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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

O sermão do balneário (localizado fora da área técnica)

 

O local do advento

O jornal “O Jogo” revelou, em primeira mão, os detalhes da palestra do nosso míster, no intervalo da partida em Moreira de Cónegos. Nessa altura, o resultado cifrava-se num frustrante zerazero e era necessário mudar o estado das coisas. Como é que o balneário fica fora da zona interdita a um treinador castigado, é um pormenor que agora não interessa nada, pelo que foquemos na praticamente divina intervenção do líder que resultou na nossa vitória. 

Provavelmente por pudor ou por impedimento derivado do Código Deontológico a que estão obrigados os seus redatores, o jornal em questão informou apenas acerca de uma pequena parte do sucedido. A Tasca fornece assim, e em verdadeiro exclusivo, o relato de todos os acontecimentos, para deleite da sua vasta audiência, composta por vocês os quatro. Enjoy.

**********

O silêncio é entrecortado apenas pelo som do gorgolejo da água nas gargantas sedentas. Sim, um tipo pode não jogar nadinha, não quer dizer que não desidrate. O aviso fora dado logo após o apito: o mister vai ao balneário! Ninguém se atreveu sequer a descalçar, quanto mais a tomar um duchinho rápido, mudar de camisola ou meter a tocar a Perra. Mas o homem entrou calmo, passeou o olhar pelas cabeças baixas, olhou em volta como quem procura e, num ápice, alguém lhe empurrou uma geleira e ele tomou assento. Falou: 

- Tu, o grandalhão que não sabe saltar, vais fazer que jogas mais 10 minutinhos, para enganar os lorpas. Martins, aquece que vais entrar. Entretanto, e mais importante, vamos lá à mudança estratégica e à definição dos momentos que nos levarão à vitória. – As cabeças levantaram-se, salvo seja, e todos os olhos se fixaram no profeta. – Então, entra o Martins para o lugar daquele amigo que estava apto, mas era para os paralímpicos, e passamos ao nosso querido sistema de 442 x 424 / 3124 + YZK x Bola Parada, estamos entendidos? – Todos se apressaram a acenar que sim. – Muito bem! – Concluiu.

Levantou-se, tirou uma água da geleira e voltou a ocupar o seu lugar. Continuou: 

- Vamoláver, se isto lá prós 10 minutos estiver na mesma, deixamos os gajos marcarem, tiramos o matulão e metemos um gajo que faça ideia do que é uma bola. Nem precisa de jogar mais de um quarto de hora, caramba. – A sala encheu-se de murmúrios, de espantos, mas nunca de contestação. – É isso mesmo. Arranja-se um golito estúpido para eles começarem a defender ainda mais e a gente partir imparáveis para uma vitória épica, mais uma remontada que nasce aqui, no balneário, à conta do gajo do costume. – Palmas. Inicialmente tímidas, depois mais convictas, a terminarem em ovação, com alguns de pé. O líder faz-lhes sinal que se acalmem, que se sentem, há mais. – Para isto resultar, é preciso que estejam muito atentos. Ora bem, o Eutávio… - Interrompem-no: 

- É Eustáquio, míster.

- Quem? Epá, fica Estevão. O Estevão… - Outra interrupção: 

- É Stephen, mister, desculpe. – Já muito corado.

- Isso é em estrangeiro, em português é Estevão e o estrangeiro fica à porta do Olival. Aqui somos todos um, todos iguais, imortais e tal, por isso, és Estevão! – Irrompe de novo a sala em aplausos e vivas e gritos de guerra. Alguém começa a assobiar o Amor Eterno. Ele grita:

- Caluda, foda-se! E tu, oh índio, põe-te na alheta que ninguém te vai comprar cds. Continuando, o Estevão vai recuar para a posição do pinheiro, mas, ao mesmo tempo, vai adiantar-se uns 15 metros. Tás com o braço no ar, Estevão. Diz lá. – Um tanto impaciente. 

- Oh mister, se eles estão lá todos atrás, se eu me adianto 15 metros vou estar praí dentro da área ou assim. Para além de que não estou a ver como é que recuo, adiantando-me. 

- Por isso é que eu é que sou o mister, percebes Estevão? O que é mais importante é que sejas incisivo, tájaver? Ali pá, tau – faz um golpe de karaté na palma da mão – incisivo, muitíssimo incisivo, muito forte naquilo que é ser incisivo.

- Mas isso é o quê, mister? Devo dar pau? Correr mais? É fazer o quê? 

- Oh Deus me valha, que tristeza. – Vira-se para o staff – Alguém aqui sabe canadiano? Precisamos de um interprete para este gajo. Não apanha uma, foda-se. Incisaive, aincisive, como é que queres que te explique melhor? Há aí alguém de O Jogo? 

- Ah, sim, já percebi! – Bate as palmas. – Incisivo, sim, estou a ver, perfeitamente claro, pois é evidente, desculpe mister, está esclarecido. Muito bem, brilhante. 

- Ora até que enfim. Mas isso não chega. Como vamos tirar o aleijadinho, vai para lá o Pepe. – Surpresa geral. Alguém diz, a medo, “o Pepe está na bancada”. Baixinho, um aventura-se:

- É Pêpê, professô.

- Outro que não fala português – exaspera-se – Bem, não interessa, és tu mesmo. E o que tu vais fazer é jogar a lateral direito. Mas vais surpreender toda a gente porque vais fazer cenas que só um lateral direito faria. Exceto defender bem, a ver se eles marcam, ok? 

- Qué djizê qui preciso djivi sempri pra dentro não? Pro meio da confusão e posso até - benze-se e beija a tatuagem do santo padroeiro dos laterais direitos da seleção do Brasil - i na linha e cruzá? – O rosto iluminado de alegria e esperança. 

- Pá, por mim tá tudo, desde que não te esqueças de meter uma bola a ressaltar num defesa, de maneira a que chegue ali ao moço do Uber para ele marcar, ok? 

- Eu vou marcá, professô? – Incrédulo. 

- Pois claro que vais, se te estou a dizer. E ali o lampião vai fazer uma assistência que até ficas parvo das vistas. Tá tudo controlado, amigo. Aliás, até marcares, podes tirar o cavalinho da chuva que não sais. 

- Mais…mais…tô pegando no duro lá no Ubé ais… - Um gesto de mão do comandante cala-o: 

- Já disse! Depois de marcares, podes ir à tua vida. Vá, agora vou andando, antes que vocês comecem aí aos berros e a bater no peito e o cuaralho que já não tenho pachorra para essas merdas. Andor lá pra dentro dar a volta a isto. 

- Mas está zerazero, Sérgio. 

- Ainda, Vitor, ainda… - E deixa um rasto de luz enquanto se encaminha para o camarote que lhe esteve destinado. 

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Agora vão dizer que eu inventei isto tudo, mas eu e o O Jogo sabemos bem que foi exatamente assim que se passou.

...tell me what you see

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Mensagem


Perdida numa mesa por limpar, uma folha rabiscada frente e verso. Tanto quanto podemos saber, pode ser uma carta de amor, uma lista de compras do senhor Monteiro da Silva, o rascunho do tratado de paz dos eslavos, as instruções de montagem de balões meteorológicos, o esboço do Nobel, um poema de Fernando ou de Álvaro ou de Alberto ou de Al ou de Alexandre, Eugénio, Luiz, sei eu agora quem foi o último que por cá passou. Ah, talvez não devêssemos, é um perdido privado, quem somos nós para o profanar?

E suportar esta curiosidade que nos mata, gatos todos? E se for um rato? Dane-se, leia-se:

*******************

Caro Rui,

Completaste na CNN o teu milionésimo centésimo décimo quinto solo de veneno contra o FCP e mesmo assim continuas a encher a boca com a verdade desportiva. E não só, mas o resto não é para aqui chamado.


Achas que continuas a ter tempo de antena porque a audiência é composta por mentecaptos; ou porque dá jeito manter a soldo um cabotino como tu, sempre pronto a ajoelhar perante a nota mais alta? 


O teu comportamento público só é possível de sustentar porque isto em Portugal é uma palhaçada. Pessoas que se cansam se pensarem, media tomados de assalto por múltiplos interesses, adeptos conformados nas suas manadas, quando não em matilhas, um autêntico paraíso para invertebrados de risinho trocista.


Podes dizer, Rui, que a vida está difícil para todos e que apenas aproveitas o baixo nível de instrução das hordas. Talvez. Mas não te queixes do sistema, porque ele tem sido o teu ganha pão. Sabes qual é a maior prova disso? O facto de andares de nenúfar em nenúfar, qual elefante zonzo numa loja de porcelanas, e em nenhuma ocasião seres melhor do que bastante medíocre. E não me venhas dizer que não notas, porque todos os dias deves dar graças a Deus por viveres num país de tapados. Isto aqui, como sabes também, está tudo contaminado e bloqueado.


Imagino as gargalhadas que dás em frente ao espelho, apesar da dor de seres mais baixo do que o Rui Barros e mais redondo do que o Walter, cada vez que acabas um programa. Compreendo, tu tens muitas razões parar te rires disto, nem que seja por te lembrares que um dia, por mera conveniência, a própria comunicação da tua Nemesis te citou.


Mas digo-te, deixa-te de ilusões, Rui. A estupidez não dura para sempre. Nunca serás um profissional de primeira, mas faz um favor a ti próprio e a quem gosta de futebol pelo futebol: dedica-te à pesca do ananás panado em gravilha e…olha, diverte-te com ele.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Notícias da Tasca

Cambada,

Foi publicada uma nova crónica no Zero Zero. Sobre bola, pois claro. Podem ler aqui:

Olha, afinal pode-se!

Conforme esperado, recebi bastante amor. Curiosamente, entre toda a indignação e protestos contra a minha parcialidade - como se ter um emblema colado às trombas não lhes fosse suficiente para perceberem - nenhum dos carinhosos comentadores se atreveu a desmentir um - UM que fosse! - dos factos e argumentos apresentados. O melhor que conseguem é repetir que o Sérgio Conceição é mal educado e devia ser castigado. Sim senhor, para penalty roubado não está mal. Valha-me a Santinha!

No menos participado Quiz de que há memória na história dos Quizes realizados em blogues que são Tascas, tivemos uma vencedora. Desconfio que ganhará todos, pelo que pensei em impedir que participasse. Depois ela abriu-me os olhos e chamou-me pelo nome, em vez de Amor ou assim, e eu mudei de ideias. Quem pode manda, quem não pode bate palmas. Ainda estou a ovacionar!

O Quiz é o post anterior aqui do tasco, a vencedora é a freguesa Queen Bee e a resposta certa era:

Living on a prayer


O prémio já foi entregue 😏 Está claro que para futuros vencedores teremos outros prémios. Podem voltar a vestir-se, ohfaxabôr.

A gente cruza-se, hasta

domingo, 21 de março de 2021

Desconfine-se




Vamos estabelecer em junho de 2019 o fecho por tempo indeterminado destas portas. Ao longo de quase 2 anos viemos cá muito de vez em quando limpar teias de aranha e o bolor das madeiras, deixando os respetivos registos. Entretanto, andámos ocupados, cruzámo-nos no éter de A Culpa é do Cavani, eventualmente numa ou outra crónica no Zero Zero, numa banca montada no Twitter para arrotar alarvidades sortidas e meteu-se uma pandemia. Na Tasca ficou o esboço do inicio do CLSVO, na esperança de que um dia qualquer ele possa prosseguir. E foi tudo.

Nesta altura, o que me ficava bem era dizer que tive saudades vossas. Tantas que me decidi a limpar a sala, abastecer a arca, encher o pipo. Mas a verdade é que a Tasca abriu para um cliente único, no máximo dois se o seu objetivo se concretizasse, e demorou-me muito tempo a acreditar que eram mais. Que éramos mais. E ainda mais tempo para que isso me fizesse alguma diferença. Seguramente que foi muito mais rápido perder-vos. 

Mas hey, o cliente original está cá por inerência e já me dá tanto trabalho que nem queiram saber. E o segundo eu sei que nunca abandonou. Ás vezes passo a arejar o tasco e noto os resquícios do perfume, a estranha leveza do ar, o cérebro a disparar num remoinho de endorfinas e tudo é luxúria por um instante. Uma vez que tem a chave da porta, mais do que apenas eu seremos sempre.

A arrumação está feita. Encontrarão, ali na coluna do lado, o Cavani . O futebol estará todo lá e no Zero Zero. Eu bem sei que era por ele que os mais de vós cá vinham molhar o bico e prometo publicar as crónicas depois de saírem no portal. Se me quiserem insultar de forma mais personalizada, visitem-me em @atascadosilva, naquela coisa do pássaro azul.  A Tasca será para o resto, será para mim. Para nós, meu amor, eventualmente. E outros serão bem-vindos porque a porta estará aberta. Durante quanto tempo, não sabemos agora e não saberemos depois e pouco nos importa.

Continuo muito tentado a escrever que senti a vossa falta. É certo que tive saudades do senhor Monteiro da Silva, da Zubaida, do Berto Faz Tudo, do Velho dos Sapatos, de flirtar com a vizinha, do Paulinho e de mais uma série de maduros e gajas bem boas que foram povoando o sítio. Pronto, eu confesso, tive saudades, sim. Minhas.

A aparelhagem - isso! - continua no pequeno estrado, no canto escuro, pronta para tocar o que lhe dermos a beber. Vamos abrir como há muito tempo, éramos novos e é provável que o FCP tenha sido campeão. Olá, malta!



sábado, 19 de dezembro de 2020

Eu joguei à bola com o Samuel!

Gamado em Portugal 80s Metal


Se fosse um filme, talvez a vista fosse da estratosfera. 

                                                         (Meh, mais para cima. Isso, mais para cima. Recomecemos.)

Se fosse um filme, abriria com uma imagem da superfície vista da mesosfera - vá lá, a mesosfera está muito bem, chega perfeitamente para o propósito - e a câmara desceria a velocidade vertiginosa, quebrando a barreira do som e ignorando a estratopausa, detendo-se abruptamente

                                   (Defina-se abruptamente: um salto de bungee sem ressalto. É este abruptamente)

                                                     sobre um pátio de cimento perdido no meio dos prédios que se amontoam ao calhas. Uma espécie de clareira sem serventia de qualquer espécie, dado o aviso sério no momento do aluguer: não é para utilizar! Porquê, nunca saberemos e nunca souberam os arrendatários. Talvez fosse, seja, uma mera pausa urbana. Um improvável suspiro de betão, o alvo perfeito para uma câmara que descesse vertiginosamente da mesosfera, à procura de um local para se deter. Abrupta.

                                                                 (É sobre pátios, isto? Para inicio já vai quase a meio. Adiante!)

Dois miúdos comunicam-se sem se ouvirem, separados por metros horizontais e verticais. Digamos que se gesticulam na diagonal. Por sorte, sabemos a idade exata de ambos: o da marquise de baixo, rente ao pátio, tem 12 e o outro, o da marquise de cima, penúltima do prédio vermelho, tem 13, embora seja consideravelmente mais baixo. 

Acontece que o dilúvio dos últimos dias parece ter tirado uma folga, como que encontrasse o seu próprio pátio inútil, e isso talvez abra uma janela de oportunidade para que se cumpra o planeado jogo grande. O que se dizem, mais por quererem crer do que por honestidade intelectual, é que já não chove assim tanto, está bom até, bem bom, um dia de praia quase, um pouquinho nublado talvez, mas esta cacimbazinha até ajuda que isto não é para meninas. No fundo, estão a fazer figas para que não volte o granizo ou os pingos grossos que fazem barulho e que chamarão a atenção das mães no exato momento em que gritarem "xauxau, é hoje o jogo e já venho, está um calor do caraças". Se lá fora houver um pingo de silêncio nesse instante, passarão despercebidos e safam-se com um "isséonde? vais para a escola a um sábado? se fosse para estudar... vê lá não te magoes e ai de ti que chegues tarde". As mães têm mais o que fazer, já se sabe, mas são bichos muito atentos aos barulhos. Se lhes parece que caem pedras de gelo do céu, tendem a embirrar bastante com os petizes que se aprestam para sair de casa em calções, manga curta, meias pelo joelho e sapatilhas de lona. Mormente ao fim de semana.

           (Eheheh, agora pensei: chuteiras. Vê tu o disparate, serem sapatilhas de lona não era nada mau.)

Paulos os dois, mas o mais pequenito só responde pelo nome nas chamadas dos professores e no pouco tempo em que tem companhia em casa. No resto dos dias é Cuca. Estupidamente alegres e aliviados, encontram-se na esquina e iniciam a subida. Será sempre a subir nos próximos 15 minutos e depois uns 5 a descer, até à Escola Secundária da Falagueira. Estes vêm do lado da Brandoa e são os únicos desta proveniência. Se nos pudéssemos afastar desta condição de narradores observadores - e não podemos, é certo - perceberíamos quão irónica seria a preocupação daquelas mães com o estado do clima, a roupa ou uma ou outra canelada bem assente num jogo de futebol, tendo em conta que os seus rebentos crescem á solta e por sua conta nestas ruas. Que são suas. E é seguramente isso que os fará sobreviver, ou não, aos anos que faltam para as largarem. Ou não. Outros virão do lado da Amadora, percorrerão o Bairro do Bosque, a Falagueira, meterão os pés na lama do caminho recém aberto, até entrarem pelo portão principal. Do outro lado, o portão é secundário e já tratámos - digo, trataram - de o violentar as vezes suficientes para que permaneça eternamente aberto. Como se quer, afinal esta é a casa do conhecimento e deve estar sempre de portas escancaradas.

É o primeiro jogo do primeiro campeonato do primeiro ano de funcionamento da ESF. Estranhamente, o que nos traz a esta memória estupidamente - e surpreendentemente - vívida, é música e não futebol. 

A escola vai do sétimo ao nono. Quem não souber a enorme diferença que vai entre os 12 e os 15 é porque teve uma infância muito esquisita. Isto decidimos nós, narradores observadores e, por inerência do cargo, gente que manda nesta prosa.

Sabemos a idade dos nossos, diremos dos outros que são o nono uma merda qualquer, provavelmente uma letra. De um lado a Associação Recreativa dos Desvalidos e Enfezados da Vida, do outro o Sport Clube Matulões Namorados das Gajas Boas Todas. O maiorzito dos nossos Paulos é um Cuca em comparação. Mas é canalha que enfrenta a chuva e que todos os dias mete os pés na lama. Se vêm do lado destes, aprenderam o caminho por entre os buracos de esgoto sem tampa, sob o lençol de água que os cobre em dias de chuva. E o que tem chovido, senhores.

                            (Já que falas nisso, havíamos de ter t-shirts a dizer "Eu sobrevivi à ESF". Espera, espera, melhor: "Eu fui o primeiro a partir um vidro na ESF". Ah não, foda-se, isso foste tu.)

Os bonzões passaram metade do jogo a recuperarem da surpresa de os pequenitos terem sequer aparecido em numero suficiente para jogar, outro terço a tentarem sacudi-los das pernas, enquanto procuravam a bola no meio das poças de água no saibro. No terço que falta, marcaram, salvo erro, dois golos e sofreram um, sabe-se lá como. Fim. 

Regressam a casa saídos direitinhos das 20.000 Léguas Submarinas. E isto tudo não interessa para nada. Até porque um dos nossos reencontraria um dos deles, anos mais tarde, na final de outro campeonato muito mais sério e ganharia tranquilo. Embora a partir do banco, mas quem é que está a reparar?

O que nos importa mesmo é que um dos Matulões se chamava, sabemos hoje, Samuel Lopes. Irmão de João Carlos Lopes. Naquele campo de saibro, cheio de poças e lama, num ambiente de autêntico desastre aquático, inadvertidamente, tinha o primeiro contacto com algo que viria a ser uma parte importante da minha vida e de quem sou: Heavy Metal

Se o Samuel já sabia na altura que seria baixista dos Satan Saint's, não faço ideia. Assim como não sei se o João já tocava baixo ou se tinha noção de que seria membro dos míticos STS Paranoid.

                                          (Fast forward to Pigalle, por favor)

...

O Café Pigalle, na Amadora, era o poiso da malta da Secundária e dos metaleiros em geral. Diga-se que a Linha, que não a benzoca de Cascais, mas a clandestina de Sintra, era - é? - uma autêntica incubadora de bandas. Daria origem, e fica já aqui o spoiler, à maior banda da história da música portuguesa. E isto não é aqui o estúpido a exagerar.

A Falagueira ficara para trás no 9º Ano, sendo que o oitavo marcaria a conversão definitiva desta Alma ao metal pesado. Chegar à Secundária da Amadora e, ainda mais, ao Pigalle, era como ser admitido no Paraíso. Bebíamos cerveja, jogávamos snooker, trocávamos cassetes, invejávamos as importações de quem conseguia discos de jeito e conversávamos com gente das bandas, com admiração e uma pontinha de inveja. E sim, havia muita droga disponível, tanta que não tinha aquele encanto de "coisa proibída", era antes o mais vulgar, a regra. Talvez me tenha valido já este espírito embirrante de não querer fazer o mesmo que as maiorias. Uma espécie de gajo cagão, vá.

Do Pigalle partíamos em bando para a estação, enchendo as gaiolas dos comboios, espaços onde os picas preferiam não entrar - putos estúpidos, de napa preta, pulseiras e braçadeiras de cavilhas, longos cabelos alguns e muito haxixe - em direção ao apeadeiro do Rego e à nossa outra casa: o Rock Rendez Vous. 

É muito provável que tenhamos sido nós a perder a nossa sala, pelo que sofria a vizinhança nos dias das sessões Metal Army e afins. Íamos ao Rock para afirmar uma cultura, para confrontar e chocar nas ruas, para partilhar em irmandade dentro das nossas paredes. Reparem, Portugal em meados dos 80's: tínhamos um sítio que organizava festas onde íamos para ouvir música a que não tínhamos acesso e, em encanto, ver vídeo-clipes e filmes de concertos!

Daqui nasceria a ideia do Metal Lusitano, uma série de concertos com as grandes bandas da época - Tarântula, STS, Satan's Saints, Procyon, Black Cross e outros - que daria origem ao primeiro álbum do Metal Tuga, um duplo ao vivo, resultado das referidas atuações. 

Perdi os Satan Saint's, o Samuel que me desculpe, mas estive em todos os outros, arranjando 300 escudos à semana, poupando na comida no bar e na cerveja no Pigalle, para celebrar ao sábado à tarde. Sim, era à tarde. O disco nunca foi editado.

... 

Toda a experiência dessa época não pode ser resumida aqui. Há um livro à espera de ser escrito sobre o que foi viver aqueles tempos e tenho consciência que muitas das referências deste texto não farão sentido para quem não esteve lá ou para quem não viveu naqueles locais. Mas esse não era o propósito, a ideia era apenas explicar que, ao contrário do que é habitual na nossa frágil lusitanidade, a música da minha vida tem raiz nacional. É claro que a as primeiras músicas que ouvi eram Maiden e Scorpions, a minha banda favorita - até porque alinhava com a rebeldia da persona - eram os Motörhead, mas a vivência eram os STS no Rock, os V12 e os Ibéria no Ferroviário do Barreiro, o Festival no Central Park da Amadora. E era feliz.

Estes passeios pela Memory  Lane deixam-me sempre - quem não? - nostálgico qb. 

Lembro-vos a todos, irmãos. Lembro-me do gajo meio anão e coxo, mais velho do que nós, que respeitávamos e admirávamos sem reservas, pelo que sabia da música, das bandas, pelo gozo que nos dava falar com ele e também porque nos pintava os olhos à Alice Cooper ou o rosto como o King Diamond. E depois íamos para o meio de centenas de pessoas e suávamos; e apanhávamos os transportes públicos para casa no inicio da noite; e aquela merda esborratava toda e escorria e a mãe quase lhe dava uma apoplexia quando me abria a porta. E um estalo, isso também dava.

Eu joguei à bola com o Samuel e cresci nas mesmas ruas que o Fernando Ribeiro. Eu cresci no metal e na Brandoa, como a maior banda de todos os tempos da música portuguesa: os Moonspell. 

Deal with it! \m/

...

Quem tiver interesse em saber - ou reviver - mais sobre estes épicos dias, não pode deixar de visitar o blogue Portugal 80s Metal e o canal Youtube MetalPortuguêsTV.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

A Mesa do Canto: O som do silêncio (notas do correspondente em Madrid)





Nota-se logo que estamos à beira da Páscoa. Um tipo não pode abrir o postigo para aviar umas bifanas em take-away que aparece logo um espanhol. Chiça, oh homem, fale de longe que vocês se perdigotam bastante, coño. Olhe, ainda melhor, pegue lá esta resma de papel e escreva aí o que quer que eu depois recolho. Grandes saludos e tudo e tudo.

E ele escreveu.

...

Conseguem ouvir? É o silêncio, o bendito silêncio.

De todos os dramas e tragédias sai sempre algo positivo. silver lining, dizem lá para terras americanas. Nestas últimas semanas, para os que gostam da bola quase tanto como gostam de liberdade, o triunfo tem sido o silêncio. Já não se ouvem aqueles intermináveis zumbidos catatónicos de painelistas e opinion makers, em horas e horas de tertúlias e shows televisivos dedicados ao futebol. As contas dedicadas a espalhar ódios, mentiras e polémicas, a soldo dos clubes ou de interesses turvos, estão caladas. Os ultras, dedicados a perseguir os companheiros de clube que não pensam como eles são agora tumbas. E diz que o Manafá está a ver vídeos do Beckham para melhorar os centros. Pelo menos a bola já não anda a partir as janelas dos vizinhos. 

Na cultura de mediocridade criou-se a sensação que esta gentinha sem escrúpulos, que funciona como sangue-sugas, é parte do jogo, parte fundamental. Eles gostam de acreditar nisso e a muitos têm deveras enganado. Mas os que temos saudades de ver a bola rolar, os que andam a ver jogos antigos, a jogar jogos virtuais e a sonhar com tocar ou ver mexer o esférico, finalmente perceberam que esse esterco não tem lugar no futebol. Que sem eles tudo é mais saudável. Porque tudo isto tem mostrado que nós, os adeptos, os que não lucramos nada com isto do jogo e que até perdemos dinheiro, paciência, anos de vida ou cabelo à custa do stress que ganhamos quando a bola chega aos pés daquele lateral que não sabe centrar, temos descoberto neste vazio que somos quase todos iguais e que é muito mais aquilo que nos une, como adeptos, do que aquilo que nos separa. Ao invés do que uma cultura de ódio sempre quis fazer crer.

Ao contrário do dono desta tasca, sábio a gerir o seu tempo livre, eu perdi muito do meu a ver jogos. O FC Porto é o meu clube desde que tenho memória e, só ao vivo, devo ter visto mais de duzentos jogos, para não falar nos televisionados mas, realmente, essa percentagem é pequena se comparar com os milhares de jogos que vi desde tempos imemoriais até há três semanas atrás. E sabem o que me chama sempre a atenção? Que somos todos iguais. Somos, os adeptos. Ouvimos no estádio cânticos que a claque copia de italianos dos anos 90 (vejam um Fiorentina vs Lazio de 98 e vão entender), todos achamos que nós somos o clube da mística, da raça, de fazer as coisas bem, todos nos sentimos especiais ao abraçar um emblema, umas cores. Todos repetimos o mesmo discurso, porque todos estamos apaixonados e a minha mulher é a mais bonita do mundo e de certeza que é mais do que a tua (que não deixa de ter umas boas coxas, atenção) e fazemos isso desde a crença, desde a positividade. Encontramos, ou encontraram por nós, slogans em que acreditamos a pés juntos, mas repetimos todos o mesmo padrão de comportamentos dentro e fora do estádio. 

Os roubos são sempre CONTRA nós, os árbitros são sempre comprados pelos OUTROS, os meus jogadores são os melhores e quando são maus são os piores. Como assim o teu lateral direito é pior do que o meu? Todos tivemos ídolos que foram os maiores, decepções que foram as piores, transferências recordes porque nós é que valemos ou negócios que falharam, porque nós é que sabemos negociar. A frase é sempre a mesma, muda a cor e nada mais. 

Sentem-se a ver tranquilamente um jogo ao lado de alguém de um clube rival e vejam como são vocês, a cruzar o espelho como a catraia. Não há rivalidade sem futebol e futebol sem rivalidade. É saudável e alimenta a alma. mas vejam The English Game e entendam que até no início havia rivalidade. Mas também união. Há países onde isso se perdeu, outros onde nem tanto, mas essa é a realidade e para interesses próprios foi substituída pela cultura do ódio. 

Há uma diferença. Eu posso sentir rivalidade com um clube, querer que perca para que o meu ganhe (ou para que perca, simplesmente) mas isso não significa que os odeie ou que sofra se cumprirem os seus sonhos. Há que amar e empatizar com o próximo (namasté). Mas esse ruído sujo e lamacento que agora, curiosamente, não se ouve, tem-vos dito que aquele presidente é um malandro, que aquele treinador é uma besta, que aqueles adeptos são TODOS – sejam 5 ou 5 milhoes – uns animais e que tens de carregar no botão do ódio e ir vomitar para as redes ou para as bancadas esse peso. E não tem que ser assim. Estas semanas demonstram-no bem. Tenho visto, admirado e invejado, no bom sentido, como existe em outros clubes que não o meu uma bonita cultura de clube, gente com projetos bem estruturados, independentes, dos adeptos, que estão a matar este imenso tempo livre com amor ao clube. Não a vomitar ódio ou dissidência, mas a criar comunidade, seja entre os seus, seja entre os que gostam de bola. E é bonito, seja qual for o clube de cada um. 

Mas depois faço introspeção e olho para casa. E vejo quase só silêncio. O mesmo silêncio do início, desse esterco ambulante que contaminou o ambiente durante anos e que não existe se não há ódio, confrontação e luta. E penso nas contas de redes sociais caladinhas e quase todas são da minha cor. E vejo que noutros clubes há muita gente que polemiza que agora se está a dedicar a falar do jogo, da comunidade e olho para o mundo azul e branco e vejo pouco e ouço pouco. Não há praticamente projetos que façam clube, comunidade entre os meus. Não há quem recupere a história para que ninguém esqueça que sempre fomos um clube maravilhoso, mesmo antes de 1978. Não vejo canais de YouTube ativos, raramente há podcasts que debatam o clube e a quantidade de contas tão ativas a denunciar polvos e padres e dramas, andam caladas quando podiam estar a falar do Hernâni, do Bibota ou do Alenitchev. E chego à conclusão de que se calhar há clubes que nunca perderam a noção de quem eram e outros que abraçaram tanto a cultura do ódio, do confronto e da luta que em tempos de paz não sabem atuar. 

Foi-lhes dito que só se olha para o presente e para a frente e muitos idolos saíram sem o seu merecido aplauso. Apagou-se uma enorme parte da historia do clube porque não encaixava na narrativa da neolíngua e agora as pessoas esqueceram. A mordaça que rodeia grande parte do clube atontou os adeptos que são incapazes de se organizar e mexer, sem que tenham de passar pelo filtro de nós contra todos. É comê-los, carago! E tudo isso importado de outros lados porque aqui ninguém inventou nada. 

Numa época em que todos estamos a perceber que valemos uma merda, que a nossa vida e a dos nossos pode voar sem se dar por isso, é ainda mais doloroso lembrar que quando se marca um golo no Dragão ainda há quem se lembre primeiro de um rival e depois de si próprio. Se esta crise humana brutal nos está a ensinar algo, é a colocar tudo no seu devido sitio e o ódio e a falta de empatia e amor deviam ficar definitivamente à porta, sobretudo de um estádio de futebol. Mas, se calhar, é por estar rodeado de pessoas a morrer e não a tomar um café na marginal de Gaia que me dá para pensar nestas coisas. Se calhar. Bota lá mais uma que nesta tasca até o silêncio é diferente.



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sexta-feira, 7 de junho de 2019

Balanço 18/19 - III: Future World



Nas últimas eleições defendi, acertadamente, como é evidente, que Pinto da Costa se deveria recandidatar e, está claro, ganhar. Porque me fazia, e ainda faz, sentido que tivesse um mandato que lhe permitisse arrumar a casa, sair do jugo da troyka uefeira e retomar o ritmo de vitória. O que, per si, significaria combater com sucesso a lama pestilenta em que chafurda toda a nação. 

Defendi igualmente, com o mesmo acerto, que estas tarefas configurariam a grande missão do mandato: preparar o futuro. Já se vê que olhava para ele como sendo o último.

Hoje... penso da exata mesma forma, ainda que pouco do que advoguei se tenha cumprido. A casa está pouco mais ou menos na mesma, mudando uns nomes aqui e ali; a uma vitória não se seguiram outras; e o Presidente não parece ter preparado o caminho da sua sucessão. Da questão financeira, creio, apesar da minha confessada inépcia para a função contabilistica, que vamos saindo, Não sendo fácil, é o mínimo que se exige aos que aqui nos trouxeram.

É evidente que Pinto da Costa será o eterno presidente do FCP, mas isso não teria forçosamente que se cumprir de forma executiva. Mas vai. Kind of...

Isto para dizer que não se me afigura provável que haja um plano. Há coisas que acontecem, oportunidades e ameaças a que vamos reagindo, umas vezes melhor, outras nem tanto, sem que se vislumbre um propósito estratégico ou a proatividade enérgica que nos leve a criar o nosso próprio futuro. Vamos cá estando, reagindo e adaptando, sendo pouco parte da mudança, mesmo que, e muito bem, nunca tenhamos abdicado da importância que temos e reclamamos. Queiram os octópodes desta vida ou não.

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Se vamos falar de bola, a situação é rigorosamente a mesma. Eu acho que devia haver um plano. Eu creio que não há plano nenhum. Há uma vontade, isso é indiscutível, haverá esforço e trabalho, certamente, mas navega-se à vista, enquanto a máquina vai funcionando. If you know what i mean.

Por mim, teríamos um modelo, uma espécie de Guia de Acolhimento transversal a todo o futebol do clube, que explicasse o que se pretende que seja um futebolista do FCP, quais as características que o devem distinguir dentro e fora do campo, quais as ferramentas que o clube lhe proporciona para que atinja a plenitude do potencial que lhe detetámos e, muito importante, qual a estrutura com que trabalhará. Quem manda, no que manda, em quem manda, com que objetivos. Enfim, accountability, transparência, propósito.

Faz de conta que neste campo restrito era eu que mandava chover. Teríamos uma coordenação geral, responsável por todos os escalões até à equipa B, liderada por alguém a quem, conhecendo o clube e o contexto, fosse reconhecida a capacidade para contribuir para a definição do tal “modelo de futebol FCP” e implementá-lo. Ou seja, criar o fio condutor, o elo, que tornasse formal e imediatamente evidente a transversalidade do modelo. Eu gostava de reconhecer a marca FCP em qualquer escalão da formação, independentemente de quem fosse o treinador. Ah mas isso até acontece, dirão. Talvez. De forma informal as pessoas vão-se acertando, dada a proveniência transportam alguns dos valores do clube, têm impressa a memória do que eles próprios viveram. Agora plano? No lo creo.

Ainda por cima, há gente perdida pelas Arábias e pela China a quem assentava que nem uma luva este papel. Malta que, empossada, não se deixaria engolir pela máquina, espero eu, como um Castro da vida. E, ao mesmo tempo, capaz de perceber que a função termina no degrau que antecede a equipa principal. Aliás, todo o seu trabalho tem como fim último o sucesso galáctico de um terceiro.

Ora, quem defende isto e se confessa adepto, sei cá, de um Oliver Torres, do bom do meu sósia Pep e assim por diante - mas também do nosso Mourinho, de Messi, mas igualmente de Ronaldo, com latitude para apreciar uns e outros - não poderia entregar o zénite desta estrutura a Sérgio Conceição. Quanto mais não fosse, porque teria toda a gente estado a bulir pró boneco. 

Ter um plano não significa acabar com a criatividade individual, significa apenas enquadrá-la e colocá-la ao serviço do que é comum. Reconhecer o génio, sim, mas ter claro que só é genial o que contribui para fortalecer e cumprir o propósito. O resto é foguete. Parecendo que não, fica implícita estabilidade e coerência. E é um modo de agir que se dá mal com estados de humor e truques de comunicação.

É mais ser o puto meio enfezado, de óculos, que tira sempre grandes notas e por quem ninguém dá um tusto quando chega a hora de andar à porrada. Da primeira vez. Porque afinal, vai-se a ver, o gajo sabe karaté e judo e krav maga e o caralho que os fodeu a todos. Um gajo com um plano.

Em resumo, dentro do que racionalmente eu defenderia, pelo menos de momento, a conclusão do post anterior não poderia ser outra: bye!

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Dá-se o caso de Pinto da Costa não estar nada de acordo comigo, o que lhe fica mal, já se sabe, e olhar para o próximo como apenas mais um mandato da sua já longa caminhada em defesa do FCP. Este não foi o último e o próximo também não será. Ao mesmo tempo, parece provável que continuemos com o plano de não ter porra de plano algum.

Assim sendo, a nossa única hipótese é ir lá na marra. Porque somos adeptos e queremos ganhar e fazer festas e não ter que levar com os outros a ficarem com as nossas alegrias. Vai daí, é apostar as fichas no que podemos fazer. 

Se não somos o puto com um plano, é melhor que sejamos o matulão cheio de músculos. Vamos sacar uma ou outra garina, belas prateleiras, excelente rabo e assim, que não terá paciência para nos aturar por muito tempo. Calha bem que também mudamos depressa de gostos e vontades.

A questão é que se não conseguimos ver um caminho pelo meio do nevoeiro da floresta, a alternativa é ir em frente. O que significa que é muito provável que espetemos com os cornos numa árvore. É bom que tenhamos uma cornadura grande e forte e hiperdesenvolvida, maximizando as hipóteses de ir a árvore abaixo antes de se nos partirem as hastes.

Quer dizer que duvido da aposta na formação, porque o que formamos não manda carvalhos ao chão à cabeçada; duvido que a política de contratações tenha o fito de preparar solidamente o futuro, sendo mais do que uma coleção de oportunidades; duvido que a equipa B seja o estágio à Ordem dos nossos melhores alunos, porque nem chegamos a ser uma escola organizada; duvido que tenhamos sub 23, libertando a B para aquilo que aparentemente se pretende dela: minutos para os A que não jogam e castigo para meninos que se portam mal.

Do que não duvido é que tenhamos uma equipa competitiva, cheia de garra e raça, unida, com fome de vencer. Não me parece que vá jogar muito bem, mas acredito que pode ganhar. É por isso que, mesmo eu, agradeço que Sérgio Conceição fique. Porque é o nosso melhor plano. É o único, na verdade.

Assim sendo, por justiça, há que convir que a renovação com o treinador é um lúcido ato de gestão. Bem o Presidente. Agora é assumir que lhe deve ser entregue a batuta, deixar claro, se não estiver, que Luís Gonçalves tem que ser um moço de recados do treinador, fazer o que ele lhe disser dentro do que a SAD quiser pagar e seguir a voz de olhos fechados. Nós cá estaremos para empurrar.

Espero que também estejamos, porque a altura virá, para julgar os resultados. E esses vão um pouco para lá dos títulos que se ganham. Radicam igualmente no potencial que reconhecermos para repetir as vitórias. Ou não?

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Entretanto, tudo começa com execelentes noticias: esta época não precisamos de ir ao Batalha para ter espetáculo! Uma vez que o preço do meu lugar anual subiu e já está ao nível do bilhete de temporada do São Carlos, tenho a certeza que me vão dar ópera todas as semanas. #SADbem

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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Balanço 18/19 - II: Trial by fire



Pois claro que é um orgulho os sub-19 serem campeões europeus e nacionais; naturalmente que é maravilhoso festejar os títulos do hóquei e do andebol; raios, venha até a natação, que ganha sempre qualquer coisa e ninguém liga nenhuma. Ganhou?; ah, e o bilhar, evidentemente, porque não queremos deixar o Figo mal visto.

Maaaaas, quando se calam as redes sociais, o Porto Canal, os grupos de Whatsapp e o cansaço me empurra a testa para a almofada, a enorme testa de melão que transporto, lembro-me dos meus amigos lagartos e das festas que foram fazendo ao longo dos anos. O passado aqui é que me fode, porque é o meu presente. Raisparta!

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Isto a propósito de ter dito a pessoas várias, aqui há atrasado - no dia menos um - que SC me fazia lembrar alguém. Uma aura Jesuíta, chamei-lhe. Isto dos podcasts é giro, porque depois se pode dispensar testemunhas.

Anos passados, devo desde já esclarecer que, para meu descanso, se confirma uma diferença abissal da qual, apesar de tudo, desconfiava: SC tem muito, mas em toneladas, mais classe do que JJ. Basta assim, não preciso de esmiuçar isto. Classe, em tudo.

Fiquei ainda muito agradavelmente surpreendido com outra característica que os demarca tão claramente que parece que foi lavada com Omo: SC gosta mais do FCP do que JJ alguma vez gostará dos clubes que treinou/treinará. Todos juntos. No contexto em que chegou e em que se vai movendo, no esgoto que é a nossa Liga, esta diferença é de uma importância vital. Creio que não teríamos ganho nada se ela não existisse. Bola!

A terceira diferença é ainda melhor: Europa! O nosso Sérgio quer ganhar. Sempre. Até a Taça da Liga, quanto mais as competições europeias. Sem pestanejar ou pensar na mossa que uma goleada pode fazer na sua imagem. Ao contrário dos que abdicam à partida e apostam apenas naquilo que lhes parece menos improvável poderem ganhar. Nisto também reside a capacidade que SC teve de reanimar o espírito do Dragão. Para lá da chatice da dança de abertura de época, espada incluída.

De resto, está lá tudo. A abordagem atacante ao nosso campeonato, embora com menos experiência e mais ilusão, o que leva a que se privilegie sempre o músculo à razão; o messianismo consubstanciado naquele “como isto estava antes de eu cá chegar!”; a culpa que é sempre de outro qualquer, mesmo enquanto se está a dizer “eu é que sou o líder, a responsabilidade é toda minha!”; o esticar jogadores para lá dos limites adequados; a incapacidade de perceber que fazer diferente não é ser derrotado nem revela pouca convicção; o facto de faltarem sempre opções de qualidade, jogadores que pediu e não tem e que deveriam ficar no lugar de jogadores que tem mas nunca vai utilizar. Porque não os pediu!; a gestão minuciosa dos momentos e da forma de comunicação, muitas vezes, que não todas, sob a capa da genuinidade, do coração ao pé da boca e da frontalidade; e, claro, o número de vezes que um jogador da formação tem que nascer para caber numa sua equipa. A menos que seja à força. Viva, Diogos.

Nesta questão da formação, diga-se que entendo. Dado o modelo e a forma de jogar, comparando com o que os miúdos aprendem no FCP ao longo da formação, dificilmente poderiam ser solução para uma equipa de SC. E era urgente ganhar! Na minha opinião, a Direção sabia disso quando escolheu o treinador e lhe pediu o que terá pedido. Se não sabia, é incompetente. Oh wait...

Posto isto, num país normal, fosse também eu normal e o futebol um desporto normal, a avaliação do trabalho de SC teria que andar entre o brilhante e o muito bom, sim senhor. Duas épocas de limitações financeiras: 1 título;  1 supertaça; 1 final da taça perdida nos penalties; 1 final da taça da liga perdida nos penalties; 1 presença nos 8 melhores da Europa e outra nos 16; segundo lugar no campeonato, em luta até à última jornada. Comparem lá isto aos anos anteriores. Como diria - e disse! - SC, como isto estava antes de ele cá chegar. Está claro que se esquece que “isto” vai muito para lá dele, envolve outros que também devem ter trabalhado melhor ou então - ah poijé bebé - nem puderam estragar, tão pouco era o dinheiro que circulava. Cá está um pretérito imperfeito que me assombra.

Só que há os adversários. O estado em que uns se puseram e nós conseguimos pôr outros, do qual tratámos no post anterior, não pode ser passado a pano. Na verdade, repito, em dezembro isto estava mais ou menos resolvido. Todas as características que analisámos antes se conjugaram, aliaram-se ao que deveria ser o último estertor do fétido polvo encarnado e deram uma bosta de proporções épicas. Ou seja, sim, há culpas próprias e, para mim, boa parte delas, atendendo ao contexto, são do treinador. De todas as outras está ele ilibado E, como sabemos, não são poucas, não senhor.

Este é o homem que não aposta em Oliver, que prefere sempre Fernando Andrade ou André Pereira a Adrian, que é possuído por NES quando olha para Brahimi, que opta por jogar, no campeonato nacional!, com Militão à direita, que baseia o seu jogo no duelo e na segunda bola. Sim, porque não podemos dizer que queiramos ser uma equipa basto criativa e que protege o Felipe dos seus escorreganços. E é isto que torna Marega imprescindível.

Se repararem, tudo o que mencionei só é uma crítica do MEU ponto de vista. Porque olhando ao que são as características de SC, faz todo o sentido. Quero com isto dizer que são escolhas coerentes e que entendo perfeitamente. E sim, são as mesmas que nos deram um campeonato que tínhamos absolutamente que ganhar. De todo o modo, não gosto delas. Por isso, a azia de agora ter perdido transforma-se em fúria. Mas vá, tenho noção disso, ao contrário dos que defendem o oposto e raramente, quase nunca, conseguem falar de bola. Só de espírito e raça e intensidade e quais são dos nossos e quais são contra nós. que é todos os que se atreverem a discordar, naturalmente.

E lá voltamos à Ordem dos Jesuítas. Eu sei bem o que disse quando JJ esteve perto de ganhar tudo e tudo perdeu. Lembro-me bem do que ouvi a minha gente berrar aos ventos: Aqui? Nunca seria possível! Rua, na hora.

Pois bem, aconteceu. Foda-se! Até o discurso do “excelente época, estivemos nas decisões todas, isso é que é!”, até isso - só mais tarde corrigido - aconteceu. Não sei se por se recordarem do que JJ ganhou depois disso, se por - e é mais provável - este ser dos nossos, lágrimas na derrota incluídas, o veredicto agora parece ser muito diferente. Conviria talvez recordar COMO JJ ganhou depois de ter perdido. Aliás, como o próprio ameaçou fazer a determinado bandeirinha, quando defendia outras cores. Amigos, esse tipo de reforço não teremos. Continuaremos a chafurdar na lam...na merda! de competição e de país que temos.

Ou será que alguém pode duvidar que, fosse Sérgio Conceição treinador do 5LB - ou venha algum dia a ser - já seria - ou virá a ser - um herói nacional? Elevado a mito, ao nível do melhor Mourinho? Que digo? De um Cristiano Ronaldo! Sendo nosso, e dos nossos, é tratado como um grunho. Que está longe, mas tão longe, de ser.

Por outro lado, não enfrentaremos um período de continuidade e estabilidade. Teremos que refazer a equipa e, com ela, o projeto. Se havia e vier a haver algum. Estaríamos pois em tempo de tomar decisões estruturais acerca do tipo de líder que queremos. Estaríamos! Porque não estamos, uma vez que a decisão foi tomada antes do jogo no Dragão contra o toupeiral corrupto. Está decidido, está decidido, mais à frente falaremos do que, para mim, isso deve implicar.

Não, não fugi com o rabo à seringa neste suposto julgamento pelo fogo: eu terminaria aqui o ciclo. Fim. Obrigado. Next please.

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domingo, 26 de maio de 2019

Balanço 18/19 - I: Flashback e Contexto



Direto. Diríamos grosso, porque sabemos que curto não será quase de certeza. Mas, tirando estes, sem floreados e metáforas e segundos sentidos. A Tasca agora é exclusivamente o que me apetece, quando me apetece e para o que me apetece. Desta vez é bola. Pura. Acabou a época e eu estou a ponto de sufocar se não disser umas coisinhas. Bem, umas quantas. Bastantes. Tantas que não me chegará a jornada de A Culpa é do Cavani que, certamente, tratará destes balanços. Por outro lado, tenho saudades de partilhar estas conversas com malta que, eventualmente, nem sequer ouve o podcast. Prontos? Na verdade, quero lá saber se estão. Eu estou! É quanto basta.

Por hoje, ficam as duas primeiras partes: Flashback e Contexto. Ficarão a faltar outras duas: Trial by fire e Futuro.


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FLASHBACK

Saberão, e se não sabem fica já dito, que não sou propriamente uma groupie do nosso treinador. Aliás, não o teria escolhido sequer. Até porque nunca percebi porque o deixámos cair num dezembro, para depois o trazer num agosto. Será uma questão de mês? Ou depende da graça de quem trás pela mão os negócios que fazemos? Pois que não sei, nem agora interessa nada. Como sempre.

Dito isto, estive à vontadinha para me deixar estar fora do band wagon que logo se montou. Aquela coisa do "ai pobrezinho que não tem jogadores, é uma cambada de pedreiros e de enjeitados da vida, como pode ele arranjar rosas se nem um papo seco lhe dão?", you know the drill. Defendi na altura, e defendo hoje, que, limitados que estávamos, mantínhamos argumentos para competir e ganhar. Como bem o provou Sérgio Conceição, ganhando um dos mais importantes campeonatos da história do Futebol Clube do Porto, impedindo o desígnio nacional de oferecer um penta de títulos, sujos e falsos, ao clube do regime. Tivemos pena, só que não. 

Sendo uma vitória de todos, foi sobretudo do treinador. Havia um esforço de denúncia feito pela comunicação do clube que abalou o gorduroso e fétido status quo, deixando, momentaneamente, o viscoso polvo sem saber como reagir, de gordo e pastelão que estava. Mas nada teria produzido qualquer efeito se não trouxesse consigo o Mar Azul. E no futebol, não há mar que resista à derrota e à resignação. Imaginem a época passada com NES. 

Por isso, Sérgio Conceição foi o grande obreiro daquela conquista. Não porque tivesse conseguido produzir qualquer milagre futeboleiro, mas porque conseguiu trazer de volta o espírito do Dragão - e poucos conseguiriam - e, ainda mais importante, somou vitórias, esse combustível infalível para a nossa chama. Pelo que leram acima, sabem que não posso ser mais honesto do que isto. Tendo perdido, teria a mesma responsabilidade de qualquer treinador do FCP que perde. Tendo ganho, é apenas justo reconhecer o papel que desempenhou nessa vitória: o principal!

Do lado da bola propriamente dita, nenhuma surpresa: fraquinho. Como todos, fui no Mar, dentes cerrados. Mas de olhos abertos. Não jogámos grande merda a maior parte do tempo. Mas hey, ganhámos! Vinha lá uma época toda nova, para crescer, equipa e treinador, e voltarmos a ganhar e, agora sim, começarmos a encantar. Está feito o flashback, vamos lá ao que importa.

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CONTEXTO


Já todos lemos, ontem, a última página deste livro, portanto permitam-me apenas que, para não nos perdermos, contextualize esse epílogo:

Em dezembro eu sentia-me Campeão Nacional. Bem me disseram pessoas ponderadas que era demasiado cedo. Malta dos números recordou-me o avanço desperdiçado no ano anterior. Mas eu sentia-me campeão na mesma, porque o espírito tinha voltado e, ainda que por motivos de força maior e, sobretudo, alheios à vontade do nosso treinador, o futebol ameaçava melhorar. E tínhamos seis pontos de avanço para o segundo à 16ª jornada. Sim, seis. Para o Braga! Sete para os lampiões, que vinham em terceiro, oito para o Leça, digo, os lagartos. Com quem, aliás, jogámos a última jornada da primeira volta, em Alvalade, e logo aí deixaram claro que, por eles, empatar todos os jogos contra o FCP estava muito bem. Virámos o campeonato com 5 pontos de avanço sobre o polvo. Juro-vos, ingénuo, achei que lhe íamos dar a porrada fatal.

Olhemos agora para os adversários. Em consequência do que era a demonstração de superioridade do FCP, o Padrinho entregou o campeonato. Fez uma retirada estratégica, despedindo o sonso Vitória para agradar às massas, arrumando o orçamento ao despachar as grandes estrelas que havia contratado na pré-temporada e nomeando um treinador interino que foi buscar à equipa B. Que me tentem convencer que tudo isto era para ainda serem campeões é lá com quem come gelado com a testa, eu não. Tenho claro que o Padrinho se preparava para passar meia época a preparar o ano seguinte. As palavras do novo sonso são prova bastante: não me pediram nada. E também não lhe deram nada. Ele que se arranjasse com os putos da B. Isso que agora chamam de "aposta na formação", "os meninos de ouro do Seixal", há menos de meia dúzia de meses era a direção a desistir do campeonato. Eles sabem que sim, eu li-os nas redes sociais e ouvi-os nos cafés.

Do Sporting da Covilhã todos sabemos tudo à saciedade. Até porque eles próprios - diz que pela mão do atual Croquete Mor até - fazem questão de passar para fora o que se passa no balneário. Sejam massagens com as mãos, abertas ou fechadas em punho, sejam festinhas com fivelas de cinto, enfim, o costume. Sem plano, sem treinador, sem equipa, lá se fizeram à estrada. São estas duas as equipas que em 2018/19 tiveram troféus para comemorar em Portugal. Nós não!

Em janeiro, o treinador pediu e recebeu um avançado versátil, um médio defensivo e um lateral direito. Do nada, chegou ainda um multi-titulado defesa central que, para mim, é o segundo melhor do plantel. O que se decidiu fazer com esta gente, não é responsabilidade de mais ninguém senão do próprio Sérgio Conceição. Acredito que preferisse Mbappé, Canté e Meunier, só para ficarmos em malta que fala francês, mas isso não pode ser razão para desperdiçar avanço para adversários no estado anteriormente descrito.

Achar que isto pode acontecer exclusivamente pelo ressurgimento em força do polvo vermelho, é contribuir para perpetuar este estado de coisas. É falso! Assim como a nossa força em campo o abalou, foi a nossa incompetência na relva que acabou por torná-lo relevante novamente. Não que isso justifique a batota. Nunca! Sermos fracos não implica que nos roubem para que outros, ainda piores, possam fazer de conta que ganham. Digamos que numa terra com justiça teríamos vencido apesar de nós mesmos. O que não nos tornaria melhores.

Nada apaga a pouca vergonha a que assistimos em Braga, em Moreira, em Vila do Conde, em Freixo de Espada à Cinta se fosse preciso. Como nada apaga o facto de termos perdido tudo para as equipas descritas acima. Porque aconteceu? Porque ao roubo instituído como normalidade numa Nação completamente falhada - que somos! - juntámos o nosso futebol: fraquinho. Perfect storm.

Quem decide do nosso futebol? Sérgio Conceição. Tendo perdido desta forma, é apenas justo reconhecer o papel que desempenhou nessa derrota: o principal.

Já fora do campo se adivinhavam sinais preocupantes. A Comunicação perdeu gás e quase pareceu uma caricatura de si própria, mesmo quando não esteve mais preocupada com interesses pessoais, porque de pessoas, do que com os do clube, numa espécie de roda-livre em auto-gestão. A verdade é que não há porque acreditar que antes houvera uma estratégia do clube, ao mais alto nível, depois colocada em prática por segundas linhas executivas brilhantes. Tudo teve sempre o ar de carolice e abnegação e fervor clubista. Como que por acaso. 

Portanto, é natural que em alguma altura se esgote.  E esgotou. Esgotou tanto que nos demos ao luxo de "calar" o treinador durante boa parte da época, no que toca às arbitragens. Aquele que, cavalgando a clara injustiça com que temos que nos confrontar semana após semana, trouxera de volta o espírito do Dragão, via-se desautorizado, em direto, por um qualquer invertebrado com tempo de antena. Por alma de quem o tem, não sei, mas gostava. Até porque depois tenho que aturar as redes sociais que acham que A Culpa é do Cavani não deve transmitir aqui ou acolá, porque são vermelhos ou encarnados ou rubi. Já esta contribuição, sei lá até que ponto decisiva, do canal do clube para a bela merda que foi esta época, epá, lá acontece, merdas que já se sabe, é correr com o gajo, siga. Siga tudo na mesma, portanto...

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terça-feira, 30 de abril de 2019

Panquecas, sempre!



Tenham em conta que eu sou um fulano que passa imenso tempo em comboios, em trânsito daqui para lá e volta. Nem sempre me dá para trabalhar, nem sempre me dá para dormir. E o tempo tem que se desfiar, certo?

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Reunidos, fumando. É possível que haja uma ou outra cerveja, das médias, mas desta perspetiva não podemos ter a certeza e ainda faltam uns tempos para haver VAR.


- Vamos rebentar isto tudo pá. É o que vos digo, isto só lá vai à bomba pá.
- Tem calma Óscar, estamos só a organizar uma manif. Se os tipos dos camiões de gasoil podem, nós também podemos. E então pessoal, Terreiro do Paço ou Palhavã?
- A mim dava-me mais jeito Palhavã que ia de metro. Haviam de fazer metro até à Praça do Comércio.
- Sim, sim, pois claro, até Santa Apolónia, já agora. - Gargalhada geral.
- Ao Aeroporto! - Mais risada.
- No Porto! No Porto é que haviam de fazer metro! - Gente agarrada à barriga.
- Oh, tábem, estava só a dizer, chatos do caralho.
- Leva-se umas Berlier e cabe a malta toda, não?
- Eu cá levo os petardos pá.
- Os panados, Óscar, os panados! Ainda nos vai arranjar problemas com a bófia, este.
- Está bem pá, majentão vamobora que já me está a dar o nervoso miudinho pá.
- É só amanhã, Óscar. Sossega o facho. Não te esqueças que é uma cena pacífica, contra a guerra e a opressão e essas coisas beras todas, ouviste bem? - Desconfiado.
- Quem é facho pá? Detono-te essas trombas que nem a tua mãezinha te reconhece pá! - Depois, entre dentes. - Panascas pá.
- Hã?
- Panados pá. Vou buscar os panados, era isso.
- Ooooordeeer! 

(Eu sou um mero narrador de mim mesmo, não tenho como explicar o facto de o tipo das gravatas garridas do Parlamento Inglês estar metido no 25 de abril. Aliás, cá está um dado histórico que escapou, até hoje, a quase toda a gente. Menos ao Marques Mendes, está claro. Esse de certeza que sabia ou, pelo menos, desconfiava. Pá.)

- Ora foda-se pá, se vamos ficar aqui a fazer sala, ao menos liguem o rádio pá. - Fazem-lhe a vontade.
- Eish, outra vez o Paulo de Carvalho! Já não há pachorra para o Paulo de Carvalho.
- Havíamos de ir lá e rebentar a Emissora Nacional pá.
- Lá estás tu com isso de... quer dizer, ao menos já se calava o Paulo de Carvalho...
- Estou-te a dizer pá.
- Safoda, eu alinho com o Óscar nisto da Emissora!
- Epá, então e nós ficamos aqui a ganhar mofo? Se é pra isso, também vamos andando. - Levantam-se todos menos um.
- Eu cá não quero ir já. Há panquecas ao pequeno-almoço, arranjam sempre merdas para fazer no dia das panquecas. Gosto das putas das panquecas, carago. Depois chegamos muntacedo e ficamos lá na manif montes de tempo sem fazer nada. Ainda por cima, toca-me sempre aturar as catraias do Mortágua. Haja paciência!
- Alguém tem que tomar conta das crianças, não te parece?
- Podiam deixá-las em casa, sei lá...
- Tás paneleiro do raciocínio? É uma manif, oh atrasado. Como queres que as pessoas saibam que é uma manif se não aparecer nenhuma mana Mortágua? Pensa, estúpido.
- Então sigo com o Maia, é?
- Sim, ide lá. Não te esqueças das fraldas e dos Dodots.

(Esta menção anacrónica não teve o patrocínio da marca citada, o que é uma manifesta infelicidade para este que vos escreve. Atentamente.)

...

- Oh Maia, olha lá, juntou-se aqui mais gente que povo, chiça. Isto não é a mesma malta que esteve aqui há uns dias a aplaudir o Caetano em Alvalade?
- É capaz. Eu não ligo à bola.
- São pois. A propósito do que o Caetano é que dava jeito que aparecesse na manif. Era sucesso garantido. Já se sabe que onde está um Marcelo, está a CMTV e depois vêm os outros todos ao cheiro da Laranjo.
- Não é mal visto, não senhor. Liga aí ao gajo.
- Ai liga! No meio desta multidão, só chego à cabine telefónica de chaimite. Para além de que tenho que ir mudar a fralda à Mortágua. Arranja-te Maia, eu estou cá só de baby-sitter, bebé.
- Oh Coiso, vê lá se apanhas alguém que esteja ao pé do Carmo pelo rádio. Diz para chamarem cá o Caetano. - Acende um cigarro e contempla a fragata que desliza no Tejo. É uma bela embarcação, não haja dúvida. Haviam de fazer daquilo um cacilheiro. Todo ele envolto em crochet. Era coisa para ficar engraçada. Estilhaçam-lhe a criatividade com um berro.
- Oh Maia, ele manda dizer que não está lá. - Encolhe os ombros como um emoji.
- Opá, preguiçoso do caraças! Não levanta aquele cu nem por nada. Qualquer dia também se esbardalha do assento e depois quero ver. Vou lá buscá-lo a ver se isto anima. Puta de manif mais chata. Se sabia tinha deixado o Óscar trazer petardos.
- Por acaso já ia, oh meu Capitão.
- Hã?
- O panadinho. Será que alguém se lembrou de trazer médias?

...

- É como lhe digo, caro Maia, fartinhos de tocar à campainha e nada. Ninguém responde. 
- Estará avariado o video-porteiro, talvez. Oh Coiso, chega-me aí o megafone...

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- Não pode ser! São os piços das Caldas outra vez? Estou? Estou? - Bate no telefone negro, de disco. Sim, existiu disso. - Está lá?
- Problemas, senhor Presidente do Conselho?
- Sei lá. Pelo sim, pelo não, vamos para o Carmo.
- Eish, isso é que não me dá jeito nenhum. Tenho que estar de madrugada em Santa Apolónia, para apanhar o comboio correio para Santarém. Ir agora para o Carmo...
- Quer cá saber do comboio, homem. - A exasperar.
- Ainda se houvesse metro até Santa Apolónia, podia ser que... - O outro desata a rir.
- E até ao aeroporto? Não lhe dava jeito o metro, não? - Ri alto. - Ora deixe-se de lérias e chame um carro. Avançamos para o Carmo que parece que há movimentos estranhos na Praça do Comércio.
- Alguma manif que desceu da Avenida da Liberdade, talvez?
- Não pode ser. É a tropa.
- E a tropa não se pode manifestar, senhor Presidente do Conselho? Se calhar está a tropa farta da guerra.
- Pois claro, oh Coiso, e depois vem a Polícia e faz greve ou assim. Olha, invadem os degraus da Assembleia, por exemplo. Deixe-se de parvoíces e providencie o automóvel que lhe pedi! - Já muito vermelho.
- Já vai, senhor Presidente do Conselho, já vai. Por acaso, ainda outro dia estava a pensar. Isto bem esgalhado era a gente pegar no telefone, marcar um número e pumbas, os tipos no automóvel saberem logo a nossa morada e aparecerem-nos aí à porta. Não era catita, senhor Presidente do Conselho?
- Não, Coiso, não era catita. É estúpido, só isso. Havias de ter ido para Parodiante de Lisboa, tu.

...

- Batem à porta, senhor Presidente do Conselho.
- Não abras, Coiso! - Pálido.
- Oh, tanto me faz, já não chego a horas a Santarém e não. Tenho o dia todo para fingir que não está cá ninguém. Gostava era de perceber porquê.
- Não sei Coiso, parece que foram rebentar a Emissora Nacional. Diz que foi o Paulo de Carvalho. É um ataque coordenado às rádios. O comuna do Zeca atacou a Renascença. - Benze-se.
- Ui, agora é que nem à hora de jantar lá estou. Olhe, parece que é o Maia que está lá fora a chamá-lo.
- É a revolução! - Procura esconderijo, feito barata tonta.
- Ora, que exagero senhor Presidente do Conselho. Vai-se a ver é para irem ao Martinho tomar um xiripiti. Olhe, lá está outra: metro no Terreiro do Paço. Hein? Diga lá que não dava jeito.
- Fartinho dessa história do metro, chiça, penico, cocó. - Aos pulos como uma criança mal educada.
- Não pragueje, senhor Presidente, olhe a sua tensão.
- Você tira-me de mim, Coiso! Sempre com a trampa dos transportes. Táxis por radiotelefonia, metro aqui e ali e no caralho mais velho. E depois essa fixação em apanhar o comboio para Santarém! Tenho os nervos num frangalho. - Deixa-se cair numa poltrona. Derrotado.
- Ofende-me,  senhor Presidente do Conselho. Procuro servi-lo da melhor forma, cumprindo com os meus deveres com todo o brio. Está claro que, de momento, deveria estar descansado em Santarém. Apesar disso, aqui estou, firme no meu posto, a ouvir estes disparates de uma suposta Revolução. - De beicinho a tremer.
- Mas afinal, porque é que você está tão interessado em Santarém? - Já sem esperança.
- Panquecas, senhor Presidente do Conselho. - Diz e bate as palmas. - Hoje é dia de panquecas. Todos os 25 há panquecas. Bem boas, as panquecas do quartel de Santarém. 
- Oh foda-se, desisto! Vá lá fora e informe o Maia que entrego o poder. Quero ir para a Carregueira imediatamente.

...

- Hã? Mas qual poder?
- Pois é como lhe conto, estimado Maia. O senhor Presidente do Conselho manda dizer que lhe entrega o poder e pede encarecidamente que o leve daqui. - Olha, outra vez o emoji dos ombros.
- Oh jovem, eu lá tenho tempo para essas brincadeiras? Tenho que voltar prá manif. Não tarda, está lá o Mortágua para levantar as petizas e se eu não estou desata logo a abusar e ainda gama alguma Berlier. Parecendo que não, as Berlier não crescem nas árvores.
- Pois, não sei que lhe faça.
- Só se pedir ao Spinola que passe cá e receba a encomenda.
- O poder.
- Ou isso, tanto se me dá. - Vira as costas, avança um passo. Detém-se, volta atrás. - Oh Coiso, eu não o conheço de algum lado?
- Sim, Capitão. Já nos cruzámos em Santarém. - Com um largo sorriso.
- Ah, costuma lá parar, é?
- Todos os 25, meu capitão.
- Panquecas hein? Seu lambareiro. - Sorriem cúmplices.

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Viva este pouco que ainda nos vai restando: Liberdade!
Peço imensa desculpa. Grato pelo vosso tempo. Eu saio sozinho, obrigado.