domingo, 28 de março de 2021

Agapito morreu!

 


Um belo dia, pelo menos diz que estava Sol...

                                                                          o que por si só não transforma os dias em belos, vá que pode estar Sol e o individuo ser atropelado por um camião de transporte de sacas de caracóis. Pumbas, ai que belo dia que foi, não? Para aqui todo partido no corredor do hospital, paredes meias com o covidário, ainda sai a pessoa dali para uma melhor, credo, cruzes, lagarto, lagarto, lagarto, e depois vem o inteligente e começa a escrever numa folha branca: Um belo dia. Se não era um pano encharcado naquelas beiças.

Um dia, o senhor Agapito Silva decidiu que não envelhecia mais. Dito assim parece estranho, mas vendo bem é uma decisão como outra qualquer. Não que a tenha comunicado ao Universo ou sequer aos parentes próximos. Tratou-se de uma tomada de consciência basto introspetiva e suficientemente ponderada, das que não precisa de testemunhas ou cobradores. Olhou para o espelho da casa de banho e disse:

- Porra, já chega, não envelheço mais. - e procedeu a desfazer a barba, matando o individuo do espelho que estava a ficar mais trôpego do que gostaria de admitir.

Só pelo olhar já se podia ter a certeza de que não haveria passos atrás, recaídas, segundas opiniões. Ao Agapito não iam encontrá-lo a envelhecer às escondidas em algum beco; ou a oferecer-se para ir passear o cão para poder ficar um pedaço mais velho pelo caminho, sem ninguém ver.

No fundo, podemos dizer que se tratou apenas do corolário de todo o pensamento agapitano, firmemente assente na falta de evidência acerca da sua própria mortalidade. Isto é, ainda estava por se provar que o Agapito também morria. Digamos que é um pensador de raiz muito liberal e individualista, pouco dado a comunas e generalizações no que diz respeito à morte. Quer dizer, lá porque toda a gente parece fenecer a dada altura, isso não significa que a Agapito lhe aconteça o mesmo. Pelo menos até acontecer, não fica nada fácil provar o contrário. E depois também não, pois que já Agapito não haverá para se lhe esfregar nas trombas o seu próprio falecimento. Postas assim as coisas, não parece nada mal para filosofia de - lá está! - vida.

O Tempo é que se compadece pouco com os disparates dos homens, embora manifestamente mais tolerante com os das mulheres, e segue imperturbável o seu caminho, naquela cadência de quem não está atrasado, mas também não vai de véspera. Passa, segundo antes de minuto, e passa e passa e ainda está para nascer quem que saiba para onde vai. De modo um tanto injusto, o Tempo caminha mas as sequelas ficam para os transeuntes e nem Agapito tem como lhes escapar. Apesar de tanta resolução e tão forte comprometimento, no que não dependia exclusivamente de si, não tinha como não enferrujar. 

E lá deu consigo de frente para o espelho de novo, outra vez desconhecendo o homem que o olhava de volta, significativamente mais velho do que ele próprio. Se há coisa pela qual os homens são conhecidos, é pelo seu espirito corporativo. Está certo que é uma bela treta, mas se estamos aqui para contar a história deste homem, não vamos agora perder o foco e pormo-nos a falar de outros, mesmo que seja esse indefinido que somos nós todos e, por conseguinte, é uma inexistência. Assumamos apenas que Agapito se compadece do amigo do espelho e se dispõe a ajudá-lo. 

Ora, se o vasto matagal peitoral está a ficar cheio de brancas e isso parece provocar-lhe alguma angústia, meu bom amigo, vamos lá arranjar uma solução. Como calculará, não é algo em que eu tenha alguma vez pensado, posto que, não sei se estaria informado, já há um bom tempo que deixei de envelhecer. Note que não é tão difícil como as pessoas pensam. Bem, tratemos do pelame que, de facto, não dá nada bom aspeto.

Assim deu Agapito uso à máquina zero e desbastou a bom desbastar, de tal maneira que mal se notavam quais os brancos e os pretos, todos pelos, todos iguais. Um autêntico manifesto antirracista onde antes se encontrava o protótipo do macho misógino e antiquado: tufos de cabelo a espreitarem pelas golas e pelos botões abertos das camisas. Raisparta se não era a mais perfeita metáfora de modernidade e esperança na espécie. Pensando à frente do maldito Tempo, e a talhe de foice da linha do olhar do Grande Lenhador Peitoral, o Depilador do Preconceito pousou as vistas em nova erupção de pilosidade, qual Amazónia do baixo ventre. Embora uniformemente negra, quem lhe pode garantir, oh senhor no espelho, que amanhã não cai um nevão nessas partes? Afinal, a própria Floresta Negra embranquece de Inverno, não? E quem diz a Sul do Primeiro Grande Corte, também se deve preocupar com o Norte e já precaver calvícies, entradas ou suíças grisalhas. Enfim, trabalhou a máquina uma manhã inteira e muito satisfeito ficou o senhor do espelho e, com ele, feliz Agapito por ter sido tão útil.

O nome não tenho a certeza qual seja, mas pouco importa. Aquele com que a batizaram, já se vê, porque o que lhe chamavam, toda a gente sabe. A parecer cada dia mais filha do seu mais que tudo, crê-se que a Agapita é vitima de um defeito da retina que a impede de deixar de achar piada ao seu homem, num sentido sexual do termo. Pelo menos a julgar pelas humidades que se lhe puseram, pese a surpresa, ao vê-lo assim tão limpo de vegetação. Transformada em clareira a densa floresta de antes, ficava a árvore bastante mais impressionante, sem múltiplos arbustos em redor. E assim, ignorando que cada dia que passava se pareciam menos com os amantes pubescentes que a mente de Agapito cristalizara, fizeram render por semanas a fio a dispêndio em eletricidade dessa manhã.

No resto das coisas que compõem a vida, fazia-se valer das ondas sucessivas de revivalismo. A música de que gostava ora estava na moda, ora era coisa para connoisseurs, ora voltava a passar na rádio. Com a roupa, o mesmo. Era pois deste modo que a vida passava por Agapito e Agapito não envelhecia.

...

Imaginam o choque no dia em que, no meio de uma algazarra qualquer sobre bola ou mamas, com meia Tasca aos berros, Agapito se encostou calmamente ao balcão, chamou-me para perto e sussurrou:

- Oh Silva, serve aqui uma taça de 3 Marias a este teu amigo. Deixa que morra na ilusão de estar rodeado de mulheres, Marias todas, uma vez que já não chego a casa a tempo de me entregar nos braços da minha. Diz-lhe que penso nela e que morro novo.

E morreu. Do silêncio que se fez quando caiu redondo no chão, ergueu-se, passado algum minuto e tal, a voz do Velho dos Sapatos, que é o homem mais velho que alguma vez existiu e que, assim por alto, já deve ter falecido umas onze vezes - descontando fanicos e estados catatónicos - pelo que é unanimemente reconhecido como especialista no assunto:

- Epá, tão novo, tinha a vida toda pela frente, foda-se.

Lá nos vemos na capela, nós os maduros retirados cá para o fundo. A Agapita tem tudo sob controlo e sempre que o ritmo de afazeres ameaça baixar, ela inventa uma coisa nova ou vem para ao pé de nós ouvir uma laracha e beber uma mini à socapa. Outro dia deixará que a dor se abata sobre a sua cabeça, mas hoje ainda não se sente assim tão corajosa. Alguém pede silêncio e entra um padre que se posta por detrás do caixão, de frente para a audiência, rechonchudo e de bochechas rosadas, olhar indiferente e um livrinho nas mãos. Cá ao fundo um pigarreia e outro funga, mas a pouco e pouco, no entanto rapidamente, toda a congregação está em silêncio. O homem de Deus toma a palavra:

- Irmãos, estamos aqui para prestar homenagem e dar descanso ao nosso irmão Agapito Silva. Mesmo que a saudade já se instale e a Alma vos pareça doer da sua ainda curta ausência, lembrai-vos que o nosso irmão vai desta para uma bastante melhor. Viveu uma vida longa...

Tudo estragado. Ainda havia o espírito de estar em transumância ou Charon preso em algum biscate de última hora, buscar cafézinho para Hades ou coisa que o valha, o certo é que saltou o falecido de dentro do caixão, para grande espanto da audiência e consternação do prelado, para o qual se virou Agapito, com a veia da testa a latejar, todo ele muito bem rapado, da cabeça ás partes baixas, e gritou:

- Velha é a puta da tua prima, oh boi do caralho.

Soprou um beijo à Agapita - que ameaçava soltar pinguinhas nas cuecas, dobrada sobre a barriga de tanto rir - e voltou a deitar-se, muito provavelmente para sempre.

...

Keep on to the kingdom of light...






domingo, 21 de março de 2021

Desconfine-se




Vamos estabelecer em junho de 2019 o fecho por tempo indeterminado destas portas. Ao longo de quase 2 anos viemos cá muito de vez em quando limpar teias de aranha e o bolor das madeiras, deixando os respetivos registos. Entretanto, andámos ocupados, cruzámo-nos no éter de A Culpa é do Cavani, eventualmente numa ou outra crónica no Zero Zero, numa banca montada no Twitter para arrotar alarvidades sortidas e meteu-se uma pandemia. Na Tasca ficou o esboço do inicio do CLSVO, na esperança de que um dia qualquer ele possa prosseguir. E foi tudo.

Nesta altura, o que me ficava bem era dizer que tive saudades vossas. Tantas que me decidi a limpar a sala, abastecer a arca, encher o pipo. Mas a verdade é que a Tasca abriu para um cliente único, no máximo dois se o seu objetivo se concretizasse, e demorou-me muito tempo a acreditar que eram mais. Que éramos mais. E ainda mais tempo para que isso me fizesse alguma diferença. Seguramente que foi muito mais rápido perder-vos. 

Mas hey, o cliente original está cá por inerência e já me dá tanto trabalho que nem queiram saber. E o segundo eu sei que nunca abandonou. Ás vezes passo a arejar o tasco e noto os resquícios do perfume, a estranha leveza do ar, o cérebro a disparar num remoinho de endorfinas e tudo é luxúria por um instante. Uma vez que tem a chave da porta, mais do que apenas eu seremos sempre.

A arrumação está feita. Encontrarão, ali na coluna do lado, o Cavani . O futebol estará todo lá e no Zero Zero. Eu bem sei que era por ele que os mais de vós cá vinham molhar o bico e prometo publicar as crónicas depois de saírem no portal. Se me quiserem insultar de forma mais personalizada, visitem-me em @atascadosilva, naquela coisa do pássaro azul.  A Tasca será para o resto, será para mim. Para nós, meu amor, eventualmente. E outros serão bem-vindos porque a porta estará aberta. Durante quanto tempo, não sabemos agora e não saberemos depois e pouco nos importa.

Continuo muito tentado a escrever que senti a vossa falta. É certo que tive saudades do senhor Monteiro da Silva, da Zubaida, do Berto Faz Tudo, do Velho dos Sapatos, de flirtar com a vizinha, do Paulinho e de mais uma série de maduros e gajas bem boas que foram povoando o sítio. Pronto, eu confesso, tive saudades, sim. Minhas.

A aparelhagem - isso! - continua no pequeno estrado, no canto escuro, pronta para tocar o que lhe dermos a beber. Vamos abrir como há muito tempo, éramos novos e é provável que o FCP tenha sido campeão. Olá, malta!



sábado, 19 de dezembro de 2020

Eu joguei à bola com o Samuel!

Gamado em Portugal 80s Metal


Se fosse um filme, talvez a vista fosse da estratosfera. 

                                                         (Meh, mais para cima. Isso, mais para cima. Recomecemos.)

Se fosse um filme, abriria com uma imagem da superfície vista da mesosfera - vá lá, a mesosfera está muito bem, chega perfeitamente para o propósito - e a câmara desceria a velocidade vertiginosa, quebrando a barreira do som e ignorando a estratopausa, detendo-se abruptamente

                                   (Defina-se abruptamente: um salto de bungee sem ressalto. É este abruptamente)

                                                     sobre um pátio de cimento perdido no meio dos prédios que se amontoam ao calhas. Uma espécie de clareira sem serventia de qualquer espécie, dado o aviso sério no momento do aluguer: não é para utilizar! Porquê, nunca saberemos e nunca souberam os arrendatários. Talvez fosse, seja, uma mera pausa urbana. Um improvável suspiro de betão, o alvo perfeito para uma câmara que descesse vertiginosamente da mesosfera, à procura de um local para se deter. Abrupta.

                                                                 (É sobre pátios, isto? Para inicio já vai quase a meio. Adiante!)

Dois miúdos comunicam-se sem se ouvirem, separados por metros horizontais e verticais. Digamos que se gesticulam na diagonal. Por sorte, sabemos a idade exata de ambos: o da marquise de baixo, rente ao pátio, tem 12 e o outro, o da marquise de cima, penúltima do prédio vermelho, tem 13, embora seja consideravelmente mais baixo. 

Acontece que o dilúvio dos últimos dias parece ter tirado uma folga, como que encontrasse o seu próprio pátio inútil, e isso talvez abra uma janela de oportunidade para que se cumpra o planeado jogo grande. O que se dizem, mais por quererem crer do que por honestidade intelectual, é que já não chove assim tanto, está bom até, bem bom, um dia de praia quase, um pouquinho nublado talvez, mas esta cacimbazinha até ajuda que isto não é para meninas. No fundo, estão a fazer figas para que não volte o granizo ou os pingos grossos que fazem barulho e que chamarão a atenção das mães no exato momento em que gritarem "xauxau, é hoje o jogo e já venho, está um calor do caraças". Se lá fora houver um pingo de silêncio nesse instante, passarão despercebidos e safam-se com um "isséonde? vais para a escola a um sábado? se fosse para estudar... vê lá não te magoes e ai de ti que chegues tarde". As mães têm mais o que fazer, já se sabe, mas são bichos muito atentos aos barulhos. Se lhes parece que caem pedras de gelo do céu, tendem a embirrar bastante com os petizes que se aprestam para sair de casa em calções, manga curta, meias pelo joelho e sapatilhas de lona. Mormente ao fim de semana.

           (Eheheh, agora pensei: chuteiras. Vê tu o disparate, serem sapatilhas de lona não era nada mau.)

Paulos os dois, mas o mais pequenito só responde pelo nome nas chamadas dos professores e no pouco tempo em que tem companhia em casa. No resto dos dias é Cuca. Estupidamente alegres e aliviados, encontram-se na esquina e iniciam a subida. Será sempre a subir nos próximos 15 minutos e depois uns 5 a descer, até à Escola Secundária da Falagueira. Estes vêm do lado da Brandoa e são os únicos desta proveniência. Se nos pudéssemos afastar desta condição de narradores observadores - e não podemos, é certo - perceberíamos quão irónica seria a preocupação daquelas mães com o estado do clima, a roupa ou uma ou outra canelada bem assente num jogo de futebol, tendo em conta que os seus rebentos crescem á solta e por sua conta nestas ruas. Que são suas. E é seguramente isso que os fará sobreviver, ou não, aos anos que faltam para as largarem. Ou não. Outros virão do lado da Amadora, percorrerão o Bairro do Bosque, a Falagueira, meterão os pés na lama do caminho recém aberto, até entrarem pelo portão principal. Do outro lado, o portão é secundário e já tratámos - digo, trataram - de o violentar as vezes suficientes para que permaneça eternamente aberto. Como se quer, afinal esta é a casa do conhecimento e deve estar sempre de portas escancaradas.

É o primeiro jogo do primeiro campeonato do primeiro ano de funcionamento da ESF. Estranhamente, o que nos traz a esta memória estupidamente - e surpreendentemente - vívida, é música e não futebol. 

A escola vai do sétimo ao nono. Quem não souber a enorme diferença que vai entre os 12 e os 15 é porque teve uma infância muito esquisita. Isto decidimos nós, narradores observadores e, por inerência do cargo, gente que manda nesta prosa.

Sabemos a idade dos nossos, diremos dos outros que são o nono uma merda qualquer, provavelmente uma letra. De um lado a Associação Recreativa dos Desvalidos e Enfezados da Vida, do outro o Sport Clube Matulões Namorados das Gajas Boas Todas. O maiorzito dos nossos Paulos é um Cuca em comparação. Mas é canalha que enfrenta a chuva e que todos os dias mete os pés na lama. Se vêm do lado destes, aprenderam o caminho por entre os buracos de esgoto sem tampa, sob o lençol de água que os cobre em dias de chuva. E o que tem chovido, senhores.

                            (Já que falas nisso, havíamos de ter t-shirts a dizer "Eu sobrevivi à ESF". Espera, espera, melhor: "Eu fui o primeiro a partir um vidro na ESF". Ah não, foda-se, isso foste tu.)

Os bonzões passaram metade do jogo a recuperarem da surpresa de os pequenitos terem sequer aparecido em numero suficiente para jogar, outro terço a tentarem sacudi-los das pernas, enquanto procuravam a bola no meio das poças de água no saibro. No terço que falta, marcaram, salvo erro, dois golos e sofreram um, sabe-se lá como. Fim. 

Regressam a casa saídos direitinhos das 20.000 Léguas Submarinas. E isto tudo não interessa para nada. Até porque um dos nossos reencontraria um dos deles, anos mais tarde, na final de outro campeonato muito mais sério e ganharia tranquilo. Embora a partir do banco, mas quem é que está a reparar?

O que nos importa mesmo é que um dos Matulões se chamava, sabemos hoje, Samuel Lopes. Irmão de João Carlos Lopes. Naquele campo de saibro, cheio de poças e lama, num ambiente de autêntico desastre aquático, inadvertidamente, tinha o primeiro contacto com algo que viria a ser uma parte importante da minha vida e de quem sou: Heavy Metal

Se o Samuel já sabia na altura que seria baixista dos Satan Saint's, não faço ideia. Assim como não sei se o João já tocava baixo ou se tinha noção de que seria membro dos míticos STS Paranoid.

                                          (Fast forward to Pigalle, por favor)

...

O Café Pigalle, na Amadora, era o poiso da malta da Secundária e dos metaleiros em geral. Diga-se que a Linha, que não a benzoca de Cascais, mas a clandestina de Sintra, era - é? - uma autêntica incubadora de bandas. Daria origem, e fica já aqui o spoiler, à maior banda da história da música portuguesa. E isto não é aqui o estúpido a exagerar.

A Falagueira ficara para trás no 9º Ano, sendo que o oitavo marcaria a conversão definitiva desta Alma ao metal pesado. Chegar à Secundária da Amadora e, ainda mais, ao Pigalle, era como ser admitido no Paraíso. Bebíamos cerveja, jogávamos snooker, trocávamos cassetes, invejávamos as importações de quem conseguia discos de jeito e conversávamos com gente das bandas, com admiração e uma pontinha de inveja. E sim, havia muita droga disponível, tanta que não tinha aquele encanto de "coisa proibída", era antes o mais vulgar, a regra. Talvez me tenha valido já este espírito embirrante de não querer fazer o mesmo que as maiorias. Uma espécie de gajo cagão, vá.

Do Pigalle partíamos em bando para a estação, enchendo as gaiolas dos comboios, espaços onde os picas preferiam não entrar - putos estúpidos, de napa preta, pulseiras e braçadeiras de cavilhas, longos cabelos alguns e muito haxixe - em direção ao apeadeiro do Rego e à nossa outra casa: o Rock Rendez Vous. 

É muito provável que tenhamos sido nós a perder a nossa sala, pelo que sofria a vizinhança nos dias das sessões Metal Army e afins. Íamos ao Rock para afirmar uma cultura, para confrontar e chocar nas ruas, para partilhar em irmandade dentro das nossas paredes. Reparem, Portugal em meados dos 80's: tínhamos um sítio que organizava festas onde íamos para ouvir música a que não tínhamos acesso e, em encanto, ver vídeo-clipes e filmes de concertos!

Daqui nasceria a ideia do Metal Lusitano, uma série de concertos com as grandes bandas da época - Tarântula, STS, Satan's Saints, Procyon, Black Cross e outros - que daria origem ao primeiro álbum do Metal Tuga, um duplo ao vivo, resultado das referidas atuações. 

Perdi os Satan Saint's, o Samuel que me desculpe, mas estive em todos os outros, arranjando 300 escudos à semana, poupando na comida no bar e na cerveja no Pigalle, para celebrar ao sábado à tarde. Sim, era à tarde. O disco nunca foi editado.

... 

Toda a experiência dessa época não pode ser resumida aqui. Há um livro à espera de ser escrito sobre o que foi viver aqueles tempos e tenho consciência que muitas das referências deste texto não farão sentido para quem não esteve lá ou para quem não viveu naqueles locais. Mas esse não era o propósito, a ideia era apenas explicar que, ao contrário do que é habitual na nossa frágil lusitanidade, a música da minha vida tem raiz nacional. É claro que a as primeiras músicas que ouvi eram Maiden e Scorpions, a minha banda favorita - até porque alinhava com a rebeldia da persona - eram os Motörhead, mas a vivência eram os STS no Rock, os V12 e os Ibéria no Ferroviário do Barreiro, o Festival no Central Park da Amadora. E era feliz.

Estes passeios pela Memory  Lane deixam-me sempre - quem não? - nostálgico qb. 

Lembro-vos a todos, irmãos. Lembro-me do gajo meio anão e coxo, mais velho do que nós, que respeitávamos e admirávamos sem reservas, pelo que sabia da música, das bandas, pelo gozo que nos dava falar com ele e também porque nos pintava os olhos à Alice Cooper ou o rosto como o King Diamond. E depois íamos para o meio de centenas de pessoas e suávamos; e apanhávamos os transportes públicos para casa no inicio da noite; e aquela merda esborratava toda e escorria e a mãe quase lhe dava uma apoplexia quando me abria a porta. E um estalo, isso também dava.

Eu joguei à bola com o Samuel e cresci nas mesmas ruas que o Fernando Ribeiro. Eu cresci no metal e na Brandoa, como a maior banda de todos os tempos da música portuguesa: os Moonspell. 

Deal with it! \m/

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Quem tiver interesse em saber - ou reviver - mais sobre estes épicos dias, não pode deixar de visitar o blogue Portugal 80s Metal e o canal Youtube MetalPortuguêsTV.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

CLSVO III

É importante que o braço esteja de fora, de modo a que os dedos possam tamborilar na carroçaria, enquanto o vento lhe dá em cheio na bigodaça. Nos velhos tempos, teria um Gold Leaf preso no canto da boca, cruzando Jalalabad Stadium Road, as raparigas do Medical College refletidas nas lentes espelhadas e os Strings a ecoar nas quatro Kensonic, duas à frente e duas atrás, para escândalo dos transeuntes. Ah, lembra-se bem, sempre com o ferro quente da saudade a traçar-lhe o contorno do externo. 

Apesar de tudo, não gosta muito de se perder nessas recordações. tem um estranho carinho por aquele condutor, que é ele próprio, já se sabe, mas, ao mesmo tempo, é outro que o seu novo eu, o seu verdadeiro eu, louvado seja Deus, desprezaria pela futilidade. Seria até digno de pena, quando  não de alguma raiva, tal era a distância que guardava para a palavra do Senhor, pesem embora as cinco orações escrupulosamente cumpridas todos os dias. Era como lavar os dentes, uma coisa que se faz mas cujo significado profundo nos escapa tanto que acabamos a pensar que não tem um. Até nos doerem os dentes.

Esse era aquele que passava a noite em Upper Adda, rindo entre amigos, cuspindo fragmentos de osso de galinha, do pulao, vestido à ocidental para se confundir com os estudantes da Azad Jammu & Kashmir University e segui-los em romaria, para gelados e kulchas, na Rahat Bakers. Ou pizzas no moderno Houston Cafe, com os seus sofás brilhantemente vermelhos e as grandes janelas para a rua. Paredes meias com as barracas dos mecânicos, a cheirar a merda e borracha queimada, onde os empregados se aninhavam no chão, passando os olhos por sonhos de pãezinhos frescos, com sementes de papoila por cima, e chá verde com amêndoas e pistachios. Apenas para acordarem para mais um dia de fome e óleo e fumo de escape.

Até à noite em que um funcionário do Dubai Islamic Bank lhe mostrou uma fotografia do Burj e a existência passou a fazer-lhe um sentido inversamente proporcional às ruas esburacadas de Muzaffarabad. A partir desse momento, todas as noites se imaginou, pequeno, a contemplar o edifício, até onde os seus olhos de humano permitissem, ali mesmo da praça, à saída do Dubai Mall

É certo que entretanto casou e nasceu a pequena Azari, mas tudo se passou como se assistisse a um documentário sobre a sua vida. Ou estivesse a ver um filme no Neelum Theatre, antes do terramoto, quando havia cinema. E é talvez por isso que a distância lhe dói menos do que sente que devia. Puxando a fita este pouco atrás, uma vida só, até ao dia da despedida, poderíamos notar o ar resoluto com que enxugou as lágrimas da filha que não sabia se voltaria a ver; e a certeza na promessa à mulher: mando dinheiro. E toda a gente lhe disse adeus da soleira da porta, com admiração, como se estivesse a entrar na camioneta para Srinagar, carregado de todos os explosivos que iriam libertar os oprimidos do outro lado da Linha de Controlo. 

Azadi, azadi, gritariam pelas ruas, segurando cartazes com a fotografia de Abdul Azim Dukakis e fazendo avançar um caixão vazio. Porque o corpo do mártir se fez em fogo de artifício, para grande honra de todos os seus. Com sorte, a interferência do Senhor desviaria a atenção dos soldados do lado indiano na Passagem de Wagah e, enquanto os hindus gordos se rissem defronte dos seus televisores Onida, as forças de libertação entrariam imparáveis na terra ocupada e expulsariam os infiéis e todos lhe agradeceriam e o Presidente dava-lhe uma medalha tão grande que poderia comprar o Burj com ela. 

Afinal, por qual trejeito da mente não importa agora, estava bem vivo e numa peça só, a caminho da terra prometida, usando, por fim, o shalwar qamiz que o igualaria a todos os outros escravos no bojo do negreiro alado. Allahu Akbar.

...

Navega os quarenta e muitos graus do deserto, as rodas coladas ao asfalto negro, riscando a areia amarela, infinita, os vidros abertos, a poupar o ar condicionado, e as pouco potentes Pioneer dizem-lhe today's another day to find  you, shying away, e tudo isto é capaz de ser pecado mas enche-lhe o coração de uma inesperada alegria, à medida que vai deixando para trás os edifícios de habitação dos subúrbios de Xarja. Passará ao largo dos arranha-céus de Ajmã, a nova Dubai - de dentro da mente alguém lhe grita: kafir! - de olhos postos nas ondas de calor que desaguarão no golfo, sim, mas em Al-Khaima, o último Emirado.

A experiência diz-lhe que o Waldorf é claramente sobrevalorizado, se vamos falar de resorts. É por isso que se dirige invariavelmente para o Hilton, o Beach & Golf em Al Hamra. É mais pobre, que é, mas tem mais brancos. Não é a transportar emiratis que um pakistani segura o emprego e dá de comer a três gerações de familiares. Desde logo porque só por milagre - Alá é o Maior - precisariam de transporte, depois porque estaria a uma respiração errada de uma queixa à central e de um voo só de ida para Islamabad. 

Os brancos não pensam muito diferente, mas têm talvez o peso da culpa na consciência e procuram, ao menos, mostrar-se simpáticos. Com alguns até se pode falar, com as devidas distâncias e suportando a ignorância inerente a qualquer kafir, sobretudo a estes que se julgam mais instruídos do que todos os outros e que das coisas verdadeiramente importantes sabem nada. Basta perceber que vêm aos magotes ao tilintar do ouro, como o resto dos desgraçados, e chegados a uma terra que, embora vá perdendo o rumo, é ainda do Profeta, a primeira coisa que aprendem do Ramadão é a dizer Eid.

Cheira a maresia. Um odor que só aprendeu deste lado do Golfo, mas que de certeza era muito mais intenso do lado de lá, em casa. O erro no Golfo é apenas natural em alguém que nunca tinha visto um rio tão largo. Se vamos lá pelo cheiro, é bem provável que cheirem ao mesmo todos os Golfos, pelo que se considera, para os efeitos apropriados, francamente desnecessário meter-se o leitor mais atento em trabalhos de pesquisa geográfica. Um de Omã, outro Arábico, para Abdul Azim é tinto. Que, já que se toca no assunto, não bebe. Haram.

Nos momentos em que não definhava em suor na cozinha ou fingia dormir, para enganar o corpo, num catre na cave do hotel, procurava tornar-se invisível no meio das multidões na marginal de Jumeirah, como um cão vadio com medo de ser pontapeado. Deixava inundar os pulmões com o que conseguia apurar de ma, por entre o cheiro a batatas fritas,  a gelado, a frutos secos a caramelizar a la minuta. Ao lusco-fusco, quando os brancos - alguns brancos são negros - se começavam a retirar para o resto dos seus afazeres, vermelhos como as lagostas do buffet, sentava-se na areia, tão longe quanto possível dos varredores de areia, beijava, por hábito, a foto da mulher e da filha e lia muito baixinho alguns versos. Alguém que tenta não incomodar. Ao que chegámos: os versículos do Profeta lidos baixinho, numa terra sua, onde os seus filhos são atirados para caves imundas, nos palácios onde os infiéis vêm folgar, por irmãos maléficos que temem a sua revolta. E assim os esmagam sob o peso das suas grandes patorras besuntadas de petróleo. Ah, todas as raças deviam ter uma lenda como esta.

E de toda a inveja, fedor, derrota e saudade, só no Livro encontrou paz. A essa paz se consagrou o hoje taxista Dukakis, da companhia Al Hamra, posse do estado. Para olhos pouco treinados nestas coisas da ascensão Divina, podemos até considerar que não é grande paga para a devoção passar de uma cozinha em Sheik Zayed Road para um volante no deserto. Limitemo-nos por ora a contar o que vemos e ouvimos, sem nos imiscuirmos nos assuntos de espírito das pessoas, sim? 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

CLSVO II.1

Repara, tu não tens que saber quem era. Também não tens que ser esclarecido acerca dos motivos que me levaram a fazê-lo, ignorando-te. Não tenho como saber, mas se estás a pensar se podes ser tão insignificante que nem tenha percebido estas implicações, deixa-me informar-te, sem qualquer orgulho, que há uma bela probabilidade de estares completamente certo. Meu telefone, minha vida, meu problema, andor. Ou então passa-se tudo na minha cabeça e tu estás completamente a marimbar-te. Como eu.

De qualquer maneira, terei que me levantar, tentar descobrir onde é a casa de banho, onde estão as minhas roupas, a carteira e os sapatos. Ficam sempre juntos, a carteira e os sapatos. É estranho porque nem sequer penso nisso. Acontece e pronto, é tudo. Só preciso de encontrar um sapato e já sei que a carteira está ao lado. E sim, devia ter desconfiado que o chão estaria frio e que não faço puto de ideia onde possam estar as minhas meias.

Devemos ser honestas e enfrentar os factos, a culpa acabará por ser sempre relativa e vamos lidar com ela com a mesma tranquilidade das outras vezes. Uns dias mais aguda, outros menos, mas será só mais uma a encontrar o seu canto escuro e a anichar-se, tornando-se parte do cenário, até que alguém - na maior parte das vezes alguma coisa - a venha espicaçar e ela acorde meio estremunhada, à procura da puta da casa de banho.

Ninguém diria que era um apartamento tão grande. Ainda me deparo com alguma mãe velhota numa cama de grades, à espera que lhe mudem as fraldas, credo. Seria uma surpresa, já que, se bem me lembro, não era só medianamente giro e cumpria os mínimos do sentido de humor, também parecia bastante resolvido. Enfim, pouco importa, até porque cá está ela. Vamos só respirar fundo antes de abrir a porta, uma rápida prece ao Senhor do Asseio, ao Santinho do Detergente com Lixívia, e depois tentar não gemer alto quando começar a Festa da Descompressão na bexiga.

Tudo isto é bastante menos estranho numa casa conhecida. Mesmo que seja pequena e mais ou menos velha, como a daquele que agora não nos dá jeito nenhum estar a lembrar. A pessoa habitua-se e de tanto lá estar é como se fosse nossa, não é? Por outro lado, assim tem um lado sórdido que havemos de confessar que é muito excitante. Não é esse excitante, parva. É o outro, o mais excitante que esse. Embora não tenha sido tão mau como supúnhamos. Muito ajeitadinho até. E tem elixir! Aí está uma coisa que qualquer gajo que tenha uma centelha de esperança de levar uma moça de bem para casa devia sempre ter. Ou então escovas de dentes descartáveis. Gostamos do nosso gado prevenido e limpinho, hein? Que parvoíce, não devíamos rir disto. Ah, caga, temos demasiado tempo para esmiuçar todos os pontos podres e mal cheirosos da situação. Por agora, mantém-te leve, rapariga.

Já jantaste! Sim, já jantaste! O que tinha para me dizer era: já jantaste? Tcharam! A estas horas da noite, sem saber onde possas estar, ou com quem, ou a fazer o quê, o que quero mesmo, mas mesmo, mesmo saber, é se já comeste. Mas sou alguma mula que passa os dias a enfardar? Está certo que podia muito bem não lhe ter ligado, mas o hábito é fodido. Isso e não saber das meias. Gosto tanto delas.

Olha meu lindo, foi muito engraçada a tarde e a noite e tal, mas não é como se tivesse sido um sonho e agora o que me apetece é ir para minha casa, tomar um banho muito longo, lavar-me dos copos e dos cigarros e de ti. Lamento desiludir-te quanto a essa expetativa de agora estar pelo beicinho e não te largar a braguilha. Mesmo que estejas a torcer-te todo para que não transpareça, acredita que eu sei. Não, não foste o melhor que já tive, nem lá perto, e não, também não és assim muito abonado. Não leves a mal a sinceridade, a minha intenção não é achincalhar-te, mas essa pose de garanhão sentado no sofá, em tronco nu, o semi-sorriso simpático, o desconforto empático - estás a fingir, cabrão? - como explicar? Irrita-me, é isso.

Porque eu saio e os milénios de educação genética vão deturpar o que aqui se passou. E vais achar, talvez até comentar com um amigo, que tiveste uma sorte do caraças e engataste uma gaja bem gira - a modéstia é para os medíocres, querido - e a trouxeste para casa. Pois ficas informado que o teu T2 - muito jeitoso, por sinal - serviu de pensão rasca e a puta eras tu. Ainda por cima, pagaste.

Portanto, o que é que estás a dizer? Ai foda-se, é que está mesmo a falar! Podia tanto ter-se deixado ficar caladinho, eu ia à minha vida e todos felizes. Espera lá, deixa prestar atenção, não me distraias agora. E não largues a porta, deixa os dedinhos firmes na maçaneta que é como se já estivéssemos no elevador, miúda.

- Desculpa?
- És casada, não és? Eu ouvi o telefonema, como deves calcular...
- ...
- Não é comigo, tens razão. Volto a ver-te?
- Claro que não. Ah, um dia destes aparecem por aí uma meias. É para estares avisado.

...

Honestamente, esta relação sem sal convém-me, do ponto de vista da liberdade: horários desencontrados, interesse diminuto, culpa minguada. Não tenho outro remédio, senão aceitar este instinto, este gosto pela adrenalina da caçada, rodear a presa, senti-la ceder ao mesmo tempo que pensa, pobre diabo, que o dia é dela. Podíamos agora teorizar à volta do custo da mentira - que minto, não vou mentir - mas será que vale a pena? É como perder tempo a analisar o mecanismo de distensão de um saco de plástico. Distende, pronto, vamos fazer o quê? 

Por outro lado, não me parece que ele se preocupe demasiado. Se me ponho a pensar nisso, quando é que houve qualquer coisa semelhante a paixão? Como chegaremos a brasas confortáveis se nunca se acendeu a fogueira? Ah, dane-se, saltemos assim de fogo fátuo em relâmpago repentino, para depois voltar apaziguada ao velho assador de sempre. Apagado. E pronto, está tratada esta culpa menor, refastelada no seu T2. Mesmo a tempo do metro quase vazio, como sabemos que acabaremos enquanto envelhecemos. 

Serenamente cinzento, o nevoeiro descerá sobre o mundo, como poeira a semicerrar-nos os olhos. Descerá, enquanto se escorre o Sábado.