![]() |
| ...mas depressinha ohfaxabôr... |
O meu avô Alvarim sempre me disse: Oh morcom, a simplicidade é uma coisa muito complexa. A bem da verdade, diga-se que o velho estava enganado. A simplicidade é uma coisa muito difícil, mas nada complicada. Acontece que vai dar ao mesmo.
Acredito que nascemos maijómenos puros e, portanto, simples. Mas desde o berço que nos ensinam a complicar. Porque a Civilização sobrevive à custa de mamar na complexidade. Epá, o bebé está a chorar. Ou quer mama, espertalhão, ou está todo cagado.
Nanana, temos aqui este aparelhómetro que interpreta o tom do berreiro. Já veremos o que nos está a dizer o rebento. Nanana, deixá-lo chorar, tenho aqui um livro de um notável pedófilo que ensina que não devemos acreditar em tudo o que as crianças berram. São muito esquivos, os petizes. Hã? Ah, não, é pedopsiquiatra, desculpa. Ufa.
Quem não tem aquele colega de trabalho para quem tudo o que envolve as suas tarefas é basto complicado? Ui, isto não é assim tão simples. Era bom, era. Então achas que basta enfiar documentos na destruidora de papel e já está? E alinhar as folhas? E garantir que as farripas ficam todas do mesmo tamanho? E carregar no botão do destroy no momento certo? Não meu amigo, isto é mais complicado do que parece. Ainda quero ver o que fazem se eu meter baixa. Espera, deixa-me fazer um like na foto da minha vizinha.
E é disto que vivem os comentadores, os analistas, os políticos, os especialistas em geopolítica, em relações internacionais, os diplomatas, o Nuno Rogeiro, os estrategas de uma maneira geral e os gurus da comunicação, de modo particular. Vivem de complicar. Porque se fosse simples, eles não eram precisos para nada.
É claro que os maiores culpados somos, como sempre, nós, comuns ignorantes. Não pela ignorância, que em si é o melhor que o Mundo tem, mas pela avidez com que os ouvimos. E nos predispomos a acreditar, sem questionar, que nada é tão simples como parece. E se for?
...
Vai por aí uma complicação do caraças à pala do Brexit. De uma maneira geral, todos os espertos estão de acordo: É o fim do Mundo em cuecas. Ai espera, não, é só da Europa em ceroulas. Quer dizer, desta Europa. Qual? Uma qualquer, sei lá eu. Não foi sobre isso que pediram o comentário. Se era para pensar, ficava mais caro, ok? Basicamente está tudo perdido, terminado, acabado. Para nós, porque para os Grandes Bretões está maravilhoso, pois claro. Soa assim um pedacinho estranho, não?
Eu, que sou burro, não consigo compreender. Deixa lá ver, a Grã-Bretanha nunca foi parte do Euro, exceptuou-se a tanta regra, nomeadamente deveres - que dos direitos não se exceptuava de nenhum - e agora aqui d'el Rei que se pôs ao fresco? Portanto, a Velha Albion mudou-se de um sitio onde nunca morou e está tudo em pânico porque a casa vai ficar vazia? Oh Silva, isso é demasiado simplista.
Vou então pela matemática:
1 - 27 > 28 - 1, é uma proposição falsa ou verdadeira?
Opá, isso não é assim tão simples. Depende de quem é o um. Vejamos, se forem 27 cegos tetraplégicos contra o Rooney, é verdadeira.
E porque é que ninguém vê o Kroos, o Pogba, o Buffon,o Iniesta, foda-se pá, o Ronaldo, o Modric, o Hazard, contra o Bale? Sozinho.
Porque para ver o lado menos negro das coisas, não precisamos de comentadores, analistas e especialistas. Quanto pior o cenário, mais as pessoas os querem ver, ouvir e ler. Mais falta fazem os queridos fazedores de opinião - e de cera - que nos esclarecerão, do alto da sua original sapiência.
Deixem-se de merdas, não tem que ser uma grande hecatombe e é muito provável que a Albion se sinta muito mais Velha do que a Europa que decidiu abandonar, pobres de nós. A menos que desatemos a complicar e a fazer o jogo de quem passa a querer que as coisas nos corram muito mal. Para se justificar. Na sua miséria.
Para além do mais, é bem feito para o David. O Referendo não foi mais do que uma artimanha para suster o crescimento do UKIP e se alapar ao lugar. Depois foi correr para Bruxelas, arranjar um acordo mal amanhado que, basicamente, punha o UK ainda mais fora da União do que já estava e começar a fazer campanha. Qual Tsipras a prometer lutar contra a austeridade, depois de ter assinado o acordo mais austero de que há memória.
É tão simples olhar para os resultados.
Muito interessante reparar como a Grã-Bretanha procura ignorar os problemas que se arranjou. O Remain só ganhou, e muito expressivamente, em três zonas: Londres, Irlanda do Norte e Escócia. Ena, quando será o próximo referendo pela independência da Escócia? Eh lá, e se a Irlanda do Norte, tão integracionista, não quiser mesmo nada deixar de ser Europa? Como o seu vizinho de baixo. Quanto vale Londres numa eleição legislativa?
É igualmente muito interessante reparar que o Leave é tanto mais expressivo quanto mais subimos no escalão etário. É verdade que a Albion está tão Velha quanto a Europa, daí a vitória dos velhos Imperialistas. Mas é inexorável que morram primeiro os mais velhos. Quanto tempo demorará a Grã-Bretanha a querer voltar à União? O tempo suficiente para ter saído? Ou será até antes?
Por fim, tenho a certeza que nos esperam tempos muito divertidos. Vai ser catita ver a Catarina, o Jerónimo, a Marine, o Norbert, todos no mesmo coro.
Resolver a Europa de uma maneira estupidamente simples só implica dois passos:
1. Referendar em todo o lado, para saber quem fica e quem vai.
2. Se sobrar Europa Unida, levar o projeto a sério e até ao fim. Ou seja, aos Estados Unidos da Europa.
Porque esse é o caminho. O único. Mas eu sou um simples Federalista. Está claro que terei o maior gosto em debater com qualquer de vós as questões da Soberania e do Orgulho Nacional e dos Afins e de toda a espetacular Série de Balelas, em verde e vermelho. Curiosas as cores, não?
Sim, é uma magnifica oportunidade de sermos uma Europa solidária, coesa, una na sua diversidade e, finalmente, retomarmos o lugar que estamos obrigados a ter na História. Sem tretas desta vez.
...
A propósito de Europa, Portugal já vai nos quartos de final do Euro. Sem ganhar um jogo que seja nos 90 minutos. E a mim que mimporta. Ontem ganhámos com um piço tal, que já anda tudo à procura da antítese da Lei de Murphy. Vamos chamar-lhe, por ora, o Postulado Santos:
" Se fizeres praticamente tudo mal, o resultado final será bom. Graças a Deus. "
O facto de existirmos como Nação ao fim de 1000 anos, ajuda a provar a bondade da tese, passo o exagero. Mas analise-se o lance que nos deu a vitória contra o Boavista, ou o Moreirense ou lá quem eram os gajos:
O espetacular Renato arranca com a bola, no ressalto de uma bola ao nosso poste, sem oposição. Tendo jogado menos que os outros e possuindo uma notável, diga-se, capacidade física, vai por ali fora. Falha o tempo de passe. Demora. Demais. Está quase ao colo do Nani quando lhe dá a bola. Menos mal que, desta vez, não falhou um passe simples. O Nani já não sabe o que fazer e opta pela solução mais simples: Vai já um biqueiro daqui e seja o que Deus quiser. Mas bica mal, pelo que a bola, em vez de ir para a baliza, vai direitinha ao Ronaldo. A quem basta metê-la dentro da baliza. Mas acerta antes no guarda-redes, pelo que a bola ressalta direitinha à cabeça do Quaresma, que faz golo. A 30 centímetros da linha, felizmente, ou ele tentaria uma trivela de bicicleta. Hosana!
Estou contente com isto e acho que devíamos estar todos. Porque a frustração, neste caso, só pode existir por manifesta falta de simplicidade. Estamos entre os 16 melhores, com belas hipóteses de passarmos aos últimos 8. E já despachámos uma das boas equipas do torneio.
Ah, majé tudo pobrezinho. Ah, majocapitão devia de ser o meu tio Arnaldo e não aquele arrogante. Ah, majoRenatinho devia de jogar sempre, mesmo nojintervalos. Ah, majocaralhokiosfoda maijósdisparates.
Porquê complicar? Está a correr bem. Sejam simples e enfrentem a realidade, não é preciso inventar. O xôringinheiro pode dizer o que quiser. O PML, na senda de ser o mais fofinho de todos os que são tripeiros - para dentro e para fora - pode indignar-se o que lhe apetecer pela ausência do Sanches. Compliquem à vontade, como se acreditássemos.
Nós, os simplórios, só temos que olhar para a equipa que começou o último jogo:
Patricio - Disseram Courtois? Buffon? De Gea? Opá, Casillas? Neuer? Lloris? Baía?
Cedric - Ouvi Sagna? Azpilicueta? Rose? João Pinto?
Pepe - MotM
Fonte - Quem? Piqué? Hummels? O suplente Mangala? Chielini? Jorge Costa?
Raphael - Este faz-se, mas não viram ali o Alaba, não? O Evra? Ok, é melhor que o Nuno Valente.
William - Nainggolan, Kanté, Khedira, Fernando, Danilo? Ora, Ruben Neves!
Adrien - Oh c'mon...
João Mário - Vê-se logo que é do Porto, mas... Pogba, Modric, Kroos...
André Gomes - Em que lugar? À esquerda? Oh, para isso até o Tarik.
Nani - Muller, Payet, Sturridge, Bale, etc, etc... André?
Ronaldo - Oh yeah! Afinal temos um! UM!
Pode alguém ser quem não é? Pode! Olha, estes já vão nos quartos e prontos a somar! Até porque a seguir vêm os Polacos e eu tenho contas a ajustar com um deles. Blöd!
...
Keep it simply stupid? No, keep it stupidly simple! Como o Ronaldo perante um microfone da CMTV.
...
Soundtrack to Europa: Vai lá Ronaldo...e devolve o micro ao cachopo.





