quinta-feira, 12 de março de 2015

Herr Heimer, Alz coleciona outra alma.



Ele entrou um pouco menos curvado do que me lembrava, mas muito mais negro de roupa. Os olhos vivos, a mão esticada num gesto que parecia mecânico, recentemente aprendido. Tomei-lhe a mão entre as minhas. Disse-lhe:

- Sinto muito.

Ele sorriu um "eu sei que sim" e não se apressou a tirar a mão. Deixou o olhar endurecer um pouco e falou-me com a liberdade que temos quando falamos com um quase estranho:

- Eu também. Sinto muita tristeza, já alguma saudade, muita confusão e um grande alivio que me enche de vergonha...

- Compreendo, mas não tem que se envergonhar. Acho até que devia ter-se em boa conta por tudo o que fez, pelo cuidado que sempre teve, pelas toneladas de carinho que espalhou por estas mesas. Eu vi. - Não me lembrei de mais nenhum lugar comum reconfortante.

Ele deixou-se minguar um pouco, o peso da eternidade sobre os ombros ou a vergonha de encontrar um lado bom na dor. Guardou as mãos nos bolsos e continuou:

- Não me lembro disso. Só lembro das palavras ásperas quando a paciência me falhou, dos gestos bruscos que assustavam, das lágrimas que me escorreram e da raiva que a indiferença a elas me provocou. O tempo tratará de me devolver o resto, espero.

- Sinto muito. - Repito.

- Obrigado Silva. Digamos que desta vez se fundiu mesmo.

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