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domingo, 21 de março de 2021

Desconfine-se




Vamos estabelecer em junho de 2019 o fecho por tempo indeterminado destas portas. Ao longo de quase 2 anos viemos cá muito de vez em quando limpar teias de aranha e o bolor das madeiras, deixando os respetivos registos. Entretanto, andámos ocupados, cruzámo-nos no éter de A Culpa é do Cavani, eventualmente numa ou outra crónica no Zero Zero, numa banca montada no Twitter para arrotar alarvidades sortidas e meteu-se uma pandemia. Na Tasca ficou o esboço do inicio do CLSVO, na esperança de que um dia qualquer ele possa prosseguir. E foi tudo.

Nesta altura, o que me ficava bem era dizer que tive saudades vossas. Tantas que me decidi a limpar a sala, abastecer a arca, encher o pipo. Mas a verdade é que a Tasca abriu para um cliente único, no máximo dois se o seu objetivo se concretizasse, e demorou-me muito tempo a acreditar que eram mais. Que éramos mais. E ainda mais tempo para que isso me fizesse alguma diferença. Seguramente que foi muito mais rápido perder-vos. 

Mas hey, o cliente original está cá por inerência e já me dá tanto trabalho que nem queiram saber. E o segundo eu sei que nunca abandonou. Ás vezes passo a arejar o tasco e noto os resquícios do perfume, a estranha leveza do ar, o cérebro a disparar num remoinho de endorfinas e tudo é luxúria por um instante. Uma vez que tem a chave da porta, mais do que apenas eu seremos sempre.

A arrumação está feita. Encontrarão, ali na coluna do lado, o Cavani . O futebol estará todo lá e no Zero Zero. Eu bem sei que era por ele que os mais de vós cá vinham molhar o bico e prometo publicar as crónicas depois de saírem no portal. Se me quiserem insultar de forma mais personalizada, visitem-me em @atascadosilva, naquela coisa do pássaro azul.  A Tasca será para o resto, será para mim. Para nós, meu amor, eventualmente. E outros serão bem-vindos porque a porta estará aberta. Durante quanto tempo, não sabemos agora e não saberemos depois e pouco nos importa.

Continuo muito tentado a escrever que senti a vossa falta. É certo que tive saudades do senhor Monteiro da Silva, da Zubaida, do Berto Faz Tudo, do Velho dos Sapatos, de flirtar com a vizinha, do Paulinho e de mais uma série de maduros e gajas bem boas que foram povoando o sítio. Pronto, eu confesso, tive saudades, sim. Minhas.

A aparelhagem - isso! - continua no pequeno estrado, no canto escuro, pronta para tocar o que lhe dermos a beber. Vamos abrir como há muito tempo, éramos novos e é provável que o FCP tenha sido campeão. Olá, malta!



sábado, 19 de dezembro de 2020

Eu joguei à bola com o Samuel!

Gamado em Portugal 80s Metal


Se fosse um filme, talvez a vista fosse da estratosfera. 

                                                         (Meh, mais para cima. Isso, mais para cima. Recomecemos.)

Se fosse um filme, abriria com uma imagem da superfície vista da mesosfera - vá lá, a mesosfera está muito bem, chega perfeitamente para o propósito - e a câmara desceria a velocidade vertiginosa, quebrando a barreira do som e ignorando a estratopausa, detendo-se abruptamente

                                   (Defina-se abruptamente: um salto de bungee sem ressalto. É este abruptamente)

                                                     sobre um pátio de cimento perdido no meio dos prédios que se amontoam ao calhas. Uma espécie de clareira sem serventia de qualquer espécie, dado o aviso sério no momento do aluguer: não é para utilizar! Porquê, nunca saberemos e nunca souberam os arrendatários. Talvez fosse, seja, uma mera pausa urbana. Um improvável suspiro de betão, o alvo perfeito para uma câmara que descesse vertiginosamente da mesosfera, à procura de um local para se deter. Abrupta.

                                                                 (É sobre pátios, isto? Para inicio já vai quase a meio. Adiante!)

Dois miúdos comunicam-se sem se ouvirem, separados por metros horizontais e verticais. Digamos que se gesticulam na diagonal. Por sorte, sabemos a idade exata de ambos: o da marquise de baixo, rente ao pátio, tem 12 e o outro, o da marquise de cima, penúltima do prédio vermelho, tem 13, embora seja consideravelmente mais baixo. 

Acontece que o dilúvio dos últimos dias parece ter tirado uma folga, como que encontrasse o seu próprio pátio inútil, e isso talvez abra uma janela de oportunidade para que se cumpra o planeado jogo grande. O que se dizem, mais por quererem crer do que por honestidade intelectual, é que já não chove assim tanto, está bom até, bem bom, um dia de praia quase, um pouquinho nublado talvez, mas esta cacimbazinha até ajuda que isto não é para meninas. No fundo, estão a fazer figas para que não volte o granizo ou os pingos grossos que fazem barulho e que chamarão a atenção das mães no exato momento em que gritarem "xauxau, é hoje o jogo e já venho, está um calor do caraças". Se lá fora houver um pingo de silêncio nesse instante, passarão despercebidos e safam-se com um "isséonde? vais para a escola a um sábado? se fosse para estudar... vê lá não te magoes e ai de ti que chegues tarde". As mães têm mais o que fazer, já se sabe, mas são bichos muito atentos aos barulhos. Se lhes parece que caem pedras de gelo do céu, tendem a embirrar bastante com os petizes que se aprestam para sair de casa em calções, manga curta, meias pelo joelho e sapatilhas de lona. Mormente ao fim de semana.

           (Eheheh, agora pensei: chuteiras. Vê tu o disparate, serem sapatilhas de lona não era nada mau.)

Paulos os dois, mas o mais pequenito só responde pelo nome nas chamadas dos professores e no pouco tempo em que tem companhia em casa. No resto dos dias é Cuca. Estupidamente alegres e aliviados, encontram-se na esquina e iniciam a subida. Será sempre a subir nos próximos 15 minutos e depois uns 5 a descer, até à Escola Secundária da Falagueira. Estes vêm do lado da Brandoa e são os únicos desta proveniência. Se nos pudéssemos afastar desta condição de narradores observadores - e não podemos, é certo - perceberíamos quão irónica seria a preocupação daquelas mães com o estado do clima, a roupa ou uma ou outra canelada bem assente num jogo de futebol, tendo em conta que os seus rebentos crescem á solta e por sua conta nestas ruas. Que são suas. E é seguramente isso que os fará sobreviver, ou não, aos anos que faltam para as largarem. Ou não. Outros virão do lado da Amadora, percorrerão o Bairro do Bosque, a Falagueira, meterão os pés na lama do caminho recém aberto, até entrarem pelo portão principal. Do outro lado, o portão é secundário e já tratámos - digo, trataram - de o violentar as vezes suficientes para que permaneça eternamente aberto. Como se quer, afinal esta é a casa do conhecimento e deve estar sempre de portas escancaradas.

É o primeiro jogo do primeiro campeonato do primeiro ano de funcionamento da ESF. Estranhamente, o que nos traz a esta memória estupidamente - e surpreendentemente - vívida, é música e não futebol. 

A escola vai do sétimo ao nono. Quem não souber a enorme diferença que vai entre os 12 e os 15 é porque teve uma infância muito esquisita. Isto decidimos nós, narradores observadores e, por inerência do cargo, gente que manda nesta prosa.

Sabemos a idade dos nossos, diremos dos outros que são o nono uma merda qualquer, provavelmente uma letra. De um lado a Associação Recreativa dos Desvalidos e Enfezados da Vida, do outro o Sport Clube Matulões Namorados das Gajas Boas Todas. O maiorzito dos nossos Paulos é um Cuca em comparação. Mas é canalha que enfrenta a chuva e que todos os dias mete os pés na lama. Se vêm do lado destes, aprenderam o caminho por entre os buracos de esgoto sem tampa, sob o lençol de água que os cobre em dias de chuva. E o que tem chovido, senhores.

                            (Já que falas nisso, havíamos de ter t-shirts a dizer "Eu sobrevivi à ESF". Espera, espera, melhor: "Eu fui o primeiro a partir um vidro na ESF". Ah não, foda-se, isso foste tu.)

Os bonzões passaram metade do jogo a recuperarem da surpresa de os pequenitos terem sequer aparecido em numero suficiente para jogar, outro terço a tentarem sacudi-los das pernas, enquanto procuravam a bola no meio das poças de água no saibro. No terço que falta, marcaram, salvo erro, dois golos e sofreram um, sabe-se lá como. Fim. 

Regressam a casa saídos direitinhos das 20.000 Léguas Submarinas. E isto tudo não interessa para nada. Até porque um dos nossos reencontraria um dos deles, anos mais tarde, na final de outro campeonato muito mais sério e ganharia tranquilo. Embora a partir do banco, mas quem é que está a reparar?

O que nos importa mesmo é que um dos Matulões se chamava, sabemos hoje, Samuel Lopes. Irmão de João Carlos Lopes. Naquele campo de saibro, cheio de poças e lama, num ambiente de autêntico desastre aquático, inadvertidamente, tinha o primeiro contacto com algo que viria a ser uma parte importante da minha vida e de quem sou: Heavy Metal

Se o Samuel já sabia na altura que seria baixista dos Satan Saint's, não faço ideia. Assim como não sei se o João já tocava baixo ou se tinha noção de que seria membro dos míticos STS Paranoid.

                                          (Fast forward to Pigalle, por favor)

...

O Café Pigalle, na Amadora, era o poiso da malta da Secundária e dos metaleiros em geral. Diga-se que a Linha, que não a benzoca de Cascais, mas a clandestina de Sintra, era - é? - uma autêntica incubadora de bandas. Daria origem, e fica já aqui o spoiler, à maior banda da história da música portuguesa. E isto não é aqui o estúpido a exagerar.

A Falagueira ficara para trás no 9º Ano, sendo que o oitavo marcaria a conversão definitiva desta Alma ao metal pesado. Chegar à Secundária da Amadora e, ainda mais, ao Pigalle, era como ser admitido no Paraíso. Bebíamos cerveja, jogávamos snooker, trocávamos cassetes, invejávamos as importações de quem conseguia discos de jeito e conversávamos com gente das bandas, com admiração e uma pontinha de inveja. E sim, havia muita droga disponível, tanta que não tinha aquele encanto de "coisa proibída", era antes o mais vulgar, a regra. Talvez me tenha valido já este espírito embirrante de não querer fazer o mesmo que as maiorias. Uma espécie de gajo cagão, vá.

Do Pigalle partíamos em bando para a estação, enchendo as gaiolas dos comboios, espaços onde os picas preferiam não entrar - putos estúpidos, de napa preta, pulseiras e braçadeiras de cavilhas, longos cabelos alguns e muito haxixe - em direção ao apeadeiro do Rego e à nossa outra casa: o Rock Rendez Vous. 

É muito provável que tenhamos sido nós a perder a nossa sala, pelo que sofria a vizinhança nos dias das sessões Metal Army e afins. Íamos ao Rock para afirmar uma cultura, para confrontar e chocar nas ruas, para partilhar em irmandade dentro das nossas paredes. Reparem, Portugal em meados dos 80's: tínhamos um sítio que organizava festas onde íamos para ouvir música a que não tínhamos acesso e, em encanto, ver vídeo-clipes e filmes de concertos!

Daqui nasceria a ideia do Metal Lusitano, uma série de concertos com as grandes bandas da época - Tarântula, STS, Satan's Saints, Procyon, Black Cross e outros - que daria origem ao primeiro álbum do Metal Tuga, um duplo ao vivo, resultado das referidas atuações. 

Perdi os Satan Saint's, o Samuel que me desculpe, mas estive em todos os outros, arranjando 300 escudos à semana, poupando na comida no bar e na cerveja no Pigalle, para celebrar ao sábado à tarde. Sim, era à tarde. O disco nunca foi editado.

... 

Toda a experiência dessa época não pode ser resumida aqui. Há um livro à espera de ser escrito sobre o que foi viver aqueles tempos e tenho consciência que muitas das referências deste texto não farão sentido para quem não esteve lá ou para quem não viveu naqueles locais. Mas esse não era o propósito, a ideia era apenas explicar que, ao contrário do que é habitual na nossa frágil lusitanidade, a música da minha vida tem raiz nacional. É claro que a as primeiras músicas que ouvi eram Maiden e Scorpions, a minha banda favorita - até porque alinhava com a rebeldia da persona - eram os Motörhead, mas a vivência eram os STS no Rock, os V12 e os Ibéria no Ferroviário do Barreiro, o Festival no Central Park da Amadora. E era feliz.

Estes passeios pela Memory  Lane deixam-me sempre - quem não? - nostálgico qb. 

Lembro-vos a todos, irmãos. Lembro-me do gajo meio anão e coxo, mais velho do que nós, que respeitávamos e admirávamos sem reservas, pelo que sabia da música, das bandas, pelo gozo que nos dava falar com ele e também porque nos pintava os olhos à Alice Cooper ou o rosto como o King Diamond. E depois íamos para o meio de centenas de pessoas e suávamos; e apanhávamos os transportes públicos para casa no inicio da noite; e aquela merda esborratava toda e escorria e a mãe quase lhe dava uma apoplexia quando me abria a porta. E um estalo, isso também dava.

Eu joguei à bola com o Samuel e cresci nas mesmas ruas que o Fernando Ribeiro. Eu cresci no metal e na Brandoa, como a maior banda de todos os tempos da música portuguesa: os Moonspell. 

Deal with it! \m/

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Quem tiver interesse em saber - ou reviver - mais sobre estes épicos dias, não pode deixar de visitar o blogue Portugal 80s Metal e o canal Youtube MetalPortuguêsTV.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

A Mesa do Canto: O som do silêncio (notas do correspondente em Madrid)





Nota-se logo que estamos à beira da Páscoa. Um tipo não pode abrir o postigo para aviar umas bifanas em take-away que aparece logo um espanhol. Chiça, oh homem, fale de longe que vocês se perdigotam bastante, coño. Olhe, ainda melhor, pegue lá esta resma de papel e escreva aí o que quer que eu depois recolho. Grandes saludos e tudo e tudo.

E ele escreveu.

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Conseguem ouvir? É o silêncio, o bendito silêncio.

De todos os dramas e tragédias sai sempre algo positivo. silver lining, dizem lá para terras americanas. Nestas últimas semanas, para os que gostam da bola quase tanto como gostam de liberdade, o triunfo tem sido o silêncio. Já não se ouvem aqueles intermináveis zumbidos catatónicos de painelistas e opinion makers, em horas e horas de tertúlias e shows televisivos dedicados ao futebol. As contas dedicadas a espalhar ódios, mentiras e polémicas, a soldo dos clubes ou de interesses turvos, estão caladas. Os ultras, dedicados a perseguir os companheiros de clube que não pensam como eles são agora tumbas. E diz que o Manafá está a ver vídeos do Beckham para melhorar os centros. Pelo menos a bola já não anda a partir as janelas dos vizinhos. 

Na cultura de mediocridade criou-se a sensação que esta gentinha sem escrúpulos, que funciona como sangue-sugas, é parte do jogo, parte fundamental. Eles gostam de acreditar nisso e a muitos têm deveras enganado. Mas os que temos saudades de ver a bola rolar, os que andam a ver jogos antigos, a jogar jogos virtuais e a sonhar com tocar ou ver mexer o esférico, finalmente perceberam que esse esterco não tem lugar no futebol. Que sem eles tudo é mais saudável. Porque tudo isto tem mostrado que nós, os adeptos, os que não lucramos nada com isto do jogo e que até perdemos dinheiro, paciência, anos de vida ou cabelo à custa do stress que ganhamos quando a bola chega aos pés daquele lateral que não sabe centrar, temos descoberto neste vazio que somos quase todos iguais e que é muito mais aquilo que nos une, como adeptos, do que aquilo que nos separa. Ao invés do que uma cultura de ódio sempre quis fazer crer.

Ao contrário do dono desta tasca, sábio a gerir o seu tempo livre, eu perdi muito do meu a ver jogos. O FC Porto é o meu clube desde que tenho memória e, só ao vivo, devo ter visto mais de duzentos jogos, para não falar nos televisionados mas, realmente, essa percentagem é pequena se comparar com os milhares de jogos que vi desde tempos imemoriais até há três semanas atrás. E sabem o que me chama sempre a atenção? Que somos todos iguais. Somos, os adeptos. Ouvimos no estádio cânticos que a claque copia de italianos dos anos 90 (vejam um Fiorentina vs Lazio de 98 e vão entender), todos achamos que nós somos o clube da mística, da raça, de fazer as coisas bem, todos nos sentimos especiais ao abraçar um emblema, umas cores. Todos repetimos o mesmo discurso, porque todos estamos apaixonados e a minha mulher é a mais bonita do mundo e de certeza que é mais do que a tua (que não deixa de ter umas boas coxas, atenção) e fazemos isso desde a crença, desde a positividade. Encontramos, ou encontraram por nós, slogans em que acreditamos a pés juntos, mas repetimos todos o mesmo padrão de comportamentos dentro e fora do estádio. 

Os roubos são sempre CONTRA nós, os árbitros são sempre comprados pelos OUTROS, os meus jogadores são os melhores e quando são maus são os piores. Como assim o teu lateral direito é pior do que o meu? Todos tivemos ídolos que foram os maiores, decepções que foram as piores, transferências recordes porque nós é que valemos ou negócios que falharam, porque nós é que sabemos negociar. A frase é sempre a mesma, muda a cor e nada mais. 

Sentem-se a ver tranquilamente um jogo ao lado de alguém de um clube rival e vejam como são vocês, a cruzar o espelho como a catraia. Não há rivalidade sem futebol e futebol sem rivalidade. É saudável e alimenta a alma. mas vejam The English Game e entendam que até no início havia rivalidade. Mas também união. Há países onde isso se perdeu, outros onde nem tanto, mas essa é a realidade e para interesses próprios foi substituída pela cultura do ódio. 

Há uma diferença. Eu posso sentir rivalidade com um clube, querer que perca para que o meu ganhe (ou para que perca, simplesmente) mas isso não significa que os odeie ou que sofra se cumprirem os seus sonhos. Há que amar e empatizar com o próximo (namasté). Mas esse ruído sujo e lamacento que agora, curiosamente, não se ouve, tem-vos dito que aquele presidente é um malandro, que aquele treinador é uma besta, que aqueles adeptos são TODOS – sejam 5 ou 5 milhoes – uns animais e que tens de carregar no botão do ódio e ir vomitar para as redes ou para as bancadas esse peso. E não tem que ser assim. Estas semanas demonstram-no bem. Tenho visto, admirado e invejado, no bom sentido, como existe em outros clubes que não o meu uma bonita cultura de clube, gente com projetos bem estruturados, independentes, dos adeptos, que estão a matar este imenso tempo livre com amor ao clube. Não a vomitar ódio ou dissidência, mas a criar comunidade, seja entre os seus, seja entre os que gostam de bola. E é bonito, seja qual for o clube de cada um. 

Mas depois faço introspeção e olho para casa. E vejo quase só silêncio. O mesmo silêncio do início, desse esterco ambulante que contaminou o ambiente durante anos e que não existe se não há ódio, confrontação e luta. E penso nas contas de redes sociais caladinhas e quase todas são da minha cor. E vejo que noutros clubes há muita gente que polemiza que agora se está a dedicar a falar do jogo, da comunidade e olho para o mundo azul e branco e vejo pouco e ouço pouco. Não há praticamente projetos que façam clube, comunidade entre os meus. Não há quem recupere a história para que ninguém esqueça que sempre fomos um clube maravilhoso, mesmo antes de 1978. Não vejo canais de YouTube ativos, raramente há podcasts que debatam o clube e a quantidade de contas tão ativas a denunciar polvos e padres e dramas, andam caladas quando podiam estar a falar do Hernâni, do Bibota ou do Alenitchev. E chego à conclusão de que se calhar há clubes que nunca perderam a noção de quem eram e outros que abraçaram tanto a cultura do ódio, do confronto e da luta que em tempos de paz não sabem atuar. 

Foi-lhes dito que só se olha para o presente e para a frente e muitos idolos saíram sem o seu merecido aplauso. Apagou-se uma enorme parte da historia do clube porque não encaixava na narrativa da neolíngua e agora as pessoas esqueceram. A mordaça que rodeia grande parte do clube atontou os adeptos que são incapazes de se organizar e mexer, sem que tenham de passar pelo filtro de nós contra todos. É comê-los, carago! E tudo isso importado de outros lados porque aqui ninguém inventou nada. 

Numa época em que todos estamos a perceber que valemos uma merda, que a nossa vida e a dos nossos pode voar sem se dar por isso, é ainda mais doloroso lembrar que quando se marca um golo no Dragão ainda há quem se lembre primeiro de um rival e depois de si próprio. Se esta crise humana brutal nos está a ensinar algo, é a colocar tudo no seu devido sitio e o ódio e a falta de empatia e amor deviam ficar definitivamente à porta, sobretudo de um estádio de futebol. Mas, se calhar, é por estar rodeado de pessoas a morrer e não a tomar um café na marginal de Gaia que me dá para pensar nestas coisas. Se calhar. Bota lá mais uma que nesta tasca até o silêncio é diferente.



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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Postais da bola: Portimão (com pausa e abaladiças)



Ah, Portimão, com o seu hipermercado Continente, o seu Pavilhão Multiusos, o cheiro a sardinha debaixo da ponte sobre o Arade.

Por acaso, sempre que penso nesta excelsa localidade, para além de me ficar a apetecer pimentos assados e batata cozida com pele, lembro-me da minha prima Beta, infelizmente detida nos calaboiços de um país obscuro do sudeste asiático. É gente que leva muito a peito isso do tráfico, já se sabe.

Ai a Betinha, uma cachopa roliça, feminista radical. De tal maneira que nunca aquela sovaqueira teve vislumbre de uma lâmina. Nem de água e sabão, já que falamos nisso. Já se vê que depois aquilo ressoa e tende a feder. Muito boa moça, a Beta, desde que a uma distância segura para a narina. O que nunca foi obstáculo ao são convívio familiar, pois que para além do pelo intenso, herdou igualmente da família o timbre peixeiro e o berro pronto.

Olha, por falar em intenso, quem esteve há pouco por Portimão, foi o nosso fêcêpê. E se no Vietname o número era 19 (hey, broda Bertocchini), em Portimão é 3...

                                                                    (Pausa para pequena nota do autor

Pequena Nota do Autor:

Tu que percebeste o cameo ali em cima, fica sabendo que é muito provável que já tenhas vivido mais tempo do que aquele que te falta gozar. Sendo uma mera questão de probabilidades, não esmoreças, porque as probabilidades de vez em quando são uma batata (hey, broda Vassalo). Hmmm, cozida com pele. E pimentos assados. 

Fim da pausa para pequena nota do autor)

                                                                                  3 pontos, 3 golos e 3 nomes.

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1. MAREGA

Diz que o Moussa não marcava desde que a Betty Grafstein entrou na puberdade, maijómenos no tempo em que os mamutes começaram a ver a vida deles a andar para trás; e que tem menos golos na Liga que o legítimo da anterior tem pelos no olho do cu; e que estava bem era a assentar tijolo ou a porteiro de um estabelecimento de diversão noturna na Praia da Rocha.

Faça-se aqui um pequeno desvio para saudar os industriais da noite portimonense, que muito mal passaram entre janeiro e agosto do ano passado, tendo-lhes valido os bandos de bifas semi-desnudas e a manada de trolhas entusiastas do tunning da margem sul. Uma qualquer, pois claro, que aqui não se discriminam margens. Felizmente chegou a bonança e em setembro as contas já estavam de novo equilibradas e a garrafa do Paulinho repousava destacada nas prateleiras VIP. É o que se chama o tempo das vacas gordas. Alimentam-se muito à base do fast food, as bifas.

Ah, sim, isto era do Marega, perdoai. Eu, às primeiras, concordo com quase tudo aquilo. E quando me dizem, ah e tal, olha ele ao lado dos mitos e disparam Falcão, Lisandro, Jackson, o inteiro, Bibota Gomes (curiosamente, muito raro dizerem Jardel), não tenho remédio senão acenar e perder o olhar nesse horizonte nostálgico. Mas depois, embirro de pensar um pedacinho e... epá, espera lá...

Esses todos, sim senhor, majé para o lugar do Tiquinho, poijé? É que nenhum deles podia fazer o que o Moussa faz. Ora, então majisso de escapar pela lateral, até o Hernâni...só que não. O Moussa não é só rápido. É igualmente um bisonte. No melhor sentido de bisonte, está claro. Uma besta que arrasta a bola - e este é o termo certo - e o jogo para onde embicar. Aos solavancos, aos tropeções, como se estivesse a lavrar um hectare de milho. Em dois anos de mister Conceição, já vi muita gente tentar, ainda não vi ninguém conseguir. É eu e o treinador. Não há outro que possa servir, ao mesmo tempo, de saída para uma fraca construção, de alternativa a uma pobre ideia de jogo, de poço de energia para que os outros respirem e de esperança para toda a nação azul e branca que, do nada, apareça um golo. Que ainda por cima os marque, poucos para uns, muitos para outros, é um bónus. Se for com a souplesse  de Portimão, bem, aí já é a gozar com as nossas trombas, malta que gosta é de gente que trata bem a bolinha. O Moussa é o Khal Drogo, a bola é a sua cadela. Umas lamparinas e de quatro, ohfaxabôr! E de repente, dá-lhe para ser fofinho.

Que me digam, oh Silva, mas eu cá aborrece-me essa espécie de piparote na bola. Eu cá gosto é de futebol, é outra coisa. Primeiro, estão errados, porque futebol é isto tudo. Depois, estão certos, porque eu também gosto é de outra coisa. Mas disso, meus lindos meninos, não tem o Moussa culpa nenhuma! Só mesmo a de, contra vocês e eu, conseguir, muitas vezes só por si, fazê-la resultar. 

No fim do dia, estaremos bêbados nos Aliados a comemorar, graças também ao Moussa. Ou confortavelmente alapados nas nossas redes sociais favoritas, a desancar o Marega como se não houvesse amanhã. Ide majé trabalhar, seus lanzeiros!

2. PEPE

A verdade é que estava tudo a correr bem e chegou o Pepe. Pumbas, 7 pontos de avanço cucaralho! Havemos é de convir que não será culpa do Pepe. Aparece  aqui porque me apetece dizer que é o nosso segundo melhor central e que, para mim, ainda bem que cá estará para o ano. Uma vez que o melhor já lá vai. O Pepe é assim a modos que o grão-vizir Iznogoud. Vai ser Califa no lugar do Califa. É melhor que o terceiro melhor em tudo e ainda consegue escorregar menos. Viva o Pepe.

3. BRUNO COSTA

O tipo a quem a aparente afirmação definitiva do puto Bruno mais jeito dá, é o... Sérgio. O que é estranho, porque é o homem que poderia ter proporcionado isto muito antes. Ele lá saberá porque é que agora é que é o tempo. Mas que lhe dá jeito, isso dá. É que o Costa é dos nossos, nado e criado, e a malta tem sempre dificuldade em dizer que espanhóis pequenitos deviam fazer as vezes de tugas igualmente pequenitos.

Que o Bruno é jogador da bola, disso também não tenho dúvidas. No entanto, espero que o treinador não caia no contrassenso de lhe pedir coisas parecidas às que faz Oliver. É que não são, nem lá perto, o mesmo jogador. Não é uma questão de melhor ou pior - sobre isso tenho a minha opinião e ela não é para aqui chamada - é uma questão de diferença. O Costa é como que o André André, mas em bom. E chuta, ainda por cima. 

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Duas abaladiças:

Primeiro, devo clarificar a Conferência de Imprensa de antevisão deste jogo, por parte do nosso treinador. O que ele disse é que esta época ainda tem tudo para ser uma época à Porto. Certo? De certeza que sim. Ganhámos a Supertaça, perdemos nos malditos penalties a Taça da Liga, ainda vamos ser Campeões, levantar o caneco em Oeiras e, com tino e um pedaço de sorte, vai-se a ver e vamos a Madrid buscar a orelhuda. Upa, estaríamos ao nível do Mítico. Podemos! (inserir emoji de braço musculoso)

Acredito que foi esta a intenção, porque ganhar a Supertaça ao Aves, perder a Taça da Liga, ficar em segundo no Campeonato, lerpar no Jamor e nos quartos da Champions, não poderia ser considerada uma época à Porto. Raios, agora lembrei-me do Peseiro, vá lá eu saber porquê...

Finalmentes, quarta-feira, no Dragão, às costas do Marega. É claro que é possível, embora não propriamente provável ;) 

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A Bolha

A Bolha é asséptica. Vista de um ângulo limitado, e sempre repetido,  parece segura, confortável, familiar. Um porto de abrigo, para onde se foge das agruras da realidade. Por isso, nada melhor do que expandir a Bolha, deixá-la envolver-nos a existência toda, limpando o lixo que nos atrapalha, nos contraria, criando dúvida e ansiedade, quantas vezes obrigando-nos a gastar a energia que não sentimos ter, só para concluirmos que afinal existe Outro. O Outro. Esse que, tão diferente de nós, nos conspurca as certezas, nos atiça os medos, nos parte a Bolha. Salvos sejamos.


Eu uso uma, nestes tempos em exclusividade, rede social para fins de recreio. Só que minto. Como todos vós, aliás. Porque as queremos, às redes, para validar a nossa própria linha de pensamento, emitir opinião, vingarmo-nos de uma existência anónima, hiperbolizar - mesmo que sob um manto de modéstia - qualquer fugaz centelha de fama. Fogueira que seja, vá, porque a fama é efémera e contém o seu fim. Como a Vida. Enfim, para sermos finalmente aquilo que acreditamos que eles querem que sejamos. E não somos. Muitas vezes, nem queremos verdadeiramente ser, mas não há remédio.


Olhando assim cinicamente, vejo-os escolherem meticulosamente o seu Real de faz de conta. Estenderem com paciência a membrana da Bolha, limpando cada centímetro quadrado com a atenção de um relojoeiro, sempre com o cuidado de não sobrar alguma fresta, alguma réstia de circulação de ar contaminado, de pensamento diverso, de incómodo da mente. A Bolha é asséptica e a sua moeda corrente é aquilo que eu acredito que é verdade, ainda que não possa ter a certeza. Porque aqui, tudo e todos se validam mutuamente, dado que sou quem os escolhe. A one track mind.


Chega então o momento em que, por qualquer distração, nos enfrenta o Outro. Esse diferente, que - o topete! - pensa de outra forma, caminha por outra via, partilha de diversa tara e sofre de distinta doença. 


Como assim, existe? Se Todos pensam como eu, se tão cuidadosamente nos rodeámos destas paredes transparentes, porque nos havemos de confrontar com o que nos é exterior? Expulsa-se já da Bolha essa ameaça, esse vírus, essa força estranha, seguramente maléfica, alienígena, porque Humana não será, provado que está que todos os Humanos que contam têm a exata mesma opinião que eu. Sei bem disso, porque interajo com eles todos os dias, cada vez mais tempo em cada dia e aplico agora a tudo na Vida o mesmo método cibernético: bloqueio o Diferente e preservo a minha razão. A Bolha expande-se.


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Alegremente protegidos, nunca erramos. Até porque, errando, logo virão os nossos cobolheiros - que lindo nome, pá! - sossegar-nos, assegurar que estivemos bem, deixa lá isso que alguns dizem em contrário, não são dos nossos, ainda que se disfarcem sob a mesma bandeira, são espectros de outras terríveis dimensões, abutres Universais, boçais taberneiros dos confins imundos da Galáxia.  


Olha, meu menino, repara bem que nem sequer aqui estão, na nossa Bolha. Estarás naturalmente certo, pergunta a quem quiseres, anda. Se algum achar o contrário, aponta-mo. Mesmo que seja feio apontar, fá-lo, sem remorso, sem pudor, e ele que se livre de responder. Não temas, nós iremos em teu resgate e bloquearemos qualquer hipótese de comprometimento da Bolha. Que se expande.


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Sou a dizer que vi diferidamente o último jogo do FCP. Estou muito convencido que o treinador se enganou na substituição aos 41 minutos. Não vem daí mal ao Mundo, porque passámos de 1-1 para 4-1, mas, apesar disso, continuo convicto de que foi um erro. Teríamos ganho 4-1 na mesma.


Na verdade, toda essa enorme distância, expressa pelo próprio, entre o que foi primeiro e o que veio a seguir, eu cá não a vi. Entraram mais golos, lá isso entraram, pelo que estou basto alegre. Mas pode ser que tenha ficado claro para mais alguém o lado por onde o adversário criou todo o perigo; da mesma forma que pareceu evidente que o meio campo estava em dificuldade mais pela fraca prestação de quem ficou, do que pelas falhas de quem saiu.


E se no fim tudo correu bem, porque haveríamos agora de perder este nosso tempo? Para que não se repita, apenas? Naaaa, é só porque eu gosto de picar a Bolha. Para que entre ar e não se corra o risco de a consaguinidade dar cabo da espécie.


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Fui a um concerto. Fiquei entre um e maijujamigos que “epá, metal, eu sou metal, ganza e cerveja e encontrões, metal, pois claro, nem conheço música nenhuma destes, mas diz que é metal, \m/, vamolá então, pensei eu, tájabêr?”; e outro que não deu pio durante as três horas de festa, totalmente absorvido na tarefa de ver o espetáculo através do ecrã do seu dispositivo móvel, muito embora tudo se estivesse a passar mesmo diante dos olhos dele.


O primeiro, e a sua trupe, desapareceu por volta do meio da atuação. Atribuo este sucesso a dois encontrões a destempo que o desequilibraram - sempre com um sorriso e um cumprimento fraternal - e, sobretudo, à altíssima qualidade dos meus gases. O segundo...o segundo não foi a lado nenhum. Achará, mais tarde, que aquilo foi esquisito, mais tremido do que supunha, para além de que lhe ficaram a doer os braços. Não admira, três horas de braço ao alto, a pressionar a rodinha vermelha no ecrã, chiça. Já as nódoas negras no antebraço, terão sido das cachaporradas que lhe caíram de cada vez que o cotovelo se aproximou demasiado do primeiro fio de cabelo da gaja bem boa que lá estava com o anormal das barbas. Careca dum cabrão.


Quando saía, contente como um catraio, dei de caras com um tipo que ia de abóbora. Sim, vestido de abóbora. 


Aos primeiros, ao segundo e ao terceiro, fica aqui o meu sincero agradecimento. Obrigado, brodas, por não me terem deixado construir uma Bolha. Não é suposto que a experiência seja essa, para além de que tende a expandir-se. Detesto-vos all the same.


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...when will he breakout of his solitary shell?...

sábado, 1 de setembro de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus XII - fuck it!



¬ Pai, vais ao Dragão, não vais?
¬ vou, Pi.
¬ eu acho que o FC Porto, desta vez, não vai ganhar. o adversário é muito forte. acho até que vai perder. acho até que vai perder o jogo! – reforçou convictamente no alto dos seus seis anitos (quase sete) e de quem nunca tinha ouvido falar do Vitória SC, até àquela Sexta-feira à noite, no seguimento de uma notícia sobre a partida de ontem, no Dragão.

a garganta secou. fiquei gélido. as palmas das mãos incompreensivelmente começaram a suar. o coração passou a bater descompassadamente. e, como é óbvio nestas situações, neguei tal possibilidade. mas, desde aquele momento, desde aquele veredicto, que efectivamente aconteceu (porque há mais quem a tenha ouvido e possa aferir da sua veracidade), desde aquela sentença que ficou cravada no meu ser, não mais a esqueci. e foi ela que dissipou a Alegria que, até então, tinha por (finalmente!) ir regressar a casa, num jogo oficial do clube do nosso coração.

não sou muito dado a superstições mas, por exemplo, gosto sempre de entrar com o pé direito. e, sim!, tenho o meu cachecol da Sorte – entre outras igualmente tolas e que V. Exas. considerarão fruto de um qualquer devaneio meu, porque nenhum adepto se comporta dessa forma em dias de jogo. assim e pelo exposto (que ainda não esqueci), até a “simples” escolha da pele que deveria vestir revelou-se uma tarefa hercúlea. quando soube que ia ao nosso teatro de sonhos azuis-e-brancos e que a nossa equipa de ciclismo iria ser devidamente homenageada pelos seus feitos na última Volta a Portugal, ponderei levar o terceiro equipamento da época 2016/2016, com o cachecol dobrado a azul e a amarelo a fazer ‘pendant’. contudo, aquele juízo final veio alterar t-u-d-o. e, no momento da escolha e mesmo em cima da hora para sair de casa com a devida antecedência que um jogo de casa cheia impõe, hesitei:
¬ talvez seja melhor levar o da constelação [daquela mesma época]. ou o habitual. mas quero que o primeiro jogo seja especial, porra! ir sempre com a mesma pele… carago para isto! FUCK IT! vou ‘mazé’ levar o amarelo que foi o que decidi primeiro!

e assim foi. e assim aconteceu. e assim se pode explicar, em parte, o descalabro do passado Domingo, já devidamente dissecado por quem de direito – na Bluegosfera, inclusive a twitteira e a dos Cavanis – mas cujo resultado final ainda me custa a digerir e ainda me causa perturbações no sono.
obviamente que não estou a assacar quaisquer responsabilidades pela nossa derrota ao prognóstico certeiro do meu pikachu – era o mais que faltava! nesta estória e como a Fama já vem de longe, tal como o Constantino, o «pé frio» sou eu e mais ninguém. acima de tudo, não deveria ter vacilado àquele ponto de não saber que pele levar vestida. isso é que é algo inadmissível!
[também conviria à Equipa jogar um pouco mais do que fez e não desperdiçar, pela segunda vez consecutiva, uma vantagem de dois golos face a um adversário que já se sabia que “viria com tudo” porque nada teria a perder, somente a ganhar – nem que fosse um empate… mas isso, agora, não interessa para nhaga, porque são contas de um rosário que já não vale para este totobola.]


em suma:
Domingo lá estarei, no nosso teatro de sonhos azuis-e-brancos, se Deus quiser (e a esposa deixar – porque, à data e hora destas linhas, ainda não sabe de nada).
e o “manto sagrado” já está escolhido e será o tradicional. porque há “peles” que convém não mexer muito, para não azarar…

post scriptum:
prosa que começou a ser redigida ao início da tarde de Domingo (26-08) e só conseguiu ser concluída às 19h de Quarta-feira (29-08), tamanha é a dificuldade em digerir um resultado onde foram quebrados vários recordes.

“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto


(este espaço é sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Resumo da semana: #justsaying

E pronto, cá estamos chegados ao deprimente quase a acabar. As férias. Fico num estado esquisito, tão depressa asténico, derrotado, praticamente falecido, velado e enterrado; como, logo a seguir, me dá a travadinha e sou um puto hiperativo, cheio de coisas por fazer antes que se me acabe o tempo e tento mergulhar numa onda, ao mesmo tempo que fumo um charro e bebo yet another mojito, sem perder o controlo da bola que a malta da praia está a contar que resolva o jogo.

Isto das férias divididas em fatias aborrece-me porque estão sempre a acabar. Ainda agora me sentia a recuperar da depressão pós Ras Al Khaimah e pumbas, all over again. Parece a pessoa que está continuamente a acordar, precisamente na parte do sonho em que a mais que tudo se vai engalfinhar com a Scarlett. Não se faz a um gajo, caraças.

Enfim, mantenhamos o pensamento positivo. Ficam para trás belos dias de Sol, sem sal. E belas descobertas, como a Aldeia do Mato e, sobretudo, o Carvoeiro. Ainda melhor, o senhor Artur e a dona Filomena e as suas Casas do Lagar, de onde a gente não lhe apetece ir embora, tão em casa que se está. Depois, por estranho alinhamento cósmico, fui dar a sítios que já não fazia ideia onde ficavam, nos quais amigos me deram guarida e festa, faz mais de 30 anos. Surpreendentemente, reconheci o terreiro dela, da festa, o sitio onde tocava o conjunto, a zona onde se vendia cerveja, a rampa pela qual correu esbaforido o Zé Vasco, perdido de bêbado desde dois dias antes, atrás de alguém que, por qualquer motivo, ele achava que devia apanhar nas trombas. Está alcatroada, Zé, a rampa da festa da tua terra.



Reencontrei as lambretas e os copos de três. E os míticos Ferro & Fogo, a tocar numa aldeia cheia de rock.


Não sei bem a quem, ou a que, agradecer, mas obrigado. #justsaying.




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Entretanto, foi havendo bola. Sobre o nosso FCP, está tudo em A Culpa é do Cavani. Há tanto para dizer mais, que até o "O Jogo" tem que se pôr a fazer artigos da treta sobre o facto de o Oliveira ser o melhor tipo a tirar a bola aos outros, ao fim de...dois jogos. Já depois de terem descoberto que este é o melhor inicio de época da carreira do Otávio. Olha que era difícil, hein? Se nos poupassem a isto, a gente agradecia. Vá que temos olhinhos nas trombas e não comemos gelados com a testa. Estou fartinho de vos dizer que nós não somos lampiões!

Porto à parte, diga-se que é hora de um grande shout out  para o Nuno Manta e seu Feirense. Nem tanto pelas duas vitórias e seis pontos - tantos como os matulões - mas sobretudo pelo que vem fazendo há duas épocas, com planteis que não tenho a certeza se seriam suficientes para ser favorito à subida na segundona. Quando nos apetecer choramingar acerca da tal profundidade das nossas azuis e brancas opções, é botarmos ujólhos em Santa Maria da Feira. Se esta malta consegue, a Champions não é miragem nenhuma para o FCP. Justiça seja feita, ao contrário do senhor Azul e Branco, que aqui há atrasado me referiu estar de olho no Manta, eu desconfi(o)ei um pedacinho da capacidade deste jovem para amassar esta fogaça. Bem, aqui está, xôr Nuno, a contrição. Agora esquece-te de desceres este ano, só para me contrariares...

Do outro lado, o xôr Castro que, como bem podeis comprovar em muitos e variados posts desta reputada casa de pasto, não é moço da minha preferência. Parece-me sempre que se as coisas desatam a correr mal, ele não tem como lhes dar a volta. Não que se possa dizer que lhe esteja propriamente a descarrilar a vida, ainda é cedo e quatro derrotas nos quatro primeiros jogos oficiais não é o fim do Mundo. Sim, quatro, porquê? No entanto, faz-me confusão que um tipo que tem que alterar profundamente o modelo de jogo da equipa - o Pedro Martins é de outra escola, se de alguma... - ache boa ideia trocar meia equipa da primeira para a segunda jornada, depois de ter feito tremer um dos candidatos ao titulo. Quando vem justificar que aquela foi uma derrota muito traumática e que ainda não conseguiu resolver isso com os jogadores, aí disparam os alarmes, digo eu. Well, pode ser que tenha sido apenas excesso de copos de três. Infelizmente para o Vitória, o Folha está em Portimão. Também leva na corneta como gente grande, mas basta olhar para a diferença no discurso para me perceberem. mas mantenho grandes expetativas na época do Guimarães, mesmo com o Castro. Pode ser que faça clique. Ou não. Olha, o Capucho está mesmo no fim da auto-estrada Guimarães - Litoral. #justsaying.

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La Geringonce vai reverter o molho de bróculos que o PAF tinha arranjado com a Lei de Reorganização do Território das Freguesias que, como se sabe, foi feita seguindo o método legislativo de atiréssamerdóarilogocevê. Portanto, mais uma prova de visão a longo prazo dos políticos portugueses. Chegue a altura da alternância e lá teremos outra vez que reordenar o que estava mal ordenado e depois foi reorganizado desordenando. Hã?

Não percebo lá muito bem porque é que a Catarina e os seus Bloquinhos haveriam de achar isto boa ideia, tirando o facto de porque sim. É que, ao contrário do tio Jerónimo, o seu poder autárquico é absolutamente bola. Zero. Nicles. Talvez esteja de olho em algumas freguesias dos centros urbanos, onde ainda é cool ser BE desde que não conheças alguém chamado Robles - ai credo, arreda que tem gosma, mata com fogo antes que se reproduza. Desconfio que vai dar com as Mortáguas na água e o velho tio é que se fica a rir.

Para mim é absolutamente tinto. Mas tinto da Tasca, daquele que o nosso mister gosta. A única coisa que me aborrece é se vamos ter novos candidatos à presidência das novas freguesias que, a bem dizer, são as velhas freguesias. É que desconfio que foi preciso meter a martelo muito Presidente da Junta que se viu privado da junta para presidir, nos quadros do Estado e nas Autarquias e assim. Se agora vêm novos, é uma porra para os meus impostos. Sofrem muito das cruzes, os meus impostos. Quando aumentam o peso que carregam, queixam-se logo.

Vai daí, cagari-cagaró para as reformas territoriais desta maralha. Façamos de conta que teremos Trotskistas e Marxistas-Leninistas a influenciar a governação do Estado durante uns 20 anos e que, portanto, o novo ordenamento se manterá por umas décadas valentes. Seja. Mas havia de ser obrigatório que todos os ex-autarcas, entretanto passados a funcionários públicos, sejam candidatos aos cargos que ocupavam nas extintas freguesias. Novas freguesias. Ex-extintas freguesias. Coiso. #justsaying.

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Olha-o com manifesta surpresa. Dir-se-ia com uma fagulha de recriminação, até. Mas disfarçada, dissimulada no joelho no chão e na reverência das mãos postas.

- Que foi? Tem alguma coisa a dizer, o senhor Pedro, tem?

- Não, Senhor, claro que não. Fiquei apenas surpreendido, só isso. Não esperava esse cuidado com...com...bem, com o parvo.

- Oh, deu-me prá fofura. Acontece-me às vezes, fico doce, doce, doce, já à beira da diabetes. Não posso?

- Ora, podeis tudo, Senhor.

- Eu sei, Pedro. Era retórico. - Revira os olhos. - E ires-te agarrar a uma nuvem? Isto não se faz chover sozinho, poi'não? Pá, #justsaying..

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sábado, 11 de agosto de 2018

Sábado B: De pequenino...

Kié? Apeteceu-me e depois? A espelunca é minha!

Ah, gosto tanto do inicio de época dos B. Porque são equipas completamente novas de dois em dois anos, no máximo. Curiosamente, a primeira coisa que me chama a atenção nos B deste ano, é que há gente demasiado "velha" para cá estar. A única explicação plausível para mantermos Rui Moreira, Rúben Macedo ou até Rui Costa, é toda a estrutura, treinador principal incluído, estarem convictos de que se tratam de verdadeiros backup ao plantel principal. Vocês acreditam? Eu não. Aliás, o único que entraria nesta categoria não foi, propositadamente, referido. Falamos dele a seguir.

Uma equipa à imagem do seu treinador: honesta, simpática, sorridente, ingénua. Montada num sistema que pretende ser o espelho dos A, mas à qual falta gente para isso. De facto, este FCP B devia - e creio que o Rui gostaria - jogar em 4-3-3 e não no "nosso" conceicionista 4-4-2. Sendo certo que a me agrada este jogo de sombras, porque prepara jogadores para serem alternativas "imediatas" em caso de necessidade, não é menos verdade que se correm riscos ao levar demasiado à letra o conceito.

Por exemplo, nem quero pensar no que estaremos a fazer ao bom do Luizão se o obrigarem a jogar uma época inteira a ala direito. Não só o moço não tem características para isso, como a equipa perde muito com a sua ausência no meio. Em termos defensivos e ofensivos. Por outro lado, é o rapaz com mais possibilidades de dar uma perninha na A, porque já por lá andou e porque tem pernas e pés para isso. Quem sabe esta nova posição não visa prepará-lo para poder tapar um qualquer buraco na direita do nosso meio campo A. Pessoalmente, acho que não vai resultar. Mas hey, eu também achava que o André Pereira não sabia jogar o suficiente à bola para ser jogador do Porto. E ainda acho, mas ele é!

Outro rapaz que tem que estar pronto, até ver, para responsabilidades mais elevadas, é o Oleg. Apenas porque não há alternativa para Alex Telles, uma vez que não me parece que este catraio louro esteja preparado. Dará para o gasto? Que remédio tem ele. Veremos no decurso da época.

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Vamos lá à malta que jogou o primeiro jogo da II Liga:

Baye - Banco assim que chegar o Diogo Costa. Mas não é pela baliza que as coisas correrão mal.

Musa - Eish, época difícil que vai ser. É que ser ala direito no 3-4-3 do Folha é totalmente diferente de ter que ser lateral direito agora. E tu Musa, não és.

Justiniano - Rápido, inteligente, frio (não, não fez um penalty, mesmo que tenha sido apitado). Gosto.

Bidi - É grande. É bruto. É grande e bruto. Está emprestado pelo Lusitano de Vila Real. Tudo dito?

 Oleg - Veremos...

Rui Moreira - Já o conhecemos, fará o que sempre faz, desta vez com a grande novidade de jogar no seu lugar de origem. Não será A e só pode ainda aqui estar porque precisamos de um capitão. Devia estar a tratar da sua vida, porque pode ser um belo jogador de uma boa equipa.

Kelechi - Forte, bom de bola, chuta bem, o jogo da equipa anda todo à volta dele. Falamos daqui a uns jogos.

Luizão - Tudo explicado lá em cima. Não é à direita que se pode fazer jogador a sério.

Macedo - Outro que podia muito bem estar a ganhar cartaz numa equipa qualquer que lhe permitisse ter uma carreira a sério nisto da bola. E o Varzim precisava tanto dele.

Irala - Titular porque temos que jogar com dois avançados. Não devia. Até porque era suposto este lugar ser do Maleck. Kédele?

Rui Costa - Se era para ter um Rui, podia ser o outro, não? O que ninguém sabe onde pára, por exemplo. O Costa é bom, nada de confusões. Mas o outro é melhor...

Baró - Como - mas oh Deus, como? - é que este petiz não joga assim de caretas? É olharem para o que foi a bola desde que ele entrou. Sobretudo nas partes em que não estava obrigado a ir defender...à direita. Que pancada, dass!

Cassamá - O problema é como é que te arranjas para caber no lugar do...de cima. Mas juntos, é um regalo. E foi, por 15 minutos. Problema: sofremos mais um golo e não marcámos nenhum. Oh well...

Madi - Olha, aqui está um tipo que podia jogar à direita em vez de médios centro! No entanto, até acho que este lugar de avançado móvel lhe assenta melhor. É que assim não tem que cruzar tanto e...nota-se menos *wink* Se - SE! - evoluir muito - MUITO! - bem, pode ser uma história muito engraçada. Como muitos outros, right? Right.

Rui Barros - Eish, credo, que confusão que para aí vai, Ruizito. Aparece por aqui um dia destes, para uns abafadinhos, e cumbersamos os dois, tá? Combinado.

A minha equipa, neste momento: Baye; Musa, Justiniano, Bidi, Oleg; Luizao, Kelechi, Baró; Macedo, Costa, Queta
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O adversário de hoje está muito bem nesta divisão, onde há pouca gente a ver os jogos e, assim, podem dispensar-se bancadas em risco de ruir. Ganharam, mas era muito bem feito que tivessem perdido. Inchem!

De qualquer maneira, apesar da embirração, obrigadinho pá, por nos terem torcido o pepino logo de inicio. De pequeninos.

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E agora, alça este belo rabito para Vagos \m/. Tomem conta do Dragão e peçam desculpa à equipa pela minha ausência. Ao Sérgio não precisa que ele sente-se aliviado.



 


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Só assim! (outra carta ao Dragão Vila Pouca)



Grande Dragão Vila Pouca,

Podia mentir e dizer que foi para si um dos meus primeiros pensamentos, no eclodir da - yet another - festa, desta nova vitória, em mais um momento de libertação, como se uma nuvem cada dia mais negra deixasse de pairar sobre as nossas cabeças. Em cima de cujas o céu, afinal, nunca caiu. 

Não foi dos primeiros, foi até dos últimos. Numa sequência interrompida por outros pedaços da Vida, o coração a fugir apertado para os lados de Águeda - é outra história - e a correr transbordante de alegria para a nossa casa, o nosso Dragão. Todos vós enchendo o ecrã que teve que ser a minha janela para a alegria, essa que eu, perdoe a imodéstia, merecia tanto ter partilhado. Mas o que importa é que se deu, conforme previsto, conforme necessário, porque nem sempre a injustiça de uns homens se sobrepõe ao mérito de outros homens.

Às tantas, numa linha de raciocínio que é certo que envolveu cânticos e alguns abraços; que deve ter passado por muitos lugares e outras tantas pessoas; que é muito provável que tenha incluído belas mamas - só porque sim; lá cheguei a si. Salvo seja, que de mamas o meu amigo é uma vergonha. 

Certo é que tanta curva e contracurva das sinapses - juro-lhe que por vezes as oiço rebentar - cheguei a uma espécie de palco elevado, uma coisa em redondo, toda ela engalanada de azuis, como não podia deixar de ser. Nessa clareira da mente, nesse sítio onde se concluía, definitivo, aquele pensamento, entre os pulos e os gritos dos nossos heróis, eles próprios feitos adeptos, imbuídos da nossa alegria, afinal apenas mais umas dezenas no mar dos milhares que os rodeavam, como há muito - horas de vitória incluídas - não via, nesse exato instante em que mais uma sinapse fez pum e foi fogo de artifício sobre o viaduto, o silêncio repentino disse-me: Só assim!

Só assim era possível. Só passando por arbitragens como as da Feira, de Vila das Aves, de Moreira; pelo desrespeito em nossa própria casa, a mesa posta para os convidados, gostemos ou não deles, por obrigação desta educação antiga - diz que somos regionais e pequenos - quando nos impediram de ganhar ao 5LB; pelos erros próprios em Paços; pelas dúvidas existenciais do Restelo; só vivendo o momento de afirmação, sustentado numa crença inabalável, de vencer no covil do inimigo; sempre mantendo a par a luta lá fora, pelos poucos meios de que dispomos, e a raça, a emoção, os golos dentro do campo; só assim seria possível. Só assim! 

Quando me dava por contente pela minha conclusão, dei consigo. Lá estávamos, encostados ao murete em frente da porta 4. Os anos tinham andado um pouco para trás e fazia Sol, mesmo que não lhe possa já dizer se era Verão. Como sempre, eu defendia uma postura de recato, de competência e retidão, sem chafurdar nas lamas que tão claramente já vislumbrávamos. E estava artilhado de argumentos para todos os gostos, desde a nossa posição hegemónica - da qual você já duvidava basto - que não nos permitia ser guerrilha, até à superioridade que eu notava em campo, com a posse e o passe e uma cultura de equipa tão grande que já não me parecia caber num país tão pequenino. E mesquinho.

Isto não é Inglaterra, Silva! Se continuamos com esta postura mansa, somos comidos. Mas fazer barulho não chega, é preciso que lá dentro, no campo, as tropas consigam vitórias. Senão tudo esmorece. Este Clube foi feito de sangue, suor e lágrimas. Só assim, Silva, só assim!

Só assim, Vila Pouca, só assim. Obrigado.

E agora, estou aqui a matutar. Será que esta retumbante vitória nos deixa mais próximos de ser Inglaterra? Era bom, não era?

Um grande abraço, Campeão.

Silva

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sábado, 5 de maio de 2018

Árvores frequentes, por Tininho Silva (com preâmbulo do tasqueiro)

Preâmbulo

É necessário que compreendam que o tio Deolindo era um homem bom. Nessa aceção que estão agora mesmo a fazer, mas também naquela outra que nós, homens antigos, comummente reservamos para as mulheres. Boas. Isto é, o tio era um tipo bestialmente bem parecido, coisa que aparentemente corre na família há gerações e não se crê estar a ponto de deixar de correr. Se pensarem que dentro desse corpo bem nutrido e torneado, com janelas nos seus olhos negros e expressão máxima num sorriso franco e fácil, morava um verdadeiro pinga-amor, rapidamente concluirão que partia corações com a mesma facilidade com que o bom do Yacine parte rins.

Quem não se habilitava a deixar que lhe partissem o coração, era a minha tia. Eita, mulher rija e de convicção arreigada. Ainda hoje. Sempre foi tacitamente aceite que sobreviveria ao seu esbelto marido, tanto quanto não restam dúvidas de que este sempre lhe seria - e foi - caninamente fiel. Apesar de tudo. Digamos que era uma alma de caçador, sempre atento, à espreita, incapaz de resistir ao thrill of the chase, mas no fundo - e nos momentos de todas as verdades - um vegetariano da melhor estirpe. Exceto em casa, como comprovam os meus muitos e parecidos primos e primas. Ainda que de todos, apenas um seja mesmo, mesmo meu primo de coração.

Assim será mais fácil entenderem os risinhos aparvalhados da menina do guiché do Registo Civil, assim que pousou os azuis olhos no mancebo - pareceu novo até morrer de velho - que lhe sorria do outro lado do vidro. De tal maneira que nem reparou no olhar fulminante da senhora, criança ao colo, que acompanhava o dito cujo. Abençoada de mamas, mas fraquinha da inteligência, a moça era toda mãos a alisar o cabelo e a puxar o decote até onde podia e ih ih ih diga-me lá o senhor ao que vem.

- Pois registar aqui o catraio, já se sabe.

- Ai tão novo, nem idade tem para ser pai. Ih ih ih. E que nome lhe quer dar a senhora sua sortuda? Perdão, digo, esposa. Ou nem tanto? - A esperança a encher-lhe os olhos e a inchar-lhe o peito. Para fora do decote.

- Tininho, tininho nessa cabeça, minha menina. - Instou a tia. O tom gélido que sempre conseguiu empregar, deixava-nos a todos em sentido, fosse por ser demais a correria ou hora de dormir. Já. Sendo que para se sentir tamanho receio, é imprescindível ter mais dois dedos de testa do que esta rapariga do Registo Civil. É atentar na resposta:

- Nessa Cabeça? Isso é o apelido?

- Não, credo! O apelido é Silva, pois então.

- Ah, muito bem, minha senhora. E desculpe qualquer incómodo. Para a compensar, aqui tem com a maior eficácia possível e jamais vista, a Certidão do seu menino. Vosso, maldita sorte.

- Como assim? Nem o nome lhe demos. - Disseram, balbuciando em uníssono, os meus queridos tios.

- Naturalmente que disseram, como se pode bem ver pelo preenchimento da respetiva Certidão. Aqui está, leio-vos:

Nome próprio: Tininho
Apelido: Silva

Os tios entreolharam-se de espanto, a menina disse:

- Queriam que fosse Da Silva, era? Haviam de ter feito o reparo em tempo útil, agora está o cachopo registado.

É deste modo que o meu primo, ao contrário do que muitos pensam e outros tantos especulam, não se chama Catarino, nem Albertino ou Tino, simplesmente. É mesmo Tininho o nome dele. É um melómano. Característica que o habilita a ser o crítico de música residente da Tasca, por muito que o senhor Monteiro da Silva o olhe um tanto de lado. Enfim, o Monteiro tem a sua razão, mas há sempre alturas em que o sangue fala mais alto.

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Review de"Often trees", Blind Zero - por Tininho Silva

Em mãos, na verdade em ouvidos, para sermos completamente honestos, o muito aguardado segundo álbum dos portuenses Zero Cego. Sucessor do raivoso, um tanto grungico - quase obrigação da época em que foi lançado - e pearlajamado "Trigger". Apesar de que o escriba terá seguramente ouvido mais faixas deste primeiro opus do Zero, do que de todos os discos do Guedes wannabe, Veder. Acho eu que é assim que se chama. Ou então é Vader. Um deles. E sejamos francos, havia naquelas guitarras e nas vocalizações, uma vontade intrínseca de ser Metal. Um sinal muito positivo, a aguardar confirmação.

Comecemos pelo principio a análise a este "Árvores frequentes" - para título, não faz lá muito sentido, mas os artistas, enfim... - que é como quem diz, pela capa. Na categoria "discos com assentos na capa", podemos dizer que apresenta um sofá bem catita, todo ele em capitonê. Daqueles em que dá gosto a pessoa ficar refastelada, a ver o FCP a ser campeão. A arte trazer uma reminiscência do Dragão não está nada mal para inicio.

Está claro que não cometeremos a injustiça de nos pormos a comparar com outros lançamentos, igualmente com repouso para o traseiro na capa. Aos homens o que é dos homens, aos Deuses o que é dos Deuses. E não estou a falar do mê primo, mesmo que os WC Toillete - conjunto do qual tive a felicidade de participar - tivessem passado ao lado de uma grande carreira. Penso que foi do 33, para o Campo Mártires da Pátria. Era daqueles com lagarta no meio, grande para caraças. Há outros assentos que, mesmo se menos convidativos, habitam o Olimpo da descarga elétrica e com os quais mais vale não competir. Tipo, são o FCP dos discos com coisas para a gente se sentar na capa. E vêm em azul e branco e tudo, os maganos.

A minha grande dúvida em relação aos Zero, sempre foi qual o caminho que tomariam, dos vários que o anterior trabalho - Trigger - deixava antever. Libertar-se-iam das amarras da época e deixariam as guitarras conduzi-los por uma jornada revivalista pelos bons velhos 80s, sendo nomes maiores da New Wave of Traditional Heavy Metal? Ou acabariam seduzidos pelo éter e pelas moças bem boas de mamocas ao léu, às cavalitas dos seus namorados de ocasião, nas grandes arenas deste Mundo, e liderariam o movimento Hair Metal / Glam Rock, tão fracamente representado no nosso país? Lá hair tinham os moços com fartura. Sem verbalizar, suspeitava que nem uma, nem outra. Havia ali um laivo de intelectualidade que me deixava de pé atrás. Cá pra mim, aquilo ia dar um post-punk caviar ou derivar para o lado progressivo. Mais Dream Theater do que Zé Cid, está claro. Mas quais Procupine Coiso qual carapuça, deixai as árvores em paz, chiça!

Afinal, foi-se a ver, nada. Isto é, nem para uns lados, nem para os seus inversos. Ou então tudo, depende do ponto de vista. Condicionado por uma série de protótipos de disco destes cachopos que fui ouvindo, predispus-me a passar meia hora, mais os descontos de um jogo dos lagartos em Tondela, a maldizer as músicas e os autores e a minha vida e isso tudo. Como não sangrei do nariz depois de ouvir o disco uma vez, ouvi mais duas, a ver se me convencia da bela trampa que de lá tinha saído, pois os tipos continuam a insistir em não fazer aquilo que fariam melhor: Metal. E nada. Acabei soterrado ao peso de ter gostado, genuinamente, de muitas das canções. Pronto, algumas. Raios, mais do que era suposto, se queria escrever um post com piada para a Tasca. Dei por mim a pensar: estes rapazes haviam de gostar dos últimos álbuns dos Ope... naaaaa, deixa lá os elogios para o fim.

As músicas:

Lake, Escape (isto tem um feeling 70´s que lhe fica a matar), Palm (lake reprise?). Até o Still Loving You - sim, todos os discos têm o seu - resultou muito bem, sim senhor. Chama-se Won e aposto que passou na rádio. Estas são as boas. A muito boa merece o nome completo: The Siren

Há maijumasquantas, como diria o mê primo, porque isto dos discos compactos e das pen e assim, é coisas muito grandes que levam muita tralha e os conjuntos vêem-se gregos para encher aquilo. Se calhar foi por isso que estes fizeram também uma K7. A fita cai muito bem ao som orgânico - tem instrumentos a sério este disco, pois tem? - que percorre todo o álbum,

No fim, não sabia bem se me apetecia ir a correr ouvir o Big Brother ou se sucumbia ao elogio maior à obra. E confessava que me lembrei mais do que uma vez que há algum tempo que não ouvia...


Stay heavy  \m/
Tininho



sexta-feira, 20 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter: opus XI - traição



«traição!», bradou ele. e desatou numa correria desenfreada, qual fuga para a frente, rumo a um local incerto e que só existia na sua mente.
como chegara ali e àquele ponto, isso agora não interessa para nhaga, porque são contas de um rosário que não vale para este totobola.


diz quem viu que foi tudo contra-natura. e, como contra factos não há argumentos, ninguém se conformou. ainda hoje está muito difícil o consenso, aliás, daí um silêncio surdo e muito mudo sobre o sucedido - o que não significa que a “bolha“ esteja prestes a rebentar…
afirma quem não presenciou - que também os há - que nunca se viu algo assim, nos últimos tempos. que tudo se compeliu em direcção a uma catástrofe que, de tão evidente que era e que facilmente se percebia, só quem nela participou é que estava ceguinho de todo. «e isso é inadmissível», acrescentaram.
quem não compreendeu nada do que se estava a passar à sua frente e até já tinha deitado tudo para detrás das costas, ficou ainda mais paneleiro dos olhos porque nem queria acreditar no que se estava a precipitar em sua direcção - logo ele que até já tinha previsto alguns cenários, mesmo que hipotéticos.
quem tinha a responsabilidade máxima de dizer alguma coisinha, por mais singela que fosse, tal como o tinha feito num Passado recentíssimo, ficou pior do que um boneco de cera num qualquer museu da cidade - porque estes, ao menos e a bem da Verdade, ficam s-e-m-p-r-e calados para o público que os visita, dado que sabem que há silêncios que são de ouro.
quem adora botar faladura nestas ocasiões e invariavelmente em sentido contrário, adorou (e muito!) aquelas cenas, não poupando esforços em encontrar defeitos onde nunca antes tinha visto uma virtude que fosse; quem gosta de opinar sobre factos viu a sua tarefa complicada porque o que tinha acontecido fora mau - apesar de não ter sido péssimo.


¬ e agora? o que é que vai ser feito de ti?
¬ agora, vou retemperar energias. as necessárias para as finais que se avizinham.
¬ «finais»? plural? mas quais finais?! não perdeste todos os acessos às ditas?
¬ fingi que as disputei. há mais de oito meses que ando em Batalhas de uma guerra só. finalmente chegaram as finais. doze pontos. todo o Céu por esses doze pontos.
¬ que os Aliados estejam connosco!


“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)

terça-feira, 17 de abril de 2018

hiperligação | 92º shooter : opus X - alive&kicking



ambiente próprio de um Clássico, quentinho qb e que se distingue de um ‘derby’ exactamente por isso mesmo.
no exterior estava tudo preparado ao milímetro e com atenção redobrada ao mais ínfimo pormenor, para que não houvesse violações dos perímetros de segurança, tão características por aquelas bandas e tão useiras e vezeiras pelos (in)suspeitos do costume. já no interior, tudo crepitava de calor humano, na ânsia de que o confronto tivesse início o mais rápido possível e os artistas surgissem para lhes satisfazer o seu ”glorioso” Ego. assim aconteceu e não foi preciso esperar muito para se perceber que seria um jogo disputado taco-a-taco.


a partida começou equilibrada, pese embora um maior ascendente dos da casa, apoiados pelo seu público, o qual rejubilava a cada vergastada infligida no adversário. é o que se diz de quem tem ”as costas quentes”…
já os forasteiros evidenciavam um manifesto incómodo por estarem a ser subjugados pelo arqui-rival e manietados na sua forma de jogar, tão característica ao longo deste campeonato (também) feito de E-toupeiras: pressão alta e jogo directo para os atacantes, poderosos no confronto físico com os defesas contrários. como tal não era possível, o pontapé para a frente foi o que mais se viu nos primeiros vinte minutos, para desespero do seu timoneiro, o qual não parou de se insurgir com os seus por não estarem a executar o plano de (pelo menos) uma semana intensa de preparos e de intenso trabalho.
apesar deste incómodo geral, o verdadeiro perigo tardava em surgir, até ao momento em que um deles surge isolado em frente ao último defensor e o obrigou a brilhar, parando um tiro que felizmente foi mal desferido e não causou mossa maior. foi esse o momento para que também houvesse retaliação por parte de quem não era bem-vindo naquela (espécie de) ”arena” e infligisse um pouco de ‘frisson’ na batalha.
chegados ao intervalo da contenda, o domínio da partida estava repartido e ninguém poderia afirmar-se superior ao outro – pese embora uns relatos enviesados de quem está acostumado a desvirtuar a Realidade e/ou a sonegar esta última a seu bel-prazer.


a pausa para retemperar energias foi benéfica para os que vinham de fora, os quais entraram com a ”pica toda”, resolutos em decidir a luta a seu favor. não se pouparam a esforços, impondo a sua lei e fazendo sofrer o adversário onde mais lhe doía: em sua própria casa. conseguiram causar dor, castigando-os com ataques fulminantes que tardavam em se materializar no que era tão desejado: a sua derrota. tal viria a acontecer mesmo no fim, pela parte de quem, em confrontos anteriores, fora alvo de chacota pelos adversários e inclusive de revolta pelos que também lutam pela mesma cor do estandarte. coisas complicadas de se perceber quando, na refrega de um combate, todos os que estão do nosso lado são válidos, para o tão necessário equilíbrio de forças…
em suma e para a História fica o resultado final: seis agentes feridos, sete detenções e o disparo de «tiros de aviso» por parte das forças de segurança.






aqueles números deveriam envergonhar, mais do que o mandante pelo apoio ilegal a esses «grupos organizados de sócios», que «nunca sube» da sua existência e que (literalmente) goza com o pagode – talvez porque usufrui de uma imunidade desportiva e de uma impunidade regulamentar como mais ninguém nesta República de bananas –, deveriam fazer corar de vergonha o responsável político pela gestão deste tipo de conflitos e que há dias afirmou «a Lei das Claques é ineficaz, não funciona. há poucos adeptos registados em relação ao número de clubes. queremos tornar a Lei eficaz». esse pamonha, se tivesse Brio, não só pelo cargo político que (ainda) detém, mas sobretudo pela sua pessoa, há muito que já teria resignado; pelos vistos e como o ”tacho” é apetecível, permanece em funções, num total desplante para com quem tem pedido Justiça neste ”faroeste” em que se tornou o comezinho futebolzinho tuga…


outra personagem menor do panorama político nacional e que se confunde com o desportivo, é o que, em tempos não muito idos, alarvemente disse «os grupos de adeptos organizados do 5lb deveriam registar-se para ficar como os outros [sic] mas, até agora, isso não tem sido um problema para o IPDJ nem para a polícia»…
alguém me pode informar se o sr Baganha já se demitiu ou se alguém já prestou esse favor ao País, no seguimento do que aconteceu nas imediações do antro de Carnide, e que envolveu os ilegais e assassiииos de Sempre? é para sossegar o espírito de alguns que invariavelmente alegam uma «invasão» ao Centro de treinos, na Maia e que, mais do que desconhecer a envolvente ao Estádio Vieira de Carvalho, ignoram a entrevista do actual Presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) ao DN, há um ano e que, entre outros considerandos, referiu que «não podemos dizer que eram elementos dos SuperDragões porque não se identificaram como tal ao Artur [Soares Dias]».



post scriptum pertinente:
para quem tem a paciência em ler os meus rudes considerandos e eventualmente estaria à espera de uma análise ao Clássico, peço desculpa pela desilusão mas há factores que não podem (devem?) ser sonegados porque se relacionam, de forma indelével, com o jogo que é praticado dentro das quatro linhas – e desde que o Caniggia se retirou do Futebol.



“disse!“

Miguel Lima | 92º minuto

(este espaço será sempre escrito de acordo com a antiga ortografia. limices.)