quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Da Eternidade: Uma mesa ao Sol

 
Olá meu Amor, como estamos hoje?

De férias, é assim que estamos, colecionando momentos irrepetíveis, como se houvesse momentos de outro género, como se fosse possível regressar, repetir, copiar. 

Como bem sabes - uma mesa num café anónimo, no tempo em que todas eram de fumadores, uma espreguiçadeira à beira de uma piscina de cloro, tu deitada, eu sentado aos pés - não consigo evitar esta coisa de colocar os ausentes nos locais de agora. Se calhar é só uma forma de lhes dar férias, de os tirar dos ombros enquanto salto para a água, eu mais leve, eles livres deste jugo que lhes imponho. A Ti não, que ainda não me parece que tenha aceite completamente que Vives em mim. Apenas.

Deixemos isto, convenientemente, por discutir e resignemo-nos ao facto, de qualquer forma insofismável, de caminhares ao meu lado. Por agora basta-me e Tu não tens como protestar.

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Sabe-se lá como, vim dar a sítios de churrasco nas margens, minis em punho e cigarros a queimar no fio perdido das conversas, enquanto as brasas pegam. Fomos passando, eu e Tu, por estes locais, trocando olhares cúmplices, até termos desaguado nesta esplanada sobre um rio. A sombra dos guarda-sóis vermelhos espalha-se por uma área apreciável, deixando uma mesa perdida no extremo. Ao Sol. A nossa, certamente.

Aquela em que as tuas gargalhadas parvas se entrecortariam com os acessos de tosse que prenunciam a Morte. Estaríamos praticamente deitados nas cadeiras, a torrar, desfiando um rosário de maledicência e piadas estúpidas. Os dois - ah não, os três! - plenos de Presente, ignorando com a maior naturalidade a Vida, essa coisa que correria em paralelo a uma Felicidade de momento. Lá longe, nas partes incertas onde as pessoas sobrevivem. Até que fosse segunda-feira e nos viessem agarrar pelo pescoço e esbofetear-nos com lambadas de realidade. À bruta. E saberíamos então que a culpa era completamente nossa. Como a mesa ao Sol, esquecida pelo resto da esplanada.

Na relva da margem, repousaria a enorme geleira. Façamos um breve inventário: uma bola de queijo flamengo, 350g de fiambre, um chouriço, quatro pacotes gigantes de batata frita, 20 ou 25 latas de cerveja, gelo, duas garrafas tamanho familiar de Coca-Cola, quantidade indeterminada de papos-secos, abre garrafas, uma faca de cozinha, um pacote de manteiga, um melão e uma melancia.

É certo que se entregar esta lista a qualquer um dos outros, ela crescerá, até se tornar uma geleira imensamente impossível, daquelas que podem carregar toda a Alegria do Mundo. Nenhum de nós pode ter a certeza se existia ou se foi  um épico sonho coletivo.

De pernas cruzadas à chinês, preparas em facadas certeiras as nossas sandes de queijo, com manteiga e batata frita. Os miúdos correm soltos e felizes, mergulhando no Mar da nossa inconsciência, e vêm à chamada da fome. Comem em pé, a pingar água, e sorriem. E depois riem. Porque por qualquer estranho motivo parece que não aprenderam outra coisa. E a gente aperta o pão e ouve as batatas a estalarem lá dentro e antecipa a mistura das gorduras e do sal, a maciez do flamengo e o crocante das batatas e depois o gás do malte ou do caramelo dispara uma bolha para o nariz e os portões do Paraíso abrem-se de par em par.

Os bebés espalham-se pelos seus vários pontos cardeais e nós retomamos o caminho da esplanada ou da sesta ou da geleira. Quando nos cruzarmos, alguém os empurrará para a água e depois saltaremos todos e as pessoas vão ficar a olhar. Como se o Mundo não acabasse depois do jantar.

A quantidade de escolhas racionais e partidos ponderados que estas coisas que não sei dizer me impediram de fazer e tomar, é algo que já tentei explicar milhares de vezes. Sem sucesso. Nunca passei de está perdoada à partida e serei sempre eu a dever no fim.

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Às vezes ainda caio na esparrela de me pôr a pensar que podíamos, os que vamos sobrando, repetir, em conjunto ou cada um com os seus, estas jornadas de “vamos ao Algarve amanhã, mas acordou mau tempo e vamos em direção à Serra da Estrela, mas só até à Mealhada”. Porque é hoje. Pouco importa que tempo fará amanhã.

Mas sabes, não podemos. Continuamos a ter, descansa, parvoíce que sobeje para as gargalhadas. Temos bebés em número muito razoável e até, ou mais que tudo, a Tua Memória religiosamente preservada. Somos é outros, em outro tempo, transportando outras vidas. E não me passaria pela cabeça empurrar qualquer das crianças para dentro de água. Só os pais delas. As mães, para ser completamente exato.

Eu podia só dar-Te a mão e levar-Te a passear, porque a vista é bonita e o ar agradável. Deixar-me ficar calado, em vez de Te maçar ainda uma milionésima décima vez com a mesma história. Mas depois ia contá-la a quem? Não sei, a todos, talvez? Um dia ainda encontro a resposta para isto. Mas hey, nós vamos falando. Até já.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Embandeirar em arco

Conta-se em duas penadas a sabe-se lá se triste história de Cláudio R. da Silva:

Nascido devidamente equipado em tamanho para o amor, desde tenra idade espantava pela  impecável aerodinâmica e muito apreciável estética peniana. Enfim, o que se convencionou chamar de bela pila.

Mais até. Cláudio revelou desde os primeiros ensaios uma inata aptidão para a cópula. Não que isso o surpreendesse, dada a arrasadora onda de sublimes sensações que o tomavam quando, petiz, praticava o ato de si para consigo. Espancava o macaco, portanto.

De família, carregava os genes da simplicidade e da humildade, a esmerada educação dos modestos e a certeza de que, desconfiando de si mesmo, poderia manter sempre os pés bem assentes no chão. Daí que sempre que um amigalhaço de ocasião lhe dizia: Oh Clau, a minha prima bem boa diz que lhe disseram de ouvir dizer que era melhor ligares-lhe enquanto os meus tios estão embarcadiços, num cruzeiro demorado; o bom do rapaz respondia: Pá, não é tanto assim, tenho muito que melhorar e há aí malta muito competente e bem preparada e que investiu em operações e faz ginásio e essas coisas todas. Não vamos agora embandeirar em arco.

De tão pouco embandeirar, tanto se convenceu do que pregava, que nunca mais deu uma em condições. Ainda hoje, cerca de 85% da freguesia feminina da Tasca vive a repetir: Credo, que desperdício ter ido para panasca.

O que é prontamente rebatido por uns 32% da freguesia masculina.

Com pedaços de bolinho de bacalhau a lutarem pela vida nos cantos da boca, o Berto Faz Tudo dá sinal de vida:

- Eu cá embandeiro um pedachinho para a exquerda. E tu Xilva?

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Ora então começou o Campeonato. E abriu da forma mais natural: Cincazero, Silva. Como era de esperar, meio Mundo desvaloriza, à conta de um adversário supostamente morto; e outro meio já desatou a berrar que não devemos embandeirar em arco. Lá está.

De acordo amigos, a soberba, como a gula, para além de pecado, pode fazer mal ao intestino e, de repente, está a pessoa com uma caganeira do caraças. Mas não precisamos de fazer de conta. É que não sendo um dos sete, a hipocrisia é o grande pecado do Homem. E fazer maki com morango e compota de framboesa também!

Deu-se o caso de ver os jogos dos supostos adversários. Não é que possamos encomendar as faixas, mas devemos ter a honestidade de reconhecer que partimos à frente. Um pedaço. Grande. O mais próximo será o S.L.Braga.

Percebe-se. Estamos em modo continuidade, afinando o modelo, suprimindo defeitos, enfim, aperfeiçoando e não construindo. Essa é uma vantagem e o melhor é que, pela amostra, não estamos nada inclinados a prescindir dela. Eu espero um FCP bem melhor do que o anterior e o treinador também. É isso não tem porra nenhuma que ver com jogadores novos. Anyway, se alguém tiver por aí esquecido um lateral esquerdo dentro do prazo...

Pronto, não embandeiremos em arco, para não ferir o politicamente correto. Mas pelamordeDeus, não me comecem já com as finais, a Vida e a Morte, o fim do Mundo sem Suecas desnudas. Ninfomaníacas. Porque haveremos de dar gás ao colinho mediático que vai tentar disfarçar vitórias sofridas, fabricar soberbos craques que encherão de esperança os rubrósverdeados corações e estupendas exibições durante 10 minutos?

Foda-se, somos melhores, estamos melhor, mais fortes, mais rápidos, mais alto. Fodemos melhor, pronto. Porque é que haveríamos de esconder isso das moças? Ganhar vantagem ao primeiro olhar é uma bela estratégia.

Isto é embandeirar em arco? Well, eu é um pedacinho para a esquerda também.

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O desproporcional do Nélson Évora ganhou o Campeonato da Europa. Já antes tinha sido Campeão Olímpico e Mundial. Eu não sei se alguém já tinha feito isto antes, já? Mesmo que sim, mas desconfio que não, é seguramente um dos maiores, senão o maior, feito do desporto nacional! Que golos do Cristiano em jogos treino contra equipas B mereçam mais destaque, não diz apenas da me(r)dia que temos, diz também do Povo que somos. Que não somos, digo. Mas podíamos ser.

Só não percebo como o gajo consegue. Eu próprio ando hácanos com um par de meias, daquelas de futebol, metido nos boxers e não há meio de saltar nada que se veja, fuoda-se!

Acho que o truque do moço é usar um calçonete de licra muntapertado, mais parece que vai fazer Ponte Nova - Furadouro ao Domingo, à rasca para ser atropelado por um BMW de aluguer com matrícula Suíça. Aquilo revela ao enfado - bota enfado nisso, filhadaputa - a meiucha metida nos truces e pumbas, até parece o gajo que voa.

Ora nem mais, o que o Évora faz é não esconder o arco. Ou a bandeira. Embandeira em arco, lá está. Aposto que é um pedacinho para a esquerda. Quer dizer, tendo em conta a proporção, um bom bocado, vá. Damn!

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Alarcón, FCP! É isto, a propósito de malta que anda por aí em licra a mostrar com quantos mastros se faz um embandeiranço. Empandeiranço. Coiso.

sábado, 11 de agosto de 2018

Sábado B: De pequenino...

Kié? Apeteceu-me e depois? A espelunca é minha!

Ah, gosto tanto do inicio de época dos B. Porque são equipas completamente novas de dois em dois anos, no máximo. Curiosamente, a primeira coisa que me chama a atenção nos B deste ano, é que há gente demasiado "velha" para cá estar. A única explicação plausível para mantermos Rui Moreira, Rúben Macedo ou até Rui Costa, é toda a estrutura, treinador principal incluído, estarem convictos de que se tratam de verdadeiros backup ao plantel principal. Vocês acreditam? Eu não. Aliás, o único que entraria nesta categoria não foi, propositadamente, referido. Falamos dele a seguir.

Uma equipa à imagem do seu treinador: honesta, simpática, sorridente, ingénua. Montada num sistema que pretende ser o espelho dos A, mas à qual falta gente para isso. De facto, este FCP B devia - e creio que o Rui gostaria - jogar em 4-3-3 e não no "nosso" conceicionista 4-4-2. Sendo certo que a me agrada este jogo de sombras, porque prepara jogadores para serem alternativas "imediatas" em caso de necessidade, não é menos verdade que se correm riscos ao levar demasiado à letra o conceito.

Por exemplo, nem quero pensar no que estaremos a fazer ao bom do Luizão se o obrigarem a jogar uma época inteira a ala direito. Não só o moço não tem características para isso, como a equipa perde muito com a sua ausência no meio. Em termos defensivos e ofensivos. Por outro lado, é o rapaz com mais possibilidades de dar uma perninha na A, porque já por lá andou e porque tem pernas e pés para isso. Quem sabe esta nova posição não visa prepará-lo para poder tapar um qualquer buraco na direita do nosso meio campo A. Pessoalmente, acho que não vai resultar. Mas hey, eu também achava que o André Pereira não sabia jogar o suficiente à bola para ser jogador do Porto. E ainda acho, mas ele é!

Outro rapaz que tem que estar pronto, até ver, para responsabilidades mais elevadas, é o Oleg. Apenas porque não há alternativa para Alex Telles, uma vez que não me parece que este catraio louro esteja preparado. Dará para o gasto? Que remédio tem ele. Veremos no decurso da época.

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Vamos lá à malta que jogou o primeiro jogo da II Liga:

Baye - Banco assim que chegar o Diogo Costa. Mas não é pela baliza que as coisas correrão mal.

Musa - Eish, época difícil que vai ser. É que ser ala direito no 3-4-3 do Folha é totalmente diferente de ter que ser lateral direito agora. E tu Musa, não és.

Justiniano - Rápido, inteligente, frio (não, não fez um penalty, mesmo que tenha sido apitado). Gosto.

Bidi - É grande. É bruto. É grande e bruto. Está emprestado pelo Lusitano de Vila Real. Tudo dito?

 Oleg - Veremos...

Rui Moreira - Já o conhecemos, fará o que sempre faz, desta vez com a grande novidade de jogar no seu lugar de origem. Não será A e só pode ainda aqui estar porque precisamos de um capitão. Devia estar a tratar da sua vida, porque pode ser um belo jogador de uma boa equipa.

Kelechi - Forte, bom de bola, chuta bem, o jogo da equipa anda todo à volta dele. Falamos daqui a uns jogos.

Luizão - Tudo explicado lá em cima. Não é à direita que se pode fazer jogador a sério.

Macedo - Outro que podia muito bem estar a ganhar cartaz numa equipa qualquer que lhe permitisse ter uma carreira a sério nisto da bola. E o Varzim precisava tanto dele.

Irala - Titular porque temos que jogar com dois avançados. Não devia. Até porque era suposto este lugar ser do Maleck. Kédele?

Rui Costa - Se era para ter um Rui, podia ser o outro, não? O que ninguém sabe onde pára, por exemplo. O Costa é bom, nada de confusões. Mas o outro é melhor...

Baró - Como - mas oh Deus, como? - é que este petiz não joga assim de caretas? É olharem para o que foi a bola desde que ele entrou. Sobretudo nas partes em que não estava obrigado a ir defender...à direita. Que pancada, dass!

Cassamá - O problema é como é que te arranjas para caber no lugar do...de cima. Mas juntos, é um regalo. E foi, por 15 minutos. Problema: sofremos mais um golo e não marcámos nenhum. Oh well...

Madi - Olha, aqui está um tipo que podia jogar à direita em vez de médios centro! No entanto, até acho que este lugar de avançado móvel lhe assenta melhor. É que assim não tem que cruzar tanto e...nota-se menos *wink* Se - SE! - evoluir muito - MUITO! - bem, pode ser uma história muito engraçada. Como muitos outros, right? Right.

Rui Barros - Eish, credo, que confusão que para aí vai, Ruizito. Aparece por aqui um dia destes, para uns abafadinhos, e cumbersamos os dois, tá? Combinado.

A minha equipa, neste momento: Baye; Musa, Justiniano, Bidi, Oleg; Luizao, Kelechi, Baró; Macedo, Costa, Queta
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O adversário de hoje está muito bem nesta divisão, onde há pouca gente a ver os jogos e, assim, podem dispensar-se bancadas em risco de ruir. Ganharam, mas era muito bem feito que tivessem perdido. Inchem!

De qualquer maneira, apesar da embirração, obrigadinho pá, por nos terem torcido o pepino logo de inicio. De pequeninos.

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E agora, alça este belo rabito para Vagos \m/. Tomem conta do Dragão e peçam desculpa à equipa pela minha ausência. Ao Sérgio não precisa que ele sente-se aliviado.



 


quarta-feira, 13 de junho de 2018

To Russia, with faith e fatos bem catitas



Adoro Mundiais. E Europeus. E a Copa América. E o CAN. Quando aconteceu ter licença de paternidade, fiquei todo feliz por ter calhado num janeiro. Segui atentamente a competição Africana, torcendo pelo Mali - eu e o rebento - muito antes do advento Marega. Aliás, tão concentrados em ver os jogos estávamos que nem demos pela queda da pirralha do sofá abaixo. nem eu, nem ela, que ainda demorou uns segundos a berrar, para meu absoluto pânico. Pai do ano, naturalmente.

Já se vê que estou em véspera de me babar abundantemente com o Mundial da Rússia. Abre logo em grande estilo, com um anfitrião vs. malta das burcas. A Europásia contra o Médio Oriente, gás com fartura versus petróleo em barda. Na primeira fase é que há os jogos mais suculentos, como o fantástico Austrália / Islândia, o épico Panamá / Tunisia, ou o clássico Japão / Senegal.

E também há outros igualmente interessantes, embora menos coloridos, como o confronto Ibérico de quarta-feira.

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Por falar em nosotros y nuestros complicados hermanos, diga-se que chegamos a esta competição com um estatuto inédito: somos Campeões da Europa. Isto é, os maiores de entre boa parte dos muito grandes.

Eu cá acho indecente fazerem isto ao Passos Coelho e ao Portas e aos ministros deles. Então andaram os moços, e o país a reboque, a clamar aos quatro ventos que não senhor, nós não somos a Grécia, para agora estarmos para o Rússia 2018 como os Gregos para o Alemanha 2006. Ai, espera, esses nem chegaram a qualificar-se para o Mundial. Ufa, lá se safam Pedro e Paulo. Nós não somos a Grécia. Para grande tristeza da Catarina que já se estava a ver vizinha do Tsipras, mas do Alexis, o de esquerda, o à maneira, não o que ele depois se tornou, à conta da burguesia e assim, nem a Mariana, toda ela calores com o homem, já lhe pega.

Por acaso, é curiosa a comparação, sendo que a Grécia não é famosa pela sua expansão marítima, mas nem por isso deixou de ter os seus períodos áureos de escravatura. Ah poijé, bebé Catarina. e acrescente-se a exploração sexual desde idades bem tenras, em passeios pelos campos, mestres filósofos e seus tenros aprendizes. Justiça se faça, e por aí pode a Catarina descansar, era malta muito pouco chegada a heterossexualidades. Enfim, como diria Sócrates, só sei que o Carlos Santos Silva é que sabe. Ou assim.

Fica então estabelecido que não somos a Grécia e, pessoalmente, creio que vamos abrir a competição com uma vitória, só para contrariar o esperado empate. Se não estão a contar connosco, pois deviam. Os franceses é seguro que estão. Não há Eder, mas temos um Guedes com orelhas de abano prontinho para ajustar umas contas. Merci.

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Em A Culpa é do Cavani, escolhi apoiar a Nigéria, como segunda equipa. Os resultados, até ver, são espantosos. Ainda mal se sabia que eu era pela Nigéria e já estavam os millones a entrar. Sete ponto dois milhões, mais exatamente. Deve ser patrocínios à minha conta e isso. Ou então venderam o Etebo, uma delas. Vocês sabem que eu aprecio o moço, e torço para que faça um belo Mundial, mas quero mesmo, é ver quantos destes milhões serão investidos para o clube aqui das traseiras de casa fazer um campeonato tranquilo.

De resto, no que diz respeito às fatiotas, já ganhámos de goleada! Se pensam que ironizo, estão muito enganados. É confirmarem vocês mesmos. Só é pena ser em verde, mas nós bem sabemos que a escolha das cores das bandeiras é um mistério insondável. É olhar para a nossa. Também não tem muita graça que sejam conhecidos por Super Eagles, que parece nome de grupo organizado de adeptos. De qualquer forma, não consta que sejam perseguidos pela PJ, o que já marca uma enooooooorrrrrmeeeee diferença.

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Ora bem, então temos aqui o Tugão a correr por fora para Campeão e a Nigéria pronta para ser batida na final. Mas diz que há gente que não sei o quê os favoritos. Ora bem, se é para não perceberem nada de bola e dizerem o mesmo do que os outros todos, então a lista de favoritos, aqui na Tasca, fica ordenada assim:

1. Brasil
2. França
3. Alemanha

Eish, tudo malta que andou a dar forte na escravatura, credo.

E broxelências, quem é que acham que limpa o caneco?

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

O Corpo de Deus

- Valha-me Eu Mesmo, que desperdício de
Livre Arbítrio, credo. - Abana a Grande Cabeça, um tanto incrédulo, um tanto desiludido. - Sinto uma ânsia cada dia maior de corrigir este pequeno erro. 

- Passou ainda muito pouco tempo, Senhor. Somos uma espécie muito jovem, é natural que sejamos parvos. - Tenta amenizar, o factor corporativo a falar mais alto.

- Talvez, talvez. Não deixo de sentir que correria melhor se tenho apostado nas centopeias. - Cofia as barbas. 

- Argh, Senhor, tão feias, cheias de patas. Olhe a experiência em Znodar... - Arrisca.

- Que tem? Já viste as gavetas das meias e cuecas dos Znodarianos? Im-pe-cá-beis, pá!

- Vai-se a ver é porque não há assim muitos Znodarianos... - Entre dentes.

- Kié? Outra vez isso de ficarem sem a cabeça à primeira queca? Um detalhe, Pedro, um detalhe. Para além de que Louva-a-Deus é um nome muito feliz para uma espécie. Eu acho. E olha, não sei, mas cá pra mim, os teus amiguinhos lá de baixo não andam longe de pensar que isso é boa ideia. Equidade a sério é ser a fêmea montada à canzana, para nem ter que ver o macho, e quando estiver assegurada a continuidade da espécie, zás, arranca-se-lhe a cabeça à dentada. Aposto que ainda aprovavam uns subsídios para isto. - Esboça um sorriso.

- É a juventude, Senhor, verá. E talvez pudéssemos usar outros termos. - Olha em volta, preocupado. - Não é lá muito boa altura para dizer macho e fêmea, é um bocado confuso. Coisas de jovens, já se vê.

- Mas foda-se, oh Pedro, em tão pouco milénio já fizeram merda de caraças, não? Não há paciência. E depois é esta soberba que não se entende. Consideram-se tanto e tão e tudo, que lhes parece sempre adequado perderem tempo com as merdas mais inimagináveis. Vou é acabar com as subtilezas. Ai agora um maluco no poder a ver se entendem, ai agora umas catástrofes naturais a ver se acordam, e nada. Nadica! Uma praga é que vai ser. Manda-se os de Znodar invadir aquela trampa e comer-lhes as cabeças a todos. A eles e a elas e aos entretantos, a ver se não acham logo estupendo serem os géneros diferentes.

- É isso que o irrita, Senhor? A sério? - Indignado. - A fome, a guerra, as criancinhas, a Maria Leal a cantar, enfim, toda uma cornucópia de desgraças a pedirem a atenção Divina e é com isso que se preocupa? 

- Pois claro! Eu tenho um Universo para manter em equilíbrio. Lá tenho tempo para pormenores? Agora, o género é um factor crítico da Criação. E o Criador sou Eu!

- É um pedacinho culpa Sua, havemos de convir. - A muito medo. - Com essa coisa de “à imagem e semelhança” e da Santíssima Trindade, que é 3 em 1, melhor que o champô das estrelas de cinema. É sempre Ele, o Senhor? Se sim, como é que Ela é “à imagem e semelhança”? E a mulher do Zé? Pelos vistos a Mãe não era da Trindade. Não parece lá muito equitativo em termos de género, não...

- Muito engraçadinho, o senhor Pedro. É pena o cancro terminal que o manda da Vida Eterna para melhor, não é?

- Hã? Isso pode-se? - Em pânico.

- Pergunta parva, hein? Mas não tenhas medo, com a dificuldade em arranjar criadagem em condições nesta Eternidade, desculpo-te mais esta, oh pescador. Pá, à imagem e semelhança é uma metáfora. Também é sabido que Sou todas as coisas e não vês malta a defender o direito de se sentir uma bolota, apesar de ter sido batizado Maria, pois não? E não me apetece agora falar disso do Espírito Santo ser Pai de Si Próprio. Foram tempos complicados... - Pensativo. - Caramba, não me rala que se engalfinhem por qualquer disparate e que se ponham a discutir pintelhos até à exaustão, mas pilas são pilas e con... - Interrompido:

- Senhor!! - De olhos muito abertos.

- Ora Pedro, queres que lhe chame o quê? Senaita? Rata? Pipi? Isso é que são lindas palavras, é? Opá, fartinho até aos colh... - Interrompido:

- Senhor!!

- Enfim, como se fazer a luta pela igualdade fosse igual a abolir toda a diferença. Como se o primado da tolerância pudesse ter raiz na intolerância ao contraditório. Cansado, eu estou.

- Pois, está claro que eu sou um mero Santo, não posso compreender o Grande Plano Cósmico na sua infinita totalidade, mas ainda assim, que não sei, pensei que o preocupava mais a Eutanásia do que quem é que é contra rapar as sovaqueiras e outras pilosidades quejandas.

- Qual Tânia? Não conheço nenhuma Tânia, era concerteza alguém muito parecido comigo. Nunca lá estive. 

- Não, Senhor, não é Tânia nenhuma. É aquela coisa do suicídio assistido, da morte programada.

- Naturalmente, Pedro. É sempre programada. É nascer que já se fica logo com ela agendada, qual é a questão?

- Ora, Senhor, o direito sobre a Vida e a Morte é só Seu, não podem agora os vivos, ou os mortos, para o que importa, virem decidir se... - Detém-se perante a grande manápula levantada.

- Quero lá saber! Morrerão, assim tenham nascido. É esse o Meu Desígnio, nada mais.

- Mas...mas... a Doutrina... é sabido que é Pecado Mortal porem-se as pessoas...

- Poupa-me pá, não me metas nessas picuinhices. Aiai que isso é Eu que mando e ninguém mais mete a pata, vai já tudo para o Inferno, sem passar pelo Purgatório e receber dois contos, se não for Eu a mandar. Vais quinar anyway, mas só quando eu disser, pumbas bem feito. Soa um pedacinho a falta de confiança, não? Parece a Divindade que tem que ser um ditadorzeco no trabalho, para compensar a porrada que leva em casa e isso tudo. Eu Sou. Ponto. É quanto basta. E estou muito abatido de vos aturar, mais aos vossos disparates. - Deixa cair a cabeça entre as mãos.

- Pronto, pronto. - Passa-Lhe um braço pelas costas. - Também precisa de se distrair um bocado. Olhe, aproveitemos o feriado e vamos fazer qualquer coisa diferente. Sei lá, criar uma nova espécie ou assim.

- Feriado? É feriado de quê?

- Corpo de Deus, Senhor.

- Hã? Mas se Sou incorpóreo! Como assim o Meu Corpo? Era o que faltava! Ainda me meto numa série de chatices por ter as pernas depiladas à conta de andar de bicicleta ou assim. Nem pensar, quais Corpo de Mim quais carapuça!

- É o que diz aqui, Senhor, eu não tenho a culpa.

- Gafanhotos. São amorosos, os gafanhotos, mais aos seus saltinhos. Upa, upa, poing, poing. - Salta á roda do outro. - Não achas, Pedro?

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