terça-feira, 1 de maio de 2018

O homem no Castelo Alto


Nunca lhe foi confortável a exposição. Habituou-se, é certo, como nos habituamos às coisas inevitáveis dos nossos dias. Ainda assim, o rumor da turba lá fora, os cânticos, o seu nome repetido vezes sem conta, continuam a deixar-lhe a barriga fria e as orelhas quentes. Em seu redor há um alvoroço de camareiros, de assessores, estrategas, peões de brega e outro povo miúdo que desconhece em absoluto. Não aumenta o ritmo nem diminui o passo, faz o corredor inteiro à mesma pouca velocidade, sem gritar uma ordem, sem dar uma palavra, limitando-se a receber papeis anotados, post-it amarelos rabiscados, muitas palmadas nas costas e um ou outro suspiro contido de alguma secretária invisível. De vez em quando, responde com o "hum-hum" que lhe é característico. Os poucos que o conhecem de facto, diriam de imediato que está nervoso.

Abrem-lhe uma porta, passa o limiar da confusão e está, por fim, só, na ante-câmara dos seus aposentos privados. Exceto pelo mordomo surdo e mudo e cego. Faz soar o seu sininho e, em menos de um fósforo, a divisão alberga o Estado Maior. É com eles que assomará ao varandim.

...

Ocupando todas as faixas da imensa avenida, as varandas de todos os edifícios, os passeios, os tejadilhos dos automóveis, as copas das árvores, os terraços e os telhados, o Mar Vermelho saúda a uma voz o Líder Imortal. Logo abaixo do varandim, por dentro do cordão policial, os altos dignitários da Nação prestam, ainda outra vez, homenagem ao orgulho da Pátria. As forças de segurança, ainda um tanto confusas - ainda agora estavam convencidas de que seria uma detenção e logo se tratava apenas de policiamento da festa - pugnam para que a paz prevaleça. 

Na primeira fila do Povo, os intelectuais notáveis, os políticos anónimos, os autarcas comuns, os artistas de várias castas e diferenciadas qualidades. De cada lado da avenida, um palanque. O da esquerda mais engalanado, o da direita menos elegante. Neste, apinham-se os jornalistas, com e sem carteira, as câmaras de televisão, os microfones das rádios, circulam charros, bebem-se cervejas, canta-se, pula-se, abraça-se. Ah, a alegria no trabalho. No da esquerda, alinham-se marciais as medalhas dos diversos ramos das Forças Armadas, os juízes, os oficiais de justiça e duas ou três prostitutas, das mais finas.

O sorriso sai-lhe franco por debaixo do bigode. Ei-lo, o seu Povo. Há um arrepio, mais de alívio do que de emoção, que lhe percorre a espinha. Oh sim, ele sabe, hoje aclamado, bajulado, levado em ombros, se deixasse que o tocassem. Amanhã, arrastado, amarrado à traseira da primeira carrinha de caixa aberta, pelas ruas da amargura. 

Mas isso que importa agora? À sua frente derrama-se a fundação e o sentido de todo o seu Poder. Felizmente, não têm a mínima noção, os pobres ignorantes. Ou fazem por não a ter, o que dá igual, senão ainda melhor. Ao vê-los assim, eufóricos, apaixonados, embevecidos perante o Guia de todas as Vitórias, sabe que os próximos tempos serão tranquilos. 

Bem-vinda que será alguma calma, tão conturbado e periclitante foi o passado próximo. Ora, próximo que tenha sido, não deixa de ser isso mesmo: Passado. E acena à multidão que entra em delírio.

...

As notícias que lhe chegam da Zona Livre são francamente animadoras. Como era inevitável, mais uma batalha perdida aprofundou as cisões, a contestação subiu de tom, aparentemente não há quem se entenda. Reconforta-se nestas novidades, por oposição ao que suou nos dias em que o vislumbre de uma derrota lhe anunciou o esboroar do Império, a implosão das fundações do edifício, enfim, o Fim. Pior que isso, o principio do Fim e não o derradeiro suspiro, a morte súbita. Antes os primeiros passos de um longo e tenebroso calvário que em vez de um mártir fulminado, o tornaria um pária indesejado. Lembra-se:

- Oh Domingos, hum, hum, e essa coisada dos filmes? Está resolvida? Hum hum?

- Nem por isso, meu caro, nem por isso. Apareceu mais um. Não entendo, parecem tirados de uma qualquer realidade paralela. Percebes alguma coisa disto, Luís?

- Hum...hum...

...

Another one bites the dust!


...

Com a devida vénia ao inigualável e eterno talento de Philip K. Dick

5 comentários:

  1. Amigo Silva
    Já não entrava na tasca desde o dia 30/07/2017. É bom cá entrar e ver que apesar de tudo estar no mesmo sítio, há qualquer coisa que me parece diferente. O serviço continua de primeira, os petiscos sempre do melhor apesar de haver quem reclame por mais opções vegetarianas e lights que não very, fregueses novos, regresso de alguns antigos, mas não, há qualquer outra coisa que está diferente! Será por ter finalmente recebido aquele email que o meu amigo tão ansiosamente estava à espera? Ah, ficaram de lho mandar no fim-de-semana! Então é isso, a expectativa! Dizem que a melhor parte da viagem é o caminho, não o destino, mas se não chegarmos ao destino não teremos percorrido todo o caminho, certo?
    Certo de que o destino chegará, apesar da viagem ter sido difícil, um “biba” a todos os peregrinos deste céu azul, rasgado por nuvens brancas!
    https://www.youtube.com/watch?v=tHXJix2GtMU

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    1. Eu gostava era de saber a que se devem esses longos períodos sabáticos, mas bem, é sempre uma alegria vê-lo de volta.
      E caramba, este fim de semana somos campeões! Pela primeira vez desde que há Tasca.

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    2. Ah!! Deixou uma nota de 10 de gorja! 🤘

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  2. É...neste ser social que formamos, este campeonato ganho por este Porto, é dos pouco sintomas de sanidade que nos restam.

    Um abraço.

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    1. Um raro momento de higiene. Asseio.
      Abraço.

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