quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A Culpa é do Cavani: Mantendo a média da auto-estima



Nós, os privilegiados que não bastava terem nascido lindos e irem ficando mais bonitos cujanos, ainda são espertos como um alho, podemos optar por uma postura cagona de superioridade, de um certo apartheid até, que nos leva, irremediavelmente, a conviver apenas com outras estrelas de semelhante brilho. Esta escolha, na minha opinião, leva-nos a perder o contacto com o Mundo. Vivemos no Olimpo dos poucos escolhidos, pensando, erradamente, que o Universo é um esgoto imundo, salpicado aqui e ali por umas ilhotas de WC Pato.

Ou então misturamo-nos com a ralé, indiferentes ao cheiro e assim, espalhando luz na escuridão das suas inconsequentes vidas. Esta é a escolha dos mártires da bondade, dos apóstolos do conhecimento, dos profetas da beleza. Conscientes de que a sua superioridade só ganha propósito quando serve a Comuna, estes paladinos da pureza sacrificam-se em prol dos outros. Do Homem, enfim. Digamos que são os superiores de entre os superiores. Os que ficam com as gajas mais boas das gajas mais boas. E os gajos mais bons dos gajos mais bons, no caso de serem, elas próprias, gajas bem boas de entre as gajas bem boas. Cozem-se unscujôtros, cumásbatatas, pronto.

Por exemplo, eu gravo um podcast com um gajo que faz gala de dar hais do ku mal acorda. E outro que se esforça por aguentar 30 segundos a copular com um cavalo. Os meus pares instam-me a parar com isto. Crêem que achincalho a espécie - a nossa - que os diminuo de alguma forma. Até porque é suposto o conteúdo produzido ser sobre um jogo: Futebol, conhecem? A todos os pedidos respondo com o mesmo irrefutável argumento:

Opá, são tão foooofos!

Podia estar a contemplar a perfeição dos conceitos, a teorizar a magia do surgimento da Vida, a ver pornografia de origem Eslava, lá isso podia. Mas não, misturo-me. Faço-o por mim? Se quiserem acreditar nisso, poijacreditem. Tudo por vós, pois será vosso o Reino dos Céus. 

Hã? Não, obrigado, só bebo Matinal. 


...

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Comes e bebes, glúteos e pilas


Vocês recordam-se que, não satisfeito por ter um aspeto físico espantoso, ainda me fui meter naquilo do Getting physical, POIS RECORDAM?! Bem! Conforme prometido nesses tempos idos, cá estou para vos dar conta de coisas da vida de uma pessoa em boa forma, enquanto no processo de se pôr dessa maneira. Hã?

Fiquei muito bem impressionado ao perceber que havia um Profissional Tipo - acho que é o que significa o PT nas camisolas - que define um plano para cada ginasiante. É muito atencioso da parte deles, mesmo que aparentemente ande toda a gente a fazer os mesmos exercícios. Pronto, não será lá muito personalizado, majaté é fofinho. Passados uns tempos, faz-se uma reavaliação. É a altura em que dizem a todos: Sim senhor, muito bem, está a ir lindamente, seja lá o que for que esperava conseguir com isto. E procedem a redefinir o belo do plano. A mim aconteceu-me o mesmo.

Só que o amigo que ficou encarregue de tratar do meu caso, deve achar que tem queda para a comédia e decidiu ser engraçadinho. Foda-se, mal posso mexer os bracinhos. Eu não fui feito para levantar pesos e fazer elevações e essas merdas todas. A minha ideia era experimentar umas máquinas que vistas de fora têm ar de fazer cenas fixes. E depois ir três quartos de hora dar cafunhos na piscina. That's all dude. Acho que confiei demasiado na linguagem corporal e acreditei que todo eu grito: NÃO CONSIGO LEVANTAR ESSA MERDA! Afinal, vai-se a ver, há malta que deve ser surda.

Para não dar parte de fraco, perante o estúpido e mais a quantidade de toscos que pensou "pracaso, tu no ginásio, espera aí que duras lá muito, duras", procuro cumprir à risca o bom do plano. Mas dói-me. No entanto, a compensação de ter mais 0,0327 mm de diâmetro no braço esquerdo é inolvidável. Ora vão-safoder sim?!

O mais preocupante, however, é que agora tenho uma quantidade industrial de exercícios para os glúteos para fazer. Pá, não sei, tenho aquela sensação Hansel, 'tão a ver? Aquela vozinha no intimo que vos diz: uuuuiiii, bê lá se nuntetá a engordar póspois te comer. Talvez seja por isso que aldrabo bastante nos agachamentos. Se a trampa das elevações me deixam os braços neste estado, imagino o que os glúteos soberbamente torneados me poderiam fazer. Credo.

...   

O mais relevante desta minha experiência no campo da atividade física sem propósito nenhum, é toda a dimensão sociológica da coisa. É muito divertido. Por exemplo, sendo um rapaz dado aos desportos, daquele género que joga a tudo e não é bom a merda nenhuma, tenho passado por bastos balneários masculinos ao longo da vida. Apesar de não serem importantes para os escândalos e as noticias e assim, os balneários masculinos são um fenómeno muito pouco estudado. Provavelmente porque ninguém quer saber disto para nada, mas também há a possibilidade de ser porque toda a gente sabe do que lá se fala e acontece e tudo e tudo. Gajas, bola e o ocasional panasca, certo? Pá, isso é ser muito redutor, quando não um tiro ao lado.

O facto é que o famoso ambiente do balneário varia consoante a modalidade. Eu só conheço os dajaulas de Educação Física, do jogo da bola e agora este do coiso. Os primeiros eram basicamente uma seca, a menos que se fosse um tipo suficientemente diferente para ser gozado, altura em que se deviam tornar num tormento. Nos segundos, o assunto principal é...bola. Neste agora, a malta não se conhece assim tanto, é mais reservada, fala só cujamigos, se calha a andarem metidos naquilo juntos, de resto é bondiatémanhã.

                                          [ Interlúdio para Questão Pertinente

Como é que acontece isto? Dois gajos estão a tomar café e a falar de futebol e um lembra-se: epá, havíamos era de ir juntos para o ginásio. E o outro: olha que é uma ideia bem catita. Andamos lá aos pinchos e a transpirar e depois vamos tomar uma banhoca os dois. Eu nunca combinei isto com nenhum amigo ou conhecido e estou sinceramente intrigado. Se alguém puder esclarecer-me, agradeço. ]

E falam de quê nos ginásios? De comida e bebida. Caraças pá, fui ontem à Tasca do Silva, ui, aviei algumas duas doses de camarão e já antes tinha comido um  casqueiro praticamente sozinho. Incha! Depois acabei a noite bêbado que nem um cacho. Bebi bué. Muito mais do que tu alguma vez bebeste. Sou mais bebedolas do que tu. E como mais. Incha! Não, eu é que sou. O Silva até acabou com o buffet livre de uma vez que lá fui. Quase que lhe falia a espelunca. Incha! E conheço restaurantes mais bons do que os que tu vais. Onde me embebedo até ao coma alcoólico. Incha! Ena pá, a sério? Temos que lá ir. Pá, pois temos, temos mesmo que combinar isso. WTF?

Enquanto andam estes nesta conversa, os velhotes da Hidroterapia vão coxeando entre os bancos e os cacifos, com aquele ar de enfiavatumalambadanessa'fuças que logo viam se é bonito fazer inveja à pessoa carregadinha de diabetes.

...

Mas há coisas que são aparentemente transversais a todos os balneários masculinos. Digamos que são as constantes daqueles ambientes, traços marcantes das relações - salvo seja - sociais - ah, assim está bem - que ali se estabelecem. Ora então, o que andamos nós a fazer entre as quatro paredes dos nossos balneários, perguntais.

A puxar a pila, pois claro. Na esmagadora maioria dos casos, a própria, felizmente. É indesmentível: puxamos a pila e há até quem passe basto tempo nisto, mesmo que seja inconscientemente. Porque o fazemos? Tenho uma teoria:  

Andar a correr de um lado para o outro, a acartar pesos ou a dar cambalhotas ou chutos numa bola, não são atividades lá muito estimulantes, do ponto de vista da libido. Quer dizer, não é como se a pessoa pensasse: hmmm, agora vou correr até ao trampolim, faço uma chamada a pés juntos, dou com as mãos no cavalo e pumbas, um mortal. Só espero não cair mal e ficar paralimpico. Ui, que tesão, se me corre bem ainda me venho. Pá, não. Ou seja, o exercício não é conhecido por provocar potentes e duradouras ereções. O que quer dizer que quando se chega ao balneário, não está o homem propriamente no seu melhor. Sim, isso mesmo, we do care

Um gajo quer sempre que a sua pila seja a maior de todas, não há volta a dar. Se não é, então quer que seja a mais bonita - claro que há pilas mais bonitas, oh aqui...ai espera, não se pode. Em todo o caso, já sente que salva a face se não se considerar ridículo. Ora, acabado de se esfalfar todo, mais perto de sufocar do que de pensar em estupendas mamas, o mancebo estará sempre mais parecido com o gajo a sair da água em Moledo, em janeiro, do que com o Nelson Évora em qualquer situação da sua vida. Já se vê que isto aumenta exponencialmente o risco de a ter mais pikenacájôtras. Solução? Puxar por ela. Pela gaita, pois claro.

E pronto, é vê-los alegres e contentes, a fazer piadas sobre o jogo, ou metidos consigo mesmos depois de mais três mil cento e dezassete agachamentos - deixa ver o teu dedinho Hansel, anda lá - a puxarem a pila, a esticarem a gaita, a esfregarem o macaco. Uns mais discretamente, outros à descarada, até os respetivos pirilaus verem restabelecida a circulação e deixarem de parecer um quisto sebáceo por cima dos tomates. Como quem diz, agora sim, podeis comparar e tirar as vossas ilações. Até posso perder, mas dei o meu melhor. Enfim, ficamos descansados, é isso. Quem dá o que tem...

Isto é um comportamento automático e estou em crer que nos é incutido, talvez por imitação, desde muito cedo. Não pensem que acontece só a soberbos exemplares do género masculino com cerca de 45 anos - um vosso criado - nem pó. A questão é que um gajo quando é adolescente é diferente.

Lembram-se dos moços que entram no balneário à beira de sufocar, lá em cima? Aos putos novos isso não acontece da mesma maneira. Eles vêm a pensar que já se sufocavam no meio de um estupendo par de mamas. Ou não tão estupendo. Podia ser mesmo mau, salixe. Lisinha cumópai, safoda. Umas, pronto. Mas desatam a puxar pelas pilas como qualquer homem normal. 

Putos, tende tino. Um dia ainda partilham o balneário com o Profissional Tipo que tem a mania dos glúteos. E se ele pensa que estão felizes por vê-lo, hein? Vá lá, ide, ide puxar as pilas, mas com calma, na medida certa. A ideia não é serem o Louis CK, é só não parecerem o Adolfo

...

Eu sei que não é muito sexy e que estarei a destruir as fantasias de inúmero gajedo. Mas o melhor mesmo é tirarem a limpo num balneário perto de vós. Se vos deixarem entrar, já se sabe. Porque outra das coisas que caracteriza o nosso género, é o papo. Não pá, isso é as gajas. A gabarolice, pronto. 

Eheh e tal, faço e aconteço, era já, apanhava-a aí, ui, cacete. O quê? A senhora tem que vir passar a esfregona no chão? Credo, esperai, esperai! Ninguém abra a porta até eu ter uma toalha à volta da cintura e a camisola vestida. Ia agora a senhora vermustruces e as man boobies, Deusmalivre!

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Hã?

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A TascaTV entrevista o Juiz

Olhe lá, oh Silva, não seria melhor chamar aquele rapaz da Catalunha? O Belga. Ou um tipo qualquer do sumitt? Desses pode ser ao calhas, ninguém sabe quem são e fica sempre bem. Muito high-tech e tal.

- Na.

E a legionella, hein? Era mesmo bem visto e super atual! Aliás, você não terá isto infestado de legionella? Vai-se a ver, havíamos de evacuar o estaminé. Parece-me até que já vi a bicha por aí.

- Sim, majé bom moço e a gente simpatiza com ele. Para além de que a patroa diz que dá um certo colorido à casa. Acho que é fúcsia.

Ainda perco a cabeça e alego uma gripe forte para escapar a isto, valha-me São João Batista, o decapitado. À conta de uma mulher, já se vê. Era uma mocada naquele focinho que deixava logo as cabeças do desgraçado em paz. Porque é que você não vai antes ver fotos de gatinhos? Olhe, sabe que apanharam um tubarão mais feio que o Herrera? Apanharam pois. É um sinal. As pragas foram lançadas.

- Deixe lá o Antigo Testamento da mão e vamojéspachar isto, sim? - Impaciento-me.

...

- Ora biba quem é um Juiz que mais parece um Inquisidor. Tá bonzinho?

- Vai-se andando. Olhe, como Deus quer.

- Só se fosse parvo é que queria.

- Hã?

- Nada. Conte-me lá, de onde lhe vem essa fixação por mocas?

- Ainda bem que toca nesse assunto, caro Silva. Essa é apenas uma das partes que os media sensacionalistas empolaram, no sentido  de procederem ao meu linchamento público. No fundo, tive azar. Se calha ter começado o summit em antes, ninguém se chateava com a moca. Até aposto que as Capazes se entretinham mais com ajapps do que com isso. Mas pronto, foi assim que Deus quis. - Benze-se. - Era sobre o quê?

- Mocas.

- Ah pois, isso. A gente lê o que por aí se escreveu e fica a pensar: ui, havia de ser alguns 50 quilos de pau, salvo seja, crivado de cavilhas de trinta centímetros, salvo seja, a toda a volta. Tipo um híbrido de moca pré-histórica e pulseira dos Slayer nos 80’s. E não era! A verdade, e eu sei porque vi, é que se tratava de uma humilde moca de Rio Maior, com meia dúzia de rebites em doirado. Das mais pequenas até.

- E isso faz diferença? Não aleija, é?

- Quer dizer, há de aleijar menos qualquer coisa. Mas o mais importante é a dimensão cultural.

- Hã?

- Pois claro. Há ali uma promoção do património cultural Nacional implícita. Na figura da moca que é genuinamente nossa. As gentes de Rio Maior, tantas vezes ostracizadas, sentiriam um piquinho de orgulho ao ver o seu símbolo em tudo o que era jornal. 

- Um piquinho...

- Um rebite, vá. Gostava de ter acesso à evolução das vendas daqueles artefactos, tivesse a media feito o seu trabalho com rigor. Espalhafato, estão lá todos. Dinamização da economia local, valorização do artesanato Português, é esta vergonha. - Abana a cabeça.

- A sério?

- Se não tem mais perguntas, eu ia andando.

- Kéto! Você farta-se de adjetivar a mulher adúltera. Qual é a sua opinião sobre o homem adúltero?

- Hã? Isso é o quê? Homem quantos? É aqueles que se vestem de gaja e metem mamas e assim? Nunca ouvi falar. Devem ser coisas do Novo Testamento. Ainda vou na primeira temporada, não cheguei a essa parte. A verdade é que o meu tempo de lazer, puf... - Estala os dedos.

- O gajo que, sendo casado, anda a mocar indiscriminadamente com serejumanos com os quais não contraiu matrimónio. Percebeu agora? A esses como os trata? - Enervado.

- Por gandamaluco, fodilhãodocaraças, filhadaputadesortudo e assim.

- Adúltero não? - Espantado.

- Naaa. O homem não comete o adultério, já se sabe. Deus Nosso Senhor criou o homem de maneira a que ele não pudesse fazê-lo.

- Hã? - Já a babar.

- Naturamente. Repare que o homem vem munido de uma única carga. Aquilo dispara-se uma vez e pronto, já está. Passa a coisa a servir exclusivamente para o seu fim mais importante.

- Que é... - A babar abundantemente.

- Excretar.

- Hã?

- Mijar, pronto.

- Não pode! - À beira do aneurisma.

- Claro que é assim Silva. Falo-lhe por experiência própria. Está cientificamente comprovado. Uma vez. Shuuáá. - Faz um movimento de fonte com os braços. - Agora, está claro que o macho é um bicho que gosta de se gabar. É por isso que andamos sempre a dizer que fizemos e acontecemos e tal. No fim do dia, nada. Só na noite de núpcias com a sua legítima. E chega bem, Deus me livre.

- ...

- Já a mulher não. É dissimulada e bastante lúbrica. Está sempre a pensar naquilo. Para ela, os sentimentos importam pouco. Está sempre disposta a humilhar e enganar o pobre do cônjuge, nomeadamente com o suíno do quinto direito. E o do segundo frente, segundo consta na rua toda. É evidente que, devêjenquando, lá há um que perde um bocado a compostura e lhejavia uma mocada ou outra. Repare, isso não está bem, nada de confusões, mas percebe-se. Então quando os rumores já passam da rua e vão no bairro todo, já envolvendo o senhor do talho e dois seguranças do hipermercado da zona, percebe-se ainda melhor. Puta do caralho.

- Como??? Está a falar de quê, homem?

- Da natureza da nossa espécie, Silva. Acontece a todos. E a todas. Pumbas. - Fecha o punho numa moca imaginária e faz o gesto de bater.

- Ai não acontece não! 

- Este caso era particularmente grave. - Prossegue, já sem rédea. - A adúltera, não contente em enganar hipocritamente o esposo, predispunha-se ainda a enganar o pobre coitado com o qual concretizara o nojento ato. Estaremos de acordo, por uma questão de humanidade, que isto não justifica um rapto e agressão. Mas atenua bastante a culpa dos coitados. Só se perderam as que caíram no chão. Vaca. Ainda por cima, comprova o espírito solidário e corporativo do nosso género. Inchem!

- Estou perdido. Parece haver aí uma questão pessoal subjacente... - Interrompe.

- Nem pensar, Silva. Aliás, não lhe admito, nem a ninguém, que insinue dessa forma soez que, dado o facto de eu ser manifestamente impotente, a minha esposa anda a papar tudo o que lhe aparece, icluindo o Paquistanês da loja de conveniência. E a mulher dele. E a filha adolescente. Maijoirmão. Vai pagá-las todas juntas, cumó Spacey.

- Eu cá não disse... - Interrompe.

- É demasiado baixo da sua parte. Fique sabendo que vou obrigá-lo a responder perante as instâncias adequadas. Quero dizer, eu próprio. Logo veremos se pode provar alguma dessas alegações. Isto não é assim senhor Silva. - Abana furiosamente o indicador. - Não se pode dizer o que se quer e lesar dessa forma a honra de um homem de bem. Qual adúltera dissimulada, você tem o desplante de me acusar de tomar decisões por influência das minhas profundas frustrações e recalques? Quem lhe atribuiu essa autoridade? Olhe, Deus não foi, certamente.

- Mas... - Ele levanta-se, muito hirto, como se tivesse engolido um garfo.

- Passar bem! - Sai disparado.

À porta, acerta-lhe uma moca de Rio Maior na moleirinha. O impacto fá-lo cair de bruços, já do lado de fora da Tasca, de focinho em cheio num cocó de cão. Fresco.

Olho para o balcão. Pergunto:

- Foste tu, pá? Onde tinhas a moca? - Tremo ao pensar.

- Não, docinho, não fui eu. Mas tenho pena.

- Já te disse para não me chamares essas coisas. Irra, és muito panasca.

- Pois sou, meu chou. - Pisca-me um olho. Dos da cara, foda-se!

...

- Achas que dá para ir lá buscá-la? - Sussura.
- Vai dar demasiado nas vistas, Senhor.
- Então vê lá se arranjas outra. É engraçado acertar com isto no cocuruto dos estúpidos. Havíamos de nos ter lembrado há mais tempo, Pedro. - Ri baixinho. Riem os dois.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A Culpa é do Cavani: Bombos e kazoos

Como sempre, by Jorge Bertocchini | Porta 19

[ Nota cénica: sala retangular, de área razoável. Brinquedos espalhados pelo chão, paredes pintadas com desenhos infantis. A turma rodeia o Educador, num circulo perfeito. ]

Tu aí, o grandalhão repetente, não brincas mais. Estou fartinho desse ar de enfado com o picotado. Não queres picotar com entusiasmo e alegria, porque já picotaste muito pela vida fora, também não participas na hora do conto. Incha. Vai-te queixar à tua mãezinha, maricón.

Ora bem, estou muito preocupado porque está tudo roto, à conta do torneio de borrar a fralda a meio da semana. E agora já temos outro. Há aí alguém que não esteja assadinho?

[ Saltam 3 petizes de braço no ar e fraldas amarelo fluorscente.]

Huumm, tu, o carequinha, anda aqui para o pé dos meninos que vão jogar.

Também vamos precisar de ganhar o jogo de quem berra mais tempo. Como o nosso coleguinha que tem berrado mais ao longo deste ano letivo está adoentado, com aquela coisa da bronquite que lhe afeta os pulmões ou lá o que é, vamos precisar de ser criativos. Não vai dar para ser pela intensidade do choro, vai ter que ser pela melodia. Alguém que se sinta particularmente afinado?

[ Saltam 2 petizes. Os preteridos na cena anterior. ]

Vamos escolher o do puxo. Desafina basto, mas fica tãããão fofinho. E sempre berra mais melodioso que o carequita. Que é igualmente fofo, nada de confusões.

Sim senhor, tudo em ordem. Ai, espera - [ Conta as crianças escolhidas, separadas das restantes. ] - falta um. Caraças, precisamos de mais um.

[ Salta o petiz sobejante do saltitante grupo inicial de três. Já vermelho e acalorado. ]

Oh pequinitote, não leves a mal, majenquanto não entenderes que uma casa é um quadrado com um triângulo em cima, não dá para brincares a isto. Agora colunas, arcos e abóbadas, pfff... Isto não é nenhuma orgia Romana, pá.

Well, safoda, jogamos com dez. Mas continua a saltar com afinco, pode ser que da próxima te corra melhor.

Vá, tudo caladinho e sentadinho de pernas à chinês.

[ Ordeiramente, sentam-se as crianças no soalho. Menos o repetente, que recebe uma chamada e se afasta para um canto. ]

Querem que o Mestre ligue o transistor?

- Siiiiimmmmm!  [ A uma voz. ]

Que querem os meus ricos meninos ouvir?

- O Cavaaaaaaaaniiii!

Então 'tá bem.

[ Clique ]

Jornada 15 – Bombos e Kazoos

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sábado, 4 de novembro de 2017

A Culpa é do Cavani: O gémeo do Marega

Como sempre, by Jorge Bertocchini | Porta 19

Quereis pois saber porque é que o Marega se aleijou, uma vez que não acreditais em cabalas celestiais, poijé?

Convinha-vos perceber qual será a equipa que entrará mais logo em campo, com o propósito de cozinhar os pastéis de Belém? Epá, isso é que vos estava a dar mesmo jeito. E por quantos vamos ganhar? Também não está mal visto saberdes em antes de jogar, poi'não?

Não sejais uns piscos a pedir, já que aqui estamos todos, porque não esmiuçarmos a genética do André? De novo, mas agora definitivamente, com revelações extraordinárias. Ai António, António, o que andaste tu a fazer?

Ora, aviado Red Bull que chegue para um ano - reparastes que o meu foi carregadinho de vodka? - não há cansaço que nos chegue. Curiosamente, também sobre a razão, única e indesmentível, de jogarmos já hoje à noite ficarão inteirados. Factos apenas, naturalmente, devidamente confirmados e provenientes das mais seguras e frescas fontes. A Leanor.

Caramba, não vos ficais, partamos para a loucura total e inimaginável, botai cá para fora as verdadeiras questões que atormentam as vossas inúteis existências. Seremos pó? E sendo, alguém nos snifará? Qual é o Sentido da Vida, se o Euromilhões vai continuar a sair sempre, mas só aos outros? Irá a vizinha do terceiro esquerdo voltar a pendurar a sua coleção de cuecas de fio dental no estendal, em tronco nu, enquanto canta this girl's on faiiieere?

Vinde, vinde a nós os desocupados. Todas as respostas estão aqui:

Jornada Especial Champions 2017/18 #4 – O gémeo do Marega

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Como assim enganados? Estais com imensa certeza a fazer uma enorme confusão. Atentastes bem ás entrelinhas? - Anda atentar Faizal, tu atentas bem. (sei lá, lembrei-me) - Como podeis afirmar com tamanha convicção que haveis sido levados, sob falsas promessas, a despender quarenta e cinco dos vossos inúmeros minutos de ócio, a ouvir três palhaços a dizerem bacoradas? Sabei que me ofendeis. E que fico ressentido, quando não magoado até. Bastante.

O mais provável é que tenhais posto ojóbidos à escuta, sim, mas não a funcionar a fração ínfima do vosso cérebro que serve para alguma coisa. Distraístes-vos portanto. Não é um erro fatal ou algo que não possais corrigir, está claro. Vá, caminhai à minha frente, andor. Ide ouvir tudo do principio outra vez, seus traquinas.

Voltamos segunda. Até lá, tende juizinho e clicai bastas vezes nas hiperligações do Cavani. Salvo seja.

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