sábado, 24 de abril de 2021

Facas rombas

QUIZ: Qual é a música?

Foto: Diário de Notícias


Toni está agarrado à sua guitarra. Arranca-lhe notas simples que lhe acertam diretamente no peito, como facas rombas, mas que têm o dom, sempre tiveram, de lhe libertar a mente. Não que os trusses brancos e a camisola de alças sejam a melhor fatiota de palco, sobretudo porque o cabelo, ainda comprido, está mal tratado e não lhe apetece nada ir agora lavá-lo, oxigená-lo, encher-se de laca e avançar assim, trusses e cabelo armado, para o centro das luzes. Os miúdos cantam a uma só voz: i-am-a-warrior. Do palco, respondem-lhes em falsete: yes, you aaare. É muito possível que, poucos minutos antes, o tipo dos Black Cross - ai raisparta, qual era mesmo o nome dele? Seria Rui? Jorge? Tanto álcool... - tenha saltado de braços abertos, planando sobre a plateia, a sua braceira de cavilhas a brilhar em contraluz. E os putos, muito fartos de sangue de galinha esguichado lá de cima, num ritual que só teve graça uma vez, tenham, muito inteligentemente, aberto a clareira onde o Deus do metal - perdão, o Demónio do metal - se esbardalhou todo inteiro de em contra a laje do Pavilhão do Grupo Desportivo dos Ferroviários do Barreiro.

Que se lixem os trusses e a camisola interior de alças, é mesmo assim que toma o centro do palco e sente o foco a criar um cone de luz que o envolve, escuros todos menos ele que brilha, resplandece doirado, o cabelo a desenhar a aura do Santo, do Messias, o Sebastião deste povo. Quando deixa cair a cabeça para trás, já não é ele - Toni - que comanda a ação. É a guitarra, agora prolongamento dos braços e das mãos e dos dedos, homem e instrumento um, que fala do cimo do seu Altar, prega ao rebanho que imita os gestos do Profeta, no ar. Toniiight, we're on the stre-eeets.

Em dias como hoje, primeiro de semanas em que não está destacado para o piquete de grevistas da Lisnave, custa-lhe não ter cumprido a expetativa de todos e acabar com uma agulha romba na veia. Cavalo por cavalo, não fosse ele a besta de carga - ou carregasse uma carga tão pesada que lhe pareceria leve e o faria flutuar por bocadinhos de cada vez maior infelicidade - de turnos de 16 horas no estaleiro, dentro da monstruosa barriga dos navios, a boca uma pasta de ferrugem e granalha e salário nenhum. Depois as ruas - como se ganhar as ruas enchesse o estômago - e os petardos da Policia de Intervenção, as docas vazias, a geleira vazia, a vida vazia, uma inundação de contas por pagar. Era suposto que fossem as ruas de Hollywood, não as da Cova da Piedade, onde cai insistentemente uma morrinha estúpida que enche as almas de lama cor de óleo.

Os protetores das botas dos transeuntes na calçada, um metro acima do seu teto, devolvem Toni ao que é agora: subcave direita, Rua de Moçambique. A puta da ironia, foda-se.

...

Tina está agarrada a uma faca romba e a alguns 10 quilos de batatas para descascar. A Velha anda de volta dos tachos grandes, a mexer e a acrescentar sal, a tentar moer amendoim com as geringonças dos brancos que podem servir para tudo e são muito lindas, ligadas à eletricidade e com os seus barulhinhos endemoninhados, mas não servem para fazer farinha de amendoim. Já se sabe que os maguerres são um bocado chiconhocas, mas inventarem xicuembos para pilar amendoim é demais. Um pilão, é isso que lhes falta e não há nada que se possa fazer. Solta um tsch com a língua e dá outra volta à matapa, sem camarão.

Não há uma palavra entre mãe e filha, sequer um olhar cruzado. Dedicam-se às suas tarefas num silêncio cortado só pelo barulho do trem de cozinha e das batatas a caírem seguidas no alguidar de plástico. Seria impossível terem assunto que não fosse de lágrimas, pois que só na dor comungam e em tudo o resto vivem em universos diferentes, sem vasos comunicantes. Partilham apenas saudade de sons, cheiros e de uma sensação de espaço aberto que não podem definir. Para sermos verdadeiros, é importante que digamos que até nisto divergem: para uma trata-se do útero para onde sempre quer regressar, para a outra é só o sangue a lembrar onde foi que nasceu a infelicidade. Lá ou cá, o mesmo abuso, o mesmo olhar no chão, o mesmo patrão, os mesmos dias para trás das costas, só que mais frios, a fazerem-lhe doer os ossos por debaixo da capulana. A mesma capulana.

Os quilos de batata não submergem a vontade de Tina. Em cada tubérculo tira o escalpe a um da sua lista. Brancos quase todos, mas também um tio atrevido, um pai que gostava só de bazucas e, sobretudo, um senhor turvo, de balalaica, que não sabe quem é ou de quando foi, mas a quem quer muito retirar o escalpe e furar os olhos e arrancar-lhe o estômago pela barriga, para o trincar e sentir o sangue encher-lhe a boca. O coração não, para pedras já chegam as que lhe atiraram durante todos os anos de escola. Até ao dia em que aquele rapaz de cabelo oxigenado e calças de napa ridiculamente apertadas percebeu que ela era o amor da sua vida. Burro, coitado, que demorou tanto a perceber o que era tão evidente logo no dia em que ficaram na fila do refeitório - ela com outras primas, a serem ultrapassadas sem dizerem palavra; ele num enxame de cabelos loiros e soquetes no artelho, a cheirar a xuínga e cigarros Provisórios - e ele pediu desculpa por lhe ter pisado um pé. Quando por fim percebeu, sem que ela tivesse alguma vez aberto a boca mais do que para um sorriso, acabaram as pedras, as ultrapassagens, os insultos. Houve até quem passasse a tratá-la pelo nome inteiro: Catarina. Um eufemismo.

Acontece que o espírito revolucionário não se deixa salvar por um tuga. Apaixona-se perdidamente, sim, mesmo contra a Velha e todos os olhares na rua, mas quem salva Tina é só Tina. E foi assim que esse amor pôde crescer naquilo que é a sua própria essência: igualdade. É por isso que quando o seboso com a barriga a sair da camisa de manga curta, os farrapos de cabelo a escorrerem óleo, os sovacos a ressoar, entra na cozinha, ela agarra a faca com mais força. Trabalhar 12 horas só por comida - matabicho, almoço, jantar e restos para casa que dão matabicho, almoço e jantar para quem anda nos piquetes - é só porque não tem remédio, mas as mamas e o cu não estão incluídos no negócio. Portanto, da próxima vez que o seboso achar boa ideia apalpar mais do que as batatas, ela pretende cumprir a promessa que lhe fez na primeira: usamos as tuas tripas para meter marisco na matapa, filho da puta.

Para o dono da taberna não seria grande ameaça, vinda de quem vem era mais para lhe dar um estalo e pô-las no olho da rua, à fome que é o que esta gente merece. Só que há os retornados que lhe enchem a sala duas vezes por refeição, para comerem aquelas porcarias. A suspirarem pelas pretas que deixaram, pelas cervejas na esplanada do Scala, pelas catorzinhas, pelo Sol da Catembe e férias na Ponta do Ouro, como se fossem sul-africanos. Não que perceba o que são estas coisas, mas por debaixo do sebo é suficientemente inteligente para perceber que paga a casa, o carro e as putas, à conta da saudade desta gentalha, portugueses de segunda, sempre a chorarem o pilão. Também sabe que só pode manter este estado de coisas à custa da Velha, portuguesa de terceira, e quando a vaca da filha o ameaçou, ela riu. Riu muito alto, um riso cavernoso, carregado de gerações de ódio. Foi a única vez que alguém ouviu a Velha gargalhar e, apesar da substancial camada adiposa, ele gelou. E decidiu deixar as coisas assim, pelo menos para já. Alguma noite o carrascão lhe assentará melhor na fraqueza e lhe estimulará a coragem, atiçando a pila minúscula, e o seboso tratará de acertar as contas. No fundo, cobrar o que lhe devem estas putas ingratas, essa é que é essa.

...

Toni está agarrado a Tina, como se fossem concavo e convexo. As Almas um incêndio de esperança e amargura, à vez, minuto sim, minuto não. Ela usa os olhos cerrados como bainha para as facas rombas com que se vingará do mundo, escalpe por escalpe. Ele vela-lhe o suposto sono, um guardião de olhar embaçado que se ilumina de alarme a cada vez que ela geme no sonho. E de uma ternura que desconhecia no longo silêncio da noite. A subcave direita cheira a matapa sem marisco, aquecida em banho-maria num fogão a gás Campilex.

Estão nus, a escorrerem o suor um do outro e a arrepiarem-se no frio de cada um, colados, tão um como possam ser. Ele pensa muito baixinho, para não a acordar: um dia, namorada, um dia não será nada disto, mas um palácio. Se calhar na Costa, nos prédios novos, já era palácio que chegasse. E correrão mulatos pelas divisões e a Velha vai rir e estalar a língua e gritar txi moluene, você está fazer maningue barulho, né? Vais ver - e aperta-lhe a mão com um pouco mais de força - um dia, baby, a gente chega lá.

Escondida dentro de si, ela responde-lhe - para espanto de todos nós e também de Toni, que não seria o caso da Velha, mais que habituada a toda a espécie de xicuembos e canganhiças - muito baixinho, com medo de quebrar o feitiço: já vamos a meio caminho, namorado.

Cai a morrinha na calçada, um metro acima do teto, na Cova da Piedade, Rua de Moçambique. A puta da ironia, foda-se.

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