sábado, 16 de fevereiro de 2019

A Declaração de Voto de Anastásio Silva



- Avancemos então para almoço... - O senhor Secretário sussurra ao ouvido do senhor Presidente, interrompendo-o. - Mesmo? Quem? Bom, parece que temos ainda uma inscrição. Falta a declaração de voto do senhor deputado Anastácio Silva. - Perscruta a câmara com o olhar entediado, sem fazer ideia de que de ala se levantará a voz que se interpõe entre o seu apetite e a chispalhada à transmontana das quintas-feiras.

- Anastásio, senhor Presidente. - Uma voz mais ou menos a medo. Os membros das bancadas da frente viram-se. Na verdade, todos se viram, exceto os integrantes da última fila. A esses basta-lhes entortar ligeiramente o pescoço.

- É mesmo Anastásio, com esse. - Encolhe os ombros no seu fato creme, nada slim, dos baratos, mas impecavelmente engomado e vincado. Desta narrativa distância, não se lhe vislumbra nenhuma nódoa na parte visível da camisa branca ou na gravata azul marinho. É um homem mais ou menos baixo, mais ou menos gordito, mais ou menos calvo, de grandes óculos com armação de massa que lhe filtram os olhos mais ou menos mortiços.

Não há naquela Casa da Democracia, do Povo, portanto, registo de que Anastásio Silva, deputado, tenha antes usado da palavra. Encontra-se uma inscrição, por alturas da primeira legislatura, mas infrutífera, dado o acaso de terem os dignos representantes da Nação se pegado à bofetada e a sessão sido interrompida com recurso às forças da ordem.
                                                                                 
                                                                                  (A propósito do que: ORDEM, oh Narrador! Voltemos à vaca fria, que se acaba a chispalhada antes de o senhor Presidente chegar e é o cabo dos trabalhos para aturar o homem de mau humor.)

- Como queira, deputado Silva. Pedia-lhe era que se despachasse que a nossa vida não é estar para aqui a ouvi-lo. Para além de que é de mau gosto fazer-nos isto a uma quinta-feira, mas você lá saberá de si. Adiante, faça lá a sua declaração de voto em relação ao decreto que entretanto já foi aprovado. Inclusivamente com o voto da sua bancada parlamentar. Entende a perda de tempo, senhor Silva? - O senhor Secretário cochicha ao senhor Presidente. - Sim, sim, bem sei. Acha que desconheço o regimento, senhor Secretário? - O outro encolhe-se. - Deputado Silva, estamos à sua espera.

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- Em relação à recente votação do projeto de lei número... - Procura papeis, demora-se. 

- Todos nós conhecemos o número, ande lá para a frente. - Presidencial.

- Bom, trata-se da reintrodução da Pena de Morte, é isto. Tendo votado contra o sentido da minha bancada, e da maioria desta casa, por ser incapaz de contrariar o meu asco ao facto de poder alguém decretar a morte de outro alguém, sinto-me obrigado pela minha consciência a apresentar esta Declaração de Voto.

Senhor Presidente, senhores Deputados,

Votei contra por duas ordens de razão. A saber: Pessoal e Social. No âmbito da primeira, encontro motivações simples, como por exemplo, por indevido acidente da Vida, a hora errada, o local impróprio, a inveja parva, a ironia kafkiana, ver-me eu próprio confrontado com uma acusação e em vias de ser punido com pena máxima. Pior ainda, encontrar-se a prole em tal situação, justificada ou injustificadamente, creio que pouco me importará. Sabem vossas excelências que isto da Morte é tudo muito lindo, até que chegue aos nossos. Por amor à verdade, devo informar que, só por si, isto me levaria a votar contra, mesmo que não fique bem pensar o deputado tão nele mesmo, estando em representação do Povo.

Incomodado por tão profunda convicção me advir de motivos tão evidentemente egoístas, escavei mais fundo no meu âmago, salvo seja, Deus proíba, tentando perceber se outras razões fundamentavam a minha decisão. E sim, há todo um Universo de altruísmo e bem querer ao próximo que me leva a ser contra.

É certo que os assassinos psicopatas são uma praga, assim como os violadores e todos os que abusam das crianças, das muitas e todas horríveis formas pelas quais uma criança pode ser abusada. Não estando disposta, bem sei, esta câmara a debater sem hipocrisia o facto de termos uns que abusam mas pronto está bem, veja lá não se meta nisso outra vez e dê-me uma hóstia, vá com Deus o senhor importante e Nossa Senhora o guarde, veja lá não viole a Virgem, passo só deste raspão pelo assunto. 

Mas sim, há que punir grave e definitivamente os parricidas e os fratricidas e os icidas de toda a espécie, que a nenhum homem cabe tirar o sopro a outro. Quer dizer, menos se for na Guerra. Na Guerra é matar ou ser morto, mais bala menos míssil, a indústria prospera, o cirurgião cose, o político, que não vós, que não vós, rebola no esterco, o soldado apanha o balázio com a testa, não se vai agora condenar quem lho atirou. Pela Graça de Deus. É muito provável que tenha sido. Sou assim estúpido desde pequenino e isto de matar a mim soa-me sempre ao mesmo. Mas têm Vossas Excelências tido o cuidado de me ir ensinando alguma coisinha, como fica provado.

Sou compelido a não esquecer os tolinhos sem consciência, os traficantes... talvez não os de armas, que acharão vossas excelências? Os tarados de tipo diverso e diversas religiões, os drogados com instinto assassino, os extremistas aproveitadores e o que se aproveitam à grande dos extremos, as pessoas que dizem "prontos" e "fostes", os alérgicos a água e sabão, gente que come com a boca aberta e palita os dentes com a língua, os sem escrúpulos e sem moral, os corruptos e mafiosos, os violentos de modo geral, os que batem nos cônjuges, nos namorados, nos amantes, nos colegas de escola, os que não têm coração. - Um gole de água. 

- Também os que guardam lugar nas praças de alimentação, os que passam à frente nas filas, os homofóbicos, os fóbicos todos, os maricas intolerantes, as vítimas de carreira, os que não se enternecem com uma criança, os que não sentem o peito rasgar-se perante um velhinho sozinho, os que têm prazer em torturar um bicho, os que preferem cães a gatos, os que não querem que sejas do clube que és, os que embirram com narizes grandes, os avaros que não se compadecem da miséria alheia, os falsos pudicos, os que matam por ordem de outros e os que os mandam matar. Cá estamos de volta à Guerra, não é, caros co-deputados? Ai não, desculpem, a Guerra não, foi apenas uma recaída de parvoíce da minha parte. - Um gole de água.

- Sendo quinta-feira, deixemos em paz os gulosos, mas não nos olvidemos dos que deixam outros morrer de fome, de sede, de abandono, os que ouvem música nos transportes públicos sem auscultadores, os incapazes de sorrir, os de mau fundo e péssimos fígados. Enfim, todos estes que, digo eu para comigo, não merecem o ar que respiram. 

Assim, declaro que votei contra a Pena de Morte por uma questão de povoamento do planeta e manutenção da espécie. Bom almoço. - E sai no seu passo curto, abotoando os três botões do blazer fora de moda que lhe escondem a mais ou menos proeminente pancinha.

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Alguns, poucos e selecionados, de vós, sabereis porque é que o disparate acima se deu por via desta notícia. Raisparta!


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Trópico

Eu mino-te. I do. Eu do. Mino-te. Em células pequenas, nos tecidos moles, percorrendo o esqueleto, visitando-te, invadindo-te, demorando em ti, até sermos uma confusão de glóbulos corruptos, um emaranhado de capilares de esgoto, um rio de pus, liquefeitos, tu e eu. Nós. Um.

Amaldiçoas-me nas horas mortas. Quando te enrolas em volta das memórias e perscrutas o horizonte da esperança, quando choras longe de todos - que não de mim - e o teu soluço me desperta. Lentamente, como a dor, sentes? Ah, sim, eu sei que te esforças por ignorar esse fio, esse frio, de navalha quando te começa a cortar a entranha. Uma qualquer. Por vezes forço uma guinada, para que saibas que estou aqui, não te abandonei. Eu sou o Eterno. O.

A maior parte do tempo doo-te, apenas muito. Sem variações, por debaixo do opiáceo ainda mais forte, eu doo-te. Tu sabes que te dói, apesar da cada vez menos frequente e mais curta nuvem de fraco descanso. Porque já nos conhecemos, já nos misturámos, as tuas mitocôndrias traçando o mapa dos meus passeios matinais. Então, sossega, não há necessidade de mentires, como aos outros, está claro que me sentes, mesmo quando, em desespero, corres para os braços de uma morfina qualquer.

Há noites em que nos aninhamos, na nossa distância inexistente, partilhando histórias - as tuas - que te provocam risos entrecortados pelas lágrimas. Oiço-te pacientemente, tecendo a tua mortalha, apagando metodicamente cada pequena luz que reste acesa na tua Alma. Não sejamos hipócritas, é preciso dizê-lo claramente: as nossas noites não nos aproximam da morte do corpo, são passos seguros para a tomada da Alma. Até que te entregues.

Eu nasci para esse momento em que julgam que morres. E morrerás, evidentemente. Todos proclamarão a minha vitória, menos tu. Tu saberás que me morro contigo. Mas no fim dos passos do sofrimento, na entrada da Luz, no estertor, no suíço segundo em que desistes e me tomas a mão, aí repousa, brilhante e definitiva, a minha coroa. Só quando, exausto e derrotado, me ofereces a Alma em busca de clemência, me completas.

E assim seremos pela Eternidade. Um. Cada partícula da tua cinza um pedaço de mim, cada recordação de ti uma evocação minha. Um. 

Eu sou tu.

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A Bolha

A Bolha é asséptica. Vista de um ângulo limitado, e sempre repetido,  parece segura, confortável, familiar. Um porto de abrigo, para onde se foge das agruras da realidade. Por isso, nada melhor do que expandir a Bolha, deixá-la envolver-nos a existência toda, limpando o lixo que nos atrapalha, nos contraria, criando dúvida e ansiedade, quantas vezes obrigando-nos a gastar a energia que não sentimos ter, só para concluirmos que afinal existe Outro. O Outro. Esse que, tão diferente de nós, nos conspurca as certezas, nos atiça os medos, nos parte a Bolha. Salvos sejamos.


Eu uso uma, nestes tempos em exclusividade, rede social para fins de recreio. Só que minto. Como todos vós, aliás. Porque as queremos, às redes, para validar a nossa própria linha de pensamento, emitir opinião, vingarmo-nos de uma existência anónima, hiperbolizar - mesmo que sob um manto de modéstia - qualquer fugaz centelha de fama. Fogueira que seja, vá, porque a fama é efémera e contém o seu fim. Como a Vida. Enfim, para sermos finalmente aquilo que acreditamos que eles querem que sejamos. E não somos. Muitas vezes, nem queremos verdadeiramente ser, mas não há remédio.


Olhando assim cinicamente, vejo-os escolherem meticulosamente o seu Real de faz de conta. Estenderem com paciência a membrana da Bolha, limpando cada centímetro quadrado com a atenção de um relojoeiro, sempre com o cuidado de não sobrar alguma fresta, alguma réstia de circulação de ar contaminado, de pensamento diverso, de incómodo da mente. A Bolha é asséptica e a sua moeda corrente é aquilo que eu acredito que é verdade, ainda que não possa ter a certeza. Porque aqui, tudo e todos se validam mutuamente, dado que sou quem os escolhe. A one track mind.


Chega então o momento em que, por qualquer distração, nos enfrenta o Outro. Esse diferente, que - o topete! - pensa de outra forma, caminha por outra via, partilha de diversa tara e sofre de distinta doença. 


Como assim, existe? Se Todos pensam como eu, se tão cuidadosamente nos rodeámos destas paredes transparentes, porque nos havemos de confrontar com o que nos é exterior? Expulsa-se já da Bolha essa ameaça, esse vírus, essa força estranha, seguramente maléfica, alienígena, porque Humana não será, provado que está que todos os Humanos que contam têm a exata mesma opinião que eu. Sei bem disso, porque interajo com eles todos os dias, cada vez mais tempo em cada dia e aplico agora a tudo na Vida o mesmo método cibernético: bloqueio o Diferente e preservo a minha razão. A Bolha expande-se.


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Alegremente protegidos, nunca erramos. Até porque, errando, logo virão os nossos cobolheiros - que lindo nome, pá! - sossegar-nos, assegurar que estivemos bem, deixa lá isso que alguns dizem em contrário, não são dos nossos, ainda que se disfarcem sob a mesma bandeira, são espectros de outras terríveis dimensões, abutres Universais, boçais taberneiros dos confins imundos da Galáxia.  


Olha, meu menino, repara bem que nem sequer aqui estão, na nossa Bolha. Estarás naturalmente certo, pergunta a quem quiseres, anda. Se algum achar o contrário, aponta-mo. Mesmo que seja feio apontar, fá-lo, sem remorso, sem pudor, e ele que se livre de responder. Não temas, nós iremos em teu resgate e bloquearemos qualquer hipótese de comprometimento da Bolha. Que se expande.


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Sou a dizer que vi diferidamente o último jogo do FCP. Estou muito convencido que o treinador se enganou na substituição aos 41 minutos. Não vem daí mal ao Mundo, porque passámos de 1-1 para 4-1, mas, apesar disso, continuo convicto de que foi um erro. Teríamos ganho 4-1 na mesma.


Na verdade, toda essa enorme distância, expressa pelo próprio, entre o que foi primeiro e o que veio a seguir, eu cá não a vi. Entraram mais golos, lá isso entraram, pelo que estou basto alegre. Mas pode ser que tenha ficado claro para mais alguém o lado por onde o adversário criou todo o perigo; da mesma forma que pareceu evidente que o meio campo estava em dificuldade mais pela fraca prestação de quem ficou, do que pelas falhas de quem saiu.


E se no fim tudo correu bem, porque haveríamos agora de perder este nosso tempo? Para que não se repita, apenas? Naaaa, é só porque eu gosto de picar a Bolha. Para que entre ar e não se corra o risco de a consaguinidade dar cabo da espécie.


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Fui a um concerto. Fiquei entre um e maijujamigos que “epá, metal, eu sou metal, ganza e cerveja e encontrões, metal, pois claro, nem conheço música nenhuma destes, mas diz que é metal, \m/, vamolá então, pensei eu, tájabêr?”; e outro que não deu pio durante as três horas de festa, totalmente absorvido na tarefa de ver o espetáculo através do ecrã do seu dispositivo móvel, muito embora tudo se estivesse a passar mesmo diante dos olhos dele.


O primeiro, e a sua trupe, desapareceu por volta do meio da atuação. Atribuo este sucesso a dois encontrões a destempo que o desequilibraram - sempre com um sorriso e um cumprimento fraternal - e, sobretudo, à altíssima qualidade dos meus gases. O segundo...o segundo não foi a lado nenhum. Achará, mais tarde, que aquilo foi esquisito, mais tremido do que supunha, para além de que lhe ficaram a doer os braços. Não admira, três horas de braço ao alto, a pressionar a rodinha vermelha no ecrã, chiça. Já as nódoas negras no antebraço, terão sido das cachaporradas que lhe caíram de cada vez que o cotovelo se aproximou demasiado do primeiro fio de cabelo da gaja bem boa que lá estava com o anormal das barbas. Careca dum cabrão.


Quando saía, contente como um catraio, dei de caras com um tipo que ia de abóbora. Sim, vestido de abóbora. 


Aos primeiros, ao segundo e ao terceiro, fica aqui o meu sincero agradecimento. Obrigado, brodas, por não me terem deixado construir uma Bolha. Não é suposto que a experiência seja essa, para além de que tende a expandir-se. Detesto-vos all the same.


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...when will he breakout of his solitary shell?...

terça-feira, 27 de novembro de 2018

The Twilight Zone: The Mist



Esta noite choveu. Bastante.

Ainda faltam umas horas para serem horas de gente, pelo que, por agora, o Mundo está entregue às esparsas luzes dos automóveis que se cruzam, como se se cumprimentassem, fantasmas ao volante talvez. E a um nevoeiro denso que embacia a iluminação pública e deturpa todas as cores.

Se fosse possível explicar-vos, assim adormecidos, diria uma imensa catarata que caiu sobre o Universo. Uma degenerescência macular do Infinito, pudesse determinar se o Infinito é novo ou velho.

Apesar do som dos rodados no asfalto o prender a este detalhe de existir, há no nevoeiro uma promessa de fim. Fim das fronteiras entre verdade e mentira, longe e perto, vivo e morto. Porque resta apenas um fumo esbranquiçado que o envolve, impedindo que se perceba se são árvores nas bermas ou construções maléficas do final das coisas, montras mal iluminadas de cafés fechados ou velas espalhadas pelo Calvário dos malditos, cacimbo a acionar as escovas limpa-vidros ou lágrimas de Deus, de alívio, alegria ou profunda tristeza pela queda da Obra.

Que diz? Resta? Não, mente. Não resta. Velou-se, apagou-se e enterrou-se. Com as mãos coladas ao volante, segurando com tanta força que dói nas palmas, como quem se agarra a uma pedra coberta de musgo no passo derradeiro da última milha. Do abismo. O momento em que em vez de porquê se pergunta o quê. Quem? Eu?

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Sempre que se entrega, por obrigação que seja, ao nevoeiro, o cérebro devolve-lhe a reminiscência do final de The Mist. Se podem os monstros usá-lo para se ocultarem, ficando ainda mais monstruosos e apavorantes, porque desconhecidos e apenas imaginados - e bem sabemos que a imaginação tende a dar-nos o que de facto merecemos: aberrações inenarráveis - também podem os Salvadores tê-lo invocado para, a coberto desse manto Divino, chacinarem todas as ameaças e devolverem a paz aos Homens. A este homem, ao menos.

É como se estivessem guardadas no que não se pode distinguir todas as possibilidades. Imagine-se uma corrida por um prado, pelo caminho vai ficando a roupa, 

                                                                                                 ( detém-se um pouco nesta imagem e nós, meros espectros a escorrer das janelas, não temos remédio senão acompanhá-lo. O prado é verde, de capim alto, e desce. A roupa é uma jardineira de ganga gasta e não parece haver roupa interior, o que não é de espantar. Tirando o detalhe parvo, é a "Casa na Pradaria". O fim do Mundo quem o traz é o Bonanza. In your face, Trinitá! Ou então é apenas o início da loucura...)

                                                                                                    até ao salto no vazio, no penhasco, os olhos fechados, todas as hipóteses em aberto, incluindo asas a crescerem nas costas ou os cornos num pedregulho.

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O que não se detém é o Tempo. Mesmo assim, baço como as cores, pastoso como a língua numa manhã de ressaca, é certo que avança. Isso e os quilómetros desbravados sem se dar por eles, qual Sebastião desorientado. Ali à frente, uma luz: o Fogo Eterno, um Halo Abençoado, uma mão estendida a que se agarrar, o reflexo de uma gigantesca adaga que lhe sossegará o coração. Não a Alma. Provavelmente, uma estação de comboios. Um sinal de que a vida prosseguiu, ainda que a vontade seja voltar para trás.

Sim, definitivamente, baça contra o cenário baço, ali à frente uma luz. E ele lembra-se do tempo em que foi armado Master of the Light, responsável por ligar e desligar todas as luzes do Mundo. 

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

La Grande Maladie: De homens e insetos

Eventualmente serão fundamentais para a sobrevivência de várias espécies de pássaros, cujos ovos e carne servem, por sua vez, para garantir que prosperam uma série de mamíferos e ovíparos e outras bichezas e depois vem o homo estupidus e come tudo e caga tudo e queima tudo e assim por diante.

Apesar disso, e talvez por nunca ter desenvolvido convenientemente a tendência ecologista - esqueço-me basto de separar os resíduos e adoro posta mirandesa, quase em sangue - não consigo levar-me a detestar menos a trampa das melgas e dos mosquitos. Está claro que eles me retribuem a preferência, tratando de me sugar o sangue amiúde, sem contemplações. Mesmo que possam escolher entre toda a população chinesa, será seguramente a mim que vão picar, os acabados filhos da puta. E filhas. E eu nem sequer sou chinês!

Em resultado deste conflito de espécies - sugado e sugadores - nutro um carinho muito especial por outros animais. Não que tenha em tempo algum achado boa ideia munir-me de um machado, tatuar um facho no peito, e criar um movimento de caráter militarista. Digamos que procuro antes ter atitudes simpáticas e fofinhas para com animais que, comprovadamente, fazem a vida negra aos chupadores de sangue. Que tradicionalmente sejam espécies pouco queridas, como aracnídeos e batráquios diversos, pouco me importa.

E deixemos, por agora ao menos, de lado o significado de estar a pessoa a demorar-se alguns minutos mais no banho - a água desperdiçada a acelerar o fim do Mundo, a energia desnecessariamente gasta a espezinhar Continentes - à conta destas derivações da mente. Um tolinho todo nu, diríamos.

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É aceitável que seja a intuição de uma certa segurança que leva a aranha a atravessar impávida o teto da casa de banho. Patas negras a contrastar na alvura do teto falso, em movimentos determinados e rápidos, ainda que não em linha reta. Seja como for, mais curva, menos curva, já desde lá do outro lado da assoalhada que era claro que viria nesta direção.

Acontece que pode ser uma viúva negra, ou lá como se chama, daqueles aranhiços de partes incertas do globo, que parecem inofensivos e depois nos matam em menos de um fósforo. Aranha assassina do género Aracnofobia é que não é, uma vez que não guincha. Mas lá que pode aproveitar a calada da noite para me entrar por um ouvido e plantar milhares - ou milhões! - de ovos que me detonarão o cérebro que me resta, lá isso pode.

O facto de se dirigir tão resolutamente a este lado é, ao mesmo tempo, fofinho e um tanto assustador. Caramba, afinal há aqui movimento e vapor e coisas, o que deveria - sei lá, digo eu - fazer com que um animal desta dimensão, francamente mais pequeno do que a besta que coze debaixo do chuveiro, sentisse disparar os sensores de perigo. Tão mal contada que está, essa história do Homem Aranha.

Enfim, impõem-se decisões.  É provável que o mais seguro seja espetar-lhe com uma esguichada de água assim que esteja ao alcance. Cairá na base do chuveiro e bastará empurrá-la para o ralo. Adeusinho ovos comedores de miolos e picadas assassinas.

Por outro lado, um só mosquito que caísse na sua teia e passasse a almoço, representaria uma vitória retumbante da clemência, da tolerância, quiçá a alvorada de um modo de vida outro, simbiótico, de harmonia entre Homem e Aranha. Que grandes feitos daqui adviriam, caro Stan?

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O inseto parece hesitar, precisamente sobre a cabeça pelada do humano. Depois prossegue resoluto, em direção ao canto do teto. Aninha-se, encolhe-se, predispõe-se a esperar que todo o movimento cesse. Então, será uma bela altura para começar a fiar uma teia, construir um lar, caçar o almoço.

Perfeitamente sossegada no vértice, é apenas um ponto escuro, invisível. Ele sai do banho, seca-se, é possível que se vista e vá tratar da sua vida.

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- Vem cá, pá, depressa. Não podes perder isto. - Impaciente, ansioso, excitado, um catraio prestes a explodir uma bombinha de carnaval.

- O quê, Senhor? Que se passa?

- Ah, perdi a paciência, por fim! É tudo demasiado estupido, vou exterminá-los de vez. Não foi uma decisão fácil, que a Divindade se afeiçoa aos bichos e depois custa um pedaço, mas é pelo melhor. Puf - faz “puf” com as mãos - bye bye parvalhões dos polegares oponíveis.

- Eish, vai explodi-los, Senhor? Afogá-los? Não, isso não, que aparece sempre um Noé da vida que estraga tudo. Já sei! - bate as palmas - Matam-se os primogénitos todos, até que não restem senão primogénitos, que serão, consequentemente, mortos eles também. Que bela batota, Senhor!

- La Grande Maladie! - Anuncia.

- Hã?

- É francês, oh pescador. És mesmo rústico.

- Porquê francês, Senhor? - Perplexo.

- Sei lá, apeteceu-me. Soa sofisticado e, ao mesmo tempo, tem aquele tom creepy. Não achas? Oh escuta lá: La Grande Maladie! - Com voz grave e dramática, abrindo os braços.

- Pois, talvez... E é o quê, isso? 

- Anda cá. - Passa-lhe um braço pelos ombros e aproxima-o da Grande Janela. - Tájavêr ali o debilóide a tomar banho? Agora repara no teto. Aquela pequena aranha vai pôr-se mesmo a jeito e o anormalóide vai mandar-lhe uma chuveirada que a fode.

- Senhor! - Chocado.

- Oh, tu percebeste! Ora, quando o bicharoco cair na banheira, vai desprender-se dele um vírus fatal que, por sua vez, vai meter-se no estupido... - Interrompido.

- Meter-se? Como assim meter-se?

- Olha, pelo cu acima! Se é para me vingar destes milénios de disparate, ao menos gozo o prato todo. Mas isso agora é de somenos, o que importa é que é este vírus que vai espalhar-se e exterminar a espécie. Xaram! - Abre os braços.

- Bem, está um bocadinho visto isso, não?

- Pois claro que está, Pedro. É essa a ironia. Ainda por cima a começar com o parvo. É Divina!

- Errrr, Senhor... - Chama-Lhe a atenção. - Parece que a besta está a ir-se embora. Já estará infetado? Eish, e vai nu, ca noijo...

- Hã?

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