sábado, 28 de março de 2020

CLSVO - I

I


Na piscina do Clube Leve Sopro de Vento do Oceano desde manhãzinha que se nota o caráter festivo da ocasião. Há um acordo tácito para a lassidão: os cartões de utilizador certificado, diplomado, autorizado, merecedor de entregar a pele a uma quantidade absurda de desinfetante e cloro - não há fungo que resista, senhor, veja também por esse lado e aproveite para passar na nossa loja, a promoção de colírio para os olhos vai-lhe parecer encantadora, sobretudo do ponto de vista do seu olho esquerdo, o bastante inflamado - enfim, o retângulo de cartão que franqueia as portas desta autêntica Babel dos tempos modernos, o caldo antropomórfico que talvez o Criador desconheça, dado que se exponencia precisamente a este dia sagrado, aquele em que o Senhor está, vá, menos atento.

É certo que o CLSVO não é um elevador, mas se por qualquer coincidência cósmica lhe acontecesse tornar-se num, estaríamos metidos num belo sarilho, já que o excesso de peso, total e per capita, impediria o aparelho de cumprir a sua função de se elevar, a si e à sua carga, a patamares mais altos. Poderíamos até estar no inicio de uma bela e significante parábola, não fossemos arrancados a estes ainda imberbes pensamentos pelo DJ residente, empregado de mesa permanente e comediante interno, anunciando o inicio da animação e anotando mais dois tímpanos perfurados à sua coleção - as espreguiçadeiras junto ás colunas estarão sempre vazias por algum motivo, cara senhora obesa - enquanto o Universo parece chiar de dor ou talvez esteja apenas a bater o pé com os primeiros riffs : Tã! Tã-tãã-tããã! Tã-tãã-tããããã! Risin'up, back on the streets...

Do bordo da parte mais funda, um pré-adolescente Dukakis maravilha toda a populaça com os seus saltos acrobáticos para a água, mesmo ao lado do enorme cartaz de "Proíbido Saltar / No Diving / Ne Pas Plonger", rematado pela nota de rodapé: O Nadador Salvador está fora de serviço. Diga-se, de forma a que a verdade perpasse desde já esta nossa, como lhe chamar?, conversa?, que o aviso, sustentado em dois barrotes de madeira pintada, é um dos ex-libris do reputado CLSVO. Uma peça fundadora até, estrategicamente disposta, de maneira a ser vista de todos os ângulos possíveis e imaginários e fantasiados pelos banhistas. Ainda hoje o pedreiro que berrou a plenos pulmões, dealbava 1987, ano de Campeões em Viena: "Põe essa merda no topo, caralho! Onde toda a gente a veja. Assunto resolvido.", peregrina ao Santuário da Sua Ideia Boa, por sinal a única, pelo menos é o que lhe diz o auto-juízo. Ah, sim, os anos passaram também por ele, disso não resta qualquer dúvida. A guedelha meio encaracolada dos 80's e as camisolas de manga cava - na verdade tshirts com as mangas cortadas à tesourada: Whitesnake, AC/DC, Bon Jovi numa branca, para sair à noite e impressionar as raparigas, que nunca usava ao pé dos amigos, por vergonha - foram dando lugar a camisas simples de xadrez básico, que herdou do avô e depois do pai e qualquer dia do sogro. Roupa não compra ele muita, lá isso não. E nas suas religiosas visitas ao CLSVO, já cantarola Walk like an egyptian I wanna dance with somebody e até o C'est la vie que, vá-se lá saber porquê, faz as delicias dos emigrantes em férias. No entanto, é evidente que só um Here i go again ou Livin'on a prayer, nos poucos anos em que teve a sorte de os apanhar, transformam a sua viagem num acontecimento de profundo significado e descoberta interior. Porque é que no CLSVO se toca quase exclusivamente música de 87, é um mistério que nunca se predispôs a investigar. Aliás, nem sequer lhe passou pela cabeça, essa é que é a verdade. Foi apenas um subterfúgio parvo que o narrador utilizou para chamar a atenção para o facto. Que me perdoem, mas pareceu-me adequado. E não virá dai mal ao Mundo.

Outro facto indesmentível é que nunca os EUA tiveram um saltador para a água chamado Dukakis. Porque é que é sempre Dukakis que me vem à cabeça, não sei, já que é Louganis que se chama a pessoa. Está claro que é este som grego que causa a confusão da mente. Por grande coincidência, o pai, treinador e mentor do pequeno Dukalouganis, sempre que lhe vem o nome Dukakis à mente, lembra-se de uma comédia romântica acerca de uma família grega emigrada na América. O que é muito estranho, pois que Dukakis não é conhecido por ter feito comédias. De todo o modo, não românticas, pelo menos. E se os mais informados de entre vós estarão a notar a coincidência das datas, lembrando a candidatura de um Dukakis a POTUS em 88, o que dirão do

                                                                                                      ( sinceramente, não sei se deva. antevejo uma natural dificuldade em ser acreditado. do verbo acreditar, que não no sentido burocrático do termo. mas vou assumir que é um espinho que vem com a missão, embora o pagamento seja parco e talvez não justifique o risco)

                                                                                     profusamente documentado facto de sempre que o petiz executa um duplo mortal perfeito no CLSVO, a emissão de todos os canais estatais de televisão junto à Linha de Controlo, em Caxemira, ser interrompida e começar a passar uma comédia romântica acerca de uma família grega emigrada nos Estados Unidos?

Enfim, será provavelmente um desvio bem-vindo ao quotidiano de sangue das gentes. Sempre se riem um pouco, mesmo que já conheçam de cor as falas. Diz-se que alguns imãs do lado paquistanês chegam mesmo a decretar breves suspensões da xaria durante estas interferências, o que é celebrado com gritos de Azadi pelas ruas de Srinagar, perante os olhares tensos dos jovens soldados indianos que não conseguiram, até hoje, perceber como flui a informação de um lado ao outro da Linha, como se fosse um único país. Assim se explica que boa parte dos militantes caxemires tenham, desde tenra idade, uma admiração especial por uma série de atores que julgam chamar-se todos, eles e elas, Dukakis, para grande moléstia dos produtores de Bollywood.

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