quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Disparates meus no Indico



Será um hábito um tanto estranho, este de me deixar estar quieto - mais pareço um daqueles insetos que conseguem ficar iguais aos ramos das árvores - envolto no ecossistema, calado à escuta de mim, enquanto dura a cimeira com o meu cérebro, na qual decidiremos cinicamente se poderíamos viver aqui. Eu e ele, se mais ninguém. Aqui é onde calhar aterrarmos ou desembarcarmos, uma estação de comboios de vez em quando, um terminal rodoviário mais raramente: na neblina Londrina, onde nos sentimos tão desembaraçados; no tédio das planas avenidas de Copenhaga, com o tráfego a empurrar-nos para Sul; funanando na Morabeza da Mãe, infinitamente mais pequena do que o que nos tinham ensinado; ou simplesmente aqui, desta vez, perdendo o olhar no Oceano que já antes nos viu partir.

Assim, brevemente sossegados, eu e o meu cérebro conversamos. Concluímos umas vezes que sim, outras que não e quase sempre deliberamos que precisaremos de voltar para fazer boas escolhas. Mas desta vez somos ambos silenciados e é dos poros que brota, súbito, o reconhecimento do cheiro das cadeiras nos alpendres ou simplesmente à frente das portas escancaradas, ao fresco possível. Abertas igualmente as janelas que a casa se quer arejada, como a roupa que seca nas cordas do quintal, em redor dos meninos acocorados num jogo qualquer. Como se nada fosse mais natural que o telhado de zinco e as paredes de tábuas velhas da cantina do monhé, onde se guardam, suando, as maravilhas do Mundo ou as lentilhas que cozinham devagar no molho de caril. A terra ocre entre os dedos dos pés, rolando pneus com paus - um pouco de água por dentro - em corrida pelos buracos do alcatrão colonial.

Ou então urbanizo modernaço, os tapumes no mesmo zinco mas os reclames já iluminados e os olhos cansados de fumo e tráfego, repousando nos uniformes imaculados das meninas do Basilica College e sua herança de chá das cinco. Os seus maridos to be jogam críquete no campus, longe dos tuk tuk que abrem caminho à buzinadela pela vida. Um estranho "sim, eu sei" que me aflora os lábios perante as sombrinhas e as roupas simples e feias. À esquerda será a Estação, digo eu que nunca aqui vim para mim que nunca cá estive. E não era. Só um pouco mais adiante.

Ah, casa. A Avó que não saiba! Apressar-se-ia a retocar o pó-de-arroz, embranquecendo as faces, ao contrário dos banianos, esses, eles, nós!, escarrapachados nas fotografias de antanho. Gritaria ordens para se distrair: É preciso fazer arroz branco para o menino. Ele não come as suas lentilhas sem arroz branco. Nem outro caril que seja.

Será este Oceano, Senhor Knopfli, que nos predispõe ao disparate? Ao cinismo de arrumar, muito direitas lado a lado, as sapatilhas NIKE e sair chinelando por aí, ao sabor do que o meu IPHONE quiser fotografar: estas tartarugas que vieram comer à praia, um plástico cheio de mandioca estendido no chão, aquela velhota a catanar cocos na berma da estrada. E adormeço no balanço do coral.


Sonho com a ratazana de Natal de Herr Grass. Ri-se, como sempre, da estupidez dos homens. Este que dorme à sombra do tsunami que levou cinquenta – mil – quão diferente poderá ser dos outros, acordados, poderosos, que tão alegremente vão praticando as suas estupidezes? Dobra o riso e declara:

- Rio-me sem parar desde 1986 e não envelheci um dia. Até o pobre do Günter já enterrei e parece que lá fora nada mudou. Só me doem um pouco os maxilares. E a barriga.

Em rodapé da notícia do Fim do Mundo, passam os resultados da bola. A ratazana estranha:

- Ris tu também? Porventura pensas estar a salvo, preso em órbita numa cadeira de rodas, achas? Nem ratazana és, porque te ris?

Ah, casa. O meu Dragão rejubilando na vitória. Duplicada, que são já duas. Avisai o Avô imediatamente. Ele saberá como fazer para que se adie o Fim do Mundo. Talvez saia para a caça grossa com os estúpidos e os dê de comer aos leões. Suspenda-se o cogumelo nuclear, a morte Amazónica, o degelo da calota, mesmo que seja só até maio. Deixai sair a nossa Nação para a Avenida, sambando como se fosse Carnaval em Ovar. E acordo rodeado de pequenos tubarões de pontas negras.


Faltam-me dados concretos devido a dificuldades no wifi, mas afigura-se muito possível que se tenha dado o Apocalipse. Não encontro melhor explicação para o facto de me ter adormecido numa ilha tão familiar, mesmo que nunca lá tivesse estado, e acordado em pleno Paraíso. Ao meu lado, o Anjo Pecador de sempre. É neste estado de semiconsciência pós-Apocalíptica que me cai o corpo na água turquesa. Tépida. Reconheço o sabor deste Mar, pese embora o toque seja diferente. Seguro-me nas pernas, os pés firmes sobre o coral morto.

Estendido na areia, sem toalha, envergando um modesto exemplar de calções de banho aos quadrados, tipicamente de meio do século passado, o Senhor Knopfli brinca com uma ratazana de esgoto. É natural que, efeito das chuvas ácidas do Dia Seguinte ou das cinzas radioativas, o meu falecido cérebro sofra de intermitências. No lugar dos coqueiros que se estendem quase até à água, surge em algumas frames a fachada do Polana. Uma garça fixa o espelho azul claro da piscina, presa do jantar das suas crias. Aceno ao poeta:

- Hey, Rui, terá se acabado o Mundo?

A ratazana segreda-lhe ao ouvido. Está claro que as ratazanas - ainda para mais esta, de origem e fiabilidade Alemã – sabem de coisas. Os bigodes fazem cócegas na face, colando um sorriso maningue parvo ao seu interlocutor. Ele responde-me a esfregar a cara com uma mão, a outra içando o copo de Laurentina gelada:


Chama-se Responsabilidade o avião que me roubará de novo ao Indico. Até quando?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Contas em dia

Sou um despassarado, ando sempre ligeiramente atrasado, aflito por achar que me esqueci de qualquer coisa. Enfim, vocês conhecem o género. De conviver comigo próprio todos estes muitos anos, já aprendi a não me martirizar com este estado de coisas. Se não me posso vencer, junto-me a mim. Claro que é importante haver um momento em que se põem as contas em dia, para ficar a pessoa mais levezinha.

Nada como o momento em que se marca um novo início, para o fazer. Então:

A) Há uma nova jornada do A Culpa é do Cavani, AQUI. Não ouvir é uma tremenda parvoíce. E vocês não são parvos nenhuns.

B) A Tasca acabará por entrar na mais melhor boa Fantasy League do momento. Entretanto, podem ir começando a ganhar avanço, para aquilo ter alguma emoção. No fim, devo ganhar eu. Fiquem a saber de tudo AQUI.

Ufa, já estou mais aliviado. Pronto para começar a acompanhar a nossa gloriosa caminhada rumo ao título. Para já, a uma distância apreciável. But i'll be back, bitches!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Resumo da pré-época: Falta o Sisto!

Put on yur armour!


Fim do jogo. Porque a pré-época é isso mesmo: Um único e longo jogo, dividido em múltiplas partes. Daí ser prudente esperar pelo apito final para tecer considerações, embora os sinais tenham sido claros desde o início.

Diga-se que os próximos desafios serão uma espécie de prolongamento, pois acertos ainda serão, por certo, feitos ongoing. Seja como for, daqui em diante, cada jogo vale por si, sem hipótese de correção. Vamos a eles.



...





Deste início, alguns aspetos se destacam:

A) A definição clara de um 12(3?) que abordará o Campeonato na linha da frente: Iker; Ricardo (Maxi), Filipe, Marcano, Alex; Danilo, Oli; Corona (Ricardo), Soares, Aboubakar e Brahimi. Otávio entrará nestas contas, mas, infelizmente, não foi testado partindo da direita, onde teria maiores probabilidades de ganhar o lugar. Ou não.

Exceto ontem, foram estes que iniciaram os jogos e, mesmo sem estatística, são seguramente os que mais minutos acumularam. Uma equipa forte, pejada de internacionais, com dois reforços sonantes, mesmo sem nenhuma contratação.

Este A) justifica-se, creio, com

B) A implementação de um novo modelo que, partindo do anterior 442, apresenta uma ideia e processos de jogo completamente distintos. É curioso reparar que, e utilizando os mesmos métodos, as dinâmicas são outras. Por exemplo, continuamos a usar muitas vezes o passe longo. Mas agora procurando mais a profundidade, com propósito e até alguma mecanização, e menos o mandalápracima e eles que batam cabeças com os centrais. Nem vamos discutir, porque já passou, quem é que lá estaria para o fazer, dado que os avançados estavam na linha, os médios no nosso meio campo e os extremos em parte incerta.

A equipa está curta, em alguns momentos intensa, percebem-se as intenções e a presença na área - e suas imediações - multiplicou-se. Com tanta novidade, parece acertado deixar jogar muitas vezes juntos os melhores.

Gostei de algumas variações a este sistema prático e objetivo, como a libertação de um dos alas para uma missão "Messi". Sobretudo, foi uma delicia ver Brahimi - mais do que Otávio - nesse papel de vagabundo livre, percorrendo toda a frente de ataque, jogando e fazendo jogar.

Em suma, para além de diferente, o futebol do FCP é mais exigente e os jogadores parecem gostar. E rende golos em catadupa. Assim como deixa a defesa mais exposta, está claro. 

Daí, na minha opinião, a importância que Danilo terá na nova época. Todos os adversários criaram oportunidades de golo que poderiam ter dado outros contornos aos resultados. Não é normal, quando se trata do Gil Vicente ou do Portimonense. O crescimento em competição de Danilo, tratará, espero, de minimizar esse problema, providenciando uma ajuda extra à defesa que nenhum outro médio está apto a dar.

A) e B) demonstram um caráter pragmático na preparação, culminando em

C) Faltou-me "aquele" jogo. O teste a sério, contra um colosso que, independentemente da equipa apresentada, nos deixasse com um frio na barriga só pelas camisolas. O adversário contra quem comemoraríamos sentidamente cada golo ( não me cheguei a levantar em nenhum dos golos contra o Corunha ).

Mas a verdade é que, dia 9, não jogamos contra o Barcelona em Camp Nou. Jogamos no Dragão, contra o Estoril. É claramente para essa, e outras que tais, partida que nos preparámos. 

Virá o tempo de apanhar gente crescida e não o poderemos evitar. Veremos o que temos para oferecer nessas ocasiões, estando mais rodados, melhores fisicamente e, queremos!, mais confiantes. Melhores, pronto.

A) + B) + C) =

D) O rolo compressor. Oferecido como um cordeiro à ânsia - à imperiosa necessidade, digo - de vencer do nosso Povo, por contraste com os espalhanços dos rivais, o futebol de ataque e golos do FCP venceu, para já, as desconfianças e parece ter criado o tal mar azul.

Nada de orgasmos prematuros, até porque nos lembramos de outros rolos compressores que acabaram ajoelhados aos pés de um chato de galocha, em pleno Dragão. Ainda assim, precisávamos disto. Para que o mar cresça e se torne um maremoto, condição essencial para que tenhamos possibilidade de vencer a guerra que aí vem. Que será travada com armas desiguais, como sempre. Nada de ilusões.

...

Em todas as pré-épocas há quem se destaque e quem se apague. Durante o ano subsequente, muitas vezes estas primeiras impressões se revelam falsas. No entanto, não estamos a falar, pelo menos para já, de gente desconhecida. Deste modo, é mais provável que o que vimos seja uma amostra do que veremos. Vamos pois às individualidades, por ordem decrescente de importância:

Sérgio Conceição
O líder incontestado, o que é uma novidade. Teve a capacidade de chegar como se nunca tivesse saído e de deixar desde logo claro que é ele quem manda. Uma postura diametralmente oposta à do seu antecessor, em todos os aspetos. Conquistou logo por aí a massa adepta.

Tão importante quanto isso, foi ter apresentado um futebol novo, com quase todos os jogadores do ano passado. Uma equipa com marca de treinador, desenhada por ele à sua imagem e semelhança. De tal maneira que conseguimos todos dizer quem é que deveria colmatar o problema que temos - ah pois temos - na ala direita: Sérgio Conceição, o próprio. Haverá algum por aí?

Na Tasca dá-se o corpo ao manifesto na defesa dos nossos e não será diferente agora. Mas devo dizer que vou sendo conquistado, porque parti com um pé lá atrás. Não tão atrás como com NES, mas sem estar propriamente saltitante de felicidade. Continuo a ter as minhas dúvidas, pois claro, mas são menos e menos importantes. É bom sinal. É o grande ganhador deste período, seja qual for o ângulo de análise.

Ainda não valerá meia cláusula de rescisão do Zé, mas já não se me assemelha completamente fora de hipótese que possa vir a acontecer. No futuro!

Ricardo Pereira
Sentou e sentará Maxi, exceto quando tiver que ser extremo. Estou convencido que será dos tipos com mais jogos - e bons! - nas pernas no fim do Campeonato. 

Tem dificuldades de posicionamento? Sim, às vezes. Terá cada vez menos. Ataca lindamente e isso, para aquilo que preparámos, é o mais importante. Não comprometendo na defesa, longe disso.

O que me fez render foi, no entanto, o desempenho sempre que subiu no terreno. Não porque o ache um extremo fora de série - cumpre bem, é mais isso - mas sim porque foi o que melhor desempenhou o papel definido pelo treinador para aquela posição. Sem perder o sentido atacante, nunca se esqueceu de ser o terceiro médio. Foi um regalo vê-lo a disputar bolas de cabeça ao lado de Oli - e a ganhá-las - e, logo de seguida, ganhar as costas ao lateral ou oferecer o flanco a Maxi, criando uma linha de passe para Danilo ou Oliver. 25 milhões começam a ser curtos.

Brahimi
É o melhor, ponto final. O suplemento de qualidade extra da equipa. Não vai ser fácil que faça o que o treinador lhe gostaria de pedir, lá isso não. Daí que me pareça que, inteligentemente, Sérgio lhe pede coisas diferentes. Quando sai da linha e se liberta completamente, sem que ninguém saiba bem onde vai aparecer, é o melhor desequilibrador do Campeonato Português. Quando não...também é. E como isso é precioso entre a capacidade de sacrifício dos avançados - sobretudo um deles - a geometria de Oli, a segurança de Danilo e a profundidade dos laterais. 60 milhões, já a seguir.

Soares
Os três golos de ontem não fazem diferença nenhuma. Sabíamos já que ele os pode fazer e fará. O destaque é, acima de tudo, porque parece ter ficado toda a gente húmida com o desempenho do novo colega de setor. Que é bem bom, sem dúvida.

Mas se repararem bem, o FCP de Sérgio Conceição parece feito por medida para a capacidade física e de sacrifício, as razoáveis velocidade e técnica, o sentido de baliza e espírito de corpo de Soares.

Formará com Aboubakar uma dupla de respeito e pode até nem vir a ser o melhor marcador da equipa, mas será com certeza o ponta de lança mais utilizado. E o mais importante. Vão vir milhões.

Oliver
E não é que NES tinha razão? Oliver pode jogar ao lado de Danilo ou de quem seja. A diferença é que tem a quem entregar a bola, seja para trás ou para o lado ou, acima de tudo e a maior parte das vezes, para a frente. É a placa giratória da equipa, uma espécie de bússola que indica para onde será a próxima correria. Fá-lo quase sempre bem e ninguém o pode substituir, o que poderá ser um problema.

De resto, não revela nenhuma nova qualidade. Não, não é um novo Oliver, é o que toda a gente vê, desde que abra ojólhos. Há cada pechincha por 20 milhões...

Herrera
Pois... Talvez a minha expectativa esteja tão baixa que baste este moço não provocar um canto, procedendo a mandar um estoiro em direção à sua própria linha de fundo, para eu achar que está soberbo. Talvez. Mas este Herrera que falha poucos passes, com um pouco mais de tempo para pensar por estar mais atrás, mas que também avança e provoca roturas e aparece na área - ufa! - parece-me útil.

É mais um para quem o futebol do treinador deve assemelhar-se a uma gaja boa no meio de uma reunião de camafeus. Como ele. Arriscando-me ao arrependimento, diria que entre ele e Sérgio Oliveira e, até, André André, venha este Herrera. Aí está a nossa chance de ir buscar los millones.

Aboubakar
Naturalmente. Até porque não temos condições de o substituir. Pelo sim pelo não, mantenham o Marega e o Indi no plantel. Se lhe der a travadinha, é metê-lo no chuveiro cujôtros dois, a ver se não lhe passa a depressão nunstante.

Entretanto, é desembolsar os milhões da renovação. Acabarão por render.

...

E quem não cabeu? Sube-se?

Hernâni
Pá, não vai dar. Alô Turquia? Alô Pione?

Teixeira
Porra pá, eras a minha esperança para dar descanso ao Oliver e não dás mais do que isto? Raisparta. Vai-se a ver, é alguma virose. Pode ser que fiques só porque sim e mostres que estávamos certos. Eu e tu. Mas não parece nada.

...

Soundtrack to new hopes: Another road begins...


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Silva vai (?) à festa (inclui Dicas de Boa Vizinhança)

Foto: O Jogo | www.ojogo.pt

Ontem, lá deixei o Monteiro da Silva a tomar conta das moscas que costumam pairar sobre os velhotes que aqui passam os Domingos de Verão. Ele entretém-se com um livro de bolso qualquer e uma das suas múltiplas listas. Se calha, lá fica à conversa com o velho dos sapatos - em tendo este tempo para se desviar dos papéis - entre um café e um copo de três. Peguei na mulher e ala para o Dragão, isto já eram umajoito da manhã ou assim.

A cachopa é lampiona para embirrar, pelo que - vá-se lá saber porquê - saltou diretamente da parte gastatudonoçaldos para a parte adeujóvaitimbora. Para casa.

Eu lá fiquei, está claro. E que bonita foi a festa, pá. Quer dizer, para ser mesmo, mesmo honesto, devo escrever antes "que bonita diz que foi a festa, pá". Não vi caracol. A mais que tudo largou-me da mão já passava das cinco e já tinham arrumado a cerveja com álcool das barracas da Super Bock.

Claro que podia ter ido olhar para um autocarro, mas nós, os burros, gramamos mais de olhar para palácios. Seja como for, as pessoas normais pareciam basto felizes com o veículo. Malta, quando o trocarem por outro ainda mais bom, ponham este a fazer a carreira São João do Pau - Furadouro. Dá-me jeito.

Mesmo que não consiga perceber o entusiasmo da turba por tirarem um pano de cima de uma camioneta, posso adiantar que o nosso novo bólide mete o Titanic a um canto. Pelo menos, ainda não ouvi dizer que tenha esbarrado de frente contra um icebergue. E afundado. Olha, que sirva para transportar futuros Campeões. Todos repimpados, de cu tremido.

...

Também houve o concerto de um moço que acho que fez uma época bem boa no Terceiro Mundo e subiu ao Segundo. É muito meritório, acreditem, porque isto do Terceiro Mundo não é uma competição fácil, ai não é, não. É irem à Madeira perguntar a um Venezuelano.

Enfim, para o que interessa, parece que o rapaz apareceu e estava vestido como deve de ser e tudo. Quanto à música, não faço puto de ideia, uma vez que estava a uma sombra a desmoer uma hamburguesa do H3. Adoro a minha décima refeição.

No entanto, devo assinalar que este artista veio substituir um conjunto de baile, previamente agendado, à conta de preferências clubísticas. Pá, até entendo, mas fico sempre a pensar: E o zelota sou eu?

Do ponto de vista musical, acho que ficámos claramente a ganhar, apesar de ter a certeza que a Nicole, a Françoise, o Bernard e a Caroline iam preferir os D.A.M.A. Aliás, fui até abordado pelo dito Bernard, quando me aproximei das portas do Estádio:

- Olhá pá, ô Silvá, porquoi il n'y a pas daqueles môçôs jeitosôs?

- Oh Bernard, mon grandessíssimô pánascá, diz keram lampions...

- Zut alors! Mais ce deuxiéme Monde, il a un vidéo avec un petit cabron com uma camisola do 5LB.

- Majele próprio tinha uma do FCP. E rebentou as trombas todas ao puto, quando não estava ninguém a ver. - Incha! - E kédotêsotaque?

- Safoda o sotaque, oh murcom. Bou desforrar-me nos cachuorros quentes! Num hão-de ber metade do juogo, só das bezes que lhes bou passar à frente.

- Isso! Tu fode-os, Bernard. Credo, salvo seja. - Achei boa altura para ir ter com a malta ao sitio do costume, em passo de corrida.

...

Se acordaram o Dragão ou não, não vi. Mas ao fim de alguns 30 anos daquela dança, é natural que o bicho se sinta sonolento. Apre! De todo o modo, estava descansado, porque à quantidade de gente que por lá andava de pijaminha, não havia problema de alguém bater um cochilo.

Os jogadores entraram pelo meio do fumo, numa mudança radical ao que tem sido hábito nestas apresentações. Que é haver fumo e virem de lá do meio os jogadores. E vieram todos, ninguém foi riscado, nem apareceu nenhum penetra. O treinador foi o mais aplaudido, pelo menos do que pude perceber da casa de banho. Reter o mijo fajum mal do caraças à bexiga, fiquem sabendo. Por isso, se estava aflito, tinha que ir. 

Não, não estava lá o Bernard! Estúpidos do caralho.

Voltei precisamente a tempo de me pôr em sentido para o hino, em plena entrada. Momento em que tive um pequeno desentendimento com um segurança. O senhor tocou-me no braço, estava eu todo esticado, só faltava bater a continência, 

(...sim, também pensei: fuoda-se, kéjbêrké o Bernard...)

e disse-me: 

- O xôr tem que se ir sentar no seu lugar. 

Ora, como enquanto se canta não se responde, tentei que ele percebesse através da minha linguagem corporal que só dali sairia quando se calasse a Maria Amélia. Pelo que me pus a berrar ainda maijálto a letra, enquanto abria muito ojólhos e apontava - era essa a minha intenção - para os altifalantes. Qualquer pessoa normal teria percebido. Majostúpido ficou a olhar para mim como se me estivesse a dar o fanico e procedeu a cutucar-me outra vez o braço:

- Jáledisse, Assente-se!

Felizmente, a Dona Canossa emitia nessa altura o último Pooooorrrto, dando-me a oportunidade de desfazer as trombas ao gajo, à chapada. Dá-se o caso de ser o exemplar um tanto entroncado, pelo que achei mais adequado munir-me de uma barra de ferro. Quando fui à procura de uma, dei com o meu lugar. Oh, agora já daqui não saio, deixá-lo estar. Desta, safas-te.

Foi isto, mas embrulhado numa esperança renovada e naquele sentimento de regresso a casa que todos os anos nos enche a Alma. Bora lá, até os comemos, carago!

...

- E o jogo, oh Silva?

- Dia 3, meu caro, só dia 3...

...

DICAS DE BOA VIZINHANÇA

* Para a senhora que passará a época ao meu lado:

Prometo oferecer-lhe flores, se a minha cara amiga usar Impulse.

Se conseguir dar-me menos de três cotoveladas por jogo - impregnada do referido spray - então, ui, temos tudo para iniciar uma bela relação de absoluta indiferença.

A senhora já deve ter gasto dinheiro suficiente com isto do futebol, para perceber que "corre, corre, vai sempre, vai para a frente" não é boa ideia quando o adversário vai bater um pontapé-de-canto.

* Para o moço que apareceu - voltará? - do meu outro lado:

Se voltas a abrir o cachecol de forma a invadir o espaço aéreo do lugar 23, considero-me autorizado a mijar-te para uma perna. Afinal, o ar é de todos, não? Por cima e por baixo. Eu sei que pagas o teu lugar e mereces desfrutar. Só que eu também pago. E não é para ver o teu braço peludo a 2 centímetros do meu colossal nariz. Arreda, jovem.

* Para mim:

Vê lá se melhoras o feitio, antes que leves alguma bordoada bem assente. Estás mesmo a pedi-las, ai estás, estás.

...

Soundtrack to 2017/18: Make yourself ready!



sexta-feira, 28 de julho de 2017

Getting physical

Malta da hidro...


Se prestassem atenção ao que vos digo, em vez de se embebedarem, saberiam que mantenho uma relação ambígua - ódio, resignação e nenhum carinho - com um Brasileiro que vive dentro do meu espertófone. Quero dizer, mantinha. Well, not even stars last forever uh?

A coisa esfriou bastante, à conta de um problema na lombar que me afastou da atividade física que, sendo muito honesto, era a única coisa que nos ligava. É para verem a fragilidade das coisas sem um propósito maior. 

Depois de recuperado dos costados, o tipo lá continuou a buzinar-me aos ouvidos à hora do costume. Mas eu, nada, nem uma faísca. Era o fim. Nem sei porque é que ainda não o expulsei de casa - do telefone, portanto. Acho que é aquela coisa inconsciente do 'indadamojumaprádespedida. A chamada abaladiça.

Como era de esperar, passei à fase da badalhoquice generalizada. Quem me quer ver, é metido em altas cavalarias, em atividades de caráter grupal, de elevada intensidade, com toda a gente aos saltos e suor a rodos. Depois acaba tudo no banho, para refrescar. Pode ser promíscuo, mas é asseadinho.

Em suma, lixei-me para a app "Seven" e inscrevi-me num ginásio.

...

Saibam que se tratou de um regresso às origens, uma vez que o meu primeiro emprego foi de rececionista num ginásio. Tinha eu alguns oito anos ou assim. Já se sabe, nós, os desfavorecidos, temos que dar ao cabedal desde cedo. Para além de que não passei da primeira fase do processo de recrutamento para ladrãotraficante. És bué da fininho, mete-te na musculação e depois aparece cá, disseram-me. Como aquilo dos pesos parecia basto...pesado, fui antes para rececionista.

Não se pode dizer que tenha durado muito, lá isso não. Despediram-me ao fim do segundo mês, se bem me lembro, com uma justificação perfeitamente parva: Oh miúdo, passas mais tempo a jogar à bola no campo à frente do ginásio, do que a receber as mensalidades. Se é para continuar assim, não precisas de vir mais. Vê lá se tomas tino. 

Eu tomei. Não meti lá mais os cotos. No ginásio, está claro, que ao campo da bola voltei amiúde.

...

Isto de ser a pessoa ginasiante não é automático, nem pensar. Tem que se falar com um rapaz daqueles que deve ter um pipo. Vá-se lá saber onde. Todas as manhãs lhe metem uma bomba no dito e enchem o catraio. Salvo seja.

Temia que me tocasse um Brasileiro - por causa de um qualquer ataque de remorsos - pelo que fiquei satisfeito quando o moço me disse "Uóláe". Disse mais coisas, mas eu estava entretido a pensar se seria azeiteiro ou sapateiro e não liguei nenhuma. Só percebi que, afinal, tinha que ir para ali expor-me e contar porque recarga de água estava a tentar juntar-me ao grupo.

Respirei fundo e expliquei o melhor que pude. Enquanto ele olhava para mim com ar de whothefuckcares? Quando achou que já tinha passado tempo suficiente, arrumou a conversa com um vamolátratardamensalidadezinha, sim?

Entregue o meu rico dinheirinho, ainda tive tempo para perguntar: E já posso vir a isto do Cycling amanhã? Ao que o moço respondeu: Epá, tu é que sabes, cota. Depois não te queixes. Vai antes à hidroginástica. E pôs-se a mexer, com um estranho sorriso.

...

Diga-se que, dado o espírito sovina, escolhi a tarifa mais baixa, com grandes restrições em termos de horário. Basicamente, só posso frequentar as instalações quando quase ninguém lá quer estar. Sou uma espécie de Taraabt, vá. Em melhor forma física.

Com essa limitação,calha-me mesmo a jeito o Cycling. Por isso, apesar do aviso do Rapaz Câmara de Ar, no primeiro dia fui espreitar o que faziam nessa aula.

Pá, era quase tudo gajas! Boa parte delas, mais velhas do que eu. E dois gordos: Um gordo muito gordo; e outro gordo apenas gordito. E o tipo que mandava naquilo, todo contente à frente da turma, num palco. 

O cabrão queria era ser a estrela da companhia! Estava mais do que visto, sempre que apanhavam alguém com bom ar, os filhasdaputa mandavam o indivíduo para a hidrocoisa, para não terem competição no Cycling. Foda-se, se aquela gente consegue, eu também consigo. Era o que mais faltava!

E foi assim que me vi sentado num selim, com os pés nas pedaleiras, pronto para 45 minutinhos de cicloturismo. No primeiro dia, sem aquecimento sequer. Incha, Rapaz Câmara de Ar.

Recordo, embora vagamente, que entre os Despacitos do momento, tocou uma canção dos Within Temptation e, mais tarde, uma versão do Nothing Else Matters, em que o James e o Lars passam a música a rir e a apontar para mim. Conforme desconfiava, aguentei a aula toda. À custa da vergonha, a partir dos primeiros...errr...5 minutos?

Passaram 15 dias e já consigo andar sem ajuda. Mas não muito depressa. Estamos fortes! Pronto para o próximo desafio: Hidroginástica!

...

Durante estas duas semanas de paralimpismo, conclui que tudo na vida tem um sentido. Até o Cycling, que é andar de bicicleta como se fosse um doido perigoso, dentro de uma sala, sem sair do mesmo sítio.

Senhores biciqueletistas, vocês sabem que pensei muitas vezes em abrir a porta "sem querer" e mandar-vos de cangalhas, já de nervos em franja, a 10 km à hora, atrás do pelotão. Pois desculpem. Desculpem mesmo, inclusivé ao Domingo. Tenho todo um novo respeito por quem pedala, chiça. 

However, pá, se puderem evitar as licras garridas, tipo fúcsia e assim, tanto melhor...

...

Ontem jogou o FCP e há, seguramente, muito quem vos elucide sobre o jogo e sobre as táticas e os jogadores e assim. 

Foi giro, foi sim senhor, como tem sido este inicio de etapa. Mas falta muito quilómetro, ainda temos muito que pedalar.

...

Soundtrack to new begginings: Let your body talk!