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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

The SEDCAS experiment I: A marcha de Um

NOTA PRÉVIA: The Sedcas experiment será(?) um conjunto de textos de dimensão indeterminada, inspirados por, feitos a partir de e em torno de imagens do grande SEDCAS. Este formato blogueiro e a pouca destreza do dono do tasco ao nível da cibernética, não favorecem as verdadeiras estrelas deste e dos próximos(?) posts desta série: as fotografias. A solução é mesmo saltarem para o site e deliciarem-se. E contratarem o moço, se for caso disso. Sim, ele paga pela publicidade.

Saibam que este texto é longo, saibam que não é sobre bola, saibam que não tem graça nenhuma, nem fala particularmente mal de alguém. Não sei como ficará formatado nos vossos telefones, mas eu, se fosse a vocês, andava já para baixo até à imagem e lixava-me para o resto, embora fosse suposto que ela vos viesse a surpreender de alguma forma. Dentro da minha cabeça passam-se coisas. Mas lá está, fui eu que escrevi, portanto já sei o fim. Aliás, não sei. Nenhum de nós sabe...


________________________________

- Um caminha. Pouco mais faz. Se puder imaginar uma linha reta, é provável que Um a prossiga desde sempre. O mesmo acontece se preferir uma série de curvas e contracurvas. O meu caro amigo só muito raramente deixa a imaginação entregue à simplicidade. – Puxa uma longa fumaça do seu cigarro.

- Ora, seria um paradoxo, isso da imaginação simples. Que não da simples imaginação, já se vê. Antevejo um "mas", acertei?

- Pois claro. Digamos que, se lhe quisermos percecionar uma direção, o que está longe de ser líquido, Um marcha. Desfila, na minha mais sincera opinião.

- Ah, mas isso parece soberbo. – Aproxima-se, interessado, inclinando-se para a frente na poltrona. – Quando o diz assim, dá-lhe uma certa graça, não acha? Desfila. – Repete de olhos fechados, a ver a palavra a formar-se no lago da sua mente. Uma mulher a emergir da água, água ela mesma.

- Bom, detesto conspurcar a imagem, mas não é bem um desfile gracioso, embora tenha os seus momentos. É capaz de ser mais Ovar do que Veneza, percebe?

- Mais divertido do que bonito?

- Mais Carnaval do que Arte. Um caminha, marcha, anda. Mas a coreografia é caótica e nem vale a pena começarmos a discutir a cenografia.

- Assim tão má? – Franze um sobrolho apenas. Uma qualidade que Austin muito inveja.

- Oh, tem dias. – Reflete por um segundo. – Pois, dias. Não vá o meu caro julgar que se trata de um curto trajeto de horas. Ou uma corrida de minutos. Por momentos caminha, noutros marcha, por vezes desfila. Tem alturas que corre, alturas que dança. O cenário acompanha, isso é certo. O que não quer dizer que seja continuamente bonito. Aliás, visto friamente, é quase sempre basto desengraçado.

- Muito previsível. – Volta a recostar-se no seu assento almofadado, estofado com fino tecido, comprado a retalho numa feira de segunda mão, cruzando as mãos, as suas, que são primeiras e únicas, sobre a proeminente pança.

- Agora utilizemos a tecnologia ao dispor e aproximemos a imagem. Repara na multitude de grilhetas? E chamo a sua atenção para esta espécie de névoa que sucede a Um. Aqui, mesmo atrás. – Aponta com uma luzinha vermelha, fazendo círculos na tela.

- Sim, sim, que curioso. Tenho a certeza que as suas engenhocas modernas conseguem chegar-se ainda mais.

- Não duvide por um instante. – Com ar de menino a mostrar um brinquedo novo, certo do espanto que irá causar, senão inveja. – Esteja preparado.

Não discorramos sobre quanto muda no Universo na fração indetetável, mas muito real, de tempo que vai entre carregar num botãozinho e isso produzir algum efeito. A nossa missão aqui, se alguma, não é essa. Apesar de dar vontade. Resistamos ao impulso e concentremo-nos na tela. Como faz agora Mr. Deluxe, que se levantou de um salto, contrariando a gravidade agravada pelo seu abdómen distendido. E fica assim, as banhas ainda a abanar, de boca aberta, por um instante. Até conseguir pronunciar:

- Mas…mas…Austin! É toda uma parada! – O outro cruza as mãos atrás das costas e deixa-se estar, satisfeito, a balançar sobre os seus próprios pés.


À frente, Um. Aos seus tornozelos prende-se um número indeterminado, e indeterminável, de correntes. Embora finas como capilares, todas, algumas deixam a certeza da sua indestrutibilidade. Outras nem tanto, apesar de demonstrarem o firme propósito de se manterem alapadas à perna de Um.

Pela frente, nada. Só lá muito longe uma ideia ténue de propósito, muito para lá do vácuo próximo. As bermas do suposto caminho realizam-se a cada instante, a cada passo. Nelas se erigem as bancadas apinhadas. O movimento aqui é frenético: as raças misturadas, os géneros múltiplos, os transeuntes - de copo na mão e frituras em punho - visitam as bancas de merchandising e confraternizam alegremente. Quando não estão empenhados em aplaudir ou vaiar o desfile lá de baixo, está claro.

Porque escolhem uma das posições, não se sabe. Nem importa. Decidem na hora, pelo que mais lhes apetece, num momento de rara pureza da espécie. Como quem se cruza com alguém numa carruagem de metropolitano e pensa: partia-te as trombas todas, só não faço ideia porquê.

Logo atrás de Um, a ala dos Eternos. Entenda-se a Eternidade como o que de facto é: o período durante o qual existe. No caso vertente, Um. Ou os Eternos. De todas, é a ala mais pequena, mas o batalhão mais feroz. Armados até aos dentes, prontos – julga-se – para dar a vida e a camisa, são aqueles de quem Um se despede todas as noites. Não obrigatoriamente por palavra, gesto ou presença. Mas sempre. Mesmo que num fugaz lampejo da mente, instantes antes de se deixar a pessoa de lembrar do que a mente continuará a fazer, entregue a si própria por umas horas. Apenas.

Estes são os que podem determinar de forma mais intensa o ritmo da marcha. Um para e puxa, se Algum se atrasa. Algum puxa e para Um, se tem que descansar. De cada, desprende-se toda uma nova parada que interage com a de Um, num caos de interligações venosas e descargas elétricas mais intrincadas do que um cérebro. De macaco.

Os figurinos da Ala dos Eternos são muito diversificados, acompanhando frequentemente o que veste a disposição de Um, assim como, noutro passo a seguir, impõem a Um a cor do seu estado de Alma. O efeito é estupendo para o público: uma paleta de cores e suas emoções, indo do lúgubre ao orgasmo em segundos, pontilhando os mesmos momentos de alegria e dor, luxúria e amor filial e, dada a parada que agora Austin descreve ao seu embevecido amigo, uma dose reforçada de infantilidade. E momentos de pura razão, abotoados até ao pescoço, em colarinhos de folhos e rendas e espartilhos pela cintura. Abaixo, uma boia com a cabeça de um pato e fio dental, as plantas dos pés em areia muito fina. Logo a seguir uma galocha a desbravar um oceano de lama peganhenta, o tronco nu no Verão do alpendre, cigarro ao canto da boca e uma melodia familiar: tananananaaa tana tana tanananaaa sooo, so you think you can tell…

Segue-se o rebanho dos zombies. Sempre de grande impacto para os espetadores, esta ala arrasta-se atrás de Um sem muita conversa audível, para além dos seus típicos grunhidos cinematográficos, quase por obrigação. A verdade é que deve ser muito maçador estarem sempre a emitir aquele som arranhado da garganta. Já para não dizer que dá cabo das cordas vocais à pessoa, mesmo que morta. Mas enfim, cada um será para o que morre e as tradições são um tanto rígidas nesta dimensão. Assim parece.

Para o que importa, lá vão, braços estendidos e vísceras de fora, decompondo-se pelo caminho, mas estranhamente intactos. Como que cristalizados num momento, nem sempre o da Morte, nem sempre eles mesmos. Imagens que Um guarda, pessoas que toma por suas, ainda que o tempo o vá fazendo duvidar de que seriam estas que insiste em carregar. Pode muito bem ter-se esquecido, tê-las construído em peças, como se fossem legos de palavras, gargalhadas, lágrimas, cheiros e tons de voz.

Se todos são de facto cadáveres ou se estão vivos de um ponto de vista biológico, não podemos saber. Em alguns casos, nem Um o saberá. Importa apenas que caiam na categoria dos que morreram para esta parada. Ou mataram o porta-estandarte, uma delas. Por permanecerem de tanta relevância, aqui caminham, poucos metros atrás de Um.

É muito curioso perceber que esta é, com frequência, a zona do descanso. Como se Um se entregasse nos braços dos mortos-vivos: uns mordem-lhe a carótida, outros catam-lhe os longos cabelos que não possui, outros tomam-no no colo, todos o protegem à sua falecida maneira. Não é que não seja um pouco nojento – gore, é como se diz, de forma um pouco eufemística, talvez. Acrescentaria Austin. – mas é aparentemente retemperante, este abandono do concreto. Ora, nem isso podemos dizer, sendo perfeitamente realistas.

O estado não é de transe ou de total vazio da mente – mindfulness, apesar do paradoxo, meu caro Deluxe. – muito pelo contrário. Os mortos mortos e os mortos vivos, todos caminhando sem parança do seu desengonçado jeito, são bestialmente concretos. Existem e conversam com Um, afagam-lhe o antebraço, compreensivos, ou cutucam-lhe o peito com o indicador esquelético, incentivando ou acusando, isso não temos como descobrir. Não a esta segura distância, pelo menos. Também não seria correto afirmar que Um repousa, tal a refrega de valentes mordidelas e alguns encontrões. Diremos, por respeito à verdade, que se encontra. No mais profundo da Morte, qualquer que seja o seu estado, revê os traços de si e refaz o seu caminho. Renova-se. É certo que parece um pouco tolo, ninguém o nega.

Siga a dança para a ala dos Frequentes. Como o nome deixa perceber, são uns que não sendo permanentes estão muito presentes. Manifestam-se em socalcos, uns quantos bastante profundos, traçados na pele de Um. Juntos constituem uma profusão de tempos deveras assinalável. Mistura-se o passado e o futuro, numa orgia de conjugações que constroem grande parte do presente. Antecedem e derivam, inferem e deduzem, estão e já foram. De todas, são a ala mais ativa, a longa distância. Dir-se-ia um formigueiro em plena atividade, só que sem carreiros ordenados nem tarefas explicitas. O trânsito do Cairo, um souk sem turistas, a China se fosse transferida para o Lichtenstein, com todos os seus pacientes chineses.

Eis aqui chegado o primeiro carro alegórico: de baloiços suspensos em altas traves, balançam seminuas mulheres, de generosos peitos e curvas inatacáveis, sorrindo e acenando permanentemente à multidão. Nas laterais, poetas lançam aos pés descalços do povo do peão rascunhos das suas obras inacabadas; intercalados por romancistas muito improváveis que leem, aos gritos, capítulos completos das suas novelas. A um canto, recria-se um openspace, onde anacrónicos mangas de alpaca despacham ofícios relativos ao julgamento de um inseto gigante. Bem no centro da viatura, Kant e Schopenhauer jogam à sueca contra Descartes e Engels, enquanto uma profusão de gregos faz grande alarido, aguardando a sua vez no bota-fora. Entre todos, pelo meio da Vida, crianças em estado adulto correm atrás de uma bola. Às vezes de espelhos. Dos altifalantes, berram i am the law; em ocasiões sussurram, gelando o sangue do mais destemido, you’re a beast, evil one; e é frequente todos pararem quando uma sereia toma o microfone e canta whatever walks in my heart will walk alone. Não se sabe se é figurino ou metade peixe, só que todos os marinheiros caem mortos.

Tossindo o fumo negro do escape do carro à sua frente, vem a ala do Enjoo. É uma imensa massa de indivíduos não anónimos que condicionam, das mais díspares maneiras, o ritmo do desfile. Têm a fabulosa qualidade de liquefazer o asfalto, atrasando a trupe. E de criar com essa pasta ondas que balançam e balançam a mole, vai e vem, sooooobe e deeeesce, de cá para lá e para os lados e vamos de novo, do princípio, sem quase sair do lugar. Daí o nome - concluirá vitorioso Mr. Deluxe, entrelaçando os dedos por altura do seu mítico umbigo.

Sendo grande a anterior, é ainda maior a seguinte. É fácil de concluir à vista desarmada, basta olhar para a mancha de marchantes que enche todo o campo de visão, nos seus trajes multicolores e feitios variados. Soltam foguetes e lançam morteiros, disparam confettis e balas de canhão, festejam e matam. Um não os conseguirá nomear, mesmo que tenha de alguns a vaga impressão de os reconhecer. Talvez do supermercado. Todos se cruzam, por algum motivo, no caminho e lhe atrasam ou adiantam o passo, consoante as necessidades do seu único propósito: caminharem também eles.

Encerra-se agora o cortejo, com grade algazarra em volta do segundo carro alegórico: um enorme, desproporcional, imenso ponto de interrogação sobre rodas. Conduzido por um palhaço de ar um tanto aterrador. Mais Joker do que Batatinha. O sinal de pontuação escorre sangue, suor e lágrimas. O que seria um belo cliché. Nada como fechar a estória com uma frase feita, criando empatia transversal com a audiência. Só que cheira a rosas brancas e flores campestres amarelas e tulipas quase negras. A ovos estrelados e a caril de camarão, em dias marcados. Lá se vai a chave de ouro.

À medida que avança, a um tempo arrastando-se e planando quase diáfano, aumenta a comichão em pontos determinados das costas. As asas distendem-se.


By Sedcas | www.sedcas.pt



- Que desilusão, Austin. Mudam-se uns sinais e algumas referências e podia muito bem ser você a desfilar. Tenho até a impressão de ter adormecido em algumas partes. – Arenga Mr. Deluxe, bebericando de um balão de vinho tinto aquecido.



- Ora, vá-se foder, sim, Deluxe? Mudando isto e aquilo, pode ser Um qualquer.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nomes - RMS



Do espólio do Velho dos Sapatos, apanhado por acaso, e esquecimento do referido, enquanto se limpava mesas:

" Nomes - RMS

Várias vezes - em algumas manhãs muito cedo, no meio de uma neblina fumarenta; em dois ou três finais de tarde de Sol poente e corpos de sal; numa raríssima noite insone - as palavras voltaram à minha mente: não me escreveste um poema quando eu nasci.

Podias-me encontrar um lugar impenetravelmente escuro e totalmente silencioso. De uma ausência completa, consegues imaginar? Um sitio impossível, sem consequência nem História, em que não restasse mais nada senão eu diante do meu sentimento por ti.

Ainda que fechasse com força os olhos, a imagem seria clara na minha mente; e quando me tentasse esgueirar para coisas que me distraíssem - futebol, aposto! - elas seriam impensáveis, pois dos Universos material e espiritual e racional e qualquer outro que pudesse alguma vez ter existido, nada restaria que não o que me És. Mesmo aí, eu não teria palavras para dizer este Amor.

O que queria era ser Livre. Fosse e nada te custaria qualquer esforço, porque de tudo cuidaria. De forma que a tua vida seria um constante passeio por veredas floridas ou uma corrida pelo caminho que te apetecesse. Feliz seria eu, de te proporcionar até o que não soubesses ainda que desejavas.

Oh não, nunca cairias, nunca falharias, nunca perderias. Serias Perfeita, no Mundo Perfeito,  cheio de pessoas Perfeitas. Porque serias sempre tu a definir Perfeição e tudo se te submeteria em nome deste Amor. Que é só meu, mas é tanto e tão grande que dominaria todas as Coisas e Seres, incluindo os Entes que habitam as interdimensões espaciotemporais. E os Vampiros e os Magos também. Um ou outro Lobisomem é que poderia ser mais rebelde.

Só que me prendo. Travo esta batalha infinitamente, de mim para comigo, desde o momento em que, nascida, pudeste olhar-me. E eu descobri que a minha missão era a tua Felicidade e que isso me ia custar tudo o que alguma vez poderia ter tido. Consagrei-me nesse instante e deixei de saber dizer este Amor.

É por isso que povoas os meus piores pesadelos. És a minha fraqueza inultrapassável, a morte de toda a valentia e qualquer bravata. É de ti que rezam as lendas que me recuso a ouvir e é para ti que correm todos os males do Mundo: as pestes, os demónios tiranos, os feiticeiros malvados e os Homens de uma maneira geral.

Sou só este e tenho tanto medo de não ser suficiente. Sobretudo, tenho um pânico descontrolado de que tenhas medo. Do que seja. Por isso te ensino a fazer pazes com ele, a tratá-lo como a um amigo, a conhecê-lo. A enganá-lo, como eu faço a cada minuto a todos os pavores de que sofro por ti.

Ah mas nada de enganos, eu permaneço o herói de espada em punho e abdominais ao léu, o Campeão do Mundo de secar cabelos, o original do teu sentido de humor, o homem que descobriu que o Planeta acordou de pernas para o ar e as pessoas tinham que acordar rapidamente, mas com cuidado, antes que caíssem das suas camas no teto. Sou esses, ainda frescos, e também o porquinho Alfredo, o Burro Tójó, a galinha Hermengarda e a certeza de que perceberias que não faz mal desenhar horrivelmente, se te divertires.

E sou um tabefe que não esqueces até hoje. Nem eu. Contínuo a sentir o mesmo frémito de alivio e o mesmo arrependimento escondido. Veremos o que se sente num eventual próximo, nunca fora de questão.

Um dia serei só isso: memória. Não há como fugirmos, meu Amor. Nasci e nasceste, aí traçámos o meu Destino. Sou para ti, mas não posso ser Tudo Sempre. Porque inevitavelmente acabarei por quebrar a minha promessa e te faltarei.

Nesse tempo - oh sim, falemos de tempos imensamente longínquos - serás o que eu não pude ser: a fonte de toda a Felicidade. É só isso a que aspiro: construir a cada nega, a cada frustração que te imponho, a cada gargalhada, aquela que se bastará. Porque te Amo, é certo, mesmo que não consiga encarar de frente este Amor. Porque me mataria cedo.

És o Amor que não sei escrever. "

...

Soundtrack to RMS (with a drop of grief): What's a miracle?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Nomes - Trilogia da Abelha: BI < 35


"São, definitivamente, as fotografias que me denunciam. Aquele tipo já um tanto velhote, afinal, sou eu. Ao espelho, não sei como, ainda arranjo maneira de enganar. À câmara, não. Esta é a minha razão.

Do alto da honestidade dos meus olhos, crivado das rugas em que já me reconheço, purificado pelos meus braços caídos na luta inglória contra a evidência, proclamo a tua eterna beleza. A permanente juventude em alguns dos teus sorrisos e em todos os passos. Recordas-te?

Guardas, rasgadas, ainda em ti as palavras? Pois sabe que, enquanto eu envelheci a cada clique, tu continuaste a flutuar em pequenos passos deslizantes. Entre tempestades de areia em desertos inóspitos, a tua pele o oásis em que, inesperados, nos encontrámos; perante as tragédias, a tua carne o abrigo das lágrimas e do fogo. É a essa Paixão que me consagro. 

Talvez seja esse o verdadeiro segredo, nunca saberei. Nunca saberás. Pode ser que uma estranha espécie de sinceridade - despropositada, tantas vezes - tenha sido capaz, por ínvio caminho, de fazer deslizar os teus passos sempre até mim. Como uma corrente suave, tão fácil de contrariar em duas braçadas vigorosas, mas que te leva sempre para fora de pé, em águas aparentemente calmas. 

E o fundo são remoinhos e fundões e monstros desconhecidos dos comuns mortais. Para ti, casa, castelo, rocha, trono, cadafalso. Aqui reinas, Minha Flutuante Majestade, sobre o belo e sobre o horrendo. Todos nós - fotografia, espelho e segredo - o teu Povo. O que, dia a dia, quantos deles sem intenção, continuas a salvar.

São mais palavras. Porque os olhos não te posso entregar, para que visses por eles o que eu vejo. E queria. Queria que pudesses saber da raiva de alguns gestos, de como enfurece não ser merecedor de assistir à arrumação do armário dos detergentes. Que é baixo e se conjuga com a tua proverbial incapacidade de dobrares os joelhos. De repente, o rapaz do espelho é o senhor da fotografia e há anos luz entre nós. Perco-te nesse espaço impenetrável da diferença da nossa condição. Resigno-me: São palavras e tu és vento.

Um dia, é possível que a tua carne me cante em tons outros, quiçá mais calmos, provavelmente mais lentos, e eu te fale da Alma. Somarei palavras ás folhas rasgadas, como se as colasse. Ora, como se me importasse como julgam as palavras. Não importo. 

Retomaremos a interminável discussão do Amor Eterno, morto; do Amor Incondicional, partilhado; do Amor Inevitável, que nos entregamos sem remissão, em dias marcados como se fosse um castigo: Toma, aqui tens a minha impossibilidade de não te Amar. A tua Cruz. 

A nossa conversa será arrastada, como pequenos seixos no leito do rio que corre em frente ao alpendre; pairará nas margens verdes, como as libelinhas; em ziguezague, como a abelha que nos entra pela janela aberta da cozinha, onde arrefece a tarte. Cheira a maçã e não nos calaremos sobre a Alma e o Amor. Até que eles possam acender-nos a pele, num súbito restolhar de flacidezes e vincos pronunciados nos rostos.

Ah, mas a língua, a língua é fresca e as mãos dadas são firmes. Conformados, baloiçaremos na inevitabilidade dessa entrega.

Podia dizer que te Amo por ser devoto dos teus glúteos. Ou que te vejo tão bela porque te olho a Alma. Invertia os fatores e continuaria tudo a fazer sentido. Seriam palavras, já sei. Essas que te maculam a íris quando me vês. As que, reunidas as exatas condições cósmicas, ainda te mentem sobre a minha idade. Podíamos, num assomo de loucura, dizer que nos vemos assim porque é isso que o Amor faz. Eu não vim dizer-te Dele ou da Alma! Só da carne, da pele e do desejo. As tuas e o meu.  

Sou devoto dos teus glúteos, sim! E tenho toda a nossa imensa Eternidade para te Amar. Inevitavelmente."

...

No derradeiro brinde dessa noite, calmos ou confusos, lembrarei a folha que o Velho dos Sapatos me entregou hoje. A que decidiu retirar da ordem caótica do seu aparentemente inesgotável molho de papeis. 

Haverá uma brisa, mesmo que se fechem todas as janelas, e permaneceremos calados, deixando todas as palavras para os poros e os músculos. Ainda que seja apenas a certeza do teu pé encostado à barriga da minha perna. Estás. Inevitável. < 35.

...

Soundtrack to B. < 35: I gotta have you, oh yes i do!

domingo, 13 de novembro de 2016

Nomes - Pot-pourri




No seu passo para sempre lento, calculado ao centímetro da dor permanente, aproxima-se do seu banco ao balcão. Não se senta, mas estende-me uma folha rasgada à pressa. Diz-me, num tom baixo como as nuvens da tarde que chove:

- Não acabou, Silva. Ainda não. - E sai, devagarinho, com ar satisfeito, por não se julgar inútil.

Leio.

...

"Nomes - Pot-pourri

Entardecia.

A chuva escorria, miúda e persistente, acumulada em grandes gotas nas vidraças. Era cinzento lá fora e um pouco mais escuro aqui. 

O céu pesado, a água a encher de pontos transparentes a imagem do Mundo, uma motorizada a cruzar o silêncio - podia ser uma sirene de emergência, se aqui fosse um prédio alto - dois latidos isolados e, algures do fundo da mente, o crepitar de um toro numa lareira.

Entardeci.

Paralisado na cama por fazer, fixo na janela, com receio de quebrar o lento - oh, tão lento - transcorrer dos minutos, sou um lançar de dados em camisolas grossas de lã. Ou uma língua na boca que torna o cobertor desnecessário. Um pijama quente, deitado de costas na carpete da sala, enquanto crianças me saltam na barriga. 

Passa a motorizada, graniza na janela, enche-se o Mundo do cheiro a castanhas assadas.

Anoitecia.

As mãos dormentes por debaixo da cabeça. Passou muito tempo? Nestes dias, é difícil saber quantas horas são entre entardecer e anoitecer. É sempre quase escuro. 

Se pudesse - mas podia! não posso? - virar-me para o outro lado, haveria um candeeiro de luz fraca e amarela aceso, uma pilha de livros inacabados, algumas fotografias e um lugar vazio. O meu. Ocupado à vez, por cada um de mim.

Anoiteci.

Uma mão terna a esfregar uma dor de barriga inventada. A paixão a cravar-me unhas nas costas. O fumo de um cigarro. Uma dúvida de Português ou de História. Equações passadas à pressa, para manter a (in)sanidade no banco de trás. Uma noite de bifes com pimentos. Lá longe, onde se conduziam carros azuis.

E então tu cantarolaste ninániná.

E então tu sorriste, com o cabelo caído sobre metade do rosto, e mordeste o indicador.

E então tu puseste a minha mão na tua barriga. E ela mexeu-se.

E então vocês cresceram tanto.

E então tocou "Nasce Selvagem" a plenos pulmões e dedos a tamborilar no volante, a janela aberta e a cinza a pingar do cigarro dele.

E então tu deste uma gargalhada rouca e tiveste um ataque de tosse.

E então, súbito, o inicio da noite era Verão e todos riamos.

Hoje amanheceu tanto Sol. 

Obrigado."

...

The living and the dead keep coming back, into my arms

segunda-feira, 9 de maio de 2016

E vão dois!



Sejamos simples e práticos, por uma vez, sim? Sem longas dissertações, pouca filosofia barata, nenhum pedaço de feitiozinho de merda. Consigo? É provável que não. Mas tento:

Passaram dois anos. E a Tasca está longe daquilo para que foi aberta. O que não é propriamente mau, porque também não perdeu de vista o seu propósito. O que nunca me passou pela cabeça é que estivesse a escrever um post de aniversário. 

Não porque tivesse um tempo de existência pré-definido ou algo no género. Apenas porque não podia imaginar que fizesse sentido informar alguém que tinham passado dois anos. Foda-se, já estou a complicar, não estou? É o seguinte: Não esperava que estivesses aí a ler esta porra, pronto. Tu. E tu. Sim, tu aí também. Oh, pois claro, sem excluir Vossa Senhoria. E Sua Excelência. E tu, gandamaluco. Mais vocês todos que não faço ideia quem sejam. Sendo poucos, que somos, são tão mais - e tão maiores - do que era suposto que fossem.

Então, tentei um exercício simples esta manhã, enquanto espalhava o meu espetacular gel de banho ultra-suave pelos muito definidos músculos do meu dorso - ou então é morcela de arroz assada: 

Fiz ao tipo que gere esta espelunca, que é apenas um dos Silvas que aqui mora, uma pergunta simples: E se fechássemos o tasco? 

Hã? Se fechássemos. Hã? Sei lá pá, passávamos a botar faladura num caderno ou assim. Isso é estúpido, para quê falar se não for para alguém ouvir? Mas agora somos cineastas franceses obscuros, que filmam para ninguém ver? Hã? Ou é só fitinha mesmo? Tipo, ah e coiso, agora venham cá dizer que não pode ser e assim. Tás parvo? Inseguranças pategas, nós? Sim, malta cheia de biceps e triceps e penticeps. É definidos, é. Tão definidos que fazem lembrar a estratégia de oposição do PSD. Eheh, estiveste bem agora. Não faças as pazes com o Brasileiro, não. Esta semana vai ser a malhar todos os dias. Boa! E exercício? Eheh, agora estiveste tu bem, seu traquinas. Acho que o sacana do gato anda a mijar nos vasos, isso é que é traquinice. É capaz. Será que se pode algaliar um gato? Credo, coitado do bicho. Oh, ao menos não ficava com cara de quem está sempre com vontade de cagar. Parece o Centeno. Eheh, mesmo. Ou enfartado até ao esófago, como o Vitória. Bahahahah, nem ao xôringinheiro do Penta lh'aperta tanto a gravata. Mijões pá. Os gatos? Não, os lamps. Foda-se, olhájóras! Qual era a pergunta mesmo? Hã?

Não é fácil viver comigo. E já faço isto há mais de vinte anos. Pouco mais. Trata-se pois de - mais um! - post inconseguido. Não foi direto, não foi simples, mais pareceu uma jogada de ataque do FCP de Lopetegui. Mas vai dar golo! 

A minha opinião é lei aqui, naturalmente. E na minha opinião, o melhor motivo para a Tasca ter sempre as portas abertas, qual peep show no Soho, é muito egoísta: Se neste tempo já acho que me trouxe tanto, quanto mais ainda vou ganhar nos próximos 20 anos? Xinapá, se calhar estás a esticar-te. Vinte? Não sei, parece um plano a longo prazo tipo pagamento da dívida pública. Eheh, bem visto. Falamos para o ano, sim? Combinado.


...

Obrigado a todos, pois claro. E quando digo todos, confesso agora os que me vêm à cabeça, pela exata ordem em que aparecerem (e não "em que apareceram", get it?):

Miguel, Jorge, Vila Pouca, Jorge B., Nuno, João, Ana, Carrela, Lápis, Anónimo, P.Torres, reine, Mr.Fighter, michael, João Moreira, Felisberto, Z., Papá, Imbicto, Mestre, Armando Monteiro, Mega, Reinaldos, Artur Matias, todos os Nomes, o senhor na barbearia que me disse "qual Lopetegui qual caralho. Irra, você parece aquele gajo da Tasca...", alguém que reproduz postas parvas da Tasca no Twitter, Senhor Monteiro da Silva, Berto, o velho dos sapatos e dos papeis, uma moça de olhos claros e o seu petiz, Cremilde, Mafalda, Maria Clara, Katy, Toni, a Santa Paciência e Infinita Compaixão do Senhor e a do Pedro também.

Não menos, a ti, de quem me esqueci. Certamente por culpa tua. E a todos os, não sei se muito poucos ou alguns, que por cá passam com regularidade e se deixam estar calados, metidos nas suas vidas.

Obrigado por uma estranha e inesperada experiência. Boa. Que, partindo de um local obscuro da ciberlândia, é real e palpável. Tanto que, dos acima referidos, alguns não sei se alguma vez vieram à Tasca e de outros tive noticia apenas uma vez. Mas ficou-me. 

Não Miguel, não disse (a)palpável. Mas podia. :)

Cheers!
...

Por fim - porque as noivas se fazem sempre esperar - a Ti, por quem a Tasca se pariu, desculpa. Desculpa por não ser uma espécie de santuário. Espero que encontres as clareiras necessárias e suficientes. Sei que não Te surpreende, espero que não Te magoe. A casa é, antes de todos, Tua. Oh well, Tu que vives com os mais diversos Silvas - sua promiscua! - conheces bem as peças. Se algum Te zangar, avisa os outros. Dão-lhe cabo daquele canastro. Promise, hand on heart.


...

Soundtrack to Tasca's birthday: Dance me...  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Nomes - L. Inha P. Caçolas



Um papel esquecido na mesa do velhote dos sapatos:

"Nomes - L. Inha P. Caçolas

És uma mulher, isso é certo. Compreende, ainda assim, a minha dificuldade em encarar com toda esta clareza o facto. Se te tentar explicar, direi que me nasceste tantas vezes que me perdi na tua idade.

Nasceste-me no Porto. 

Pode ser só um truque da minha memória, mas dá igual. Foi na Ribeira que te pariram. Toda tu uma palavra: Filha. A um tempo o Amor maior, um segredo, a ameaça, o obstáculo, um medo. Derrotado por um sorriso simples e despreocupado. 

Oh, se soubesses, pobre Mãe assustada, as coisas tão piores que eu já vi. Os sustos da minha vida, tão maiores que o pânico escondido dos catraios a saltarem da Ponte Dom Luis. Olha, lá vai outro a voar.

Também nasceste numa praia do Sul. 

Eram os meus joelhos que tremiam então, tu só olhos e alegria ao Sol. E um lenço na cabeça. É provável que misture recordações, mas era Sol e Sul e mar e tu nascias. Adorável na esperteza saloia de todas as crianças, temperada por uma estranha sensibilidade que te fez olhar-me com um ar desconfiado. Sei que era suposto tratar-se de um momento importante, a reclamar todas as minhas aptidões de pessoa crescida. Ah, mas tínhamos tanto para brincar. E isso era tão mais divertido. E eficaz.

Nasceste-me numa água furtada minúscula, no arrabalde da periferia de Lisboa. 

Concreta e inteira, tu. Insofismável presença absoluta a que tudo se condiciona. A Rainha dos olhos grandes, feita Princesa da nossa Eternidade. Os milhões de coisas que queria que soubesses, tão desinteressantes. Tu querida e, por vezes, até paciente. Eu entalado no meu duplo papel. É impressão minha talvez, mas naquele chão de alcatifa com pulgas assimilamo-nos. Permitimo-nos crescer um no outro. 

Nasceste-me num pulo tolo para cima da cama, numa casa passageira da tua Cidade. 

Uma brincadeira de menina ainda, na intimidade do quarto dos pais. E pronto, eras irrevogável. Minha.

Quando pensei que já não podias nascer mais, quando o orgulho de me vislumbrar em tiques de uma mulher tão completa me enchia mais do que é suportável, nasceste-me. 

Era um aeroporto e partias. Porque o Mundo também te merece. Eu não consegui impedir uma lágrima da saudade que já tinha do pedaço de mim que embarcava.

Bom, um homem habitua-se: Nasces em cada regresso. Em todos os apertos no meu coração por cada um dos teus take-offs. Nas notícias que apanho, aparentemente pouco interessado. Na necessidade de saber de ti e na falta que  me faz a carga da brigada ligeira pelas nossas escadas. Nasces-me de cada vez que te apanho sentada no degrau do quintal, de pijama ao Sol.

É por isso que não quero saber quantos anos terás feito, mesmo que mantenha uma aritmética exata sobre o assunto. É também este o motivo pelo qual não quero saber de outros temas. Porque és demasiado pequenina para eles. Estás ainda por nascer."

...

- Ah, encontrou-o, ainda bem. Bem me parecia que o tinha deixado para trás. Estava a catalogá-lo.

- Este é fácil, avôzinho. Filhos, certo?

- Há filhos fáceis, Silva? Aí está uma bela novidade. - E sai à frente do meu silêncio, no seu muito curto passo dorido.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Nomes - Trilogia da Abelha: P._G.



Chego a assustar-me. Está muito pálido e com os olhos em alvo. Já vi pessoas a morrerem, outras já mortas, algumas que respiravam mas já tinham, de facto, morrido, e guardo a cor e o olhar de cada uma.

Há um processo mental de negação do susto que nos leva a ficar quietos e calados. Como se o silêncio funcionasse como gelo, mantendo o corpo preso por um fio, estacando por instantes, breves e suficientes, o avanço da morte. Ou da dor. Falo baixo, na esperança de manter intacta a paz da Tasca à volta dele. Não o deixo escorregar para a luz:

- Sente-se bem, avôzinho? - Estou de joelhos ao lado da sua cadeira, uma mão no ombro dele.

- Nem sei, Silva. Isto vai dar cabo de mim. Já não tenho idade para surpresas. - O facto de articular palavras, e elas fazerem sentido, soa-me como o estalar do foguetório na festa aqui da terra. Cada rebentamento um abraço, cada cana um suspiro de alivio.

- Mas que se passa? Quem ainda morre de susto de o ver assim sou eu, raisparta homem.

- Sempre que penso que lhe apanhei o fio, aparece-me uma montanha maior.

- Os papeis? A sério que é por isso? - Quase irritado.

- Pois claro. Vou ter que recomeçar, praticamente. Veja lá se isto faz algum sentido. - Estende-me um quarto de folha de papel pardo, rasgado à mão.

" Nomes - Trilogia da Abelha: P._G.

Tenho-te na polpa dos dedos
como antes nenhuma paixão.
Deslizo a minha pele na tua, etérea,
cibernética, feita de letras
e milésimas intenções.

De zero a um, guardas-me do vento
no calor de seres quem eu quiser
e desaguas na minha gargalhada
que não ouves,
nem sentes.

Amanhã acordaremos telepáticos,
cansados da noite gloriosa
que não dormimos,
molhados do amor liberto
que nunca fizemos."

...

- Bolas, mudou o género.

- Percebe? - Descaem-lhe um pouco mais os ombros.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Nomes - M.T.



- Ena avôzinho, o monte desarrumado já está bem mais pequeno hein? - E deixo-lhe um café na mesa.

Ele aponta para o chão, para a mala de médico de província aberta. Cheia de papéis.

- Ainda falta aquilo tudo, Silva.

Tiro um. À sorte.

" Nomes - M.T.

Tenho tanto para me calar contigo que não me chega a vida toda. A minha mais a tua. Há sempre tanto que temos para não nos dizermos, neste nosso modo de andar à volta do que aqui nos trouxe, sem precisar de concretizar. Dando palavras às coisas, deixando que se percam em volta dos lugares e das nossas pessoas que, invariavelmente, os preenchem. Sem nunca as fazer pousar no assunto. Seja qual for esse assunto premente que nos faz desconversar sobre qualquer coisa. Menos sobre ele. Porque os teus olhos me disseram tudo e a minha gargalhada acrescentou o que pudesse faltar.

É como acordar a meio da noite e não precisar de acender a luz para se saber que se está em casa. Ou não. Devo-te, para lá do que alguma vez te poderei pagar, este desaguar no meu lugar. A absoluta certeza de que pertenço a algo maior. A um Nós que corporizas, que existe só em ti: Todos os teus, o sangue inteiro, em ti. Mãe, Filha e o nosso Sagrado Espírito.

Oh sim, eu sei que é pouco provável que tudo possa mesmo ser como eu sinto. Mas conhecer os degraus onde tropeças, as clareiras das tuas imensas falhas, redime-me comigo. Soa-me tão bem a minha voz quando responde à tua. É tão pura a gargalhada que partilhamos, sempre. E nascem risos tão espantosamente novos da memória daqueles primeiros, primitivos, que povoam as ilhas das nossas - fastidiosas? - recordações. 

No fundo, tudo o que tenho hoje para não te dizer é que me tornas nós. Todos. Os mortos, os velhos, os novos e os por nascer. Comungo em ti. Sou tão melhor por me amares. E maior.

Tenho tantos silêncios para partilhar contigo que não me chegam os dias todos. Quero tanto o conforto do teu cheiro, do teu ar, que temo quebrá-lo. Procuro não lhe tocar. Calo-me. Contigo. "


...

Volto em silêncio para trás do meu balcão.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nomes - 19.08 D.D. ou o Infindável Fim da Eternidade




O Verão transpira das paredes. Gosto de imaginá-las caiadas. Como sempre, sobramos poucos. Entretenho-me a fazer molhos de folhas soltas na mesa do velho.

- Também tem números. Pensei que eram sempre letras.

- É raro. Deixe lá ver. Sim, essa tem. Ponha neste monte.

" Nomes - 19.08 D.D.

No som de fundo da tarde - é provável que esteja calor - a TV anuncia a estreia do supostamente Último Dia de Verão de Phineas e Ferb. Tremo. Como se uma gigantesca marreta se arremessasse contra as fundações de mim. Este é o Verão Eterno, as Férias Intermináveis. O que perdura. Como a tua memória?

De novo obrigado a parar perante este eu, desenlaço os pedaços de Ti que me restam: A foto na carteira, porque não me quero esquecer daquele teu rosto; as palavras, distribuídas pelas famílias, que já ganharam outras vozes e se deixaram, por vezes, apropriar por outras pessoas; alguns traços de carater que teimo em acarinhar, porque gosto de os ver como uma linha direta a ti. Mesmo que não concorde assim tanto com os rumos de ação que indicam. Oh, está bem, é verdade: Alguns traços de carater que teimo em fingir que são meus, mesmo que depois a prática demonstre que não. Só porque te trazem de rompante ao topo da memoria; o cheiro de um perfume do qual não guardo já o nome, mas que se cruza comigo na rua de tempos a tempos; o comprimento das tuas unhas, as mãos inteiras, embora não consiga mais reproduzir a sensação do teu toque; a voz escapa-me. Em momentos muito fugidios oiço-te distintamente em frases curtas ou farrapos de uma canção de ninar. Ô nha mãe. Ninániná.

O que eu me prometi, e a Ti, se bem te recordas, é que permanecerias intacta. Que através de mim seria possível reviver-Te. E creio que falhei. Estaria condenado ao fracasso de qualquer maneira, a menos que me morresse muito depressa. O tempo passa inexorável e destrói-nos nos outros. Esforço-me - agora mesmo - por recordar as coisas de Ti de que não gostava. Porque é certo que as haveria. E não consigo. A que és hoje é toda ternura e perfeição. Isso não és Tu inteira, pelo que te devo uma desculpa: Perdoa, já não te posso viver completa.

Agora apertam as saudades de tudo o que não recordo. Dos negrumes que preencheriam os espaços vazios. Pudesse eu não ter tornado todos os momentos de Ti numa festa, numa lição, num rumorejo de sabedoria intemporal. Quisera eu escapar aos dias marcados, às Aleluias da invocação das Tuas datas. Se te garantir que em todos os instantes me és presente, minto-te. E se te jurar que nem sempre Te lembro, minto-te de novo. Só não sei se aquela de ti que me habita és ainda Tu ou já uma construção com marca de autor. Este teu criado.

Como o Verão do Phineas, também Tu és parte das coisas Eternas. Que se acabam reconstruindo-se. Tornando Interminável o momento do seu Fim.

Detenho-me assim naquele Agosto que não experimentaste, mas que será para sempre teu. Porque Agosto é nosso, Eternamente."


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Nomes - AR (ensaio) e uma efeméride.



- Esse monte não parece diminuir, avôzinho. Mas tem ar de estar mais arrumado... - Ele levanta os óculos da pilha de papel e fita-me com ar um tanto desolado.

- Está mais organizado, mas... Tem tantos twists, Silva. Fica difícil dar ordem. E mudam os géneros... - Interrompo:

- Quê? Tipo Zubaida?

- Não, sua besta! Os literários.

Pego num papel qualquer. Pergunto:

- Posso? - E leio antes de ter resposta.

" Nomes - AR (ensaio)

Aprecio-te. Moderamente, por vezes. Outras, de forma intensa. Nunca te detestei verdadeiramente. Creio que passo uma parte significativa da minha existência a justificar-te. Porque erras, oh se erras. Mesmo sem querer, não passa a estar certo. Mas hey, isso são os amigos. E nós somos umbilicais, meu caro.

Aprecio a maneira como carregas esse interminável numero de pesos e pessoas e coisas e sítios. E culpas. Das tuas, das dos outros, algumas do Mundo, mas poucas destas. Pensas que não reparo, mas eu vejo o esforço com que caminhas direito alguns dias. Noto a gota de suor a formar-se sobre a veia. Pode muito bem ser que sejam apenas os meus olhos - e tu sabes que já me falham. -, mas hoje é um belo dia para saberes que aparentemente consegues. Andar hirto e com um semi-sorriso. Ainda mais importante, o teu andar não denúncia a carga. Antes torna-a invisível. Tenho a certeza que é mesmo esse o objetivo. O teu. Eu caminho à volta, pronto a apanhar o que eventualmente percas. Ou a dar-lhe um chuto para longe. Terás que confiar no meu critério.

Aprecio, vê lá bem isto, a maneira como te comoves com músicas. E com poemas. Anónimos às vezes (não querido amigo, não conjeturarei acerca disto). É quase como imaginar-te de negro e picos a passear um yorkshire. De colo. E aprecio igualmente o cuidado meticuloso com que constróis tantos tu. De tal maneira que não há como não se perder no meio da vasta multidão. Perder-te. Deixar de saber qual é aquele de que inicialmente gostámos. Procurá-lo e não voltar a encontrar. Ou perceber que nunca lá esteve. Ou que é todos. A grande alma desta turba. O Nirvana, porque não? É por isso que tendem a abanar a cabeça para si mesmos e a ignorar os teus olhos molhados. Por um som? Uma palavra? Entendes que não é diretamente claro para todos que isso seja possível. É dissonante do contexto e do cenário. E foste tu que os pintaste. Ao contexto, ao cenário e, em tantos dias meu caro, a eles.

Aprecio a tua desconstrução do sentimento. O modo como o desfias em pedaços cada vez mais simples e o amas nessa simplicidade. O de repente em que os amores se cristalizam em momentos que guardas tão intensamente para a vida. Como se Amor pudesse ser meio e fim, em si próprio, simplesmente. Não sei o que pense dessa capacidade de tornar pessoas e lugares em momentos a que se regressa. A possibilidade de reprodução diferida da felicidade é uma vantagem que nos tens. É uma vitória sobre a Morte, mas não sobre a memória. Que te escapa. E voltas. E levas-me, a mim, o teu mero Vigilante. Ou o teu Deus. O teu Amigo, atrevo-me? 

Aprecio saber que te vês. Que perante ti nunca tens a pretensão da falsa modéstia, nem da vaidade, nem da complacência, nem da exigência militar. Vives-te. Toca-me, acredita, a honestidade com que te conversas. Como se diz? Sem tretas. Com um sentido quase Oriental de resignação. E aprecio essa espécie de clarividência arrepiante, que sei que detestas por te roubar a surpresa à Vida. É ternurento o zelo com que ergues os muros e trancas as portas. E ninguém vê. Exceto eu. Mas já sabes, eu não sou os outros, nenhum deles. Somos umbilicais. E és apreciado. Parabéns!"


...

A 6 de agosto de 1945, pela manhã, a cidade Japonesa de Hiroshima foi varrida do mapa. O Japão reconstruiu-se e ocupa no Mundo o lugar que a sua História e Cultura merecem. Precisamente hoje, tive oportunidade de conhecer a primeira metal girlsband...Japonesa, está claro. Enquanto uma parte de mim já está a decorar a letra e...errr...a coreografia; outra pensa: humm, estão a pedi-las outra vez! Enfim, é um dia em que há tendência para acontecerem coisas. Umbilicais...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A ronda das mesas e o pano voador



- Copo de três e sande de torresmos. Era tinto, não era?

- Sim, tinto, claro.

- Que ar abatido homem. Deixe lá isso, para o ano há mais. - Não evito um sorrisinho parvo, como tantos que tenho recebido nos últimos tempos.

- Não seja cruel, Silva. Sei lá se temos outra hipótese desta. E você parece todo contente. Tem alguma coisa contra o presunto?

- Contra o presunto, nada. Aliás, se for à terrinha, traga um. Prometo que o preparo de dez maneiras diferentes, entre ovos, ervilhas e um bacalhau de truz, de modos que até a tristeza lhe passa. Mas sim, confesso que não fiquei nada chateado.

- Não percebo, prefere ter de ir à Madeira mais uma vez? Era bem feito que perdesse!

- No momento em que o seu treinador disse que o Chaves era o 5LB da Segunda Liga, passei a torcer pelos outros todos. Madeirenses incluídos!

- Oh... - E avia o tinto de um golo só, em vez dos três. Hat-trick portanto.

- Mas olhe que pensando bem, o homem tinha razão. São mesmo o 5LB wannabe. Pumbas, arrasados aos 90 + 2! - Embrulha outro sorriso parvo!

- Foi aos 90 + 3. Traga-me outro, seu anti-transmontano primário.

- 90 + 2, 90 + 3, Kelvin, Ivanovic, Tondela, é tudo derrotas do 5LB.


...

- Abatanado, ovos com cogumelos e malagueta, sumo de laranja e panquecas. Estamos com fome, coisinha linda.

- Deixe-se de lérias, seu maroto. Já sabe que daqui não leva nada. - Distende os lábios berrantemente vermelhos, vincando as rugas das bochechas. - Estou a aproveitar, já não sei quanto tempo mais vou poder pagar o seu pequeno almoço especial. Acha mesmo que ainda podem cortar-me a pensão? Esse Coelho e mais o amigo dele, o indiano da Câmara, ou lá o que seja, são uns grandes malvados. Se o meu rico marido fosse vivo havia de lhes dizer das boas...

- Não sei, minha querida. É ano de eleições, vai ver que não cortam nada tão cedo. Se calhar nem precisam de cortar depois, não pense nisso. - Minto-lhe piedosamente.

- Deus o oiça.- Benze-se e beija o dedo.

- Mas olhe, se cortarem, ofereço-lhe o pequeno almoço especial da casa uma vez por semana. Resolvido?

- Combinado! Eu pago-lhe com umas coisinhas que fui sabendo por aí, acerca de um passarinho novo que ronda a casa da sua amiguinha dos olhos claros. - Pisca-me o olho e eu sossego.

...

- Quer que ponha a sua bica em cima de um dos molhos de papel? Ou deixo no chão? E a meia torrada? Enfio-lha pelas goelas abaixo ou vai arranjar um espacinho na mesa?

- Irra, que você é chato! - Amarrota umas quantas folhas e abre uma nesga de superfície de madeira sob a resma de papel. - Bote aí, pronto!

- E então, avanços?

- Começa a fazer sentido, Silva. Acho que isto é um continuum e não peças soltas. Preciso de algum tempo mais.

- Tempo não lhe falta, avôzinho. A menos que bata a bota no entretanto, claro. - Dou-lhe uma palmada nas costas.

- Não tenho planos para morrer, meu caro. Mas nunca se sabe se não somos apenas habitantes de um grão de pó no casaco de um ser desmesuradamente maior que nós. E às vezes, sacode-se o pó da roupa...

- Isso é que é colocar as coisas em perspetiva hein? So much for the meaning of life.

- Oh, deixai-vos estar preocupados com as vossas coisas transcendentalmente importantes. Como a cor das pessoas, a sua inclinação sexual ou quem devem tramar a seguir no emprego. No fim do dia, pode ser que vos nasçam filhos. Aí começarão a perceber um bocadinho da verdade.

- Você é um lírico. E vou mas é tratar de vida, que isso dos filhos irrita-me. Parece que nascem já aflitos para se porem a mexer...

...

Grita o transmontano, lá do fundo:

- Oh Silva, parece que o seu clube contratou outro Espanhol!

- Ai sim, quem é? - Berro-lhe de volta.

- Acho que é o Kinder. Diz que vai ser uma bela surpresa e já jogou no Real.

- Quais Kinder pa! Chama-se Bueno, sua besta.

- Kinder Bueno, Mars, Pintarolas, é tudo chocolate. - Desata a rir enquanto bate com a mão no joelho.

Voa o pano húmido de limpar as mesas...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nomes - C.C.





- Ainda ás voltas com isto, velhote? - Digo para a pilha de papéis na mesa.
- Cada vez mais interessante. Ora veja lá esta. - Estica o braço com a folha amarelada na mão, não levanta a cabeça, não me olha.

"Nomes - C.C.

Agora é de noite menos tempo, nos dias em que me deixas ir embora. Mas os meus olhos, as mãos, a parte da perna que liga ao peito do pé, permanecem imersas no escuro do Cruzeiro.

Existo num quarto cavado na terra, pontilhado pela luz azul do desumidificador, pelo led vermelho do ecrã na parede, e povoado pelo nosso cheiro. Depois do corpo, o peito e a mente mergulham gratos nesse breu em que somos tudo, sós, inteiros. Oh sim, eu sei que é apenas um marco no meu pensamento, um lugar arquétipo que decido guardar. Houveram lágrimas a denunciar a distância da redenção. Ainda assim, os dias crescem e eu permaneço, tétrico, nesse túmulo perfeito.

Foge-me um sentido, creio que o olfato, para a alegria que nos saltita pelas escadas e para o orgulho que nos ameaça voar pelos céus do Mundo. Com elas toda a obra, grande e inacabada, que somos e queremos ser. E penitencio-me. Sorrio para todos os que sorrimos à luz cada vez mais cedo, mais tempo. Desculpo-me, desculpo-nos.

Nos olhos, nas mãos, em pleno dia já, sei que me deixaste ir embora e vejo e toco o breu do Cruzeiro. A vida resume-se num solavanco do comboio, mas não me rouba da metade que me guardas nessa casa eterna. Guardas?"

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nomes - E.F.



- Ena velhote, grande confusão de papéis que aqui vai... - Fico com o pano húmido das mesas suspenso no gesto.
- Isto é um achado, Silva. Encontrei no meu alfarrabista. - Remexe o monte de papéis, alguns manuscritos.
- Hum? Um monte de papéis velhos? É que livro, isso não é.
- Isso agora é que ainda não sei. Tenho andado ás voltas com eles e é bem possível que exista aqui uma lógica. 
Rio-me:
- Eu também estou a ler o "Livro do Desassossego"...
- Nada disso! - Insurge-se.- Nada tão complicado e muito mais concreto. Tenho a certeza. Quase a certeza... Para além de que não consigo, pelo menos ainda, encontrar qualquer referência a autores, pseudónimos ou quaisquer outros ónimos.

Pego numa folha ao calhas, aparentemente datilografada. Por um instante não consigo sequer pensar a palavra, até visualizar, num canto ainda não tão obscuro da mente, a arcaica tecnologia. Leio:

"Nomes - E.F.

Por fevereiros são avistados pelo ponto de fuga dos olhos nas bermas. Ou bordejando ribeiros, delineando bosques tímidos no primeiro esboço. Na cama da nossa certeza tranquila rebentam súbitos, invasores de todo o panorama, eles próprios as margens e os contornos. E o resto, as heras, as silvas, mesmo as persistentes azedas, um ou outro ainda tenro pinheiro, esconde-se por trás, ou sob, a explosão inevitável dos paquidermes. Promessas vãs de campos de flores amarelas.

Alinhados marcialmente seguem-nos os percursos com os seus intemporais olhos aguados. Imóveis, atentos. Suspira toda a outra flora encomendada aos braços ágeis dos voluntários calcorreeiros de zonas delimitadas, protegidas. Nas valas das estradas, nas terras de ninguém, nos baldios, reinam um eterno instante. É breve e para sempre o seu tempo - todos os calendários têm algum março.

Avisados geneticamente por gerações de sábia desconfiança e capitulação, não esqueçamos que nas elefantinas memórias guardaram os poisos conquistados e anotaram os terrenos a ganhar na próxima estação, ás costas de uma qualquer beata descuidada. Retornam amarelos depois de não morrerem os elefantes fugazes."

Olho-o no seu entusiasmo missionário:

- Circo?
- Acacia dealbata?