terça-feira, 1 de maio de 2018

O homem no Castelo Alto


Nunca lhe foi confortável a exposição. Habituou-se, é certo, como nos habituamos às coisas inevitáveis dos nossos dias. Ainda assim, o rumor da turba lá fora, os cânticos, o seu nome repetido vezes sem conta, continuam a deixar-lhe a barriga fria e as orelhas quentes. Em seu redor há um alvoroço de camareiros, de assessores, estrategas, peões de brega e outro povo miúdo que desconhece em absoluto. Não aumenta o ritmo nem diminui o passo, faz o corredor inteiro à mesma pouca velocidade, sem gritar uma ordem, sem dar uma palavra, limitando-se a receber papeis anotados, post-it amarelos rabiscados, muitas palmadas nas costas e um ou outro suspiro contido de alguma secretária invisível. De vez em quando, responde com o "hum-hum" que lhe é característico. Os poucos que o conhecem de facto, diriam de imediato que está nervoso.

Abrem-lhe uma porta, passa o limiar da confusão e está, por fim, só, na ante-câmara dos seus aposentos privados. Exceto pelo mordomo surdo e mudo e cego. Faz soar o seu sininho e, em menos de um fósforo, a divisão alberga o Estado Maior. É com eles que assomará ao varandim.

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Ocupando todas as faixas da imensa avenida, as varandas de todos os edifícios, os passeios, os tejadilhos dos automóveis, as copas das árvores, os terraços e os telhados, o Mar Vermelho saúda a uma voz o Líder Imortal. Logo abaixo do varandim, por dentro do cordão policial, os altos dignitários da Nação prestam, ainda outra vez, homenagem ao orgulho da Pátria. As forças de segurança, ainda um tanto confusas - ainda agora estavam convencidas de que seria uma detenção e logo se tratava apenas de policiamento da festa - pugnam para que a paz prevaleça. 

Na primeira fila do Povo, os intelectuais notáveis, os políticos anónimos, os autarcas comuns, os artistas de várias castas e diferenciadas qualidades. De cada lado da avenida, um palanque. O da esquerda mais engalanado, o da direita menos elegante. Neste, apinham-se os jornalistas, com e sem carteira, as câmaras de televisão, os microfones das rádios, circulam charros, bebem-se cervejas, canta-se, pula-se, abraça-se. Ah, a alegria no trabalho. No da esquerda, alinham-se marciais as medalhas dos diversos ramos das Forças Armadas, os juízes, os oficiais de justiça e duas ou três prostitutas, das mais finas.

O sorriso sai-lhe franco por debaixo do bigode. Ei-lo, o seu Povo. Há um arrepio, mais de alívio do que de emoção, que lhe percorre a espinha. Oh sim, ele sabe, hoje aclamado, bajulado, levado em ombros, se deixasse que o tocassem. Amanhã, arrastado, amarrado à traseira da primeira carrinha de caixa aberta, pelas ruas da amargura. 

Mas isso que importa agora? À sua frente derrama-se a fundação e o sentido de todo o seu Poder. Felizmente, não têm a mínima noção, os pobres ignorantes. Ou fazem por não a ter, o que dá igual, senão ainda melhor. Ao vê-los assim, eufóricos, apaixonados, embevecidos perante o Guia de todas as Vitórias, sabe que os próximos tempos serão tranquilos. 

Bem-vinda que será alguma calma, tão conturbado e periclitante foi o passado próximo. Ora, próximo que tenha sido, não deixa de ser isso mesmo: Passado. E acena à multidão que entra em delírio.

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As notícias que lhe chegam da Zona Livre são francamente animadoras. Como era inevitável, mais uma batalha perdida aprofundou as cisões, a contestação subiu de tom, aparentemente não há quem se entenda. Reconforta-se nestas novidades, por oposição ao que suou nos dias em que o vislumbre de uma derrota lhe anunciou o esboroar do Império, a implosão das fundações do edifício, enfim, o Fim. Pior que isso, o principio do Fim e não o derradeiro suspiro, a morte súbita. Antes os primeiros passos de um longo e tenebroso calvário que em vez de um mártir fulminado, o tornaria um pária indesejado. Lembra-se:

- Oh Domingos, hum, hum, e essa coisada dos filmes? Está resolvida? Hum hum?

- Nem por isso, meu caro, nem por isso. Apareceu mais um. Não entendo, parecem tirados de uma qualquer realidade paralela. Percebes alguma coisa disto, Luís?

- Hum...hum...

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Another one bites the dust!


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Com a devida vénia ao inigualável e eterno talento de Philip K. Dick

domingo, 22 de abril de 2018

A lista de compras do senhor Monteiro da Silva

Procrastino no penúltimo cigarro, as luzes já apagadas, a mente à procura de desculpas plausíveis para deixar as limpezas para amanhã. Acordar às quatro, ter isto aberto às seis e vinte, não tem que estar sempre um brinco, correr com a malta mais cedo, ver-vos antes de dormir.

Predisponho-me a acabar o dia neste copo que sobejou da melhor garrafa que hoje se vendeu. Sorrio-me da lembrança do Berto Faz-Tudo a sair atrás da rapariga dos olhos claros, as mãos apertadas dentro dos bolsos, o puto em cabriolas à volta deles - oooh Marega, ooooh Marega - ela a olhar para o balcão antes de atravessar a porta, ele um lagarto resignado, o miúdo um alvoroço só. Cinco alvoroços. 

Chegamos a um compromisso, me, myself and i: limpamos as mesas, deixamos a máquina a lavar, enxagua-se o chão e o balcão pela manhã. E a cozinha. Damn.

Imagino-te a apreciares-me, a traçares a rota mais simples e eficaz para a recolha da louça, a minha rotação tropical gingando entre cigarro e copo, os nervos a eriçarem-te os pelos do braço, um assomo de alívio quando saio do balcão, os olhos espreguiçando-se pela sala. E lá vou, um Brahimi de chávenas e canecas e pratos, serpenteando pelo caminho mais difícil e improvavel, mais bailado do que trabalho. Ah sim, meu Amor, tudo é arte, tudo tem a sua estética. Upa, um pires pelo ar, meia pirueta, agarra-o com a outra mão. Às vezes partem-se, mas eu não te conto.

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Na mesa do senhor Monteiro da Silva, uma folha arrancada do seu bloco, esquecida:

Lista de compras
  • Azeite
  • Alhos
  • 1 polvo (grande)
  • Alfa Semedo
  • Batatinhas (assar)
  • Salsa
  • Lucas Evangelista
  • Colorau
  • 1 cebola (pequena)
  • Renato Santos (?)
  • Guardanapos
  • Queijinho seco
  • Calleri
  • Não esquecer: Palmas desceu
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Em casa, tu obrigar-me-ias a trocar a salsa por coentros. Mas o que mais estranho, é porque raio quer ele colorau para fazer Polvo à Lagareiro?

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sexta-feira, 20 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus XI - traição



«traição!», bradou ele. e desatou numa correria desenfreada, qual fuga para a frente, rumo a um local incerto e que só existia na sua mente.
como chegara ali e àquele ponto, isso agora não interessa para nhaga, porque são contas de um rosário que não vale para este totobola.


diz quem viu que foi tudo contra-natura. e, como contra factos não há argumentos, ninguém se conformou. ainda hoje está muito difícil o consenso, aliás, daí um silêncio surdo e muito mudo sobre o sucedido - o que não significa que a “bolha“ esteja prestes a rebentar…
afirma quem não presenciou - que também os há - que nunca se viu algo assim, nos últimos tempos. que tudo se compeliu em direcção a uma catástrofe que, de tão evidente que era e que facilmente se percebia, só quem nela participou é que estava ceguinho de todo. «e isso é inadmissível», acrescentaram.
quem não compreendeu nada do que se estava a passar à sua frente e até já tinha deitado tudo para detrás das costas, ficou ainda mais paneleiro dos olhos porque nem queria acreditar no que se estava a precipitar em sua direcção - logo ele que até já tinha previsto alguns cenários, mesmo que hipotéticos.
quem tinha a responsabilidade máxima de dizer alguma coisinha, por mais singela que fosse, tal como o tinha feito num Passado recentíssimo, ficou pior do que um boneco de cera num qualquer museu da cidade - porque estes, ao menos e a bem da Verdade, ficam s-e-m-p-r-e calados para o público que os visita, dado que sabem que há silêncios que são de ouro.
quem adora botar faladura nestas ocasiões e invariavelmente em sentido contrário, adorou (e muito!) aquelas cenas, não poupando esforços em encontrar defeitos onde nunca antes tinha visto uma virtude que fosse; quem gosta de opinar sobre factos viu a sua tarefa complicada porque o que tinha acontecido fora mau - apesar de não ter sido péssimo.


¬ e agora? o que é que vai ser feito de ti?
¬ agora, vou retemperar energias. as necessárias para as finais que se avizinham.
¬ «finais»? plural? mas quais finais?! não perdeste todos os acessos às ditas?
¬ fingi que as disputei. há mais de oito meses que ando em Batalhas de uma guerra só. finalmente chegaram as finais. doze pontos. todo o Céu por esses doze pontos.
¬ que os Aliados estejam connosco!


“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Putas e finais, com Eugénio



Sou um tipo derreado. Cansadamente exausto. Naquele estado em que os indivíduos falam para a pessoa e ela lhes acena com a cabeça, enquanto reza aos Santinhos da sua devoção para que não esteja a anuir a propostas de sodomização mútua, envolvendo a equipa de râguebi da Casa de Pessoal dos Estivadores de Mogadíscio. Ainda por cima, tenho sempre azar nos sorteios.

É um fastio muito acentuado desta coisa do “ainda não ganhámos nada”, “a quantidade de pontos que ainda vamos perder”, “we’ll always have Restelo e Paços”, “é com os últimos que vamos deixar fugir esta merda”. Boa parte dos que assim me extenuam, não há uma semana lengalengavam “só a vitória no galinheiro se aceita, nenhum outro resultado pode servir, nunca, é o fim, kaput, game over”. Fartinho debujóbir. 

Portanto, se o FCP não ganhasse, era o fim. Em tendo ganho, muita cautela que estamos quase a perder. Ora fodam-se, sim?

Começo a acreditar que em consequência disto, cria-se aquele mui visto, sempre irritante e mentecapto estado de espírito da final. É tudo finais. O Setúbal em casa, uma final; o Marítimo na Madeira, ui, os penalties de uma finalissima; o Feirense, tremei tripeiros, lembrem-se do que nos tem feito esta autêntica laranja mecânica de Terras de Santa Maria. 

Depois admiram-se que os cachopos pareçam meninos de coro, acabados de chegar ao dormitório do Colégio Militar ou assim. Ai que o adversário, um colossal Vitória de Guimarães de Peseiro - lá está! - nos marcou um golo. Credo, ainda se perde o (yet another) jogo das nossas vidas. Vai ser o fim. Procedamos a borrar-nos todos, dada a trampa que somos. Quanta responsabilidade, quanto peso, quanta tragédia, tanto relógio, tanta pomba assassinada, não quero para mim tanto veneno... Fuck it, já sei que já perceberam, mas eu gosto de citar Eugénio e a casa é minha.

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Rapazes, nada disso! Estais à frente de um Campeonato arbitrado por Bruno Paixão, João Capela, Luís Godinho, Bruno Esteves e outros camaradas igualmente dados ao sacerdócio; em que disputastes partidas como as da Feira, Moreira e Vila das Aves; em que empatastes a zero com golos ignorados, como o de Herrera, na vossa própria casa - la casa de un hombre es su castillo - contra o todo poderoso adversário; em que errastes clamorosamente como nos ditos Paços e Restelos; e em que resgatastes o lugar que vos pertence por justiça, ganhando orgulhosamente no terreno do inimigo.

Já chega de desconfianças e tremores. Que mais há a provar? É chegada - e já vem atrasada - a hora de encher os peitos e empinar o nariz. São eles quem tem a temer, os pobres Vitórias, os incautos Marítimos, os despromovidos Feirenses, pobres coitados. Abri alas, saudai o Campeão, vinde testemunhar o poder e o brilho do Primeiro! 

Trinta mil mareguianos caralhos vos enrabem se ainda não acreditam, se ainda desconfiam, se acham mesmo que são finais. As finais são apertadas e fechadas e tensas. Parecem nubentes ansiosas mas indecisas. Não é aí que estamos, senhores. Senhor. Sérgio. 

O que somos é o guerreiro cheio de cicatrizes - é certo - que emana o poder das suas múltiplas vitórias, a pele tisnada do Sol dos campos de batalha cobrindo os músculos hiperdesenvolvidos. O matulão de cabelo ao vento, instilando pavor e inveja nos adversários e arrancando suspiros e íntimas humidades às castas donzelas. É isso que sois! 

E agora o herói entra no bordel da terra e é festejado, agraciado, a sua voz incontestada, o seu ouro largado sem cuidado. Ai de quem lhe toque. Não vem para descansar, vem para foder as suas putas, mesmo as que ousarem fingir que resistem. Não são finais, não são nubentes, são o prémio da Glória que fizestes por merecer. Experientes, macias, infalíveis, perfumadas e cheias de tesão. Tomai-as!

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As coisas quando têm que ser feitas, não há como começar logo a fazê-las. Diz que visitamos um prostíbulo esta noite...







terça-feira, 17 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter : opus X - alive&kicking



ambiente próprio de um Clássico, quentinho qb e que se distingue de um ‘derby’ exactamente por isso mesmo.
no exterior estava tudo preparado ao milímetro e com atenção redobrada ao mais ínfimo pormenor, para que não houvesse violações dos perímetros de segurança, tão características por aquelas bandas e tão useiras e vezeiras pelos (in)suspeitos do costume. já no interior, tudo crepitava de calor humano, na ânsia de que o confronto tivesse início o mais rápido possível e os artistas surgissem para lhes satisfazer o seu ”glorioso” Ego. assim aconteceu e não foi preciso esperar muito para se perceber que seria um jogo disputado taco-a-taco.


a partida começou equilibrada, pese embora um maior ascendente dos da casa, apoiados pelo seu público, o qual rejubilava a cada vergastada infligida no adversário. é o que se diz de quem tem ”as costas quentes”…
já os forasteiros evidenciavam um manifesto incómodo por estarem a ser subjugados pelo arqui-rival e manietados na sua forma de jogar, tão característica ao longo deste campeonato (também) feito de E-toupeiras: pressão alta e jogo directo para os atacantes, poderosos no confronto físico com os defesas contrários. como tal não era possível, o pontapé para a frente foi o que mais se viu nos primeiros vinte minutos, para desespero do seu timoneiro, o qual não parou de se insurgir com os seus por não estarem a executar o plano de (pelo menos) uma semana intensa de preparos e de intenso trabalho.
apesar deste incómodo geral, o verdadeiro perigo tardava em surgir, até ao momento em que um deles surge isolado em frente ao último defensor e o obrigou a brilhar, parando um tiro que felizmente foi mal desferido e não causou mossa maior. foi esse o momento para que também houvesse retaliação por parte de quem não era bem-vindo naquela (espécie de) ”arena” e infligisse um pouco de ‘frisson’ na batalha.
chegados ao intervalo da contenda, o domínio da partida estava repartido e ninguém poderia afirmar-se superior ao outro – pese embora uns relatos enviesados de quem está acostumado a desvirtuar a Realidade e/ou a sonegar esta última a seu bel-prazer.


a pausa para retemperar energias foi benéfica para os que vinham de fora, os quais entraram com a ”pica toda”, resolutos em decidir a luta a seu favor. não se pouparam a esforços, impondo a sua lei e fazendo sofrer o adversário onde mais lhe doía: em sua própria casa. conseguiram causar dor, castigando-os com ataques fulminantes que tardavam em se materializar no que era tão desejado: a sua derrota. tal viria a acontecer mesmo no fim, pela parte de quem, em confrontos anteriores, fora alvo de chacota pelos adversários e inclusive de revolta pelos que também lutam pela mesma cor do estandarte. coisas complicadas de se perceber quando, na refrega de um combate, todos os que estão do nosso lado são válidos, para o tão necessário equilíbrio de forças…
em suma e para a História fica o resultado final: seis agentes feridos, sete detenções e o disparo de «tiros de aviso» por parte das forças de segurança.






aqueles números deveriam envergonhar, mais do que o mandante pelo apoio ilegal a esses «grupos organizados de sócios», que «nunca sube» da sua existência e que (literalmente) goza com o pagode – talvez porque usufrui de uma imunidade desportiva e de uma impunidade regulamentar como mais ninguém nesta República de bananas –, deveriam fazer corar de vergonha o responsável político pela gestão deste tipo de conflitos e que há dias afirmou «a Lei das Claques é ineficaz, não funciona. há poucos adeptos registados em relação ao número de clubes. queremos tornar a Lei eficaz». esse pamonha, se tivesse Brio, não só pelo cargo político que (ainda) detém, mas sobretudo pela sua pessoa, há muito que já teria resignado; pelos vistos e como o ”tacho” é apetecível, permanece em funções, num total desplante para com quem tem pedido Justiça neste ”faroeste” em que se tornou o comezinho futebolzinho tuga…


outra personagem menor do panorama político nacional e que se confunde com o desportivo, é o que, em tempos não muito idos, alarvemente disse «os grupos de adeptos organizados do 5lb deveriam registar-se para ficar como os outros [sic] mas, até agora, isso não tem sido um problema para o IPDJ nem para a polícia»…
alguém me pode informar se o sr Baganha já se demitiu ou se alguém já prestou esse favor ao País, no seguimento do que aconteceu nas imediações do antro de Carnide, e que envolveu os ilegais e assassiииos de Sempre? é para sossegar o espírito de alguns que invariavelmente alegam uma «invasão» ao Centro de treinos, na Maia e que, mais do que desconhecer a envolvente ao Estádio Vieira de Carvalho, ignoram a entrevista do actual Presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) ao DN, há um ano e que, entre outros considerandos, referiu que «não podemos dizer que eram elementos dos SuperDragões porque não se identificaram como tal ao Artur [Soares Dias]».



post scriptum pertinente:
para quem tem a paciência em ler os meus rudes considerandos e eventualmente estaria à espera de uma análise ao Clássico, peço desculpa pela desilusão mas há factores que não podem (devem?) ser sonegados porque se relacionam, de forma indelével, com o jogo que é praticado dentro das quatro linhas – e desde que o Caniggia se retirou do Futebol.



“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus IX - murro no estômago



então, tudo bem contigo? como tens passado? benzinho? pois, eu também. têm sido dias complicados, num regresso a um Passado nada distante e que só esteve “maquilhado” desde que esta época começou.
diz a lenda que «só és derrotado quando desistes de lutar!». nós fomos copiosamente derrotados ainda a Batalha não tinha começado e se estavam a ultimar os preparativos para a dita cuja – porventura mal, a começar pela escolha da cor da “armadura”, a qual terá confundido inclusive os próprios soldados, que aguardavam por envergar a sua cor natural num desafio clássico e contra um histórico rival (e já não foi a primeira vez que tal aconteceu… porra!) . explico.


desde a última vez que nos encontrámos, perdemos a importantíssima partida em Belém.
para os mais incautos, convém recordar que foi aquela que precedeu a uma perda de pontos em Paços de Ferreira e sucedeu a uma pausa para compromissos internacionais (também) da selecção de jogadores do Jorge Mendes, de preparação para essa montra que é um Mundial de Futebol – uma pausa que eu também adjectivei de «benéfica» porque acreditei que seria possível, naqueles quinze dias, recuperar alguns índices (sobretudo físicos) da equipa do nosso coração. debalde.
diz que nada disso aconteceu e que até perdemos um dos nossos pêndulos do meio-campo para o início da próxima época… abreviando (mais) uma estória triste, esbanjámos uma vantagem de cinco pontos por culpas muito próprias e que me recordaram, entre tantos exemplos, um jogo contra o Nacional, em Março de 2015; ou um outro, em Novembro de 2016; ou aquele, em Março de 2017, contra o Vitória FC. não sei se dá para perceber o fio condutor a todas essas derrotas, mesmo naqueles em que empatámos?… ficámos sempre aquém das nossas possibilidades e quando dependíamos só de nós para ultrapassarmos o arqui-rival. em todos esses momentos, parecemos o spórtém. o spórtém, porra! que, se não é no Natal, é na Páscoa; e, se não é nesta festividade, encontram sempre uma data autofágica para comemorar! Jesus, como eu não gosto n-a-d-a de ser equiparado a essa agremiação verde-pijaminha!… mas, cada vez mais, neste Passado recente, é ele o nosso ponto de encontro porque os outros, os novos campeões feitos de tretas, estão invariavelmente «dez anos à frente» – e mesmo que seja só a um ponto, no presente campeonato das e-toupeiras. e é aqui que, para mim, reside todo o busílis da questão: já não conseguimos ombrear com a influência megalómana de um #EstadoLampiânico dentro de um Estado de Direito e que tudo controla neste último, numa desfaçatez travestida de Democracia, e em todos os seus sectores inclusive no da Justiça.
ah!, e para quem julga que já caiu a ficha aos adeptos afectos ao carnidense, mas que andam arredados da realidade das redes sociais, desenganem-se! não se iludam! esta imagem aqui é bem real e comprova que os rabolhos dos lampiões vivem numa realidade virtual completamente paralela à nossa. aliás, desde há um mês que diariamente os ouço a delirar «rumo ao hexa». sim, hexa! o nosso bi-tri!
portanto, há toda uma impunidade que grassa pelos lados de Carnide e que os faz acreditar convictamente que nada do que tem sido publicamente denunciado e que, para nós, envolve comprometedoras trocas de mensagens electrónicas os irá demover da prossecução desse objectivo e que não é uma peta pegada, antes pelo contrário. e se Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, imagine-se daqui a um
mês, se formos impotentes para reverter a Realidade actual… já esteve mais longe a hipótese de emigrar, sim senhor…




os pastéis que nos fizeram comer, em Belém, apesar da “canela” ter sido polvilhada por nós, tiveram a sua confecção nos bastidores da cozinha, por parte de elementos alegadamente afectos a uma agremiação que nasceu de uma fusão de dois clubes nas traseiras de uma Farmácia, assim reza a acta e numa época em que a grafia impunha o “Ph” mas que aquela nada refere… mas, destas polémicas com datas de fundação, todos os clubes têm o seu quinhão e não é este o ponto desta prosa. adiante.
estou convicto que o Sérgio Conceição sabia da armadilha que lhe estavam a preparar, a começar na forma como, na véspera, o 5lb conseguiu os três pontos no jogo contra o Vitória SC e a terminar na nomeação de um apitador que adora ver-nos provar «do próprio veneno. adora de paixão e o Brahimi que o diga desde aquele episódio, em Braga, na época transacta. e, vai daí, até é melhor não dizer nada…
acontece que, para mim, não a anteviu como seria conveniente porque, desde o primeiro toque na chichinha e para lá do meu nervosismo (que não conta nada para este totobola) pressenti que esta “queimava” nos pés de uns jogadores que fisicamente estão presos por arames – e só que não viu o último jogo, no Dragão, ante o Aves poderá afirmar o contrário.
sim!, estou a tecer uma crítica a um treinador que admiro porque a considero construtiva: há um imenso mérito no que já se construiu até à data destas linhas, mas persiste-se no erro de só se apostar num determinado núcleo de jogadores de um plantel exíguo e apesar dos empréstimos obtidos na última janela de transferências, a qual não envolveu qualquer «criminologia de alta qualidade». independentemente de nomes, continuo a não perceber por que raio é que não há consistência nas entradas de jogadores na equipa para substituir outros eventualmente fatigados: tanto são convocados e postos somente a aquecer, como na convocatória seguinte seguem directamente para a bancada, para posteriormente só alinharem nos últimos cinco minutos da partida. esta situação tem sido recorrente e transversal a todos os sectores e, repito-me, é indiferente a nomes de jogadores. para mim, este aspecto é fundamental para o ataque que se deseja ao que resta de um campeonato viciado desde a sua génese: convém que todos os elementos que constituem o plantel estejam focados nas próximas cinco jornadas e nos quinze pontos em disputa. t-o-d-o-s.
e que se os mentalizem para a importância dos jogos a seguir ao do próximo Domingo, mormente os que envolvem duas deslocações complicadíssimas à Madeira e a Guimarães. os adeptos que têm composto um verdadeiro #MarAzul de apoio à sua Equipa do Coração merecem-no mais do que ninguém e como não me canso de o repetir, porque têm sido inexcedíveis no seu apoio, inclusive o financeiro.




numa prosa que já vai longa e que remete para outros tempos, noutro espaço igualmente aprazível mas mais solitário na sua redacção, convido-te a ler atentamente o que está plasmado na imagem acima.
não pretendo ser instigador de Violência gratuita, mas confesso que tenho saudades desses tempos. e destes aqui. porque, como agora não há uns "apertões" nos momentos-chave, os pés-de-microfone e os sabujos sentem-se impunes para praticar o que designo de #jornalixo. os exemplos são múltiplos e transversais aos mais variados títulos, sejam eles da Imprensa ou da Televisão, pelo que não te irei cansar com
eles. mas confesso que, se houvesse uma voz firme no Clube, seria muito complicado o dia seguinte para quem permitiu que se ouvisse este nojo aqui e sem qualquer reparo pela parte de quem de direito.

“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O batismo na Fé ou Ver a bola com jetlag



Olha, só eu e tu agora. Esquece todas as vezes que eu te disse que era preciso fazermos diferente, que a mesma solução para todos os problemas era insuficiente, que chegaria a altura em que as montanhas se agigantariam e os ratos aprenderiam as suas lições. Sim, ignora isso tudo. Façamos de conta, ainda que por sete breves instantes, que eram devaneios de quem tinha pouco com que se ocupar.

Sei lá, como se fosse Pessoa a brincar de Caeiro por lhe sobrar do tempo que determinara para Reis. Deixa, não é importante entenderes a metáfora - que se fodam essas também! - tudo o que interessa é a essência da mensagem. Eheh, nem de propósito, A Mensagem. Ah, nada, era só eu a tergiversar de novo. A perder-me, é isso que quero dizer. Foquemo-nos: esquece!

Ficamos aqui os dois até ao fim. Eu prometo-te que caminho ao teu lado até morrermos ambos ou tu saíres em ombros. Nunca mais falaremos de alternativas e de planos diferentes para desmoronar os inimigos. Partiremos de dentes cerrados para cada batalha, no conforto daquilo que sabemos fazer. Apenas! Sem mais um pingo do que seja. Aqui esconjuramos todos os acessórios, todas as curvas que não as absolutamente necessárias e expectáveis, qualquer vislumbre de diferença. Só estarei feliz quando te ouvir gritar às tropas as ordens de sempre.

Seremos vitoriosos então, ao lombo dos rapazes que transportarão a nossa bandeira, na profunda segurança do same old same old. Avançarão de olhos fechados, cada um a conhecer a distância exata do outro, lá longe, no meio das linhas inimigas, quase já nas suas costas, na verdade, onde detonará a nossa paixão que sobrevoou todo o imenso campo de cada guerra. Se nos rechaçarem, a segunda vaga será a mais terrível, marchando sobre o sangue dos seus irmãos caídos, como antes, como antigamente, como no dia primeiro e em todos os que se seguirão de hoje em diante. De hoje, ouviste bem? Porque estou aqui a dizer-te para esqueceres!

Na verdade, acho que estou a pedir-te desculpa. Está claro que eu não tenho a culpa, toda a gente sabe disso. É como a fome no Mundo, tão fora do alcance da nossa responsabilidade. E no entanto... Também sentes o remorso, pois sentes? Por tudo aquilo que certamente poderias fazer e não farás. É esse o sentimento. Desculpo-me por tudo o que te pedi e tu, sem me ouvires, fizeste e não quero que voltes a fazer, ainda que não saibas e não te interesse o que desejo.

Não voltarás a pedir que tenham calma e paciência. Porque eles ficam ansiosos na calma e nervosos na paciência.

Não voltarás a mandar refrear a sede de sangue. Mesmo que saibamos que muitas vezes ela nos tolda a razão e dá asneira. Isso agora não interessa nada. Eles secam sem a cavalgada e o choque, perdem-se em flores como meninas no demasiado tempo que ganham, espantam-se na serenidade bucólica e deixam-se adormecer.

Não mais tentarás dar ordem ao estouro de gnus. É um estouro, deixá-lo estourar e embalar no clamor dos cascos sobre as pedras os nossos sonhos, enquanto o inimigo se vê perante a carga, tantas vezes desnorteada, dos nossos Invictos.

Pelas sete eternidades que nos faltam, farão o que lhes ensinaste. Que é tudo o que eles sabem fazer. Porque é no que os doutrinaste e é nisso, apenas, que eles acreditam. Repara, estou a converter-me por esta vida que acaba em maio. Abençoa-me, entrega-me o teu Livro sagrado e eu jurarei sobre ele, um joelho no chão, a minha lealdade ao Grande Dogma. 

Ouve, é tarde agora. Não vamos demorar-nos sobre o que podia ter sido, à volta do que potencialmente podíamos ter tido, em elipses de recursos desperdiçados ou usados fora do tempo e do lugar. O que nos resta é o que aqui nos trouxe e isso não pode ser pouco. Pelo contrário, meu caro, será tudo:

O fim da longa espera, o grito, já não de revolta mas de conquista. A queda do Mal, o triunfo cliché do Bem. É isso que será, se esqueceres e te agarrares ao que sabes. Sabemos. Apenas. Comigo, com todos. Vamos! 

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Do Golfo e de outra derrota



Eu acho que alguém me devia pagar para criar um blogue de viagens. Sou o tipo ideal, acreditem, desde que me mandem em lazer. Pá, nem me importo de ver os e-mails de trabalho duas vezes ao dia, pronto.

A questão é que parece que perco todo o sentido crítico. Adoro tudo. A comida pode não ser espetacular, mas a novidade dos sabores compensa-me plenamente. O tempo pode não estar lá essas coisas, mas hey, a maravilha que é lá estar no off season, a experimentar tudo o que os magotes de gente ao Sol vão esconder. É certo que o alojamento parece uma pensão manhosa na Brandoa, mas não há nada que chegue a este viver o sítio real, como se fosse indígena. Enfim, eu gosto mesmo é de laurear a pevide, de andar no laru, de alçar o rabo de casa e pôr-me na alheta. Se me quiserem pagar por isso - aliás, pagar isso, ponto! - é garantido que vou escrever maravilhas do local. No mínimo, de alguma coisa no local e de certeza que vou clicar na opção “voltarei”.

Depois há o “outro lado do Mundo”. Ainda que um pouco desviado na Geografia e no tom do castanho das gentes, alegro-me no cheiro das especiarias e na cor do Oceano. Aqui é Mar, mas acreditem que a água sabe ao mesmo. A localização permite-me cumprir a quota mínima de headshakers para que a minha Alma Indica se sinta igualmente em casa. Quero dizer, num upgrade de casa, como se o primeiro Mundo, de repente, tivesse invadido Hikkadwa.

A pessoa olha para a fotografia e pensa no Caribe, no Pacífico talvez, pode até condescender no Índico Maldiviano, em ilhas das Seychelles enfim. O Golfo são guerras e petróleo e explosões e mulheres de burca, no mínimo de hijab, e areia a perder de vista. Ou então imitações caras de grandes metrópoles, com espírito de Las Vegas, sumptuosos recreios infantis para os verdadeiramente ricos. Consigo ainda cheirar isso daqui, estereótipo à parte, mas a estrada foi marcando as diferenças, apesar dos poucos quilómetros e da mesma bandeira.

Voltarei, sempre que puder, mesmo que não me tenham pago. Mas deviam. Fiquem com o nome e mantenham o espírito Tuga alerta: de vez em quando aparecem promoções imperdíveis em RAS AL KHAIMAH.

...

Eu acho que alguém me devia ter feito jogador de futebol. Seria um daqueles que todos os treinadores gostam de ter. O repositório de mística do balneário, o capitão - com ou sem braçadeira - que grita com os companheiros e os mete na ordem, a voz do treinador em campo, o exemplo de raça, de querer e de crer, o homem do nervo, do sacrifício e da superação. O orgulho no emblema estampado no rosto de cada vez que entrasse em campo, os olhos cheios de água ao ouvir o clamor do estádio a culminar o hino: Porto, Porto, Poooooorto! Huuuuaaaaaa!

Tenho tudo, ainda agora, na calvície grisalha. Só me falta saber jogar à bola. Get it mister?

Nem por isso? Então pegue lá meia horinha de explicações. À borla. E vamos a isto que este caneco não nos vai escapar!

quarta-feira, 28 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VIII - pausa




é complicado escrever quando não há assunto “do bom”. diz que até a prima Vera entrou por aí, mas eu não a vi e ao contrário do meu nariz, que a (pres)sente todos os dias – e não, “nariz” não é um eufemismo para qualquer outra parte proeminente do meu corpo… adiante.
não pretendo maçar o leitor com uma qualquer dissertação sobre os benefícios desta pausa para compromissos dos jogadores afectos a um certo e determinado empresário (com alguns dos seus negócios de “mendilhões” a serem alvo de investigação por parte dos sistemas fiscais de «ambos os dois» lados da Península…), para o tão necessário retemperar de energias da nossa equipa do coração – inclusive para essa tão desejada recuperação de quatro jogadores fulcrais para o futebol por ela praticado, esta época e que há muito se encontram no “estaleiro”. deixo essa tarefa para as bancadas dos Universos Porto do canal do Clube e para as culpas dos Cavanis dos podcasts da moda – assim eles se resolvam a gravar mais um episódio do programa, tão prometido e tantas vezes adiado. mais um pouco e igualam uma célebre entrevista de um ilustre presidente, reservada (para calendas) ao canal de televisão do Estado e subsidiado com verbas de todos os contribuintes portugueses independentemente da sua cor clubista…
também não me apetece discorrer sobre as mais recentes revelações dos e-mails que envolvem aquela agremiação que ao início os negou com quantos pintelhos tem o seu presidente ao cimo da sua boca e que, agora, se diverte a ameaçar cidadãos com processos na mesma Justiça que vai negando recursos hierárquicos a um dos seus principais arguidos. delego essa função para as toupeiras habituais nestas alturas – vulgo pés-de-microfone, sabujos, cartilheiros e avençados habituados a difundir a Propaganda do Estado Lampiânico que lhes impingem, nos costumeiros “Órgãos de Comunicação” tão afectos a essa gloriosa causa e que, em tempos, se deliciavam com tudo o que eram escutas divulgadas no YouTubiu por um qualquer tripula e agora clamam por «Paz» no nosso comezinho futebolzinho tuga, enterrando a cabeça na areia mais fundo do que aquele outro órgão que lhes penetra “a alma” diariamente, sem aviso prévio, sem dó nem piedade, e que eles, pelos vistos, tanto gostam e ainda imploram por mais.
muito menos quero abordar a paupérrima prestação das modalidades (ditas) “amadoras” que envergam o Brasão Abençoado ao peito e que, este final-de-semana, nos envergonharam. mais do que querer passar a ideia de que pretendo seguir em frente e ignorar um problema sério, não pretendo repetir o que o Paulo Miguel Castro afirmou aqui, a partir dos 50’ do programa e que eu subscrevo. na íntegra.
acima de tudo, mais do que chegar rapidamente esse 02 de Abril que tanto tarda, quero e desejo que esta espécie de “mini-férias” não tenha consequências nefastas para as sete finais que faltam para o que resta do Campeonato, a que se acrescenta a meia-final de acesso a esse jogo que anualmente se pratica no Estádio Municipal de Oeiras. assim Sérgio Conceição tenha presente a importância dessas “batalhas” e que a mensagem esteja a passar para todo o grupo de trabalho. quem alimenta o vasto #MarAzul que acontece desde a primeira jornada e que, mais uma vez, se prevê que venha a encher mais um estádio – desta feita, o de um dividido Belenenses –, merece-o. e mais do que ninguém!

“disse!“


Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)


quarta-feira, 21 de março de 2018

Do Amor e da Derrota


Escuta, uma noite destas separámo-nos. Não te sei dizer se de papel passado e tudo, mas deixámos de nos conceder esta prerrogativa da vida em comum. Como se algum dia a nossa vida tivesse sido comum. O mais estranho é que passámos todo o tempo da negociação que isto sempre envolve numa espécie de limbo. Posso garantir-te que eu e tu olhámos para o tempo a passar, para os requerimentos a decorrerem os seus prazos e, muito provavelmente, para o ar de espanto e secreta revanche mesquinha de muitos dos que terão, eventualmente, falado connosco acerca, como se tudo fosse apenas provisório. Como se soubéssemos de fonte muito segura que no fim não haveria desenlace, não este.

Víamos os acontecimentos como se estivessem dentro da vida de outros, a acontecerem-nos perante os olhos, sem que os parássemos porque aquilo não ia passar-se. Como não ia, nenhum de nós precisou de sair da sua fortaleza de razão, de dar um pequenino passinho na direção do outro que nos teria posto a correr aos dois. Para quê? Era tão evidente que este nó no estômago desapareceria de súbito, tão estupidamente claro que nunca - mas nunca, percebes? - iríamos deixar que um dia alguém chegasse a uma folha deserta e escrevesse: Escuta, uma noite destas separámo-nos.

É pois sem perceber bem como, que me vi sentado a uma mesa redonda, branca, de cadeiras brancas, tudo a fazer lembrar aquele mobiliário lacado de antigamente, de lado para ti, como é costume sentarmo-nos em mesas redondas só os dois, de forma a que não fiquemos muito longe, fora do alcance da mão. Mas super-design, está claro. Ou não, não tenho a certeza. Só sei que ninguém, em nenhuma esfera do saber ou sentir, alguma vez achou de mau gosto as tuas mesas e as tuas cadeiras. Sim, porque eram tuas, na tua casa. Assim, tua. Não nossa. Eu continuava com o estômago às voltas e a pensar: Mas quando raio é que acaba o disparate e volta tudo ao normal?

Sei hoje que tu pensavas pouco mais ou menos o mesmo, acrescido de um azedume sem razão aparente. Afinal, eu estava certo de que tinhas percebido que a razão era minha e que não poderia, jamais, fazer de conta que não a tinha. Enquanto tu te limitavas a não querer dar o braço a torcer, mais nada. Mesmo agora, aqui chegados. Como te podes atrever?

Do que falámos não sei. Sei que a tua amargura tinha tudo a ver com uma namorada muito jeitosa que eu devia manter à época. Ainda tenho muita pena de nunca a ter visto. Mas pronto, era do conhecimento geral, e teu muito em particular, que ela existia e as fotos - penso que haveriam fotos ou redes sociais ou alguma prova mais credível que estas linhas - comprovariam que era muito apresentável. Oh, que digo? Sabíamos todos que era um espanto, pronto. E só mesmo essa parte do teu fel por mim é que não conseguias disfarçar tão bem. Tudo o resto em nós era urbanidade e familiaridade e uma certa cumplicidade que sobrevivera. Tanto que sei que me aprestava a subir ao andar de cima, como se isso fosse vulgar, para desancar a mais nova por não se ter despedido do pai, antes de ir dormir.

Eu o mesmo. Mas tu, ai tu, tão outra. Engordaste a olhos vistos e ficaste tão menos bonita. Com o cabelo armado, à professora primária de antanho. Já se vê que o saia-casaco castanho, naquele tecido estranho que parece cheio de borbotos, com saia abaixo do joelho e os sapatos pretos, de salto baixo, à balzaquiana, não ajudavam nada a compor-te. E eu pensava: Caramba, mas porque é que se me rebola desta maneira o estômago, à conta desta senhora? Porque estarei tão angustiado por não se acabar já de repente esta situação inusitada e tudo voltar atrás? E, sobretudo, porque é que tenho tanta certeza que quando tudo estiver de novo no seu lugar, também tu serás tão bonita como te recordo?

...

Escuta, uma noite destas o Porto perdeu com o Paços de Ferreira. Tu já dormias quando cheguei, porque acrescentei tertúlia à derrota: um bando de tipos a carpirem-se diante de cervejas geladas e molho de francesinha. E eu vinha acabado, moído de rever as bolas que deviam ter entrado, chateado da chuva e dos quilómetros e de toda a gente a dormir. Por nada. Perdemos, foda-se.

Devo ter adormecido relativamente depressa. Tu sabes que quanto maior a chatice, mais depressa e mais profundamente durmo. Fujo. E foi então que o meu inconsciente se decidiu a colocar-me perante uma verdadeira derrota. Não sem ter o cuidado de me apaparicar e te deixar claro o que te faria perderes-me. Como de repente serias uma pessoa amarga e feia e gorda e com as gengivas todas arrepanhadas e os dentes cariados. Lembrei-me agora mesmo disto da boca, não estou nada a inventar! Ninguém te pegava, pelo que permanecerias minha. Acho que era esse o objetivo do extreme make-over.

Confesso que acordei zangado contigo. Porque a razão era mesmo - repara, eu sei isto! - minha, independentemente de qual fosse o problema. A esse, desconheço-o. E tu esperaste que eu relevasse esse facto em beneficio do teu orgulho e deixaste-nos cair. Deixámos. Na certeza de que o outro acabaria por evitá-lo. Perdemos, como o porto em Paços. E em nenhum pedacinho do meu sonho eu quis saber do futebol. Aí tens.  

...

quarta-feira, 14 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VII - xadrez



"na Vida, ao contrário do que acontece no xadrez, o jogo continua após o xeque-mate."

correu muito mal, não foi? pois foi. e deu razão ao postulado #6 das Leis de Murphy: «se se perceber que uma coisa pode dar errado de quatro maneiras e, mesmo assim, conseguirmos ‘driblá-las’, uma quinta surgirá do Nada».
e foi precisamente isso que aconteceu, na cidade destes senhores do Rock aqui, ante o time local que equipa com uma cor demasiado rubra para o meu gosto: não deu para marcar seis golos e “virar” a eliminatória, tal como eu esperava. ao menos ganharam-se dois novos valores para a equipa principal: Bruno Costa e Diogo Dalot – sendo que este último é que é a “quinta” cena do sr. Murphy, porquanto que, com o valor da sua cláusula de rescisão fixado em meros 20 M€, tal são «peaners» para os tubaralhos da Europa, tanto é o seu potencial. esperemos que ainda seja possível a renegociação do seu contrato…

quanto ao que aconteceu em Paços de Ferreira, ainda estou doente (literalmente).
na partida disputada em terras do Vale do Sousa aconteceu o disposto no nr. #9 das malfadadas leis, e que refere que «acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série». ele foi a meteorologia (com uma intempérie que ninguém contava em pleno Inverno); ele foi o vento forte (com um sorriso particular do jeBus, neste capítulo); ele foi o estado do ervado da Mata Real (sem ironias, exceptuando os recintos dos três grandes, considero que mais nenhum estádio reúne condições de excelência para intempéries como a do passado Domingo – e não me refiram o Alvaláxia sff…); ele foi o anti-jogo elevado ao Absurdo de toda a equipa do Paços; ele foi a basta Paixão aliada a um complexo Xistrema; ele foi tudo isso que Sérgio Conceição referiu na Conferência de Imprensa, mais um maletim ‘Louis Vuitton‘, repleto de muita Boaventura, #alegadamente expedido por via dos Césares desta vidinha. em suma: ele foi o diabo a sete, mais t-u-d-o o que já se contava que poderia acontecer e um saco de tremoços, e tendo em linha de conta o que as E-Toupeiras vinham escavando ao longo da semana.
agora, para mim, depois de um jogo desgastante para a Champions, acho que não se consideraram as “outras” incidências que antecedam a partida e pertinentemente expostas aqui, via shôr Bala – a saber:
« também convém recordar que, esta época, perdemos pontos em 4 jogos. para além dos dois Clássicos, empatámos com o Aves (que na altura ia em 16º) e com o Moreirense (que ia em 15º). não podemos perder mais pontos nestes jogos. é absolutamente imperial não dar oxigénio ao mais directo perseguidor.»

sem pretender ser maçudo e contestar, na praça pública, decisões e/ou escolhas que competem ao Treinador, só não compreendo a aposta num Corona letárgico e que comprovadamente ainda não ultrapassou o drama familiar (Jesús, que jogo horrível! mais um…); as entradas tardias do Gonçalo e do Otávio na partida; o Paulinho não calça porque?…; que mal é que fez o Óliver para ir para a bancada?… são só dúvidas e sem qualquer maledicência na sua exposição.
por outro lado, deu para perceber que o Waris não é reforço para esta equipa, porque voltou a desaproveitar uma oportunidade e logo num jogo em que tinha que marcar a diferença – assim como o Hernâni; que a lesão que o Victorio Páez sofreu em Anfield Road veio na pior altura (cucaralhinho, ó Murphy!); que os “patinhos feios” Herrera e Marega são pedras basilares, quase autênticos “cisnes”, no estilo de jogo que Sérgio Conceição implementou; que o Sérgio Oliveira deixou os ‘huevos’ algures, de Janeiro de 2015 à presente data (e #alegadamente com muita pena para a sua companheira).

concluindo (e baralhando):
E-Fodido perder assim, sobretudo porque fica esse E-Amargo de boca de que não se fez tudo o que estava ao nosso E-Alcance. agora, E-Lidar com a amargura, esquecer (se for possível) a E-Azia e começar a preparar convenientemente o ‘derby’ já do próximo Domingo. E-Isto mesmo, pura e simplesmente e sem E-Esquemas.
muito do xadrez deste campeonato passa pelos embates do próximo final-de-semana – e assim se justificam a imagem acima, bem como a citação que supostamente pertence a um escritor e bioquímico americano, mas nascido na Rússia, no início do século transacto, de seu nome Isaac Asimov (investiguem…). se teremos pela frente um adversário que, contra nós, é sempre aguerrido e bravo, tentando ultrapassar o “remendado” complexo que fica próximo da rotunda que lhe empresta o nome – alguém se lembra do que aconteceu em 2003/2004? eu não me esqueço… – já o 5lb terá uma fogaça complicada para digerir, lá pelas terras do taberneiro desta casa, assim como o sportém receberá um sempre afoito Rio Ave (e por mais “invenções” que o Spaletti dos Arcos teça).
acima de tudo, é importantíssimo vencer a nossa partida, onde estará presente o #MarAzul que acompanha esta Equipa desde o início da época. é esta a minha última palavra num texto que já está longo: o reconhecimento público e o apreço por tod@s que têm emprestado muito do seu tempo para apoiar incondicionalmente o nosso Amor comum. indubitavelmente muita da sua Força passa por vós e como bem têm reconhecido os nossos artistas.
[já sobre as obras de remodelação do balcão que o proprietário deste espaço está a encetar, ficarão para outra oportunidade.]

“disse!“


Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

sexta-feira, 9 de março de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus VI - Dia Internacional da Mulher




"we'd rather starve quick than starve slow."

Fevereiro de 1909.
os relatos da época dão conta de uma marcha, no frio de uma gélida Nova Iorque em início de século, de cerca de 30 mil manifestantes, na sua maioria mulheres. lutaram por direitos que actualmente damos por garantidos, à nossa nascença, como sejam melhores condições de vida (a Fome era um dos flagelos sociais), de trabalho (com uma necessária redução do número de horas de labuta), ou até o direito ao voto (nos EUA, só aconteceria em 1919; em Portugal e sem qualquer discriminação e/ou restrição, somente em 1968). a citação acima refere-se ao slogan proferido na marcha reivindicativa, no último Domingo daquele mês.
mais de cem anos depois, os propósitos do 08 de março e da persistente luta contra as desigualdades de género, não só a nível salarial como no acesso ao trabalho mantêm-se válidos. em Portugal, aqueles são ainda mais apropriados graças aos dislates diários das #inCapazes… adiante.


transportando esta efeméride para o Futebol e naquele que deveria ser um momento recordado diariamente por qualquer bom chefe de família que se preze, mesmo pelos que entretanto terão sido constituídos arguidos, e não num singelo dia de Inverno, a cada ano que passa, e assim que chega a casa e antes de alapar o traseiro no sofá para ver a bola (excepção para o Felisberto, graças às ‘herreras’ de um certo Hector…), neste texto quero homenagear as adeptas portistas naquela que, para mim, é a figura maior do nosso Clube, no Feminino e sem qualquer menosprezo para as demais.
trata-se de alguém que invoco a cada ida ao estádio e antes que a ‘chichinha’ comece a rolar; de alguém que me provoca arrepios na pele e até lágrimas de comoção e de uma esfusiante Alegria; de alguém que me faz gritar o nome do Clube a plenos pulmões; de alguém que faz parte integrante dos símbolos do FC Porto e que, por isso mesmo, será Imortal; de alguém que é muito nossa, não só do Clube, mas também da cidade Invicta.
refiro-me a quem empresta a voz ao hino (e à marcha) do FC Porto, Maria Amélia Canossa de seu nome de baptismo.

sinceramente acho que mais palavras minhas serão desnecessárias, neste momento, porque a pessoa da D. Maria Amélia é sempre superior a qualquer tratado que possa elaborar. e porque só a lembrança do hino do Clube, enquanto redijo estas linhas, faz com que não tenha o tão necessário discernimento para continuar a escrever. assim sendo, espero estar na plenitude das minhas forças já ao final da noite deste Domingo, naquela que será certamente mais uma dura Batalha rumo ao objectivo que tod@s nós ambicionamos e deixámos bem expresso em Liverpool. assim seja!

“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)



quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma carta ao Dragão Vila Pouca

"Pois claro que a culpa é minha."

Grande Dragão Vila Pouca,

Espero que estas linhas o encontrem de saúdinha e com a genica do costume. Nós por cá, todos como manda o Senhor. Quer dizer, talvez não propriamente. Tem dias que de tanto pecar chegamos cansados à noite. Nós por cá, todos como gostaria de estar o Senhor, é melhor assim. Normais, portanto. Às vezes alegres, outras macambúzios, alturas que cantamos, alturas que choramos, alturas que fugimos. Bem vivos, acho que é isso.

Cá me entregaram o seu abraço. Apesar de contente por se ter lembrado, está claro que fiquei triste por não nos termos cruzado para o deixar em dia com as contas do vilarejo. Por outro lado, não é como se perdesse grande espingarda com isso, embora eu bem saiba que a distância traz a saudade e a saudade é uma cabra que aumenta a importância de tudo e torna as coisas estranhamente bonitas. Menos a Tina Mamalhuda. Essa, não há saudade que a embeleze. Parece que o vejo a sorrir dos olhos por trás das lentes de sempre, a pensar que com aquele par de mamas pode muito bem dar-se ao luxo de ter a cara que lhe apetecer. O tempo passa, Grande Vila Pouca, e a gravidade faz-se pagar. Até quase aos joelhos que já vai a conta.

O nosso pobre clube é que parece não ter remédio. Ele foi a fruta - lembra-se com certeza, ainda o meu amigo por cá parava basto, à época - ele foram apitos para todos os gostos, ele foi trinta por uma linha. Telefónica, está claro. Os jornais e as televisões e as rádios e essas coisas modernas que estão dentro dos computadores, até hoje nos lembram dessas embrulhadas. Olhe, cá para mim era bom sinal. Queria dizer que nada de novo e mais grave se passava, graças ao Senhor, que aposto que também acompanha a bola.

Há uns tempinhos, comecei a ouvir uns zunzuns, um rumorejar de situações, coisas soltas e de pouco destaque, escondidas em obscuridades irrelevantes. A pessoa, em procurando com afinco, indo a casa de amigos de posses, com canais muitos de televisão e isso tudo, lá se ia inteirando de uma ponta solta ou outra. Pelos jornais e as televisões e as rádios e até as coisas dos computadores - quase todas - enfim, pelos meios do Povo e pelo Povo, não se apanhava nadinha. Ruminando sobre a palavra, veja bem como é parecido Povo e octópode.

O amigo Vila Pouca já me conhece e já se vê que fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Por vezes, depois de algumas retumbantes vitórias sobretudo, punha-me a pensar de mim para comigo: Oh Silva, tu não me arreganhes assim a taxa que isto há aqui qualquer coisa que cheira a esturro. Põe-te fino que, vai-se a ver, já anda a máfia do costume a conspurcar o Brasão Abençoado e tu todo feliz a ganhar, mas é só porque compraram tudo e todos e mais os colhões do mudo.

Pois bem, o que tenho de novo para lhe contar é velho. Foi isso mesmo que aconteceu. Veio agora a saber-se que andámos a receptar a correspondência alheia, uma espécie de cartas pueris que pessoas bem intencionadas enviavam umas às outras, acerca de assuntos que apenas a elas concerniam. Estou a escrever-lhe estas linhas e sinto-me enrubescer de vergonha. Mas por Alma de quem, por qual estranha razão ou inconfessável fetiche, é que esta gente decidiu meter-se na vida dos outros?

Confesso-lhe que não tenho o alcance mental para compreender. No fundo, sou um taberneiro, o que sei melhor é servir copos de três e tirar finos e, mesmo assim, foi com os anos que aprimorei. Como posso então entender estas coisas das modernidades? O que importa, caro amigo, é que, como seria de esperar, andámos a ganhar por vias travessas e sem respeitar o próximo e a verdade e essas coisas todas. Mas não creia na minha palavra, tire-se do seu descanso, em não lhe faltando o tempo, e consulte os arquivos dos jornais e das televisões e das rádios e os discos rígidos - parece que é assim que se chama o sitio dos computadores onde se guardam as memórias e os futuros - e verá que não lhe minto.

É certo que fui equilibrando o desgosto com a união que regressou aos nossos, bancada e equipa a comungarem. Pudera, os resultados vão ajudando, se pudermos ignorar a forma ignóbil como aparentemente os estamos a obter. E disfarçamos, Vila Pouca, dissimulamos, como se não soubéssemos à partida que íamos ganhar. Armam-se dificuldades, ensaiam-se superações, constroem-se belas jogatanas e fartas goleadas. Como dizem os verdadeiros entendidos, vê-se logo que não pode ser limpinho, limpinho, malditos tripeiros. Isto dos tripeiros, dizem eles. Está claro que eu me incluo por adopção, se não de sangue, de coração. Como diz o senhor Monteiro da Silva nas noites em que exagera na amarguinha, a escolha é sempre maior do que já nascer assim.

Grande Dragão Vila Pouca, quase nada me daria mais gosto do que terminar aqui a minha missiva, abraçando-o, pedindo-lhe que não demore a voltar, desejando-lhe longos e belos dias. Só que não posso. Devo-lhe a verdade completa, até para que não seja apanhado na curva por algum adversário menos compreensivo.

A coisa está à beira de estalar de vez. Tudo o que não aconteceu antes, está a passar-se agora. Prenderam um dos nossos! Das nossas cores desde o berço, ferrenho e fanático, metido em atividades e passividades, se entendi o que por aí se escreve e se grita, numa rede intrincada de favores e jeitinhos. Já não podemos sair à rua de cara descoberta e cabeça levantada, borrados que estamos. Prenderam-no, Vila Pouca. E agora? Como é que vamos dizer que não tem nada a ver com o clube? Quem pode acreditar que a culpa não é do Pinto da Costa? É de quem então? Do Cavani?

Espero não o ter desinquietado por demais. Se o fiz, peço-lhe perdoe o desabafo deste seu pobre correlegionário, para aqui atirado como tantos. Compenso a sua paciência enviando, no pacote junto, um belo chouriço cá das nossas terras, curado nos ares da magnífica Capital.

Aceite um grande abraço deste que o estima,

Silva

sexta-feira, 2 de março de 2018

Vinte mil léguas submarinas

...oh happy days...

Sempre gostei de me ver como um animal com tendência aquática. Pelas horas no duche, por exemplo, ou pelo facto de estar inscrito num Centro de Desenvolvimento Muscular - ginásios é para maricas - no qual me dedico de corpo e alma à modalidade de boiar na piscina. Até já tive um chefe que me disse: Oiça, à água que você mete, se lhe pintarem umas pistas na careca, mais parece o Slide & Splash. Bom tipo, o chefe. Pena o atropelamento e fuga que o deixou paralímpico do pescoço para baixo.

Não é pois de estranhar que me tenha parecido uma ideia muito catita agraciar os alunos da aula de Hidroginástica com a minha participação. Está claro que a minha intenção era ser mais um, ajudar a equipa, remar todos para o mesmo lado, o que importa é o grupo, sem os meus colegas nada disto seria possível e isso tudo, levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo. De tal maneira que até evitei, propositadamente, vestir os meus espetaculares Speedo que, diga-se em abono da verdade, me ficam muito bem. O abono ajuda, por ser uma verdade tããããooo evidente. 

Isto era sobre o quê? Ah, exatamente! Fiz questão de comparecer com um singelo calçonete preto, basto discreto e largueirão. A minha mais que tudo que nem saiba que fui nestes preparos. Não gosta nada daqueles calções, a cachopa. Diz que fico a cheirar a chulé das virilhas. Mas eu pensei: Oh Silvas, quem é que nos vai agora cheirar as virilhas na Hidroginástica? E procedi a ligar-lhes, para perguntar se andavam no sítio tal e, em andando, se iam à Hidroginástica. Ninguém ia, um descanso. 

( Pausa para contrição: 
Era uma piada demasiado suculenta, ‘mor. Sabes que as minhas virilhas são só tuas. Mais ninguém mas snifa que eu não deixo. Siiiim, todo polvilhadinho de pó-de-talco. Não zanga, não? Não faz piada parva com Nelson Évora, não? Pueeaaaaseee? Estou tão fodido, credo.)

...

Afinal, o que vem a ser isto da Hidroginástica? É fácil de perceber, e o nome ajuda um bocado, que se trata de um grupo de fulanos e fulanas aos pinchos dentro de água. Tipo a minúscula piscina de um  aldeamento manhoso em Quarteira, com mais putos ranhosos do que cloro por metro cúbico. Só que são os bisavós dos miúdos. Um gajo pensa: Fuoda-se, só espero que esta merda tenha um sistema de aspiração central de cadáveres no fundo, ao número de velhinhos que vai quinar, fica isto mais pejado de corpos a boiar do que uma ETAR no The Walking Dead. Mesmo o cheiro há de ser parecido. Fixe para a questão das virilhas.

Já sei que estão todos indignados, a achar que sou uma besta que não respeita ninguém e que me ponho a fazer troça de toda a gente, como se eu próprio não caminhasse para velhote. É mesmo essa a questão: eu vi-os a caminhar. Dos balneários para a piscina. Todo um festival de artroses e joanetes, de costas doridas e semicorcundas, de peles caídas e dentes em falta, de ais, uis e entãos está melhorzinha. Pá, desculpem qualquer coisa, mas parecia mais que tinham vindo de jogar com o Canelas do que iam para a Hidroginástica. 

À frente deles todos, a instrutora. Uma moça fresca e viçosa, com ar de quem não se ia meter na água com aquela trupe, nem que lhe pagassem o turno a dobrar. Alto! Há que tomar, discreta e modestamente, um lugar à frente dos velhadas. O melhor aluno fica sempre na carteira da frente, já se sabe. Qual Nelson Évora da natação sincronizada. Incha!

Caso nunca se tenham apercebido, escutai com atenção o Tio Silva: os velhinhos enganam. São uma raça de gente dissimulada, levada da breca, ora agora parece que sim e, vai-se a ver, nada disso. Trôpegos até a la borde de la piscine, perros a agarrarem-se às escadas, a ranger de tudo quanto é articulação a descerem os degraus e de repente, não mais do que de repente Senhor, plumas!

Quase que oiço as trombetas do Céu, voam em círculos perfeitos pequenas fadas, são tão foooofaas! É isto o nosso elemento primordial, não haja dúvida. Aquele em que os decrépitos de ainda agora se tornam nos ágeis anfíbios do momento. Autênticos Aquamen, todos enrugados das trombas.

Ainda assim, o cenário parece muito favorável. Uma piscina cheia de anciãos, com um alto e espadaúdo mancebo - um vosso criado - à frente da turma. Raisparta se não vou ser o maior deste tanque. Andar aos pulinhos dentro de água é-me praticamente inato. A mãezinha teve muitas vezes que se amarrar a coisas pesadas, para não andar aos pinchos como uma bola de basquete, quando estava grávida de mim. Da Esperança do Mundo, portanto. Até acho que foi aí que inventaram a expressão e tudo.

Ora começa a dança, pulinhos, mexe os bracinhos sem levantar água, pulinhos, levanta a perna esquerda para a frente, pulinhos, agora a direita, pulinhos. Well, não se pode dizer que seja muito entusiasmante, lá isso não. Não fosse estar a pensar que uns 80% da turma já devia estar à beira do afogamento ou da síncope, acho que já tinha adormecido.

Agora alça da perna esquerda para trás e toca com a mão direita na ponta do pé. Hã? Esta merda agora é acro-ioga em fato de banho? Disse como? A perna...espera... Estou dentro de água, foda-se!, eu sei lá qual é a perna esquerda. Aguenta, aguenta, acho que lhe apanhei o jeito. Troca o quê? Qual ao contrário? Devagar, caralho, que já vou no segundo pirolito à conta das pernas trocadas. Como assim passa a esferovite por trás das costas e faz bicicleta com as pernas? Isso é sequer possível? Meti-me com os tarados do Kama Sutra underwater para a terceira idade, kéjbêr? Opá, já sei que é de papo para o ar, esta merda virou-se sozinha, que queres que lhe faça? Uma moça tão nova e já a gritar tanto, chiça. Estou a tentar, estou a tentar, vão-se rir da puta da vossa prima, velhos dum cabrão. Oh senhora, mas como é que eu posso levar os joelhos ao peito, dependurado num chouriço de esponja? Cá está, o melhor que se consegue: uma barata a dançar breakdance enquanto sofre um ataque epiléptico.

Viro-me para olhar para os colegas. Todos em movimento, maldita gravidade alterada. Como é que ainda estais vivos é que me espanta. E com um ar vermelhusco, cansados mas sadios. Só espero que não se tenham mijado todos pelas pernas abaixo, credo. Havia de ser obrigatório o uso de fraldas, daquelas de os bebés levarem para a água. Em tamanho xxl, já se vê, que Speedos apertados não ficam bem a toda gente. A partir de uma certa idade, os indivíduos e as indivíduas deslargam-se com alguma facilidade. Digo eu, mas sou uma pessoa muito nervosa.

Acabou! Ufa, finalmente. Eles vão saindo, as dificuldades de locomoção a fazerem-se pagar mal põem um pé em seco. Eles e os seus sorrisos trocistas, filhasdaputa. Ri-te, ri-te, quando deixares de aparecer porque faleceste, eu também me vou rir. E aproxima-se a porca Nazi que tem a mania que manda nisto tudo:

- Oiça, à quantidade de água que você bebeu, se engolisse um escorrega... - Interrompo:

- ...era o Slide & Splash, já sei. Faça cuidado a atravessar a rua, hein?! Vivemos dias complicados, cara senhora.

E fui embora, disposto a gastar tanta água quanto possível na minha merecida e retemperadora banhoca. Acho que aquilo do TRX é mais o meu género. Não sei, é malta mais nova e uma vez estava a tocar o Run to the hills e assim. Um dia destes experimento.