quinta-feira, 29 de abril de 2021

Notícias da Tasca

Cambada,

Foi publicada uma nova crónica no Zero Zero. Sobre bola, pois claro. Podem ler aqui:

Olha, afinal pode-se!

Conforme esperado, recebi bastante amor. Curiosamente, entre toda a indignação e protestos contra a minha parcialidade - como se ter um emblema colado às trombas não lhes fosse suficiente para perceberem - nenhum dos carinhosos comentadores se atreveu a desmentir um - UM que fosse! - dos factos e argumentos apresentados. O melhor que conseguem é repetir que o Sérgio Conceição é mal educado e devia ser castigado. Sim senhor, para penalty roubado não está mal. Valha-me a Santinha!

No menos participado Quiz de que há memória na história dos Quizes realizados em blogues que são Tascas, tivemos uma vencedora. Desconfio que ganhará todos, pelo que pensei em impedir que participasse. Depois ela abriu-me os olhos e chamou-me pelo nome, em vez de Amor ou assim, e eu mudei de ideias. Quem pode manda, quem não pode bate palmas. Ainda estou a ovacionar!

O Quiz é o post anterior aqui do tasco, a vencedora é a freguesa Queen Bee e a resposta certa era:

Living on a prayer


O prémio já foi entregue 😏 Está claro que para futuros vencedores teremos outros prémios. Podem voltar a vestir-se, ohfaxabôr.

A gente cruza-se, hasta

sábado, 24 de abril de 2021

Facas rombas

QUIZ: Qual é a música?

Foto: Diário de Notícias


Toni está agarrado à sua guitarra. Arranca-lhe notas simples que lhe acertam diretamente no peito, como facas rombas, mas que têm o dom, sempre tiveram, de lhe libertar a mente. Não que os trusses brancos e a camisola de alças sejam a melhor fatiota de palco, sobretudo porque o cabelo, ainda comprido, está mal tratado e não lhe apetece nada ir agora lavá-lo, oxigená-lo, encher-se de laca e avançar assim, trusses e cabelo armado, para o centro das luzes. Os miúdos cantam a uma só voz: i-am-a-warrior. Do palco, respondem-lhes em falsete: yes, you aaare. É muito possível que, poucos minutos antes, o tipo dos Black Cross - ai raisparta, qual era mesmo o nome dele? Seria Rui? Jorge? Tanto álcool... - tenha saltado de braços abertos, planando sobre a plateia, a sua braceira de cavilhas a brilhar em contraluz. E os putos, muito fartos de sangue de galinha esguichado lá de cima, num ritual que só teve graça uma vez, tenham, muito inteligentemente, aberto a clareira onde o Deus do metal - perdão, o Demónio do metal - se esbardalhou todo inteiro de em contra a laje do Pavilhão do Grupo Desportivo dos Ferroviários do Barreiro.

Que se lixem os trusses e a camisola interior de alças, é mesmo assim que toma o centro do palco e sente o foco a criar um cone de luz que o envolve, escuros todos menos ele que brilha, resplandece doirado, o cabelo a desenhar a aura do Santo, do Messias, o Sebastião deste povo. Quando deixa cair a cabeça para trás, já não é ele - Toni - que comanda a ação. É a guitarra, agora prolongamento dos braços e das mãos e dos dedos, homem e instrumento um, que fala do cimo do seu Altar, prega ao rebanho que imita os gestos do Profeta, no ar. Toniiight, we're on the stre-eeets.

Em dias como hoje, primeiro de semanas em que não está destacado para o piquete de grevistas da Lisnave, custa-lhe não ter cumprido a expetativa de todos e acabar com uma agulha romba na veia. Cavalo por cavalo, não fosse ele a besta de carga - ou carregasse uma carga tão pesada que lhe pareceria leve e o faria flutuar por bocadinhos de cada vez maior infelicidade - de turnos de 16 horas no estaleiro, dentro da monstruosa barriga dos navios, a boca uma pasta de ferrugem e granalha e salário nenhum. Depois as ruas - como se ganhar as ruas enchesse o estômago - e os petardos da Policia de Intervenção, as docas vazias, a geleira vazia, a vida vazia, uma inundação de contas por pagar. Era suposto que fossem as ruas de Hollywood, não as da Cova da Piedade, onde cai insistentemente uma morrinha estúpida que enche as almas de lama cor de óleo.

Os protetores das botas dos transeuntes na calçada, um metro acima do seu teto, devolvem Toni ao que é agora: subcave direita, Rua de Moçambique. A puta da ironia, foda-se.

...

Tina está agarrada a uma faca romba e a alguns 10 quilos de batatas para descascar. A Velha anda de volta dos tachos grandes, a mexer e a acrescentar sal, a tentar moer amendoim com as geringonças dos brancos que podem servir para tudo e são muito lindas, ligadas à eletricidade e com os seus barulhinhos endemoninhados, mas não servem para fazer farinha de amendoim. Já se sabe que os maguerres são um bocado chiconhocas, mas inventarem xicuembos para pilar amendoim é demais. Um pilão, é isso que lhes falta e não há nada que se possa fazer. Solta um tsch com a língua e dá outra volta à matapa, sem camarão.

Não há uma palavra entre mãe e filha, sequer um olhar cruzado. Dedicam-se às suas tarefas num silêncio cortado só pelo barulho do trem de cozinha e das batatas a caírem seguidas no alguidar de plástico. Seria impossível terem assunto que não fosse de lágrimas, pois que só na dor comungam e em tudo o resto vivem em universos diferentes, sem vasos comunicantes. Partilham apenas saudade de sons, cheiros e de uma sensação de espaço aberto que não podem definir. Para sermos verdadeiros, é importante que digamos que até nisto divergem: para uma trata-se do útero para onde sempre quer regressar, para a outra é só o sangue a lembrar onde foi que nasceu a infelicidade. Lá ou cá, o mesmo abuso, o mesmo olhar no chão, o mesmo patrão, os mesmos dias para trás das costas, só que mais frios, a fazerem-lhe doer os ossos por debaixo da capulana. A mesma capulana.

Os quilos de batata não submergem a vontade de Tina. Em cada tubérculo tira o escalpe a um da sua lista. Brancos quase todos, mas também um tio atrevido, um pai que gostava só de bazucas e, sobretudo, um senhor turvo, de balalaica, que não sabe quem é ou de quando foi, mas a quem quer muito retirar o escalpe e furar os olhos e arrancar-lhe o estômago pela barriga, para o trincar e sentir o sangue encher-lhe a boca. O coração não, para pedras já chegam as que lhe atiraram durante todos os anos de escola. Até ao dia em que aquele rapaz de cabelo oxigenado e calças de napa ridiculamente apertadas percebeu que ela era o amor da sua vida. Burro, coitado, que demorou tanto a perceber o que era tão evidente logo no dia em que ficaram na fila do refeitório - ela com outras primas, a serem ultrapassadas sem dizerem palavra; ele num enxame de cabelos loiros e soquetes no artelho, a cheirar a xuínga e cigarros Provisórios - e ele pediu desculpa por lhe ter pisado um pé. Quando por fim percebeu, sem que ela tivesse alguma vez aberto a boca mais do que para um sorriso, acabaram as pedras, as ultrapassagens, os insultos. Houve até quem passasse a tratá-la pelo nome inteiro: Catarina. Um eufemismo.

Acontece que o espírito revolucionário não se deixa salvar por um tuga. Apaixona-se perdidamente, sim, mesmo contra a Velha e todos os olhares na rua, mas quem salva Tina é só Tina. E foi assim que esse amor pôde crescer naquilo que é a sua própria essência: igualdade. É por isso que quando o seboso com a barriga a sair da camisa de manga curta, os farrapos de cabelo a escorrerem óleo, os sovacos a ressoar, entra na cozinha, ela agarra a faca com mais força. Trabalhar 12 horas só por comida - matabicho, almoço, jantar e restos para casa que dão matabicho, almoço e jantar para quem anda nos piquetes - é só porque não tem remédio, mas as mamas e o cu não estão incluídos no negócio. Portanto, da próxima vez que o seboso achar boa ideia apalpar mais do que as batatas, ela pretende cumprir a promessa que lhe fez na primeira: usamos as tuas tripas para meter marisco na matapa, filho da puta.

Para o dono da taberna não seria grande ameaça, vinda de quem vem era mais para lhe dar um estalo e pô-las no olho da rua, à fome que é o que esta gente merece. Só que há os retornados que lhe enchem a sala duas vezes por refeição, para comerem aquelas porcarias. A suspirarem pelas pretas que deixaram, pelas cervejas na esplanada do Scala, pelas catorzinhas, pelo Sol da Catembe e férias na Ponta do Ouro, como se fossem sul-africanos. Não que perceba o que são estas coisas, mas por debaixo do sebo é suficientemente inteligente para perceber que paga a casa, o carro e as putas, à conta da saudade desta gentalha, portugueses de segunda, sempre a chorarem o pilão. Também sabe que só pode manter este estado de coisas à custa da Velha, portuguesa de terceira, e quando a vaca da filha o ameaçou, ela riu. Riu muito alto, um riso cavernoso, carregado de gerações de ódio. Foi a única vez que alguém ouviu a Velha gargalhar e, apesar da substancial camada adiposa, ele gelou. E decidiu deixar as coisas assim, pelo menos para já. Alguma noite o carrascão lhe assentará melhor na fraqueza e lhe estimulará a coragem, atiçando a pila minúscula, e o seboso tratará de acertar as contas. No fundo, cobrar o que lhe devem estas putas ingratas, essa é que é essa.

...

Toni está agarrado a Tina, como se fossem concavo e convexo. As Almas um incêndio de esperança e amargura, à vez, minuto sim, minuto não. Ela usa os olhos cerrados como bainha para as facas rombas com que se vingará do mundo, escalpe por escalpe. Ele vela-lhe o suposto sono, um guardião de olhar embaçado que se ilumina de alarme a cada vez que ela geme no sonho. E de uma ternura que desconhecia no longo silêncio da noite. A subcave direita cheira a matapa sem marisco, aquecida em banho-maria num fogão a gás Campilex.

Estão nus, a escorrerem o suor um do outro e a arrepiarem-se no frio de cada um, colados, tão um como possam ser. Ele pensa muito baixinho, para não a acordar: um dia, namorada, um dia não será nada disto, mas um palácio. Se calhar na Costa, nos prédios novos, já era palácio que chegasse. E correrão mulatos pelas divisões e a Velha vai rir e estalar a língua e gritar txi moluene, você está fazer maningue barulho, né? Vais ver - e aperta-lhe a mão com um pouco mais de força - um dia, baby, a gente chega lá.

Escondida dentro de si, ela responde-lhe - para espanto de todos nós e também de Toni, que não seria o caso da Velha, mais que habituada a toda a espécie de xicuembos e canganhiças - muito baixinho, com medo de quebrar o feitiço: já vamos a meio caminho, namorado.

Cai a morrinha na calçada, um metro acima do teto, na Cova da Piedade, Rua de Moçambique. A puta da ironia, foda-se.

domingo, 28 de março de 2021

Agapito morreu!

 


Um belo dia, pelo menos diz que estava Sol...

                                                                          o que por si só não transforma os dias em belos, vá que pode estar Sol e o individuo ser atropelado por um camião de transporte de sacas de caracóis. Pumbas, ai que belo dia que foi, não? Para aqui todo partido no corredor do hospital, paredes meias com o covidário, ainda sai a pessoa dali para uma melhor, credo, cruzes, lagarto, lagarto, lagarto, e depois vem o inteligente e começa a escrever numa folha branca: Um belo dia. Se não era um pano encharcado naquelas beiças.

Um dia, o senhor Agapito Silva decidiu que não envelhecia mais. Dito assim parece estranho, mas vendo bem é uma decisão como outra qualquer. Não que a tenha comunicado ao Universo ou sequer aos parentes próximos. Tratou-se de uma tomada de consciência basto introspetiva e suficientemente ponderada, das que não precisa de testemunhas ou cobradores. Olhou para o espelho da casa de banho e disse:

- Porra, já chega, não envelheço mais. - e procedeu a desfazer a barba, matando o individuo do espelho que estava a ficar mais trôpego do que gostaria de admitir.

Só pelo olhar já se podia ter a certeza de que não haveria passos atrás, recaídas, segundas opiniões. Ao Agapito não iam encontrá-lo a envelhecer às escondidas em algum beco; ou a oferecer-se para ir passear o cão para poder ficar um pedaço mais velho pelo caminho, sem ninguém ver.

No fundo, podemos dizer que se tratou apenas do corolário de todo o pensamento agapitano, firmemente assente na falta de evidência acerca da sua própria mortalidade. Isto é, ainda estava por se provar que o Agapito também morria. Digamos que é um pensador de raiz muito liberal e individualista, pouco dado a comunas e generalizações no que diz respeito à morte. Quer dizer, lá porque toda a gente parece fenecer a dada altura, isso não significa que a Agapito lhe aconteça o mesmo. Pelo menos até acontecer, não fica nada fácil provar o contrário. E depois também não, pois que já Agapito não haverá para se lhe esfregar nas trombas o seu próprio falecimento. Postas assim as coisas, não parece nada mal para filosofia de - lá está! - vida.

O Tempo é que se compadece pouco com os disparates dos homens, embora manifestamente mais tolerante com os das mulheres, e segue imperturbável o seu caminho, naquela cadência de quem não está atrasado, mas também não vai de véspera. Passa, segundo antes de minuto, e passa e passa e ainda está para nascer quem que saiba para onde vai. De modo um tanto injusto, o Tempo caminha mas as sequelas ficam para os transeuntes e nem Agapito tem como lhes escapar. Apesar de tanta resolução e tão forte comprometimento, no que não dependia exclusivamente de si, não tinha como não enferrujar. 

E lá deu consigo de frente para o espelho de novo, outra vez desconhecendo o homem que o olhava de volta, significativamente mais velho do que ele próprio. Se há coisa pela qual os homens são conhecidos, é pelo seu espirito corporativo. Está certo que é uma bela treta, mas se estamos aqui para contar a história deste homem, não vamos agora perder o foco e pormo-nos a falar de outros, mesmo que seja esse indefinido que somos nós todos e, por conseguinte, é uma inexistência. Assumamos apenas que Agapito se compadece do amigo do espelho e se dispõe a ajudá-lo. 

Ora, se o vasto matagal peitoral está a ficar cheio de brancas e isso parece provocar-lhe alguma angústia, meu bom amigo, vamos lá arranjar uma solução. Como calculará, não é algo em que eu tenha alguma vez pensado, posto que, não sei se estaria informado, já há um bom tempo que deixei de envelhecer. Note que não é tão difícil como as pessoas pensam. Bem, tratemos do pelame que, de facto, não dá nada bom aspeto.

Assim deu Agapito uso à máquina zero e desbastou a bom desbastar, de tal maneira que mal se notavam quais os brancos e os pretos, todos pelos, todos iguais. Um autêntico manifesto antirracista onde antes se encontrava o protótipo do macho misógino e antiquado: tufos de cabelo a espreitarem pelas golas e pelos botões abertos das camisas. Raisparta se não era a mais perfeita metáfora de modernidade e esperança na espécie. Pensando à frente do maldito Tempo, e a talhe de foice da linha do olhar do Grande Lenhador Peitoral, o Depilador do Preconceito pousou as vistas em nova erupção de pilosidade, qual Amazónia do baixo ventre. Embora uniformemente negra, quem lhe pode garantir, oh senhor no espelho, que amanhã não cai um nevão nessas partes? Afinal, a própria Floresta Negra embranquece de Inverno, não? E quem diz a Sul do Primeiro Grande Corte, também se deve preocupar com o Norte e já precaver calvícies, entradas ou suíças grisalhas. Enfim, trabalhou a máquina uma manhã inteira e muito satisfeito ficou o senhor do espelho e, com ele, feliz Agapito por ter sido tão útil.

O nome não tenho a certeza qual seja, mas pouco importa. Aquele com que a batizaram, já se vê, porque o que lhe chamavam, toda a gente sabe. A parecer cada dia mais filha do seu mais que tudo, crê-se que a Agapita é vitima de um defeito da retina que a impede de deixar de achar piada ao seu homem, num sentido sexual do termo. Pelo menos a julgar pelas humidades que se lhe puseram, pese a surpresa, ao vê-lo assim tão limpo de vegetação. Transformada em clareira a densa floresta de antes, ficava a árvore bastante mais impressionante, sem múltiplos arbustos em redor. E assim, ignorando que cada dia que passava se pareciam menos com os amantes pubescentes que a mente de Agapito cristalizara, fizeram render por semanas a fio a dispêndio em eletricidade dessa manhã.

No resto das coisas que compõem a vida, fazia-se valer das ondas sucessivas de revivalismo. A música de que gostava ora estava na moda, ora era coisa para connoisseurs, ora voltava a passar na rádio. Com a roupa, o mesmo. Era pois deste modo que a vida passava por Agapito e Agapito não envelhecia.

...

Imaginam o choque no dia em que, no meio de uma algazarra qualquer sobre bola ou mamas, com meia Tasca aos berros, Agapito se encostou calmamente ao balcão, chamou-me para perto e sussurrou:

- Oh Silva, serve aqui uma taça de 3 Marias a este teu amigo. Deixa que morra na ilusão de estar rodeado de mulheres, Marias todas, uma vez que já não chego a casa a tempo de me entregar nos braços da minha. Diz-lhe que penso nela e que morro novo.

E morreu. Do silêncio que se fez quando caiu redondo no chão, ergueu-se, passado algum minuto e tal, a voz do Velho dos Sapatos, que é o homem mais velho que alguma vez existiu e que, assim por alto, já deve ter falecido umas onze vezes - descontando fanicos e estados catatónicos - pelo que é unanimemente reconhecido como especialista no assunto:

- Epá, tão novo, tinha a vida toda pela frente, foda-se.

Lá nos vemos na capela, nós os maduros retirados cá para o fundo. A Agapita tem tudo sob controlo e sempre que o ritmo de afazeres ameaça baixar, ela inventa uma coisa nova ou vem para ao pé de nós ouvir uma laracha e beber uma mini à socapa. Outro dia deixará que a dor se abata sobre a sua cabeça, mas hoje ainda não se sente assim tão corajosa. Alguém pede silêncio e entra um padre que se posta por detrás do caixão, de frente para a audiência, rechonchudo e de bochechas rosadas, olhar indiferente e um livrinho nas mãos. Cá ao fundo um pigarreia e outro funga, mas a pouco e pouco, no entanto rapidamente, toda a congregação está em silêncio. O homem de Deus toma a palavra:

- Irmãos, estamos aqui para prestar homenagem e dar descanso ao nosso irmão Agapito Silva. Mesmo que a saudade já se instale e a Alma vos pareça doer da sua ainda curta ausência, lembrai-vos que o nosso irmão vai desta para uma bastante melhor. Viveu uma vida longa...

Tudo estragado. Ainda havia o espírito de estar em transumância ou Charon preso em algum biscate de última hora, buscar cafézinho para Hades ou coisa que o valha, o certo é que saltou o falecido de dentro do caixão, para grande espanto da audiência e consternação do prelado, para o qual se virou Agapito, com a veia da testa a latejar, todo ele muito bem rapado, da cabeça ás partes baixas, e gritou:

- Velha é a puta da tua prima, oh boi do caralho.

Soprou um beijo à Agapita - que ameaçava soltar pinguinhas nas cuecas, dobrada sobre a barriga de tanto rir - e voltou a deitar-se, muito provavelmente para sempre.

...

Keep on to the kingdom of light...






domingo, 21 de março de 2021

Desconfine-se




Vamos estabelecer em junho de 2019 o fecho por tempo indeterminado destas portas. Ao longo de quase 2 anos viemos cá muito de vez em quando limpar teias de aranha e o bolor das madeiras, deixando os respetivos registos. Entretanto, andámos ocupados, cruzámo-nos no éter de A Culpa é do Cavani, eventualmente numa ou outra crónica no Zero Zero, numa banca montada no Twitter para arrotar alarvidades sortidas e meteu-se uma pandemia. Na Tasca ficou o esboço do inicio do CLSVO, na esperança de que um dia qualquer ele possa prosseguir. E foi tudo.

Nesta altura, o que me ficava bem era dizer que tive saudades vossas. Tantas que me decidi a limpar a sala, abastecer a arca, encher o pipo. Mas a verdade é que a Tasca abriu para um cliente único, no máximo dois se o seu objetivo se concretizasse, e demorou-me muito tempo a acreditar que eram mais. Que éramos mais. E ainda mais tempo para que isso me fizesse alguma diferença. Seguramente que foi muito mais rápido perder-vos. 

Mas hey, o cliente original está cá por inerência e já me dá tanto trabalho que nem queiram saber. E o segundo eu sei que nunca abandonou. Ás vezes passo a arejar o tasco e noto os resquícios do perfume, a estranha leveza do ar, o cérebro a disparar num remoinho de endorfinas e tudo é luxúria por um instante. Uma vez que tem a chave da porta, mais do que apenas eu seremos sempre.

A arrumação está feita. Encontrarão, ali na coluna do lado, o Cavani . O futebol estará todo lá e no Zero Zero. Eu bem sei que era por ele que os mais de vós cá vinham molhar o bico e prometo publicar as crónicas depois de saírem no portal. Se me quiserem insultar de forma mais personalizada, visitem-me em @atascadosilva, naquela coisa do pássaro azul.  A Tasca será para o resto, será para mim. Para nós, meu amor, eventualmente. E outros serão bem-vindos porque a porta estará aberta. Durante quanto tempo, não sabemos agora e não saberemos depois e pouco nos importa.

Continuo muito tentado a escrever que senti a vossa falta. É certo que tive saudades do senhor Monteiro da Silva, da Zubaida, do Berto Faz Tudo, do Velho dos Sapatos, de flirtar com a vizinha, do Paulinho e de mais uma série de maduros e gajas bem boas que foram povoando o sítio. Pronto, eu confesso, tive saudades, sim. Minhas.

A aparelhagem - isso! - continua no pequeno estrado, no canto escuro, pronta para tocar o que lhe dermos a beber. Vamos abrir como há muito tempo, éramos novos e é provável que o FCP tenha sido campeão. Olá, malta!



sábado, 19 de dezembro de 2020

Eu joguei à bola com o Samuel!

Gamado em Portugal 80s Metal


Se fosse um filme, talvez a vista fosse da estratosfera. 

                                                         (Meh, mais para cima. Isso, mais para cima. Recomecemos.)

Se fosse um filme, abriria com uma imagem da superfície vista da mesosfera - vá lá, a mesosfera está muito bem, chega perfeitamente para o propósito - e a câmara desceria a velocidade vertiginosa, quebrando a barreira do som e ignorando a estratopausa, detendo-se abruptamente

                                   (Defina-se abruptamente: um salto de bungee sem ressalto. É este abruptamente)

                                                     sobre um pátio de cimento perdido no meio dos prédios que se amontoam ao calhas. Uma espécie de clareira sem serventia de qualquer espécie, dado o aviso sério no momento do aluguer: não é para utilizar! Porquê, nunca saberemos e nunca souberam os arrendatários. Talvez fosse, seja, uma mera pausa urbana. Um improvável suspiro de betão, o alvo perfeito para uma câmara que descesse vertiginosamente da mesosfera, à procura de um local para se deter. Abrupta.

                                                                 (É sobre pátios, isto? Para inicio já vai quase a meio. Adiante!)

Dois miúdos comunicam-se sem se ouvirem, separados por metros horizontais e verticais. Digamos que se gesticulam na diagonal. Por sorte, sabemos a idade exata de ambos: o da marquise de baixo, rente ao pátio, tem 12 e o outro, o da marquise de cima, penúltima do prédio vermelho, tem 13, embora seja consideravelmente mais baixo. 

Acontece que o dilúvio dos últimos dias parece ter tirado uma folga, como que encontrasse o seu próprio pátio inútil, e isso talvez abra uma janela de oportunidade para que se cumpra o planeado jogo grande. O que se dizem, mais por quererem crer do que por honestidade intelectual, é que já não chove assim tanto, está bom até, bem bom, um dia de praia quase, um pouquinho nublado talvez, mas esta cacimbazinha até ajuda que isto não é para meninas. No fundo, estão a fazer figas para que não volte o granizo ou os pingos grossos que fazem barulho e que chamarão a atenção das mães no exato momento em que gritarem "xauxau, é hoje o jogo e já venho, está um calor do caraças". Se lá fora houver um pingo de silêncio nesse instante, passarão despercebidos e safam-se com um "isséonde? vais para a escola a um sábado? se fosse para estudar... vê lá não te magoes e ai de ti que chegues tarde". As mães têm mais o que fazer, já se sabe, mas são bichos muito atentos aos barulhos. Se lhes parece que caem pedras de gelo do céu, tendem a embirrar bastante com os petizes que se aprestam para sair de casa em calções, manga curta, meias pelo joelho e sapatilhas de lona. Mormente ao fim de semana.

           (Eheheh, agora pensei: chuteiras. Vê tu o disparate, serem sapatilhas de lona não era nada mau.)

Paulos os dois, mas o mais pequenito só responde pelo nome nas chamadas dos professores e no pouco tempo em que tem companhia em casa. No resto dos dias é Cuca. Estupidamente alegres e aliviados, encontram-se na esquina e iniciam a subida. Será sempre a subir nos próximos 15 minutos e depois uns 5 a descer, até à Escola Secundária da Falagueira. Estes vêm do lado da Brandoa e são os únicos desta proveniência. Se nos pudéssemos afastar desta condição de narradores observadores - e não podemos, é certo - perceberíamos quão irónica seria a preocupação daquelas mães com o estado do clima, a roupa ou uma ou outra canelada bem assente num jogo de futebol, tendo em conta que os seus rebentos crescem á solta e por sua conta nestas ruas. Que são suas. E é seguramente isso que os fará sobreviver, ou não, aos anos que faltam para as largarem. Ou não. Outros virão do lado da Amadora, percorrerão o Bairro do Bosque, a Falagueira, meterão os pés na lama do caminho recém aberto, até entrarem pelo portão principal. Do outro lado, o portão é secundário e já tratámos - digo, trataram - de o violentar as vezes suficientes para que permaneça eternamente aberto. Como se quer, afinal esta é a casa do conhecimento e deve estar sempre de portas escancaradas.

É o primeiro jogo do primeiro campeonato do primeiro ano de funcionamento da ESF. Estranhamente, o que nos traz a esta memória estupidamente - e surpreendentemente - vívida, é música e não futebol. 

A escola vai do sétimo ao nono. Quem não souber a enorme diferença que vai entre os 12 e os 15 é porque teve uma infância muito esquisita. Isto decidimos nós, narradores observadores e, por inerência do cargo, gente que manda nesta prosa.

Sabemos a idade dos nossos, diremos dos outros que são o nono uma merda qualquer, provavelmente uma letra. De um lado a Associação Recreativa dos Desvalidos e Enfezados da Vida, do outro o Sport Clube Matulões Namorados das Gajas Boas Todas. O maiorzito dos nossos Paulos é um Cuca em comparação. Mas é canalha que enfrenta a chuva e que todos os dias mete os pés na lama. Se vêm do lado destes, aprenderam o caminho por entre os buracos de esgoto sem tampa, sob o lençol de água que os cobre em dias de chuva. E o que tem chovido, senhores.

                            (Já que falas nisso, havíamos de ter t-shirts a dizer "Eu sobrevivi à ESF". Espera, espera, melhor: "Eu fui o primeiro a partir um vidro na ESF". Ah não, foda-se, isso foste tu.)

Os bonzões passaram metade do jogo a recuperarem da surpresa de os pequenitos terem sequer aparecido em numero suficiente para jogar, outro terço a tentarem sacudi-los das pernas, enquanto procuravam a bola no meio das poças de água no saibro. No terço que falta, marcaram, salvo erro, dois golos e sofreram um, sabe-se lá como. Fim. 

Regressam a casa saídos direitinhos das 20.000 Léguas Submarinas. E isto tudo não interessa para nada. Até porque um dos nossos reencontraria um dos deles, anos mais tarde, na final de outro campeonato muito mais sério e ganharia tranquilo. Embora a partir do banco, mas quem é que está a reparar?

O que nos importa mesmo é que um dos Matulões se chamava, sabemos hoje, Samuel Lopes. Irmão de João Carlos Lopes. Naquele campo de saibro, cheio de poças e lama, num ambiente de autêntico desastre aquático, inadvertidamente, tinha o primeiro contacto com algo que viria a ser uma parte importante da minha vida e de quem sou: Heavy Metal

Se o Samuel já sabia na altura que seria baixista dos Satan Saint's, não faço ideia. Assim como não sei se o João já tocava baixo ou se tinha noção de que seria membro dos míticos STS Paranoid.

                                          (Fast forward to Pigalle, por favor)

...

O Café Pigalle, na Amadora, era o poiso da malta da Secundária e dos metaleiros em geral. Diga-se que a Linha, que não a benzoca de Cascais, mas a clandestina de Sintra, era - é? - uma autêntica incubadora de bandas. Daria origem, e fica já aqui o spoiler, à maior banda da história da música portuguesa. E isto não é aqui o estúpido a exagerar.

A Falagueira ficara para trás no 9º Ano, sendo que o oitavo marcaria a conversão definitiva desta Alma ao metal pesado. Chegar à Secundária da Amadora e, ainda mais, ao Pigalle, era como ser admitido no Paraíso. Bebíamos cerveja, jogávamos snooker, trocávamos cassetes, invejávamos as importações de quem conseguia discos de jeito e conversávamos com gente das bandas, com admiração e uma pontinha de inveja. E sim, havia muita droga disponível, tanta que não tinha aquele encanto de "coisa proibída", era antes o mais vulgar, a regra. Talvez me tenha valido já este espírito embirrante de não querer fazer o mesmo que as maiorias. Uma espécie de gajo cagão, vá.

Do Pigalle partíamos em bando para a estação, enchendo as gaiolas dos comboios, espaços onde os picas preferiam não entrar - putos estúpidos, de napa preta, pulseiras e braçadeiras de cavilhas, longos cabelos alguns e muito haxixe - em direção ao apeadeiro do Rego e à nossa outra casa: o Rock Rendez Vous. 

É muito provável que tenhamos sido nós a perder a nossa sala, pelo que sofria a vizinhança nos dias das sessões Metal Army e afins. Íamos ao Rock para afirmar uma cultura, para confrontar e chocar nas ruas, para partilhar em irmandade dentro das nossas paredes. Reparem, Portugal em meados dos 80's: tínhamos um sítio que organizava festas onde íamos para ouvir música a que não tínhamos acesso e, em encanto, ver vídeo-clipes e filmes de concertos!

Daqui nasceria a ideia do Metal Lusitano, uma série de concertos com as grandes bandas da época - Tarântula, STS, Satan's Saints, Procyon, Black Cross e outros - que daria origem ao primeiro álbum do Metal Tuga, um duplo ao vivo, resultado das referidas atuações. 

Perdi os Satan Saint's, o Samuel que me desculpe, mas estive em todos os outros, arranjando 300 escudos à semana, poupando na comida no bar e na cerveja no Pigalle, para celebrar ao sábado à tarde. Sim, era à tarde. O disco nunca foi editado.

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Toda a experiência dessa época não pode ser resumida aqui. Há um livro à espera de ser escrito sobre o que foi viver aqueles tempos e tenho consciência que muitas das referências deste texto não farão sentido para quem não esteve lá ou para quem não viveu naqueles locais. Mas esse não era o propósito, a ideia era apenas explicar que, ao contrário do que é habitual na nossa frágil lusitanidade, a música da minha vida tem raiz nacional. É claro que a as primeiras músicas que ouvi eram Maiden e Scorpions, a minha banda favorita - até porque alinhava com a rebeldia da persona - eram os Motörhead, mas a vivência eram os STS no Rock, os V12 e os Ibéria no Ferroviário do Barreiro, o Festival no Central Park da Amadora. E era feliz.

Estes passeios pela Memory  Lane deixam-me sempre - quem não? - nostálgico qb. 

Lembro-vos a todos, irmãos. Lembro-me do gajo meio anão e coxo, mais velho do que nós, que respeitávamos e admirávamos sem reservas, pelo que sabia da música, das bandas, pelo gozo que nos dava falar com ele e também porque nos pintava os olhos à Alice Cooper ou o rosto como o King Diamond. E depois íamos para o meio de centenas de pessoas e suávamos; e apanhávamos os transportes públicos para casa no inicio da noite; e aquela merda esborratava toda e escorria e a mãe quase lhe dava uma apoplexia quando me abria a porta. E um estalo, isso também dava.

Eu joguei à bola com o Samuel e cresci nas mesmas ruas que o Fernando Ribeiro. Eu cresci no metal e na Brandoa, como a maior banda de todos os tempos da música portuguesa: os Moonspell. 

Deal with it! \m/

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Quem tiver interesse em saber - ou reviver - mais sobre estes épicos dias, não pode deixar de visitar o blogue Portugal 80s Metal e o canal Youtube MetalPortuguêsTV.