sexta-feira, 20 de junho de 2014

Fim(ns) de Ciclo(s)



- Silva, hombre! Qué tal? - grita-me ainda da entrada. Na verdade não grita. Para o tipo de sangue ibérico que lhe corre, é apenas o tom normal para aquela distância. É o meu cinzento lusitano, o tom de recato e vergonha que a minha mãe me ensinou - não incomodes os senhores, não dês nas vistas, diz que sim e obrigado - que me faz parecer que entra na Tasca aos berros.

- Hola hermano! Não esperava ver-te por aqui tão...cedo?! - respondo-lhe menos alto, mas bem à medida dos tímpanos escassos que povoam as mesas. Oh sim, o chiste previsível mas inevitável. Olho à volta os risinhos de escárnio. São 900 anos disto, não nos podem levar a mal. Continuo:

- Mas não te vejo nada abatido. Aliás, é impressão minha ou essa barriga está ainda maior? - entretanto fizemos ambos o caminho que nos levou ao ponto médio da nossa distância: um abraço, palmadas nas costas, uma gargalhada. Adoço o que penso ser o negro estado de alma do meu amigo:

- New beginnings always come from some kind of end, uh?!

- Mira hombre, é isso mesmo! Não estou assim tão triste. Li: "Fin de Ciclo", "The End", e outros assim, em Português também. Ah hermano, pus-me a pensar: mas que tienen estos contra os Fins de Ciclo? É uma calamidade? Mas não tem que se acabar para que o Novo possa começar? Porque é que só importa o Fim? E o Ciclo? - embala para uma conversa que me ameaça a manhã inteira. Tenho almoços para servir, espero!, não tarda. Penso em cortar-lhe o pio de alguma maneira, vejo emergências na cozinha, um inspetor da ASAE salvador, qualquer coisa que me leve. Não porque seja chato, mas se me sento, perco-me. Arrasto-o até ao balcão. Sempre fico de pé. Para ele é o sinal para prosseguir:

- Al final del dia, interessa-me o que o Ciclo tem para mostrar. O que trouxe, como se fez, quanta alegria carregou. La roja tem títulos. Muitos. Ainda melhor Silva, todos concordaram que eram os melhores do Mundo, aqueles. Nós! Agora serão outros e temos a chance de aprender a superá-los. Que bueno no? Que me mostras tu das tuas Gerações de Ouro? Que taças? Que vitórias? Que fantásticas alegrias? E ris de nosotros? Ai ai Silva, Silva, cedes à inveja, delicias-te nessa pequenina vingança pífia: a minha derrota, não a tua vitória, que no la tienes. - e ri-se alto e com gosto, farto de saber que lhe acho graça igual porque me estou marimbando para a derrota dele. Há um velho que pigarreia. Touché, hein velhinho? Um golo no "3 Marias", para aclarar a garganta:

- E el Rey? Que coisa bonita Silva. Ao mesmo tempo abdica o Rei e La Roja. O significado cósmico desta coincidência, será coincidência?, só pode ser bom. La Campeona e o Rei que instaurou a Democracia, no lo sé se por vontade, lo creo todavia. Ah que Viva España! La Sangre Caliente dos novos que nos colocarão de novo no topo do Mundo. É esse o momento que vivemos, Silva.

Entusiasma-me sempre ouvir este tipo. É a língua que me agrada, a gargalhada alta que me contagia, aquela espécie de energia que não ameaça esgotar-se nos próximos milénios. E o que se entusiasma ele de se ouvir? Ui!

- Sim, sim, muito bonito. São FIM na mesma. Só a palavra encerra uma enorme tristeza. Sinónimos de Fim, anota aí galego: morte, derrota e quejandos. Agrada-te?

- Põe nessa tua cabeça de calabazin que a morte não apaga uma boa vida. Vives, morres. Começas, acabas. O que fazes disso, isso sim, é que é importante. 

- Talvez. Ainda acho que estás só a disfarçar a mágoa. Mas chega de futebol, que tenho almoços para preparar...

- Fútbol?! No, no!! No es fútbol, Silva. Não percebes? - reparo no ar quase escandalizado. Pisco-lhe um sim meu caro, percebo, é a Vida. Provoco-o:

- Gostas portanto de Fins de Ciclos hein? É isso que procuras: o Fim. Para depois recomeçar...

- Yo? No! Ciclos infindáveis de alegrias, eso me gusta, coño! Nadie disse que um Ciclo não pode comportar milhões de mini-ciclos, si? - levanta-me o copo, um brinde.

Brindamos então à possibilidade de infinito dos Ciclos que quisermos que perdurem! Olé!







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