a fome no Mundo, tão fora do alcance da nossa responsabilidade. E no entanto... Também sentes o remorso, pois sentes? Por tudo aquilo que certamente poderias fazer e não farás. É esse o sentimento. Desculpo-me por tudo o que te pedi e tu, sem me ouvires, fizeste e não quero que voltes a fazer, ainda que não saibas e não te interesse o que desejo.

Não voltarás a pedir que tenham calma e paciência. Porque eles ficam ansiosos na calma e nervosos na paciência.

Não voltarás a mandar refrear a sede de sangue. Mesmo que saibamos que muitas vezes ela nos tolda a razão e dá asneira. Isso agora não interessa nada. Eles secam sem a cavalgada e o choque, perdem-se em flores como meninas no demasiado tempo que ganham, espantam-se na serenidade bucólica e deixam-se adormecer.

Não mais tentarás dar ordem ao estouro de gnus. É um estouro, deixá-lo estourar e embalar no clamor dos cascos sobre as pedras os nossos sonhos, enquanto o inimigo se vê perante a carga, tantas vezes desnorteada, dos nossos Invictos.

Pelas sete eternidades que nos faltam, farão o que lhes ensinaste. Que é tudo o que eles sabem fazer. Porque é no que os doutrinaste e é nisso, apenas, que eles acreditam. Repara, estou a converter-me por esta vida que acaba em maio. Abençoa-me, entrega-me o teu Livro sagrado e eu jurarei sobre ele, um joelho no chão, a minha lealdade ao Grande Dogma. 

Ouve, é tarde agora. Não vamos demorar-nos sobre o que podia ter sido, à volta do que potencialmente podíamos ter tido, em elipses de recursos desperdiçados ou usados fora do tempo e do lugar. O que nos resta é o que aqui nos trouxe e isso não pode ser pouco. Pelo contrário, meu caro, será tudo:

O fim da longa espera, o grito, já não de revolta mas de conquista. A queda do Mal, o triunfo cliché do Bem. É isso que será, se esqueceres e te agarrares ao que sabes. Sabemos. Apenas. Comigo, com todos. Vamos! 

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quarta-feira, 21 de março de 2018

Do Amor e da Derrota


Escuta, uma noite destas separámo-nos. Não te sei dizer se de papel passado e tudo, mas deixámos de nos conceder esta prerrogativa da vida em comum. Como se algum dia a nossa vida tivesse sido comum. O mais estranho é que passámos todo o tempo da negociação que isto sempre envolve numa espécie de limbo. Posso garantir-te que eu e tu olhámos para o tempo a passar, para os requerimentos a decorrerem os seus prazos e, muito provavelmente, para o ar de espanto e secreta revanche mesquinha de muitos dos que terão, eventualmente, falado connosco acerca, como se tudo fosse apenas provisório. Como se soubéssemos de fonte muito segura que no fim não haveria desenlace, não este.

Víamos os acontecimentos como se estivessem dentro da vida de outros, a acontecerem-nos perante os olhos, sem que os parássemos porque aquilo não ia passar-se. Como não ia, nenhum de nós precisou de sair da sua fortaleza de razão, de dar um pequenino passinho na direção do outro que nos teria posto a correr aos dois. Para quê? Era tão evidente que este nó no estômago desapareceria de súbito, tão estupidamente claro que nunca - mas nunca, percebes? - iríamos deixar que um dia alguém chegasse a uma folha deserta e escrevesse: Escuta, uma noite destas separámo-nos.

É pois sem perceber bem como, que me vi sentado a uma mesa redonda, branca, de cadeiras brancas, tudo a fazer lembrar aquele mobiliário lacado de antigamente, de lado para ti, como é costume sentarmo-nos em mesas redondas só os dois, de forma a que não fiquemos muito longe, fora do alcance da mão. Mas super-design, está claro. Ou não, não tenho a certeza. Só sei que ninguém, em nenhuma esfera do saber ou sentir, alguma vez achou de mau gosto as tuas mesas e as tuas cadeiras. Sim, porque eram tuas, na tua casa. Assim, tua. Não nossa. Eu continuava com o estômago às voltas e a pensar: Mas quando raio é que acaba o disparate e volta tudo ao normal?

Sei hoje que tu pensavas pouco mais ou menos o mesmo, acrescido de um azedume sem razão aparente. Afinal, eu estava certo de que tinhas percebido que a razão era minha e que não poderia, jamais, fazer de conta que não a tinha. Enquanto tu te limitavas a não querer dar o braço a torcer, mais nada. Mesmo agora, aqui chegados. Como te podes atrever?

Do que falámos não sei. Sei que a tua amargura tinha tudo a ver com uma namorada muito jeitosa que eu devia manter à época. Ainda tenho muita pena de nunca a ter visto. Mas pronto, era do conhecimento geral, e teu muito em particular, que ela existia e as fotos - penso que haveriam fotos ou redes sociais ou alguma prova mais credível que estas linhas - comprovariam que era muito apresentável. Oh, que digo? Sabíamos todos que era um espanto, pronto. E só mesmo essa parte do teu fel por mim é que não conseguias disfarçar tão bem. Tudo o resto em nós era urbanidade e familiaridade e uma certa cumplicidade que sobrevivera. Tanto que sei que me aprestava a subir ao andar de cima, como se isso fosse vulgar, para desancar a mais nova por não se ter despedido do pai, antes de ir dormir.

Eu o mesmo. Mas tu, ai tu, tão outra. Engordaste a olhos vistos e ficaste tão menos bonita. Com o cabelo armado, à professora primária de antanho. Já se vê que o saia-casaco castanho, naquele tecido estranho que parece cheio de borbotos, com saia abaixo do joelho e os sapatos pretos, de salto baixo, à balzaquiana, não ajudavam nada a compor-te. E eu pensava: Caramba, mas porque é que se me rebola desta maneira o estômago, à conta desta senhora? Porque estarei tão angustiado por não se acabar já de repente esta situação inusitada e tudo voltar atrás? E, sobretudo, porque é que tenho tanta certeza que quando tudo estiver de novo no seu lugar, também tu serás tão bonita como te recordo?

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Escuta, uma noite destas o Porto perdeu com o Paços de Ferreira. Tu já dormias quando cheguei, porque acrescentei tertúlia à derrota: um bando de tipos a carpirem-se diante de cervejas geladas e molho de francesinha. E eu vinha acabado, moído de rever as bolas que deviam ter entrado, chateado da chuva e dos quilómetros e de toda a gente a dormir. Por nada. Perdemos, foda-se.

Devo ter adormecido relativamente depressa. Tu sabes que quanto maior a chatice, mais depressa e mais profundamente durmo. Fujo. E foi então que o meu inconsciente se decidiu a colocar-me perante uma verdadeira derrota. Não sem ter o cuidado de me apaparicar e te deixar claro o que te faria perderes-me. Como de repente serias uma pessoa amarga e feia e gorda e com as gengivas todas arrepanhadas e os dentes cariados. Lembrei-me agora mesmo disto da boca, não estou nada a inventar! Ninguém te pegava, pelo que permanecerias minha. Acho que era esse o objetivo do extreme make-over.

Confesso que acordei zangado contigo. Porque a razão era mesmo - repara, eu sei isto! - minha, independentemente de qual fosse o problema. A esse, desconheço-o. E tu esperaste que eu relevasse esse facto em beneficio do teu orgulho e deixaste-nos cair. Deixámos. Na certeza de que o outro acabaria por evitá-lo. Perdemos, como o porto em Paços. E em nenhum pedacinho do meu sonho eu quis saber do futebol. Aí tens.  

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quarta-feira, 14 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VII - xadrez



"na Vida, ao contrário do que acontece no xadrez, o jogo continua após o xeque-mate."

correu muito mal, não foi? pois foi. e deu razão ao postulado #6 das Leis de Murphy: «se se perceber que uma coisa pode dar errado de quatro maneiras e, mesmo assim, conseguirmos ‘driblá-las’, uma quinta surgirá do Nada».
e foi precisamente isso que aconteceu, na cidade destes senhores do Rock aqui, ante o time local que equipa com uma cor demasiado rubra para o meu gosto: não deu para marcar seis golos e “virar” a eliminatória, tal como eu esperava. ao menos ganharam-se dois novos valores para a equipa principal: Bruno Costa e Diogo Dalot – sendo que este último é que é a “quinta” cena do sr. Murphy, porquanto que, com o valor da sua cláusula de rescisão fixado em meros 20 M€, tal são «peaners» para os tubaralhos da Europa, tanto é o seu potencial. esperemos que ainda seja possível a renegociação do seu contrato…

quanto ao que aconteceu em Paços de Ferreira, ainda estou doente (literalmente).
na partida disputada em terras do Vale do Sousa aconteceu o disposto no nr. #9 das malfadadas leis, e que refere que «acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série». ele foi a meteorologia (com uma intempérie que ninguém contava em pleno Inverno); ele foi o vento forte (com um sorriso particular do jeBus, neste capítulo); ele foi o estado do ervado da Mata Real (sem ironias, exceptuando os recintos dos três grandes, considero que mais nenhum estádio reúne condições de excelência para intempéries como a do passado Domingo – e não me refiram o Alvaláxia sff…); ele foi o anti-jogo elevado ao Absurdo de toda a equipa do Paços; ele foi a basta Paixão aliada a um complexo Xistrema; ele foi tudo isso que Sérgio Conceição referiu na Conferência de Imprensa, mais um maletim ‘Louis Vuitton‘, repleto de muita Boaventura, #alegadamente expedido por via dos Césares desta vidinha. em suma: ele foi o diabo a sete, mais t-u-d-o o que já se contava que poderia acontecer e um saco de tremoços, e tendo em linha de conta o que as E-Toupeiras vinham escavando ao longo da semana.
agora, para mim, depois de um jogo desgastante para a Champions, acho que não se consideraram as “outras” incidências que antecedam a partida e pertinentemente expostas aqui, via shôr Bala – a saber:
« também convém recordar que, esta época, perdemos pontos em 4 jogos. para além dos dois Clássicos, empatámos com o Aves (que na altura ia em 16º) e com o Moreirense (que ia em 15º). não podemos perder mais pontos nestes jogos. é absolutamente imperial não dar oxigénio ao mais directo perseguidor.»

sem pretender ser maçudo e contestar, na praça pública, decisões e/ou escolhas que competem ao Treinador, só não compreendo a aposta num Corona letárgico e que comprovadamente ainda não ultrapassou o drama familiar (Jesús, que jogo horrível! mais um…); as entradas tardias do Gonçalo e do Otávio na partida; o Paulinho não calça porque?…; que mal é que fez o Óliver para ir para a bancada?… são só dúvidas e sem qualquer maledicência na sua exposição.
por outro lado, deu para perceber que o Waris não é reforço para esta equipa, porque voltou a desaproveitar uma oportunidade e logo num jogo em que tinha que marcar a diferença – assim como o Hernâni; que a lesão que o Victorio Páez sofreu em Anfield Road veio na pior altura (cucaralhinho, ó Murphy!); que os “patinhos feios” Herrera e Marega são pedras basilares, quase autênticos “cisnes”, no estilo de jogo que Sérgio Conceição implementou; que o Sérgio Oliveira deixou os ‘huevos’ algures, de Janeiro de 2015 à presente data (e #alegadamente com muita pena para a sua companheira).

concluindo (e baralhando):
E-Fodido perder assim, sobretudo porque fica esse E-Amargo de boca de que não se fez tudo o que estava ao nosso E-Alcance. agora, E-Lidar com a amargura, esquecer (se for possível) a E-Azia e começar a preparar convenientemente o ‘derby’ já do próximo Domingo. E-Isto mesmo, pura e simplesmente e sem E-Esquemas.
muito do xadrez deste campeonato passa pelos embates do próximo final-de-semana – e assim se justificam a imagem acima, bem como a citação que supostamente pertence a um escritor e bioquímico americano, mas nascido na Rússia, no início do século transacto, de seu nome Isaac Asimov (investiguem…). se teremos pela frente um adversário que, contra nós, é sempre aguerrido e bravo, tentando ultrapassar o “remendado” complexo que fica próximo da rotunda que lhe empresta o nome – alguém se lembra do que aconteceu em 2003/2004? eu não me esqueço… – já o 5lb terá uma fogaça complicada para digerir, lá pelas terras do taberneiro desta casa, assim como o sportém receberá um sempre afoito Rio Ave (e por mais “invenções” que o Spaletti dos Arcos teça).
acima de tudo, é importantíssimo vencer a nossa partida, onde estará presente o #MarAzul que acompanha esta Equipa desde o início da época. é esta a minha última palavra num texto que já está longo: o reconhecimento público e o apreço por tod@s que têm emprestado muito do seu tempo para apoiar incondicionalmente o nosso Amor comum. indubitavelmente muita da sua Força passa por vós e como bem têm reconhecido os nossos artistas.
[já sobre as obras de remodelação do balcão que o proprietário deste espaço está a encetar, ficarão para outra oportunidade.]

“disse!“


Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

sexta-feira, 9 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VI - Dia Internacional da Mulher




"we'd rather starve quick than starve slow."

Fevereiro de 1909.
os relatos da época dão conta de uma marcha, no frio de uma gélida Nova Iorque em início de século, de cerca de 30 mil manifestantes, na sua maioria mulheres. lutaram por direitos que actualmente damos por garantidos, à nossa nascença, como sejam melhores condições de vida (a Fome era um dos flagelos sociais), de trabalho (com uma necessária redução do número de horas de labuta), ou até o direito ao voto (nos EUA, só aconteceria em 1919; em Portugal e sem qualquer discriminação e/ou restrição, somente em 1968). a citação acima refere-se ao slogan proferido na marcha reivindicativa, no último Domingo daquele mês.
mais de cem anos depois, os propósitos do 08 de março e da persistente luta contra as desigualdades de género, não só a nível salarial como no acesso ao trabalho mantêm-se válidos. em Portugal, aqueles são ainda mais apropriados graças aos dislates diários das #inCapazes… adiante.


transportando esta efeméride para o Futebol e naquele que deveria ser um momento recordado diariamente por qualquer bom chefe de família que se preze, mesmo pelos que entretanto terão sido constituídos arguidos, e não num singelo dia de Inverno, a cada ano que passa, e assim que chega a casa e antes de alapar o traseiro no sofá para ver a bola (excepção para o Felisberto, graças às ‘herreras’ de um certo Hector…), neste texto quero homenagear as adeptas portistas naquela que, para mim, é a figura maior do nosso Clube, no Feminino e sem qualquer menosprezo para as demais.
trata-se de alguém que invoco a cada ida ao estádio e antes que a ‘chichinha’ comece a rolar; de alguém que me provoca arrepios na pele e até lágrimas de comoção e de uma esfusiante Alegria; de alguém que me faz gritar o nome do Clube a plenos pulmões; de alguém que faz parte integrante dos símbolos do FC Porto e que, por isso mesmo, será Imortal; de alguém que é muito nossa, não só do Clube, mas também da cidade Invicta.
refiro-me a quem empresta a voz ao hino (e à marcha) do FC Porto, Maria Amélia Canossa de seu nome de baptismo.

sinceramente acho que mais palavras minhas serão desnecessárias, neste momento, porque a pessoa da D. Maria Amélia é sempre superior a qualquer tratado que possa elaborar. e porque só a lembrança do hino do Clube, enquanto redijo estas linhas, faz com que não tenha o tão necessário discernimento para continuar a escrever. assim sendo, espero estar na plenitude das minhas forças já ao final da noite deste Domingo, naquela que será certamente mais uma dura Batalha rumo ao objectivo que tod@s nós ambicionamos e deixámos bem expresso em Liverpool. assim seja!

“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)



sexta-feira, 2 de março de 2018

Vinte mil léguas submarinas

...oh happy days...

Sempre gostei de me ver como um animal com tendência aquática. Pelas horas no duche, por exemplo, ou pelo facto de estar inscrito num Centro de Desenvolvimento Muscular - ginásios é para maricas - no qual me dedico de corpo e alma à modalidade de boiar na piscina. Até já tive um chefe que me disse: Oiça, à água que você mete, se lhe pintarem umas pistas na careca, mais parece o Slide & Splash. Bom tipo, o chefe. Pena o atropelamento e fuga que o deixou paralímpico do pescoço para baixo.

Não é pois de estranhar que me tenha parecido uma ideia muito catita agraciar os alunos da aula de Hidroginástica com a minha participação. Está claro que a minha intenção era ser mais um, ajudar a equipa, remar todos para o mesmo lado, o que importa é o grupo, sem os meus colegas nada disto seria possível e isso tudo, levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo. De tal maneira que até evitei, propositadamente, vestir os meus espetaculares Speedo que, diga-se em abono da verdade, me ficam muito bem. O abono ajuda, por ser uma verdade tããããooo evidente. 

Isto era sobre o quê? Ah, exatamente! Fiz questão de comparecer com um singelo calçonete preto, basto discreto e largueirão. A minha mais que tudo que nem saiba que fui nestes preparos. Não gosta nada daqueles calções, a cachopa. Diz que fico a cheirar a chulé das virilhas. Mas eu pensei: Oh Silvas, quem é que nos vai agora cheirar as virilhas na Hidroginástica? E procedi a ligar-lhes, para perguntar se andavam no sítio tal e, em andando, se iam à Hidroginástica. Ninguém ia, um descanso. 

( Pausa para contrição: 
Era uma piada demasiado suculenta, ‘mor. Sabes que as minhas virilhas são só tuas. Mais ninguém mas snifa que eu não deixo. Siiiim, todo polvilhadinho de pó-de-talco. Não zanga, não? Não faz piada parva com Nelson Évora, não? Pueeaaaaseee? Estou tão fodido, credo.)

...

Afinal, o que vem a ser isto da Hidroginástica? É fácil de perceber, e o nome ajuda um bocado, que se trata de um grupo de fulanos e fulanas aos pinchos dentro de água. Tipo a minúscula piscina de um  aldeamento manhoso em Quarteira, com mais putos ranhosos do que cloro por metro cúbico. Só que são os bisavós dos miúdos. Um gajo pensa: Fuoda-se, só espero que esta merda tenha um sistema de aspiração central de cadáveres no fundo, ao número de velhinhos que vai quinar, fica isto mais pejado de corpos a boiar do que uma ETAR no The Walking Dead. Mesmo o cheiro há de ser parecido. Fixe para a questão das virilhas.

Já sei que estão todos indignados, a achar que sou uma besta que não respeita ninguém e que me ponho a fazer troça de toda a gente, como se eu próprio não caminhasse para velhote. É mesmo essa a questão: eu vi-os a caminhar. Dos balneários para a piscina. Todo um festival de artroses e joanetes, de costas doridas e semicorcundas, de peles caídas e dentes em falta, de ais, uis e entãos está melhorzinha. Pá, desculpem qualquer coisa, mas parecia mais que tinham vindo de jogar com o Canelas do que iam para a Hidroginástica. 

À frente deles todos, a instrutora. Uma moça fresca e viçosa, com ar de quem não se ia meter na água com aquela trupe, nem que lhe pagassem o turno a dobrar. Alto! Há que tomar, discreta e modestamente, um lugar à frente dos velhadas. O melhor aluno fica sempre na carteira da frente, já se sabe. Qual Nelson Évora da natação sincronizada. Incha!

Caso nunca se tenham apercebido, escutai com atenção o Tio Silva: os velhinhos enganam. São uma raça de gente dissimulada, levada da breca, ora agora parece que sim e, vai-se a ver, nada disso. Trôpegos até a la borde de la piscine, perros a agarrarem-se às escadas, a ranger de tudo quanto é articulação a descerem os degraus e de repente, não mais do que de repente Senhor, plumas!

Quase que oiço as trombetas do Céu, voam em círculos perfeitos pequenas fadas, são tão foooofaas! É isto o nosso elemento primordial, não haja dúvida. Aquele em que os decrépitos de ainda agora se tornam nos ágeis anfíbios do momento. Autênticos Aquamen, todos enrugados das trombas.

Ainda assim, o cenário parece muito favorável. Uma piscina cheia de anciãos, com um alto e espadaúdo mancebo - um vosso criado - à frente da turma. Raisparta se não vou ser o maior deste tanque. Andar aos pulinhos dentro de água é-me praticamente inato. A mãezinha teve muitas vezes que se amarrar a coisas pesadas, para não andar aos pinchos como uma bola de basquete, quando estava grávida de mim. Da Esperança do Mundo, portanto. Até acho que foi aí que inventaram a expressão e tudo.

Ora começa a dança, pulinhos, mexe os bracinhos sem levantar água, pulinhos, levanta a perna esquerda para a frente, pulinhos, agora a direita, pulinhos. Well, não se pode dizer que seja muito entusiasmante, lá isso não. Não fosse estar a pensar que uns 80% da turma já devia estar à beira do afogamento ou da síncope, acho que já tinha adormecido.

Agora alça da perna esquerda para trás e toca com a mão direita na ponta do pé. Hã? Esta merda agora é acro-ioga em fato de banho? Disse como? A perna...espera... Estou dentro de água, foda-se!, eu sei lá qual é a perna esquerda. Aguenta, aguenta, acho que lhe apanhei o jeito. Troca o quê? Qual ao contrário? Devagar, caralho, que já vou no segundo pirolito à conta das pernas trocadas. Como assim passa a esferovite por trás das costas e faz bicicleta com as pernas? Isso é sequer possível? Meti-me com os tarados do Kama Sutra underwater para a terceira idade, kéjbêr? Opá, já sei que é de papo para o ar, esta merda virou-se sozinha, que queres que lhe faça? Uma moça tão nova e já a gritar tanto, chiça. Estou a tentar, estou a tentar, vão-se rir da puta da vossa prima, velhos dum cabrão. Oh senhora, mas como é que eu posso levar os joelhos ao peito, dependurado num chouriço de esponja? Cá está, o melhor que se consegue: uma barata a dançar breakdance enquanto sofre um ataque epiléptico.

Viro-me para olhar para os colegas. Todos em movimento, maldita gravidade alterada. Como é que ainda estais vivos é que me espanta. E com um ar vermelhusco, cansados mas sadios. Só espero que não se tenham mijado todos pelas pernas abaixo, credo. Havia de ser obrigatório o uso de fraldas, daquelas de os bebés levarem para a água. Em tamanho xxl, já se vê, que Speedos apertados não ficam bem a toda gente. A partir de uma certa idade, os indivíduos e as indivíduas deslargam-se com alguma facilidade. Digo eu, mas sou uma pessoa muito nervosa.

Acabou! Ufa, finalmente. Eles vão saindo, as dificuldades de locomoção a fazerem-se pagar mal põem um pé em seco. Eles e os seus sorrisos trocistas, filhasdaputa. Ri-te, ri-te, quando deixares de aparecer porque faleceste, eu também me vou rir. E aproxima-se a porca Nazi que tem a mania que manda nisto tudo:

- Oiça, à quantidade de água que você bebeu, se engolisse um escorrega... - Interrompo:

- ...era o Slide & Splash, já sei. Faça cuidado a atravessar a rua, hein?! Vivemos dias complicados, cara senhora.

E fui embora, disposto a gastar tanta água quanto possível na minha merecida e retemperadora banhoca. Acho que aquilo do TRX é mais o meu género. Não sei, é malta mais nova e uma vez estava a tocar o Run to the hills e assim. Um dia destes experimento.




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus IV - focus




sim, é verdade: ainda não esqueci.
aliás, como esquecer uma noite de pesadelo quando diariamente ainda me custa a sentar? fui sodomizado, à bruta, por um bando de lenhadores bretões, sem apelo nem agravo, nem direito a um carinho e muito menos um banho de rosas, no final de um acto que se repetiu por mais quatro vezes. ao invés, ganhei um andar novo para os próximos tempos e que mo fazem questão de recordar – não só na leitura diária de alguns pasquins, como na rede social que frequento, e invariavelmente no trabalho…

“estás diferente, Miguel! cortaste o cabelo? ah, não, não é isso! estás de saco cheio, não é? deixa lá… olha, dá cá um 'high five' qu'isso passa!“… ou “ó Lima, já leste o último conto da Enid Blyton, 'Os Cinco no Dragão'? muita bom, pá! tão ou melhor do que o 'white album' dos The Beatles!"… ou “ó Mane, levaste cinco na pá que nem podes sair do quarto para a Salah. vais demorar a ficar Firmino!“… e riem-se, as bestas. era quem lhes arrebentasse as ventas com os tijolos do Marega, que eu, agora, não posso nem com uma Corona… adiante.

nos dias a seguir à hecatombe foi muito complicado arranjar Espírito – não só para suportar aquelas provocações baratas, próprias de quem só segue a Champions pela tv e se baba somente com os desaires do único competidor português na mais prestigiada competição mundial de clubes, mas principalmente para escrever. assim se justifica esta ausência, com o correspondente pedido de desculpas, não só a ti, mas também ao dono deste salutar estaminé – por que é um bálsamo em dias de tormentosa crise.

nos momentos a seguir ao apito final, a raiva era imensa e amandei com uns quantos tweets para a ‘timeline’ da coisa, a ver se passava. debalde. a fúria era muita mas não compensava o desgosto (bem superior à natural frustração que se seguiu). recordei-me do desastre de Munique, em 2015 e dos humilhantes 6-1. e dos 5-0, em Londres, em 2010, ante um Arsenal que fez de nós Fuciles num dia péssimo. e de uns 4-0, em Manchester, em 1997, com muitas Costas largas. curiosamente três resultados fora do nosso reduto… é que no Dragão como, em tempos, nas Antas, é suposto sermos nós a mandar. infelizmente não foi o que aconteceu, como sabemos e por tudo o que entretanto já foi escalpelizado por quem de direito nestas andanças.

a minha concentração para o quotidiano azul-e-branco só regressou ao final da manhã de Domingo quando o pikachu lá de casa perguntou quando é que jogava o FC Porto, se eu ia ao Dragão e se o poderia levar também. respondi-lhe que jogávamos perto de casa dos Avós maternos, pelo que teríamos que ver o jogo pela tv. então, no alto dos seus seis anos, ele disse que antes queria ver o Cartoon Network… há-de chegar o dia em que o seu foco, em dia de jogo, será outro. não me iludo, nem me preocupo.

numa partida de sentido único, foi gratificante perceber que, com esta Equipa Técnica e com o plantel à sua disposição, ainda há pergaminhos que se fazem por honrar e que, a seguir a uma derrota, o adversário que se segue é quem terá que efectivamente “pagar a factura“. desta feita, calhou ao Rio Ave “do“ Spalletti do Ave passar uns momentos desagradáveis…

o retomar da liderança do campeonato não apaga a dor (igualmente física) da passada Quarta-feira mas, por um outro lado da questão, recentra a nossa concentração para o objectivo mais importante desta época: a conquista do campeonato.

e é por essa razão que o jogo de mais logo, na Amoreira e se a bancada entretanto não ceder, é o desafio mais importante deste ano – não porque e como diz o “chavão do futebolês“ seja o imediatamente a seguir ao anterior, mas porque se trata de uma partida de duas partes de 22'30" cada, sem direito a intervalo e em que entraremos literalmente a perder por 1-0.

afigura-se uma tarefa muito complicada, para uma equipa a denotar algum desgaste físico e que invariavelmente tem que lutar com muitos adversários, em cada jogo – e não me refiro só aos jogadores da outra equipa, os quais certamente que estão muito “motivados“ #alegadamente com o que os Césares do nosso comezinho futebolzinho tuga transportam nas suas malas Louis Vuitton, diz que carregadas de muita esperançosa Boaventura…

aliás e se dúvidas houvessem do que se afirma, os instantes finais do jogo de ontem, em tondela, comprovam que, se viermos a conquistar o tão desejado e ambicionado título de Campeão Nacional, este será um feito que superará, não só as nossas melhores expectativas, mas também muitos opositores – a começar pelas forças da Segunda Circular e de todo um Centralismo serôdio, atávico e a tresandar a mofo (e já para não mencionar o ultraje que é a continuação desta partida que foi interrompida, por ordens superiores, do Comandante da Protecção Civil presente no Estádio, em Janeiro último, devido a «questões de segurança»…).

portanto e em suma:
será bom para a Nação Portista que o “focus“ se mantenha no Importante e que nos alheemos do Acessório – isto é, que esqueçamos, nem que seja por momentos, a dor de Liverpool e concentremos todos os nossos esforços no apoio à Equipa para a obtenção do ceptro de Campeão.

é um pouco como a imagem ali em cima: podemos não reparar na superfície frontal que se desloca para o Golfo do México, se nos concentrarmos somente nas outras superfícies. é que depois, chegados lá, só com roupinha de Verão e sem um agasalho, não saberemos onde é que fica a Feira de Custóias mais próxima, o que poderá ser traumático… é que pode dar-se o caso de virmos a acordar na banheira de um hostel rasca, suturados porcamente na zona do abdómen e com esse 'plus' de um andar novo… sim, outro andar novo.

Miguel Lima | 92º minuto
(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A Mesa do Canto: 4 those about to amamentate the Tributary Authority... (Com Famel_ZundAPP)



Determinei de mim para comigo um tempo limite para encontrar uma resposta decente ao Grande Mistério da Humanidade que aqui tinha deixado ontem. Já se sabe que os Grandes Mistérios são melhores de um dia para o outro, parece que apuram. Pensei que horita e meia me bastaria. Como não estava a correr assim tão bem, decidi dar-me mais uns 4 minutinhos. A verdade é que 96 minutos depois, ainda não tinha percebido porque é que andam os motards em protesto.

Aos 99 minutos, entra pela porta um tipo em tronco nu e capacete. Opá, é que nem de propósito, assunto arrumado! Tinha que ser lagarto...

- Olha lá pá, mas o que andas tu a fazer nesse preparo? - Enquanto lhe espeto um bagaço à frente.

- A ensacar bacalhau demolhado para congelar, está claro. - Um trago, fundo do copo contra o balcão.

- Pois, pergunta parva. - Reviro os olhos. - Porque raio é que vocês, os motomobilizados, são contra inspeções periódicas aos vossos ruidosos veículos? - Outro bagaço, outro trago.

Roda o banco do balcão, tira o capacete e sobe para cima da mesa do canto. Ninguém esperava menos. Os velhos viram-se instantaneamente para ele, já de sorriso a meia haste. 


...

Olá, amamentadores da Autoridade Tributária.

Ora bem.. pediram-me uma opinião sobre isto e eu vou dar. Já dizia o Herman José que as “opiniões são comos as vaginas. Quem tem uma, dá-a se quiser”. Eu, como sou uma puta sem emenda, dou-a toda.
Quando me pediram opinião sobre esta coisa das Inspeções Periódicas Obrigatórias nas motas, partiram logo de princípio que eu seria contra porque sou motard, motoqueiro, moto-rato, moto-etc. Errado! Sou a favor. Calma!! Passo a explicar, antes de me arremessarem fezes ou pedras!

Ando de mota há 20 anos. Não andei sempre na mesma, mas andei sempre nas que têm duas rodas. As que têm 4, para mim, não são motas. Não sei se isso chega para ser motard. Se calhar não, se calhar sim. Achem o que quiserem porque estão num país que se diz livre e o achar ainda é grátis. Sou a favor porque, além de ser motociclista, também sou ciclista, automobilista e outros istas. Só não sou é fascista.
Feito o enquadramento extenso e não quadrado, elenco agora os principais motivos que me levam a ser a favor das IPO nas motas:
  • Nestes 20 anos a andar de mota, perdi amigos que morreram a cavalo em motas mais leves que a Carolina Patrocínio e mais potentes que peidos do Manuel Serrão. A falta de fiscalização sempre permitiu esta merda. Motas tipo pífaros com a velocidade de mísseis Norte-Coreanos. Se as IPO resolverem este caos de potência/peso/lógica, sou a favor;
  • Não gosto de tunning e azeite martelado. Obviamente, nas motas também não gosto dele. Existem motas que têm tantos piscas e outros acessórios ESSENCIAIS para a segurança do motard e dos outros, como o Passos Coelho tem jeito para a política. Ou seja, zero. Se as IPO resolverem esta merda, sou a favor;
  • Como não gosto de música de Tony Carreira e da Ana Malhoa, também não gosto de ouvir motas que andam como um caracol, mas fazem mais barulho que uma betoneira dentro duma cabine telefónica. Gosto de dormir descansado e a poluição sonora é algo que não me assiste. Se as IPO resolverem esta merda, sou a favor;
  • Matrículas do tamanho dos colhões do Cavaco Silva. Ou seja, minúsculas. Percebo que é fodido andar com uma matrícula com o tamanho dum outdoor do Isaltino Morais atrás. Dá cabo da beleza das motas e coiso e tal. Mas há o outro lado. Imaginem que a vossa filha, pequena e inocente - sim, gosto de apelar ao coração com exemplos à Pedro Chagas Freitas - atravessa a passadeira e vem um gajo de mota e lhe acerta. Se ele não tiver uma matrícula visível e fugir, as testemunhas (se as houver), agarram-se ao pau e dizem só a cor da mota. Relato este exemplo pois sei dum episódio semelhante que deu merda a sério. Se as IPO resolverem isto, sou a favor;
Pronto, é esta a minha opinião. Vale o que vale. Ou seja, zero! Podem não concordar com ela e acusarem-me de não ser uma verdadeiro motard, porque não estou contra as IPO porque sim. Estimo que se fodam, assim como vocês estimam que eu me foda. Assim, a existência humana acaba por ser bonita. Digo sempre o que acho pois não alinho em manadas. Peço desculpa por isso.

Agora, adeus. Vou fazer uma panela de canja. Estou com uma gripe do caralho e a tossir mais alto que uma DT 50cc com escape de rendimento da Fuego!

Um abraço.


Famel_ZundAPP | @Famel_Zundapp


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Saltou da mesa, pôs o capacete enquanto espirrava e saiu. Cabrão, não pagou os bagaços!

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Mais cincazero, Silva!

...oooppsss, sorry, enganei-me no cincazero...

...mas estes foram do bem! Do jogo em si, a gente despacha-se num instante: aos 20 minutos já o FCP estava a ganhar por dois, com uma bola na trave e outra salva em cima da linha. Pressão alta, recuperação de bola em zona de ataque, maior rapidez do que adversário e mais agressividade para ganhar as segundas bolas, muita decisão má sobre o que fazer com a chicha. Chegou e ainda sobrou para quarta-feira que vem. Foram cinco, podiam ter sido um pouco mais, se bem que não muito, porque a eficácia esteve altíssima, ainda que o melhor futebol tivesse aparecido nos últimos 20 minutos. I wonder why... Desconfio é que não teríamos tido uma partida tão descansada se fossemos jogar esse bom futebol de inicio. Vai daí, fuck it!

Ah, é verdade, o Iker voltou à baliza. Vai-se a ver, está mais gordo. Concordando com a titularidade do Espanhol, porque é o melhor do plantel, não o teria feito agora. A menos que o Sá tivesse suplicado muito. Mas lá está, eu não teria tirado o Oliver da equipa depois do Besiktas...

Como dois parágrafos parece pouco para um post e não tenho nenhuma novidade acerca do meu estudo sociológico "Estupendas cenas da pornografia Mundial e a sua influência no conflito étnico do Sudão", vamos conversar um pedacinho sobre coisas a propósito do FCP vs Rio Ave de ontem.

...

Coisa 1 - Liverpool

Estratégia: pressão alta, intensidade e agressividade positiva. Objetivo: ganhar a bola em zonas adiantadas, encurtando o caminho para a baliza. Como ideia, não está nada mal. A aplicação pode ser complicada, mas contra o Rio Ave resulta sempre bem.

O problema não é o adversário, é o árbitro. Acertas na bola, mas raspas no jogador? Falta. Encostas-te ao rapaz que tem a bola, segue, segue, até ele ficar sem ela, momento em que? Falta. Carrinho para recuperar o esférico? Pá que abuso! Falta. O gajo teve uma embolia e caiu redondo - salvo seja! - e tu procedeste a avançar para a baliza? Espera, alguma coisa deves ter aprontado, seu traquinas. Falta. Há cinco dois minutos que ninguém se atira para o chão a balir de dores lancinantes? Deve-me ter escapado uma sarrafada ou outra. Pelo sim, pelo não, vou marcar uma falta.

Reparem, nem sequer vou discutir a Xistralhada do critério. Apenas porque o assunto não é este jogo, está claro. O assunto é o segundo golo do Liverpool no Dragão. Como, mas como, posso esperar que o Marega não achasse que tinha pelo menos 1 minuto para ficar a rebolar no chão? Porque é que a equipa não haveria de levantar o braço e deixar-se estar descansada? É o que nos ensinam, em campo, durante cinquenta jogos. Os milhões dos orçamentos, o pacing, a intensidade, a santa cona do assobio e os colhões do mudo, podem todos ser muito verdadeiros, mas o pior de tudo é termos que jogar outro jogo durante um ano inteiro.

Fosse um Xistra do estrangeiro, um Xáistra ou Xistre ou von Schïstr ou a puta que o pariu, a apitar-nos contra os de Anfield, não havia segundo golo para ninguém. Fosse um árbitro de futebol a apitar-nos ontem e teríamos dado oito. Quer dizer, dependendo do minuto de jogo. Se fosse depois de o cérebro do Brahimi ter ido tomar banho, se calhar dávamos só seis.

Imagino um trabalho muito complicado para um treinador do FCP. Na maior parte do tempo, tem que dizer aos moços: Pá, oh Orelhas, tens que ser mais meiguinho, não sei, não lhes tires a bola, fica só lá a olhar para eles ou assim. Pode ser que se hipnotizem a olhar para os abanos e adormeçam. E mesmo assim, não abuses, que olhar fixamente para o adversário pode ser conduta antidesportiva. Oh tu aí, o armário, um metrinho de perímetro de segurança, tajóbir? Se te chegas mais do que isso, ainda levas amarelo.

De longe a longe, chega-se ao pé dos mesmos tipos e: Pá, oh Hector, tu morde-lhes os calcanhares, não os deixes da mão rapaz. Oh tu aí, o armário, só cais se te derem um tiro, tajóbir? E mesmo assim, é se for audível. Se for com silenciador, continuas a correr que te fodes, andor meu menino.

A jogar em casa, contra o macio Rio Ave, o FCP foi mais agressivo e intenso do que contra os Saxões do Demo? Muito mais! Ontem, cometemos 25 - VINTE E CINCO! - faltas, contra 9 - NOVE! - de quarta-feira. Acreditam nisso? Really?

...

Coisa 2 - Miguel Cardoso

Já sabem que eu sou um embirrantezinho de merda. Ainda por cima, quando desata toda a gente a tecer grandes loas a alguém, eu fico desconfiado. Menos se for a mim. Aí, percebo lindamente.

Ora então, oh Miguel, amigo, deixa-me dizer-te que se me desse na gana de mandar num clube endinheirado - pois claro que me deixavam, homessa! - a primeira coisa que eu fazia, era garantir que nunca te contrataríamos. Depois de isso estar nos estatutos vitaliciamente, já me podia retirar para a minha herdade, que seria todo um atol nas Maldivas, e plantar frutos vermelhos. Gosto de sangria de Perignon com groselhas acabadas de apanhar, qual é o mal?

Becabecabecabeca a identidade, rebéubéubéu a coragem, renhónhó o espetáculo, blabla houvessem mais destes. Pá, tudo certo. E aquela coisa estupidamente sobrevalorizada a que temos o hábito de chamar...errr...espera...é como mesmo?...ah, já sei, aprender!? 

Tenho imensa pena pelo Miguel, sendo eu insuspeito porque gosto daquele tipo de futebol, mas o problema não é o modelo. É a burrice. 

Broda, fazer minetes é bom. Para além do mais, é coisa para colocar as pessoas bastante perto do orgasmo - mineteiro e minetada, já se vê - mas a coisa complica-se se à quinta vez ainda não percebeste que APENAS isso não chega. Vai-te valer umas quantas palmadinhas condescendentes nas costas e ZERO orgasmos. Precisas de fazer mais alguma coisa, moço. Qualquer dia, rebentam-se-te os tomates em cheio nas tuas próprias trombas. Canoijo!

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Coisa 3 - Ser Campeão!

No inicio deste ano, decretei que o Porto é Campeão. Foi logo a seguir ao assalto à mão armada em Santa Maria da Feira, com tentativa de violação por via anal incluída. Nessa altura, ainda não tinha quase caído uma bancada e ficado um jogo a meio. Hoje, essa metade por disputar apresenta-se, por motivos diferentes, tão relevante como a batalha de Terras de Santa Maria.

Eu devia saber que para o FCP ser Campeão, tem que ganhar o Campeonato duas vezes. Burrice minha, desculpem. Ainda acabo a treinador do Rio Ave.

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Grandes Mistérios da Humanidade: Porque raio é que os motomobilizados são contra inspeções periódicas aos seus ruidosos veículos? Organizam arruadas e até aparecem ex-Presidentes de Câmara lá misturados e o caraças. Gajas com as mamas à mostra é que nem vê-las! É uma cena um bocado panasca para motard, não acham? Vou investigar...

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