domingo, 12 de abril de 2015

Levanta-te e anda!



Vai aqui o fim do Mundo em cuecas na terra. Embora a Tasca tenha uma localização bastante volátil, tão depressa vizinha do Big Ben como atamancada nas catacumbas dos Clérigos ou nos túneis do metro de Lisboa, naturalmente tem o seu sitio de raiz, a sua Alma Mater. Dá-se o advento de nesse preciso local, ser tempo de festa.

Até aí maravilha, que é bom para o negócio. Mas é igualmente tempo de receber os Peregrinos, porque há por cá a tradição de rumarem a uma capela plantada em pleno coração da freguesia. E isto é que me bule com os nervos. 

Pá, Peregrinos é malta que anda um ror de quilómetros, durante dias e dias, semanas, debaixo do tempo que apetecer ao Senhor que faça, ou ao Anthimio Azevedo, paz à sua alma. Depois acabam por chegar ao local para onde peregrinaram - quem disse que peregrinar não é verbo? - bastante moídos e orgulhosos por terem conseguido. Agora, vir ali de Valdágua não é peregrinar! Isto devia ser como os Jogos Olímpicos, para se ser Peregrino tem que se atingir mínimos. 

Vamos lá ver, sair de Oliveira de Azeméis ás quatro da matina e andar 18 quilómetros não pode ser considerado ir em peregrinação. O facto é que por volta das oito já estão abancados na confeitaria, a mandar abaixo meias de leite e croissants com queijo. Eu sei, que estava lá a ler o jornal! 

Mesmo arrancando de Arouca, são umas oito ou nove horas. Com umas sandes de vitela assada - nham! - é mais um passeio grandalhão que um sacrifício, sobretudo com o bom tempo que nos abençoa este ano o São Lázaro.

Por isso, bem podem passar o dia a tirar fotos, de cajado em punho, em frente de todas as placas que anunciam os limites aqui da terrinha e postá-las em menos de um fósforo nos respetivos facecoisos, que isso não faz de vocês Peregrinos. 

Para além de que tem que haver um motivo para peregrinar. E vir cá ver o conjunto e a Banda Filarmónica, enfardar uma ou outra bifana - menos a malta de Arouca, que já vem aviada - as pipocas e o algodão doce para a canalha, não são bons motivos. Quer dizer, são, mas para uma voltinha domingueira. 

A mim não me convencem com isso da devoção ao São Lázaro. Um tipo tão inconstante, ai agora estou morto, ai agora já não estou, ai afinal acabo mesmo por falecer para me tornar Santo, o interesseirão. Não estou a ver que inspire tanta gente, Deus me perdoe se pela sua cartilha isto for sacrilégio. É assim uma espécie de Herrera da Santidade, tão depressa está a dormir como está acordado. Mas em mais bonito, pronto...

Ainda por cima, tendem a aparecer em magotes, tipo rebanho descontrolado, desafiando à exaustão a perícia dos automobilistas. Logo aí se vê que são indivíduos pouco preparados para a peregrinação. Não nos bastavam já os bicicletistas, não?

Por estes bastos e relevantes motivos, instalei na entrada da Tasca um cartaz de excelentes dimensões e apreciável sentido estético que declara:

"NÃO SERVIMOS PEREGRINOS PROVENIENTES DE LOCALIDADES QUE DISTEM MENOS DE 200KM DA CAPELA!"

- É tudo bastante parvo, Silva. O cartaz é só o cúmulo dessa parvoíce toda. Então agora deu-lhe para afugentar a clientela?

- De todo, caro estúpido de galochas. Há três dias que há filas à porta. Povo que quer ser fotografado de mini em punho ao lado do cartaz, para botarem no Facebook. Isto de provar que andámos mais de 200 quilómetros não é para todos...

(com beijos, abraços e muito respeito e admiração aos fregueses Licas e Zés, Peregrinos a sério!)      

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Toda a música é do Emanuel!



- Epá, a Malhoa vai de mal a pior, Silva. É que nem sei o que pense daquilo. Só me apetece enfardar duas bolachadas à minha filha, preventivamente.

- Pois, como eu te compreendo. Aquilo é buéréré de estranho. - High five pelo belo trocadalho.

- Está muito para lá de pimba. É Tropical Urbano, ou Meretrizcore ou Bordelhousetrance ou lá o que é. - Dois high five.

- Calma lá! Não confundir isto com pimba. - Nenhum sorriso, isto é a sério.

- Ui, lá vem ele, o agente do Marco Paulo. - E dá cabeçadas no punho fechado. Juntam-se mais dois à conversa, mas apenas do lado dos ouvintes. Cruzam os braços sobre o balcão.

- É preciso não esquecer que a Ágata, por exemplo, teve a coragem de abordar os detalhes das partilhas e da tutela dos menores, situações muito delicadas em qualquer divórcio. E era um assunto que estava manifestamente subestimado no nosso panorama musical. A casa, o carro, o fedelho, está lá tudo. E que dizer do "Perfume da outra mulher", que nos alerta para a importância do olfato nas relações humanas? É pimba, sim senhor, mas mais ninguém teve a lucidez de nos levar de volta ás origens, à condição animal. Ah e tal, andas na cama com outra, vai-se a ver mais nova e mais boa que eu e tudo e tudo. E como é que eu sei? Porque tresandas a perfume da Feira de Carcavelos. Põe-te masé nas putas. A relação cordial, mas sempre respeitadora, com os agentes da autoridade, eles próprios bastante compreensivos, tão bem descrita pelo nosso grande Emanuel, ele sim, o verdadeiro Rei do Pimba? Nada disso transpira do popinho de mascar e deitar fora que por aí anda.
Aliás, garanto-vos que a nossa Música Popular, assim mesmo, cheia de maiúsculas, tem resposta para qualquer hit internacional.

- Tretas!

- Try me.

- Kings of Leon. Sex on fire.

- Epaaa, esse vem claramente com ela fisgada. A Ruth Marlene é que os conhece, dali não levam nada, é tudo corrido à estalada.

- Bah! Katy Perry, Roar.

- Se é gajas com grandes felinos, temos o José Castelo Branco e o seu inigualável Pata Pata.

- Hozier, Take me to church.

- Essa é fácil. Trio Odemira, sempre a iluminar as igrejas.

- Alicia Keys, Girl on Fire.

- Coitadita da Alicia. Ela faz lá ideia do que isso seja. Ponha os olhos na Rosinha, isso sim, é fogo. Para além de que é com propósito. Depois da Rosinha, "pega na lancheira e vai levar o almoço ao pai" ganhou todo um novo significado...

- Sô Silva! - Chama ela da porta do WC, com a maçaneta na mão e um ar de desculpe lá, não fiz nada de mal. - Isto saiu. E agora?

Responde-lhe o balcão em coro de dentes amarelados e bigodes de espuma de cerveja:

Encaixa, baby, encaixa!

(Com uma vénia ao Daniel Oliveira, que foi o primeiro a analisar convenientemente as letras da Ágata e a quem se roubou, descaradamente, a parte relativa à letra da música "Comunhão de bens". Não, não é esse, é o das barbas.)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Teenage holiday ou a fuga dos velhinhos II: Personagens profundas e baggy pants.



Há coisas que ganham um valor imenso uma vez ausentes, ou perdidas, ou pouco frequentes. Amores, liberdade, a mais nova atrelar-se à mais velha e os idosos darem por si sózinhos num Domingo de manhã. 

SEGUNDO ATO:

Cenário: Quarto de dormir, com cama, duas mesinhas de cabeceira, psiché na parede oposta. Os estores manuais são levantados por um homem idoso e as janelas abertas.

- Ena, está Sol e quente lá fora. Bom para os ossos! A humidade estava a deixar-me maluco dos joelhos.
- Eles tinham dito que vinha aí o bom tempo. Até que enfim. Já estou pelos cabelos destes lenços de flanela e meias-calças de lã.
- Olha lá, as coisinhas foram laurear a pevide, estamos só os dois. Que tal pormos as dentaduras e irmos dar um giro? Podíamos até, não sei... - Cora ligeiramente, pigarreia.
- Achas? - Sorri, ignorando as gengivas despidas. - Já faz tanto tempo... Mas está Sol não é? Eu alinho! Íamos para a praia, pode ser que lá esteja ninguém a esta hora...Levo o crochet!
- Não dá! - Diz ele, a desilusão estampada nas rugas. - Não há bola hoje. É dia Santo.
- Bolas! Sem relato não é a mesma coisa ficarmos a apanhar Sol dentro do carro, virados para o mar. - Ela deixa cair os braços. Ameaça instalar-se um Domingo igual.
- É uma pena não gozarmos este Sol, velhota. - Sorri-lhe com ar maroto.
- Velhota é a tua tia, oh caquético. Podemos ir para o quintal, estrear os nossos chapéus de palha. - De repente, os olhos brilham-lhe. - Ou então... vamos ao shopping!
- Ao shopping? E o Sol? Só se for aquele que tem uma grande clarabóia.
- Sim, pode ser esse, tanto faz. Lojas e cinema?
- E double cheese bacon? 

Nota cénica: Enquanto as personagens se vão tornando magicamente mais novas, caem pozinhos de perlimpimpim por todo o cenário, que roda.

Cenário: Quarto de dormir, com um sommier apenas, roupa espalhada pelo chão. A personagem feminina, no meio dos vinte, olha para o ecrã do computador pessoal e a masculina abre o armário da roupa. Ela usa uma tshirt dele, ele boxers justos.

- O "Insurgente"! - Diz ele da casa de banho. - É Domingo! Nada que implique pensar. Deve ter porrada e tiros e isso tudo. E até achámos piada ao primeiro. A historia é gira...
- Pode ser, tanto faz. Mas depois não te ponhas a analisar ok? 
- Ora, claro que não. Mas ainda tem a Naomi Watts e a Kate Blanchet, certo?
- Sim. Mas vamos já, que te quero mostrar aquele vestido.
- Ok. Também quero que vejas as calças...

TERCEIRO ATO:

Cenário: Um centro comercial qualquer, de dimensões consideráveis. Ela prova um vestido florido, ele umas calças aparentemente de jogging, ou assim... 

- Wow, mulher! Ficas um estoiro. - Podia ser apenas simpatia, se a língua não estivesse pendurada para fora da boca e os olhos em alvo.
- E as calças são giras e ficam-te mesmo bem. 
- Pois, mas não sei. São demasiado "puto". Acho que não me vou sentir bem com isto. - Diz ele. Mas dúvida, hesita, tenta contrariar o maduro que o habita.
- Oh, eu cá não quero saber disso para nada. Se fosse a ti levava. - Responde ela, com a leveza de quem pratica o que prega, sem remorsos.
- Não sei, não sei. Acho que não. De qualquer maneira, temos que ir embora, está na hora do filme. - Ela corre para a caixa, ele pendura as calças com alguma mágoa.

Mudança de Cenário: Sala de cinema, 6 pessoas. A ação desenrola-se numa ilha no centro do palco, representando a cabeça de uma das personagens.

Caraças pa, isto era suposto ter mais murros e tiros e bordoada de três em pipa. Quem quer saber da profundidade das personagens num filme destes? Fico logo cheio de urticária quando me fazem lembrar os vampiróides existencialistas da moda, porra!

Cala-te meu! Deixa-te de merdas. O enredo disto até é interessante. Tens vergonha de também achares isso, não tens? Já te conheço...

Népias. Vergonha de quê? É aborrecimento mesmo. Diz lá que agora não desatava aquela ali ao estalo a toda a gente? Era mesmo o que esta coisa parecida com um argumento estava a pedir. E nem vamos falar das interpretações ok?

Mas estás parvo? O vinco da boca da Naomi sózinho interpreta melhor que vinte amigos teus do cinema independente. A verruga da Kate Blanchet é melhor atriz que qualquer menor de idade do Woody Allen.

Bah, estás só a contrariar. Nem digas a ninguém que vieste ver isto. E ainda vai haver um terceiro, credo! Ai de ti que me arrastes de novo.

Mas podes crer que arrasto. Agora quero saber o que acontece a seguir. Estás um velho chato, dass.

Velho é o teu tio. Para além de que eu sou tu. Toooooooma, queiras ou não queiras. Não tenho culpa que sejas esquizofrénico.

Esquizofrénico? Nós?

Ufa, the end, finalmente...

- E então? Filminho, não é amor? Mas vê-se bem, é entretido. - E sorri aquele sorriso de menina. Um que o deixa quase sempre à beira das lágrimas.- Não dizes nada? Que ar estranho. Não gostaste? Diz alguma coisa homem!

- Anda comigo. Vou comprar as putas das calças!

Cai o pano.

- Pois Silva, eu e o teatro, já se sabe...- Faz um gesto de desprezo com a mão. - Uma ou outra revista, ainda vá. Uma que nunca mais me esquece era a que tinha um número com o Max. Sabe quem era o Max? - E já está a segurar a gargalhada e o catarro. - O Bailinho da Madeira, chamava-se o quadro. 

Damn it!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Teenage holiday ou a fuga dos velhinhos: Não moshar parvamente!



Há uma parte de mim que se recusa, com determinação e bastante obstinadamente, a envelhecer. É uma que em dias marcados me vê e pensa: epa, não estás nada mal... A mesma que cala o resto da frase: ...para um velhote da tua idade.

Isto até pode ser normal, mas conheço demasiada gente com formação em ciências da mente para escapar à sensação de que não é assim tão saudável. Acontece que as más companhias são uma grandessíssima chatice. E por um bambúrrio dá-se o caso de ser acompanhado 24/7 por quem devia ter conhecido aos dezasseis. Como não nos conformamos com isto do destino, temos um acordo tácito para o contrariar. Se era aos dezasseis, então temos dezasseis. Vinte seis, pronto, para não exagerar. Digamos que, juntas a fome e a vontade de comer, sou, por escolha, um caso perdido.

Mas como este estranho processo de degradação é inevitável e, consta, irreversível, já vou sendo também o velhote que assiste, divertido, ás peregrinações adolescentes destes dois maduros. Ainda por cima, o teenager rezingão tem um alter-ego envelhecido metido a analista.

Por ocasião da época Pascal, um belo pretexto para se largar o trabalho e enfardar tudo o que, fazendo mal, sabe deliciosamente, fechada a Tasca, apaziguadas as saudades da família que está longe, dias passados entre tachos e gargalhadas, houve tempo para algumas incursões dos tais moços que nos habitam. 

Desde logo, uns anos de ausência depois, os senhores da imagem acima regressavam à Invicta. Para além de ter crescido no mesmo bairro clandestino de má fama que eu, nos arrabaldes dos arrabaldes da periferia da Capital, o Fernando amassou, e amassa - ele, que eu fugi para Norte - o mesmo pãozinho de ser Dragão em terra de lampiões. Portista convicto, o que só lhe fica bem!  Sold Out! Mas os bilhetinhos já cá cantavam desde dezembro. 

PRIMEIRO ATO:

- Então vizinha, que raio vai dar ao seu velhote no Natal?
- Ainda nem sei. Já nem contava ter que dar alguma coisa...
- Eheh, como eu a compreendo. Eu arranjei um carrinho com motor, para as botijas de O2. Aquilo põe-se uma espécie de uma corrente presa ao andarilho e vai atrás do homem. Muito jeitoso...
- O meu não usa andarilho, tem a mania que não cai.
- Poijé, poijé, o seu homem pensa que ainda é novo. O Sr. Ibrahim tem uns conjuntos de lenços muito em conta. E medianamente engraçados...
- Praquê? Prós pôr todos ranhosos?
- Ora, tenha paciência senhora. Sabe-se lá quantos Natais mais dura o homem. Dê-lhe alguma coisa que possam fazer os dois e de que gostem mesmo. Um fim de semana nas termas, um mega almanaque de palavras cruzadas, uma visita aos netos lá nas Arábias ou onde andam agora as cachopas...
- Bilhetes para os Moonspell! É isso mesmo! Vou comprar bilhetes para os Moonspell! É logo em março...

E pronto, assim seguem os representantes oficiais da Casa de Repouso Silva - tratamento esmerado para velhinhos, acamados e velhinhos acamados - para o falecido Mercado Ferreira Borges, hoje Hard Club. Em frente da Bolsa, são engolidos pelas suas versões adolescentes. Até aqui, tudo (a)normal. Duas horas bem medidas depois, o rosto dele estampa o que lhe vai na cabeça: ES-PE-TA-CU-LAR! O dela também: EM-CHEIO-GANDA-PRENDA-OH-YEAH! E o cabrão do velhote, qual emplastro, buzina-lhes aos ouvidos: Opaaaa, mosh pit naquela canção? Estão a brincar? Os putos hoje em dia não percebem mesmo nadinha disto, pois não? Devem embebedar-se antes de entrarem e depois pumbas, mosh pit naquela canção. Que estupidez tão grande!

Oh foda-se, a sério? A sério que depois de tanto me arrepiar com o Alma Mater, um canto da minha danificada mente estava a analisar os motivos que me levariam a discordar de um mosh pit num concerto de heavy metal? Isto depois de o ver tranquilamente, de cima, longe, de cerveja na mão. Pelamordedeus! É pura velhice...  

- Qualquer dia você trespassa isto e em vez de se sentar connosco e jogar o belga, vai ali prá mesa dos cachopos... Olhe lá, a sua senhora podia era tê-lo levado à Madeira. Não gosta da Madeira, Silva? Olhe que é muito lindo. - E ri-se e engasga-se no catarro e continua a rir-se.

- Você sabe que está para morrer, não sabe avôzinho? Se precisar de um empurrão é só dizer... - Ele continua a rir e a tossir e a escarrar sem cuspir. Não é bonito, mas eu aprendi desde pequenino a associar isto a momentos felizes. Tenho saudades suas muitas vezes, Senhor Alvarim. Fuck, a partir de que idade é que começamos a autocomover-nos? Noventa?

terça-feira, 24 de março de 2015

A alegoria da caverna ou um Mundo mediato, pataniskas miaufas Platonicas lampionis




- Este fim de semana, no domingo para ser mais exato, decorreram eleições em dois países importantes da Europa: Espanha e França. Se aqui ao lado eram apenas na Andaluzia, ou seja, essenciais para os Andaluzes mas apenas isso, em França foram as eleições departamentais. Uma espécie de eleições federais ou estaduais. Um degrau acima das nossas Autárquicas, pronto.

Ontem tive noticias dos resultados, muito cedo, quase de noite, via rádio:

As eleições Francesas foram despachadas em 1 minuto, com referência à derrota dos Socialistas e à segunda vida de Sarkozy, com direito a reprodução da declaração do gajo pequenito que arranjou uma mulher gira e não consta que lhe bata. Também referiram o segundo lugar da Frente Nacional e a exigência destes para que Hollande se demita.

De Espanha chegou, seria da proximidade?, uma reportagem completa, com declarações ao molho, entrevistas de rua aos apoiantes dos vence... não, espera, dos vencedores não, dos segundos classificados. Assim como se o FCP fosse campeão e fossemos lá entrevistar a malta do Rio Ave por ter ficado em segundo. Isto porque a onda alternativa está a encher a Espanha. Quer dizer, a Andaluzia, porque não houve eleições em mais lado nenhum. Vai dai o Podemos, que admita-se é um nome do caraças para um partido, conseguiu uns 20 e tal por cento dos votos, acho eu, e ficou em segundo, atrás dos Socialistas. Assinalável para um movimento tão recente. Uns 5 minutos de antena.

- E então homem? Que tem isso? E já agora, não tragas um fino, traz antes uma caneca, que eu acho que isto vai demorar... - E riu um esgar sarcástico, a grande besta.

- Tem que as sombras da nossa caverna tendem a enganar-nos. Nem de propósito, Platão era Grego. A Europa, o Mundo, está em plena convulsão, as mudanças são inevitáveis, já nos explicaram isso e nós parecemos predispostos a entendê-lo. E agora...agora é preciso que voltemos todos a enterrar a cabeça na areia, ou nos cus uns dos outros, que apesar de doer e nem sempre cheirar bem, mantém a populaça distraída. Por isso, ignoremos todos qual é a onda que enche:

* Na Grécia, a retumbante vitória da Esquerda, extrema para uns, moderada para outros, teve duas consequências: Tsipras à janela com a Angela a fazer piadas sobre a Primavera; e a extrema direita, um niquinho antes dos nacional-fascistas, no poder. Sim, no poder. E enquanto debatemos o cachecol do Varoufakis, como se fosse importante vasculhar a lista de compras do tipo, excepto para o Senhor Monteiro da Silva, pois claro; enquanto nos querem fazer crer que o Syriza não se vendeu já, uns, ou que está corrompido de todo, outros; o que de mais importante alguém do Governo de Atenas disse ultimamente foi: Não nos mandem a guita não, se querem ver-nos a empacotar tudo o que é emigrante daqui para o raio que o parta, em vagões de gado, se for preciso. É o dinheirinho e já, ou transformamos isto numa via verde para a vossa a Europa, principalmente para tudo o que seja terrorista que se atire ao Mediterrâneo. Gregos Independentes, chama-se o partido, é Governo da Grécia

* Em França, a grande vitória da Esquerda foi... ter ganho a Direita! Isto é, antes o Sarkozy, conhecido revolucionário progressista proletário, do que a Frente Nacional. Antes a Direita que a Extrema Direita. E a verdade é que o discurso da senhorita Le Pen, igualzinho ao do seu velho pai com ar de pedófilo, nunca mudou. Mas agora parece fazer sentido para muitos eleitores franceses. Se tivermos em conta a percentagem de eleitores franceses de origem magrebina, africana e outras ascendências não-nativas, é um feito ainda mais relevante.

Continuam a projetar-nos sombras na caverna. Nós optamos invariavelmente por tomá-las pela verdade, pela Vida. E hoje, temos tanto onde nos podem mostrar o seu jogo de sombras. Abençoamos a ignorância pela paz que nos trará. Deixemos isso de tomar conta de nós para quem quiser. E eles estão a chegar.

- Uh Silva, que medo! Sabes que és um chato com essas coisas. Lá vem o Holocausto! Calma pa. Olha, de bola não falas tu. - E riu, desta vez um sorriso completo, de escárnio, a grandessíssima besta! - Então nós perdemos e vocês, pimbas, empataram. Que gozo, os que nunca vacilam não aproveitaram. Ou não sabias? É que está em todo o lado meu amigo, agora é que foram de carrinho. - Duas alarves goladas na cerveja. Oxalá te engasgues. - Não dizes nada? Nenhuma teoria sobre isso? Nem uma palavrinha de bola hoje, é?

- Mas, meu caro, ainda não falei de mais nada senão acerca do fim de semana futebolístico. Tu é que não lês as entrelinhas.




quinta-feira, 19 de março de 2015

The King has left the building...e foi direitinho prá Tasca!



- De todas as coisas, há uma que sei que te devo e pela qual te sou eternamente grato: Teres-me feito crescer numa casa cheia de música. Ás vezes pensava que em nossa casa estava toda a música do Mundo. E de certa maneira estava. Pelo menos tudo o que vai dos Motörhead ao Liberace, ou assim. - Rimo-nos os dois. E rimos muito poucas vezes juntos nestes tempos. Saboreamos. Empurro-o:

- Anda lá, é o teu dia, hoje o palco da Tasca é só teu. Arrasa-os, Silva! Ou lá como é que te chamas agora...












segunda-feira, 16 de março de 2015

Lucy in the Sky with Diamonds



Não a vejo no plano, mas tenho a certeza que é a voz da Catarina Furtado:

- A concorrente número dezanove, num vestido de Ana Salazar e sapatos Miguel Vieira, que lhe elevam o metro e sessenta e cinco, António Costa. - Palmas na audiência. - António promete erradicar a pobreza, eliminar o desemprego e anseia pela paz no Mundo e o fim da fome das criancinhas. Se for eleita Miss Portugal, pugnará pelo perdão das taxas municipais e pela prescrição das contribuições autárquicas em atraso.- Palmas na audiência.

O plano percorre os vips. Fila E, lugar 14. Sim, sou eu! Impecável em black suit, mas com o avental da Tasca. Levanto-me de braço no ar. O Jorge Gabriel, sentado ao lado do Jesus com a sua eterna pastilha imaginária, aponta para mim com nítido enfado:

- Sim Silva, diz lá.

- Obrigado. Oh mister, porque é que agora fala sempre na segunda pessoa do singular? Se tu não ganhas, pois perdes; jogas por dentro que é para não jogares por fora; e assim por diante. É estranho, é gramaticalmente errado e francamente irritante. Porque recarga de água substitui todos os pronomes pessoais, mormente o eu e o nós, por tu? Repare, se a sua mãezinha lhe pergunta "Jorge, como é que quebraste o vaso chinês?"; que sentido faz responder-lhe "oh mãe, se jogas FM e ganhas a Champions, tens que saltar e festejar, não te ralas com os vasos"? - Ele atira a melena de cor indefinida para trás. Quando me responde, já é a Edite Estrela:

- Meu amigo, as especificidades linguísticas serão sempre secundárias em relação ao ego dos falantes. No caso em apreço, o raciocínio é que os melhores, os mediáticos, falam assim, portanto os cabotinos seguem o exemplo, bom ou mau. Que importa que a origem esteja nos nossos vizinhos castelhanos, que falam mesmo assim? Ou mais remotamente nos nossos aliados da Velha Albion, para quem a forma está, na verdade, correta? 

- E o vaso? - Estava curioso com aquilo do vaso. Fico descansado ao notar que já é o JJ que me responde:

- Se tu partes o vaso, tu ficas sem sobremesa. Tens que arranjar soluções, colas o vaso, compras um novo na loja do senhor Ibrahim, dizes que não foste tu, qualquer coisa... Onde estava o vaso há cinco anos? Quanto vale o vaso hoje? Foste tu que descobriste o vaso e o ensinaste, a sobremesa tem que ser tua!

- Eu?! Mas eu nem tenho um vaso.

- Não! Tu que é Eu. Ou Nós. Quer que chame o Mourinho para traduzir? Ou o Freitas Lobo... - Diz a Edite de dentro do Jorge.

- Não Edite, deixa lá isso. Tenho que ir apanhar o metro.- E vou já em passo apressado na direção da estação. Só que a estação está fechada, por motivos de greve. 

A Ana Avoila está acorrentada à grade. Jornalistas empunham microfones e gravadores fustigados por perdigotos de milhares de entrevistados. Ana grita no seu tom profundamente irritante:

- ...Por isso fica desde já assente que os Sindicatos não voltarão a convocar greves à sexta e à segunda-feira. Isto desde que este governo fascista, imperialista, colonialista, decrete o fim de semana de três dias. - No meio da turba uma voz destaca-se:

- Apoiada! Apoiada! E a criação imediata da carreira de sindicalista. É preciso pôr fim a esta vergonha!

- Sim, isso também. Bem visto Arménio!

A mulher ao meu lado está colada a mim, nua. Ninguém parece estranhar, nem eu. Faz-me festas no pouco cabelo e diz-me baixinho:

- Qual vaso, homem? Está tudo bem, shhh...

Acordo para o meu mar de lenços ranhosos. É quase de dia, é já segunda-feira e há greve do metro. Escondo-me no abraço, fungo mais duas vezes e faço uma nota mental: não voltar a tomar Zyrtec antes de dormir!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Herr Heimer, Alz coleciona outra alma.



Ele entrou um pouco menos curvado do que me lembrava, mas muito mais negro de roupa. Os olhos vivos, a mão esticada num gesto que parecia mecânico, recentemente aprendido. Tomei-lhe a mão entre as minhas. Disse-lhe:

- Sinto muito.

Ele sorriu um "eu sei que sim" e não se apressou a tirar a mão. Deixou o olhar endurecer um pouco e falou-me com a liberdade que temos quando falamos com um quase estranho:

- Eu também. Sinto muita tristeza, já alguma saudade, muita confusão e um grande alivio que me enche de vergonha...

- Compreendo, mas não tem que se envergonhar. Acho até que devia ter-se em boa conta por tudo o que fez, pelo cuidado que sempre teve, pelas toneladas de carinho que espalhou por estas mesas. Eu vi. - Não me lembrei de mais nenhum lugar comum reconfortante.

Ele deixou-se minguar um pouco, o peso da eternidade sobre os ombros ou a vergonha de encontrar um lado bom na dor. Guardou as mãos nos bolsos e continuou:

- Não me lembro disso. Só lembro das palavras ásperas quando a paciência me falhou, dos gestos bruscos que assustavam, das lágrimas que me escorreram e da raiva que a indiferença a elas me provocou. O tempo tratará de me devolver o resto, espero.

- Sinto muito. - Repito.

- Obrigado Silva. Digamos que desta vez se fundiu mesmo.

domingo, 8 de março de 2015

Hodor!


Um copo de tinto do pipo para ele, um copo de tinto do pipo para mim...

- Eu não gosto do treinador e não vou gostar. Não é por termos ganho meia dúzia de jogos, nem pó. Quer dizer, ou ele não sabia o que andava a fazer ou os jogadores não lhe ligavam nenhuma até agora. Seja como for, mau treinador. E não sou eu que digo, quem sou eu? Olha, por exemplo, um grande portista, o melhor dos que vi jogar com a nossa camisola, diz o mesmo. Ou achas que sabes mais de bola que o Oliveira? Ou que quase todos os comentadores que andam por aí? Já sei, já sei, não ouves, não vês, andas enfiado num ecrã a ler coisas que meia dúzia de tipos escrevem uns para os outros, tu incluído. Eu, pelo contrário, estou de olhos bem abertos e ouvidos atentos. E é como te digo, muita bola cá atrás não interessa nada. O Jorge Jesus com aquela equipa já tinha uns 20 pontos de avanço. Olha bem o que nos fez no Dragão com um bando de coxos, que é o que o homem tem. Já nós, foram milhões e milhões e milhões. Para quê, Silva? Para isto? Não sou eu que digo, são os que percebem disto, os que sabem como são as coisas. EU sou humilde, ao contrário de ti meu caro amigo, e faço fé no que opinam os profissionais. E não estou a falar de lampiões. Ou achas que o Baia é lampião? Não te acanhes, podes falar, que tens tu a dizer?

Um golo final, o fundo do copo faz aquele som reconfortante no balcão que antecede qualquer "aahh!" que se preze. Mas nenhum som de particular satisfação. Penso: o que me sobra desta conversa ao fim de todos estes meses? Nada, tudo dito. Respondo:

- Hodor! 

terça-feira, 3 de março de 2015

Lapsu conscientia


- Cumcaneco! Partiste a cabeça?!

"...Ela rebolou ágil do meu peito e esticou a mão para a mesinha de cabeceira. Enquanto abria a gaveta, senti-lhe a pele das coxas entrelaçadas na minha perna. Fez um estalo desiludido com a boca e acrescentou:

- Bolas, não estão aqui. 

De um salto estava de pé, nua, fora da cama, de frente para mim. Devo ter salivado com os olhos, pelo sorriso dela e pela forma como pôs o pé no colchão, a torturar. Correu em pulinhos, o rabo a marcar o ritmo do meu olhar, até à cómoda e anunciou:

- Não tenho cigarros! E preciso de um. Este é daqueles que não se deixam. - Deve ter olhado para mim, fixo nos seios, porque elevou ligeiramente a voz. - Hey, alô?! Posso roubar-te um?

Deslizei mamilos acima, pescoço, até poder articular palavras nos seus olhos.

- Sim, claro. No casaco... - No segundo seguinte ela já tinha desaparecido e a minha mente fez "catrapum"! One fucking second too late!

Regressou na segunda perna para dentro dos boxers, pálida, com a aliança entre o polegar e o indicador da mão direita. Nenhum cigarro.

- Tu és casado? - E exibiu o anel, um braço esticado à frente do nariz. Repetiu, enquanto se lhe incendiavam as ventas. - Tu és casado e não me disseste?!

- Quê? - Ganhar segundos inúteis, por mero instinto. 

(Não te rias, tasqueiro dum cabrão. Não te rias...)

- Foda-se pa, tu és casado, meu grande filho da... - Tomar rapidamente o controlo da conversa, impunha-se.

- Hey, calma. Sou casado sim. Nunca tinhas perguntado, não tive consciência que fosse importante, necessário, uma coisa determinante pelos vistos. - Upa, segunda manga da camisa, os olhos à procura das calças.

- A sério??!! - Era um grito cheio de pontos de exclamação, não estou a exagerar. - Não tinhas consciência? Não te lembraste, vá. Enfiaste-te na minha cama e nas minhas cuecas, mas não te passou por essa cabeça de atrasado mental que devesses referir, en passant, que és casado! Já pela outra cabeça pensas tu lindamente, cabrão de merda! - O tom ia variando entre a ironia irada e a fúria irónica, mas o volume parecia sempre aumentar.

- Estou-te a dizer que não tive noção, porra! Não estou a inventar nenhuma história, pois não? Estou a dizer-te que sim, sem tretas.

- Agora!! Um bocado tarde, não te parece? - Devia ter reparado como a mão dela se fechava em volta do cinzeiro, mas o cinto era a minha prioridade.

- Sim, ok, tarde. Mas está pago, não é como se estas coisas prescrevessem...
- Acho que foi por alturas da última sílaba que me acertou.

(Tem cá uma piada! És um santinho tu, foda-se!) "

- Pronto, coitadinho, fez dói dói. Deixa lá ver a marca. - Sei que estou prestes a explodir numa gargalhada plena de recriminação e de um transatlântico de bem-feitos.

- Vai à merda pa! Quais marca, quais carapuça. - Inspirou, repousou o orgulho macho, semi sorriu até. - Vista Alegre. Devia ser Vista Alegre...

domingo, 1 de março de 2015

COMO?




Como não dizer "eu sabia"?

Como é que alguns dos "nossos" vão dizer que o Tello não é o Licá?

Como é que vão "bater" no Casemiro?

Como é que o Jackson joga em Portugal?

Como é que dirão que sempre defenderam o Lopetegui?

Como é que o Cedric acaba o jogo?

Como é que se ganha 3-0 com esta arbitragem? Ou como se tapa os olhos?

Como explicar que conseguimos fazer, e já fizemos, ainda bem melhor que isto?

Como é que vão tornar o grande, enorme, fantástico, S. Calimero de Portugal de quinta numa equipa fraquinha que levava 10 a 0 do Moreirense?

Como se transforma esta vitória num treino contra uns tipos cansados?

Como é que se engole um sapo? E um dragão de komodo?

Como?

Não, estou cheio! 

Mas contente por ter podido partilhar esta mesa farta com os vestem as minhas cores. Mesmo com aqueles, de entre estes, que vão ter que responder, como os lampiões e demais vendidos, a esta pergunta simples: Como? 

PS. Que la sigan chupando.

PS2. Passa por cá para tomar um 3 Marias Bruninho. Quê? Vais mudar de marca?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nomes - C.C.





- Ainda ás voltas com isto, velhote? - Digo para a pilha de papéis na mesa.
- Cada vez mais interessante. Ora veja lá esta. - Estica o braço com a folha amarelada na mão, não levanta a cabeça, não me olha.

"Nomes - C.C.

Agora é de noite menos tempo, nos dias em que me deixas ir embora. Mas os meus olhos, as mãos, a parte da perna que liga ao peito do pé, permanecem imersas no escuro do Cruzeiro.

Existo num quarto cavado na terra, pontilhado pela luz azul do desumidificador, pelo led vermelho do ecrã na parede, e povoado pelo nosso cheiro. Depois do corpo, o peito e a mente mergulham gratos nesse breu em que somos tudo, sós, inteiros. Oh sim, eu sei que é apenas um marco no meu pensamento, um lugar arquétipo que decido guardar. Houveram lágrimas a denunciar a distância da redenção. Ainda assim, os dias crescem e eu permaneço, tétrico, nesse túmulo perfeito.

Foge-me um sentido, creio que o olfato, para a alegria que nos saltita pelas escadas e para o orgulho que nos ameaça voar pelos céus do Mundo. Com elas toda a obra, grande e inacabada, que somos e queremos ser. E penitencio-me. Sorrio para todos os que sorrimos à luz cada vez mais cedo, mais tempo. Desculpo-me, desculpo-nos.

Nos olhos, nas mãos, em pleno dia já, sei que me deixaste ir embora e vejo e toco o breu do Cruzeiro. A vida resume-se num solavanco do comboio, mas não me rouba da metade que me guardas nessa casa eterna. Guardas?"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A ronda das mesas



(para o Armando Monteiro, na esperança que continue a passar por cá)

- Mula Velha?

- Sim, é para nós Silva. Olhe lá, então já temos o Eusébio a caminho do panteão hein? Vá lá, diga la que é por ser do glorioso. Aposto que está tudo comprado, não?

- Engano seu, lampiãozito. Eu acho que o Eusébio é, de facto, alguém que transcende o seu clube. Um símbolo nacional, se quiser. Olhe, como a Amália, que também por lá anda. Claro que estou tentado a fazer uma analogia com o Fado, Futebol e Família. Os dois primeiros já la estão. E o que vocês, nesse contraditório vermelho, gostavam do tempo dos três Fs, hein?

- Lá está você... - Interrompo:

- Aqui fica a garrafinha. Bom proveito. Ah, e já agora, um dia destes diga-me o que acha que devemos fazer com o Carlos Lopes e a Rosa Mota. Campeões olímpicos, unanimemente considerados lendas vivas nos seus desportos. Enfim, símbolos nacionais. Construímos um avançado ou uma marquise no Panteão? Que me dizem? Até já


- Ora cá está um traçado, um Três Marias e dois Submarinos. Era isto, certo?

- Nem mais amigo. E os gregos hein? Lá vão levando a água ao seu moinho. Surpreendido Silva?

- Porquê? Por terem conseguido mudar o nome da Troika para Instituições Internacionais? Por terem pedido mais seis meses de resgate e terem conseguido quatro? Por terem deixado cair o perdão da dívida? Por terem até hoje para apresentarem medidas de austeridade, chamem-lhes o que quiserem? Não amigo, nada surpreendido, não é como se tivessem remédio. Mas ainda não perdi a esperança que isto acabe por servir para alguma coisa. Qualquer coisinha é só gritarem ok?

- Você é tramado...


- Tosta mística à Tasca e uma Opinião a estalar. - Sorrio.

- Obrigadinho pa. Olha lá, já reparaste que anda tudo a ferver por não dizermos nada? Eu também já não percebo, porra. É demais o colinho, roubalheiras em todos os jogos e nós moita carrasco! Achas isto bem?

- Nem acho, que é para não discutir contigo.

- A sério pá, o que achas?

- Pelo que vejo nos tascos que vou visitando, acho que a culpa do colinho aos vermelhos é... - Pauso de propósito, fixo nos olhos expectantes do meu compincha. - A culpa, meu caro, é do Pinto da Costa. Tanto nos ensinaram isto, que parece que agora já acreditamos. Haja pachorra. - E viro-lhe as costas.

- Não te vás embora. Já engoliram o Lopetegui, agora parece que vão mesmo ter que engolir o Tello. Deves andar todo inchado, meu sacana.

Não consigo evitar arreganhar a taxa. Instintivamente olho em volta, à procura do Miguel. O tipo avisou-me para não me por com "eu sabias". Mas era mesmo de "eu sabia" aquele sorriso. Espero não ter sido apanhado.


- Meia de leite e meia torradinha, minha linda.

- Ai Silva, você é cá um maroto. - Adoro quando as rugas se distendem e os lábios desenham aquele sorriso e os olhos ficam 40 anos mais novos. - Oiça lá, parece que houve aí um jantarinho  muito secreto, não foi?

- Foi? Não reparei. Se descobrir alguma coisa conte-me logo. Sabe que eu detesto perder essas histórias. - Ela sabe que minto com todos os dentes, incluindo os chumbados.

- Prometido. E fique descansado. - Semicerra os olhos numa linha. - Eu vou descobrir...


- Aqui está a sua tacinha de tinto, avôzinho.

- Obrigado. Ajude-me aqui nas palavras cruzadas: quatro letras, o que é o que pretende ser tudo? Não chego lá...

- Nada!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A inegável importância de Sonkaya II



- Quero pedir-te dois favores, pode ser? - Esta segunda pessoa do singular ainda não me é cómoda, mas acho que é um problema civilizacional. Sabe bem, de todo o modo. Tem as mãos firmemente entrelaçadas e apoiadas no balcão, a condizer com a determinação, aliviada?, dos olhos claros.

- Se eu puder, terei todo o gosto... - Respondo diplomático, mas defensivo. Esta é a brilhante maneira encontrada para não termos que nos comprometer nunca. Afinal, é tão subjetivo aquilo que podemos ou não fazer. Quem, para além do próprio, pode ser juiz nesta causa? Anyway, interiormente espero que seja um copo de água e um palito e uma gargalhada. Grande amigo!

- Queria que me reservasses a mesa dos namorados para logo à noite, preciso de ter uma conversa tranquila com o turco . - Ela sorri depois de "turco", eu sinto-me corar até ás orelhas, vermelho como um tomate. - Sim, eu sei! Ou achavas que um miúdo de 11 anos não se descosia?

- Ok, reservada. Que mais? - Não estou a ficar menos corado, caraças!

- Pois... - Hesita. - Não sei, podias perceber se isto faz muita confusão ao puto. Não vai ser um jantar romântico, é mais uma espécie de downsizing. - Ri.

- Despedimento por incompetência ou inadequação ao posto de trabalho? - Rio eu, a medo. 

- Competência qb e bastante adequado. Digamos que o posto de trabalho é que não se adapta. Mas entretanto era um homem e ele um miúdo. Entenderam-se, creio. Agora custa-me... - Revira os olhos, as mãos permanecem firmes.

Percorro a Tasca com o olhar, à procura da mesa do dominó. Bingo! Lá está a pequena cabeça, toda desgrenhada das festas das mãos enrugadas dos seus muitos avós. Sai um jarro de carrascão para lá.

- Hey miúdo, que tal? - Ainda de jarro na mão.

- Tudo bem, Silva. - Sorri-me.

- Ouvi dizer que hoje há cá um jantar especial. - Eis a proverbial subtileza do Silva, sempre próxima da de um elefante zonzo numa loja de porcelanas.

- É. - Os olhos traem-lhe o sorriso que mantém. Há uma sombra... - Não fico lá muito contente, mas paciência. Sabes, o Sonkaya até é fixe. Joga comigo e ás vezes vai ver os treinos. Um dia tens que ir ver os meus treinos Silva... - A mente a fugir-lhe para coisas menos sérias e mais alegres.

- Sim, sim, um dia vou. E agora puto? Vais ficar triste? - Era para saber, não era?

- Um bocadinho, mas não tem mal. Volto a adaptar o avô a lateral direito. - Pisca o olho. 

Eu penso: 11? Achava que eram 10. Não serão antes 61? Raio do miúdo. 

Uma voz pelo meio do catarro:

- Oh Silva, vai poisar isso ou tem alguém que morrer de sede aqui?



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Post it


Na grade exterior da Tasca esta manhã, um papelinho amarelo:

" Silva,
Porque é que as equipas que jogam contra o teu FCP, parecem sempre mais fracas do que antes? Um remate?! Um?! É muito preocupante...
Lamp "

De sorriso colado, predisponho-me a passar pela bluegosfera azul enquanto a máquina de café aquece. Aposto comigo mesmo o que vou encontrar nas caixas de comentários: o Casemiro é o pior jogador do known Univers; não! o Herrera é que é!; o Brahimi nunca enganou ninguém, essa nódoa; não temos ideias; mas quem é que, tirando o Real Madrid, o Bayern, o Chelsea e o Liverpool, não tem a bola mais de 60% do tempo contra estes gajos?; são tão, mas tão fraquinhos, que só mesmo por incompetência do Antero é que não damos 23 a 0; o Espanhol precisava era de uma murraça, um pontapé no rabo e um corte de cabelo novo; o Tello é pior que o Licá...

Concordo com a parte do cabelo, mas eu sou careca.

Injusto? Parto à descoberta...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nomes - E.F.



- Ena velhote, grande confusão de papéis que aqui vai... - Fico com o pano húmido das mesas suspenso no gesto.
- Isto é um achado, Silva. Encontrei no meu alfarrabista. - Remexe o monte de papéis, alguns manuscritos.
- Hum? Um monte de papéis velhos? É que livro, isso não é.
- Isso agora é que ainda não sei. Tenho andado ás voltas com eles e é bem possível que exista aqui uma lógica. 
Rio-me:
- Eu também estou a ler o "Livro do Desassossego"...
- Nada disso! - Insurge-se.- Nada tão complicado e muito mais concreto. Tenho a certeza. Quase a certeza... Para além de que não consigo, pelo menos ainda, encontrar qualquer referência a autores, pseudónimos ou quaisquer outros ónimos.

Pego numa folha ao calhas, aparentemente datilografada. Por um instante não consigo sequer pensar a palavra, até visualizar, num canto ainda não tão obscuro da mente, a arcaica tecnologia. Leio:

"Nomes - E.F.

Por fevereiros são avistados pelo ponto de fuga dos olhos nas bermas. Ou bordejando ribeiros, delineando bosques tímidos no primeiro esboço. Na cama da nossa certeza tranquila rebentam súbitos, invasores de todo o panorama, eles próprios as margens e os contornos. E o resto, as heras, as silvas, mesmo as persistentes azedas, um ou outro ainda tenro pinheiro, esconde-se por trás, ou sob, a explosão inevitável dos paquidermes. Promessas vãs de campos de flores amarelas.

Alinhados marcialmente seguem-nos os percursos com os seus intemporais olhos aguados. Imóveis, atentos. Suspira toda a outra flora encomendada aos braços ágeis dos voluntários calcorreeiros de zonas delimitadas, protegidas. Nas valas das estradas, nas terras de ninguém, nos baldios, reinam um eterno instante. É breve e para sempre o seu tempo - todos os calendários têm algum março.

Avisados geneticamente por gerações de sábia desconfiança e capitulação, não esqueçamos que nas elefantinas memórias guardaram os poisos conquistados e anotaram os terrenos a ganhar na próxima estação, ás costas de uma qualquer beata descuidada. Retornam amarelos depois de não morrerem os elefantes fugazes."

Olho-o no seu entusiasmo missionário:

- Circo?
- Acacia dealbata?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Farturas Aliáticas




- Oh Silva, se a patroa aqui estivesse, já estava a espumar. - Ri-se.

- Porquê avôzinho? Nem está aí a vizinha dos olhos claros nem nada... - E devolvo-lhe o riso.

- Mas só se ouve falar de bola. E não sei o que mais dos vermelhos, mas porque sim dos verdes e mais outro tanto por causa dos azuis...

- Ah pois! É que parece que isto está a aquecer de novo. Já há quem comece a ficar apertado nos sapatos, quase tão apertado como você. - Pisco-lhe o olho, cúmplice.

- Duvido, mas entendo a imagem. Eu disso não sei nada, só mesmo um ditado que me ensinou um tio meu, por parte do meu avô. Já vê que é coisa muito antiga, claro. Dedicava-se ao negócio da venda ambulante de fritos. Lembro-me ainda bem dele. - Fecha as pálpebras, reconstituindo o rosto do familiar. 

Espero pelo dito. Ele espera pelo empurrão. Há finos para tirar. Empurro:

- E então, diga lá o ditado, fiquei curioso. - Ele sorri como um catraio prestes a fazer uma cabriola.

- Quando os catedráticos ficam pragmáticos, monta a barraca das farturas nos Aliáticos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A lista de pontos positivos do senhor Monteiro da Silva



- Ora aqui tem uma das listas que mais tempo levei a concluir. - E estende-me o papel.

Lista de Pontos Positivos

*
*
*
*
*
- Sim, está bem, percebo a ideia. Mas pontos positivos de quê, senhor Monteiro da Silva?

- De todas as coisas que não têm um lado bom, Silva. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Medo do escuro ou as palavras desconhecidas.




Ficamo-nos pelas luzes de emergência, todas apontadas à saída, embora saibamos que nos deixaremos estar por aqui até a garrafa acabar. Partilhamos uma tristeza qualquer, por nós e, ainda mais, pelo que estão tristes outros de quem fomos aprendendo a gostar. É um bocado estranho como a tristeza tende a nivelar os escalões da amizade.

Abano a cabeça, enxotando a silvesca mania de desatar a filosofar baratinho nos momentos mais inadequados. Empurro outro shot de vodka pela goela, ele esboça um meio sorriso e, assustadoramente, quebra o nosso silêncio crepuscular:

- Uma das memórias que guardo da minha infância, daquelas recorrentes, é as falhas de abastecimento elétrico. Eram comuns. A luz falhava uma, duas, três vezes e depois...puf!...apagava-se mesmo. Os pais apressavam-se para a gaveta das velas e para o quadro incrustado na parede do corredor. Eu corria para a varanda da sala.

Hoje sei que era estúpido, mas na altura não tinha alternativa, era um impulso irresistível de correr para a varanda. Depois dos ameaços, o meu coração estava aos pulos. Quer dizer, eu sabia que ia acontecer, que era inevitável, mesmo que já me tivessem contado de ocasiões em que só ameaçava e depois, por qualquer milagre, não se apagava. Ainda assim, em todas as falhas momentâneas, ficava agarrado à esperança de que era desta que a luz se aguentava, mesmo que estivesse cada vez mais ténue. E mesmo depois de ficar tudo escuro, essa esperança empurrava-me para a rua.

- Porque estava mais claro lá fora, se calhar.

- Estaria, se fosse dia de Lua. Mas nem era por isso. Era a esperança de encontrar uma luz acesa. Um sinal qualquer, no meio da cidade negra, que me alimentasse aquela crença. Já não a de não falhar a luz, que já se fora, mas agora uma outra que a substituía: a de que o corte fosse de curta duração e tudo voltasse ao que era rapidamente. Como se fosse possível, Silva. Como se entretanto não tivesse já ficado escuro, como se a luz que voltasse pudesse ser a mesma que se apagara. No fundo, corria para a varanda à procura apenas da negação do facto, nada mais. Até a minha mãe aparecer e me puxar para dentro, de volta à casa que agora tremeluzia com a claridade fosca das velas.

E ali ficava, colado à janela, à espera que toda aquela escuridão principiasse a acender-se. Mergulhado no meu silêncio. No pior dos silêncios, que é o de não ter nada que valha a pena dizer.

Apertei-lhe o ombro, menos para confortá-lo e mais para que me devolvesse o conforto. Partilhamos esta garrafa e este aperto e não temos mais nada para dizer hoje. 

- Não inventaram as palavras que possam impedir o escuro... 

- Ou nós os dois não as sabemos, meu querido tasqueiro.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Tenham lá Paciência ou o destino do Bolo Rei






- Ninguém o come! Fica para ali na mesa uma série de dias. Cheio dos seus tons garridos, mas intacto. 

- Sim, mas não é a mesma coisa se não houver. Parece que nem é Natal..

- Mas acaba por ir para o lixo!! É bonito, mas não serve para nada. Um desperdício autêntico.

- Mesmo assim Silva, acho que fica bem e não custa nada. 

- Eu não consigo simpatizar com isso, desculpe lá. Quando havia brinde e fava, ainda os miúdos afiambravam aquilo, frutas cristalizadas incluídas e um dente ou outro de vez em quando. For the sake of the game...

- Olhe, é como o seu amigo espanhol. Custava-lhe alguma coisa ter levado o Paciência para o banco? Não ia jogar, mas ficava ali tão bem, a aquecer os místicos corações da populaça.

- E a ganhar mofo até se estragar...