Olha, só eu e tu agora. Esquece todas as vezes que eu te disse que era preciso fazermos diferente, que a mesma solução para todos os problemas era insuficiente, que chegaria a altura em que as montanhas se agigantariam e os ratos aprenderiam as suas lições. Sim, ignora isso tudo. Façamos de conta, ainda que por sete breves instantes, que eram devaneios de quem tinha pouco com que se ocupar.
Sei lá, como se fosse Pessoa a brincar de Caeiro por lhe sobrar do tempo que determinara para Reis. Deixa, não é importante entenderes a metáfora - que se fodam essas também! - tudo o que interessa é a essência da mensagem. Eheh, nem de propósito, A Mensagem. Ah, nada, era só eu a tergiversar de novo. A perder-me, é isso que quero dizer. Foquemo-nos: esquece!
Ficamos aqui os dois até ao fim. Eu prometo-te que caminho ao teu lado até morrermos ambos ou tu saíres em ombros. Nunca mais falaremos de alternativas e de planos diferentes para desmoronar os inimigos. Partiremos de dentes cerrados para cada batalha, no conforto daquilo que sabemos fazer. Apenas! Sem mais um pingo do que seja. Aqui esconjuramos todos os acessórios, todas as curvas que não as absolutamente necessárias e expectáveis, qualquer vislumbre de diferença. Só estarei feliz quando te ouvir gritar às tropas as ordens de sempre.
Seremos vitoriosos então, ao lombo dos rapazes que transportarão a nossa bandeira, na profunda segurança do same old same old. Avançarão de olhos fechados, cada um a conhecer a distância exata do outro, lá longe, no meio das linhas inimigas, quase já nas suas costas, na verdade, onde detonará a nossa paixão que sobrevoou todo o imenso campo de cada guerra. Se nos rechaçarem, a segunda vaga será a mais terrível, marchando sobre o sangue dos seus irmãos caídos, como antes, como antigamente, como no dia primeiro e em todos os que se seguirão de hoje em diante. De hoje, ouviste bem? Porque estou aqui a dizer-te para esqueceres!
Na verdade, acho que estou a pedir-te desculpa. Está claro que eu não tenho a culpa, toda a gente sabe disso. É como a fome no Mundo, tão fora do alcance da nossa responsabilidade. E no entanto... Também sentes o remorso, pois sentes? Por tudo aquilo que certamente poderias fazer e não farás. É esse o sentimento. Desculpo-me por tudo o que te pedi e tu, sem me ouvires, fizeste e não quero que voltes a fazer, ainda que não saibas e não te interesse o que desejo.
Não voltarás a pedir que tenham calma e paciência. Porque eles ficam ansiosos na calma e nervosos na paciência.
Não voltarás a mandar refrear a sede de sangue. Mesmo que saibamos que muitas vezes ela nos tolda a razão e dá asneira. Isso agora não interessa nada. Eles secam sem a cavalgada e o choque, perdem-se em flores como meninas no demasiado tempo que ganham, espantam-se na serenidade bucólica e deixam-se adormecer.
Não mais tentarás dar ordem ao estouro de gnus. É um estouro, deixá-lo estourar e embalar no clamor dos cascos sobre as pedras os nossos sonhos, enquanto o inimigo se vê perante a carga, tantas vezes desnorteada, dos nossos Invictos.
Pelas sete eternidades que nos faltam, farão o que lhes ensinaste. Que é tudo o que eles sabem fazer. Porque é no que os doutrinaste e é nisso, apenas, que eles acreditam. Repara, estou a converter-me por esta vida que acaba em maio. Abençoa-me, entrega-me o teu Livro sagrado e eu jurarei sobre ele, um joelho no chão, a minha lealdade ao Grande Dogma.
Ouve, é tarde agora. Não vamos demorar-nos sobre o que podia ter sido, à volta do que potencialmente podíamos ter tido, em elipses de recursos desperdiçados ou usados fora do tempo e do lugar. O que nos resta é o que aqui nos trouxe e isso não pode ser pouco. Pelo contrário, meu caro, será tudo:
O fim da longa espera, o grito, já não de revolta mas de conquista. A queda do Mal, o triunfo cliché do Bem. É isso que será, se esqueceres e te agarrares ao que sabes. Sabemos. Apenas. Comigo, com todos. Vamos!
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