quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Exercício: O que diz Molero





- E continua institucionalizado, certo?

- Sim, quando está vivo. Nas outras alturas, não temos como saber, está claro.

- É muito estranho, não lhe parece, meu caro Austin? Quantas vezes é suposto a pessoa morrer? Uma é certa.

- Molero diz, a páginas cento e picos, que falou com um tal de Maynard, suposto assassino profissional, recorrentemente contratado para limpar o sarampo ao rapaz. - Detém-se numa página. Bate-lhe com a mão. - Cá está!

De o ter matado várias vezes, acabámos por nos tornar amigos. Enfim, talvez seja apenas um exagero da minha solidão, quaisquer dois dedos de conversa me parecem uma festa. Falo pouco, tirando a úlcera, que precisa mais de atenção do que a Olga. E de copos de leite também.

Ele morre sempre com os vincos da testa muito pronunciados, carregado de culpa. Já se sabe que procuro ser eficaz: Enrosco o silenciador pela calada, quando ele se distrai, e despacho a coisa com um tiro único. Pum! Em cheio na têmpora. Compreenda que nutro um certo carinho pelo moço.

- Aqui, Molero disserta sobre a condição solitária da profissão de Maynard. - Desfolha páginas, à procura. - Ah, é isto!

Só por volta da duzentos é que se explica esta coisa da morte repetida do Rapaz. Aparentemente, morre para alguém. Segundo o relatório, embora sem possibilidade de prova factual, há um momento em que outro decide que o melhor a fazer é dá-lo como morto e já está. Molero levanta a hipótese de o fazerem em nome de um instinto de autopreservacão. E lá vai o tal de Maynard tratar do assunto.

- O Deluxe não me leve a mal, e sabe que tenho Molero em elevada consideração, mas parece-me curto enquanto explicação para um fenómeno tão inaudito, como seja o desacontecimento de um indivíduo falecer mais do que uma vez. - Austin coça a cabeça, sem tirar os olhos das folhas. Arrisca continuar:

- Molero acrescenta que outras vezes se tratará mais de um suicídio. Isto é, picado pelo mesmo instinto dos autores morais das outras mortes, o próprio Rapaz decide, em ocasiões, morrer-se. A este respeito, cita-se, de novo, Maynard:

O modus operandi é o mesmo. Mas ele está, por norma, mais calmo. Conversamos mais longamente, nessas alturas. O que não muda é o sorriso.

- Hã? Qual sorriso?

- Parece que, uma vez cadáver, isto é, tendo morrido para alguém ou tendo tratado de se matar para qualquer um, o Rapaz ganha um sorriso. Há mesmo quem descreva o semblante como plácido.

Molero esteve com uma tal Beretta, mulher de cabelos escuros e olhos faiscantes, a quem, pelos vistos, o Rapaz se terá confessado antes de morrer. Uma das vezes, quero dizer. Veja. - Aponta as linhas e segue-as com o dedo.

Oh, no fundo, percebe-se. Repare que ele acabou por encontrar uma forma pura de Amor. Que é estática e, de um ponto de vista prático, bastante inútil. É Amor, só, nada mais. Nada decorre dele, nem se infere, nem se espera. Como se fosse uma Estrela, entende? Brilha e Está. E são milhões de milhares de anos luz de distância. Não é por isso que deixa de aquecer.

Ele volta sempre ao princípio. Ao início de uma estrada impecavelmente alcatroada, serpenteando entre suaves colinas e campos de lirios e malmequeres e margaridas, bordejada de mimosas alegres e atentas. Afinal, é fevereiro. 

Se esse lugar é o ponto de fuga, uma espécie de morte portanto, é também o início do caminho, breve, que o leva inevitavelmente ao mesmo local: Casa. Percorre-o a correr, para chegar depressa.

Chegado, há sempre ovos estrelados no molho dos bifes. Diz que há.

- São os melhores, meu amigo, disso não há dúvida! Molero conta que, da única vez que conseguiu estar com o Rapaz, o encontrou uma pessoa Feliz.

- E viva, o que já não é mau. Tenho a certeza de que há um motivo ininteligível para essa Felicidade. - Suspira.

- De facto. Segundo Molero, deve-se ao facto de, vou citar, "Num Mundo de gajas  apenas boas, ter sido abençoado por Mulheres Bonitas".

- Upa! Para que saiba, meu caro Austin. -  Fecha o dossier.

...

Com uma vénia ao imortal Dinis Machado e ao seu lendário Molero. E a Dennis McShade e ao seu anti-herói Peter Maynard, meu herói para sempre.

Para as minhas Mulheres Bonitas, todas, independentemente do estado, com Amores. Vários.

...

Soundtrack to Life: Take it all!

9 comentários:

  1. Ou seja, do (Silva, que é do) Porto com Amor! :-)

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    1. :) as voltas que sou só para acabar a plagiar-te, chiça! 😄

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    2. Era: dou! Não, sou... raisparta!

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  2. e 'maynarda', pá! «quem escreve assim não é gago!»

    ps:
    não te sabia um moço apreciador de Berettas. eu sempre fui mais Lügers, P08 para ser mais preciso. mas estas, ónte, portaram-se mal ante as nossas fbp's... estávamos mesmo a falarduquê? gajas, não era? e com (ou sem) Amor? deve ser do dia dos namorados, "e que assim"... fui (que tenho o estrugido ao lume.

    abr@ço
    Miguel | Tomo III

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    1. L.O.L!! 😁
      Kumékié? Vejo-te na 6a? Ou tenho que mandar o Maynard buscar-te?
      Abraço

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    2. o Maynard que vá fazer companhia ao Depoitre. Sexta, depois do dia dos namorados, é para saber qual será o 'tomDela' (espero que pie baixinho. ou que amoche. de quatro. mas de preferência #cincazeroSilva 😎.)

      abr@ço forte e até Sexta
      Miguel | Tomo III

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  3. O que eu não percebo, é como é que vocês conseguem transformar tudo em bola ou a derivar para bola!
    Não é bola!!!! Parem! Ca nervos!
    <3

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    1. Como não??????? Então até mete o Maynard, esse espetacular ponta de lança Belga. AI, espera, isso é o Depoitre... :))))
      <3

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    2. @ menina Gabriela
      («cravo e canela»)

      recordo o comentário de Abril de 2015 (aqui) em que se disserta sobre o facto (insofismavelmente inegável) de que (e cito) «para um gajo, tudo se resume a futebol e gajas» ;)

      e é óbvio que «não é bola», porquanto que se trata de um esférico; como (também) se trata de Futebol, é 'chichinha' ;)

      beijinhos
      (com a permissão do shôr Silva, pois 'tá claro)
      Miguel | Tomo III

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