segunda-feira, 7 de maio de 2018

Só assim! (outra carta ao Dragão Vila Pouca)



Grande Dragão Vila Pouca,

Podia mentir e dizer que foi para si um dos meus primeiros pensamentos, no eclodir da - yet another - festa, desta nova vitória, em mais um momento de libertação, como se uma nuvem cada dia mais negra deixasse de pairar sobre as nossas cabeças. Em cima de cujas o céu, afinal, nunca caiu. 

Não foi dos primeiros, foi até dos últimos. Numa sequência interrompida por outros pedaços da Vida, o coração a fugir apertado para os lados de Águeda - é outra história - e a correr transbordante de alegria para a nossa casa, o nosso Dragão. Todos vós enchendo o ecrã que teve que ser a minha janela para a alegria, essa que eu, perdoe a imodéstia, merecia tanto ter partilhado. Mas o que importa é que se deu, conforme previsto, conforme necessário, porque nem sempre a injustiça de uns homens se sobrepõe ao mérito de outros homens.

Às tantas, numa linha de raciocínio que é certo que envolveu cânticos e alguns abraços; que deve ter passado por muitos lugares e outras tantas pessoas; que é muito provável que tenha incluído belas mamas - só porque sim; lá cheguei a si. Salvo seja, que de mamas o meu amigo é uma vergonha. 

Certo é que tanta curva e contracurva das sinapses - juro-lhe que por vezes as oiço rebentar - cheguei a uma espécie de palco elevado, uma coisa em redondo, toda ela engalanada de azuis, como não podia deixar de ser. Nessa clareira da mente, nesse sítio onde se concluía, definitivo, aquele pensamento, entre os pulos e os gritos dos nossos heróis, eles próprios feitos adeptos, imbuídos da nossa alegria, afinal apenas mais umas dezenas no mar dos milhares que os rodeavam, como há muito - horas de vitória incluídas - não via, nesse exato instante em que mais uma sinapse fez pum e foi fogo de artifício sobre o viaduto, o silêncio repentino disse-me: Só assim!

Só assim era possível. Só passando por arbitragens como as da Feira, de Vila das Aves, de Moreira; pelo desrespeito em nossa própria casa, a mesa posta para os convidados, gostemos ou não deles, por obrigação desta educação antiga - diz que somos regionais e pequenos - quando nos impediram de ganhar ao 5LB; pelos erros próprios em Paços; pelas dúvidas existenciais do Restelo; só vivendo o momento de afirmação, sustentado numa crença inabalável, de vencer no covil do inimigo; sempre mantendo a par a luta lá fora, pelos poucos meios de que dispomos, e a raça, a emoção, os golos dentro do campo; só assim seria possível. Só assim! 

Quando me dava por contente pela minha conclusão, dei consigo. Lá estávamos, encostados ao murete em frente da porta 4. Os anos tinham andado um pouco para trás e fazia Sol, mesmo que não lhe possa já dizer se era Verão. Como sempre, eu defendia uma postura de recato, de competência e retidão, sem chafurdar nas lamas que tão claramente já vislumbrávamos. E estava artilhado de argumentos para todos os gostos, desde a nossa posição hegemónica - da qual você já duvidava basto - que não nos permitia ser guerrilha, até à superioridade que eu notava em campo, com a posse e o passe e uma cultura de equipa tão grande que já não me parecia caber num país tão pequenino. E mesquinho.

Isto não é Inglaterra, Silva! Se continuamos com esta postura mansa, somos comidos. Mas fazer barulho não chega, é preciso que lá dentro, no campo, as tropas consigam vitórias. Senão tudo esmorece. Este Clube foi feito de sangue, suor e lágrimas. Só assim, Silva, só assim!

Só assim, Vila Pouca, só assim. Obrigado.

E agora, estou aqui a matutar. Será que esta retumbante vitória nos deixa mais próximos de ser Inglaterra? Era bom, não era?

Um grande abraço, Campeão.

Silva

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10 comentários:

  1. Obrigado, Silva. No almoço que espero vás e desta vez com tempo, o teu café pago eu. Sim, porque se pagar mais qualquer coisa ainda apareço num blog do Benfica ou num programa de alguma lixeira.
    Abraço, campeão!

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    1. Eu disse-lhe que o deste ano era de celebração :)

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  2. Parabéns Sr. Silva. Campeões, finalmente. Abraço

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    1. Abraço do tamanho da Ponte D. Luis.:))

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  3. Meu caro Silva, o Vila Pouca é um filósofo do futebol. Pode-se algumas vezes discordar, mas seguramente 99% das vezes abanamos a carola pra frente e pra trás, cada vez que ele fala! Exagerando um bocadinho de nada, quando o Vila abre a boca, tornamo-nos todos uns headbangers!!!

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  4. headbangers?! Felisberto, estás a puxar o saco com palavras difíceis? Traduz isso, ó poeta.

    Abraços

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    1. Headbangers são aqueles maluquinhos como eu e o Silva que quando ouvem música da pesada, estão sempre a dizer que sim com a cabeça, mas de forma um poucochinho rápida de mais para depois ver tudo á roda!
      Um dos mais ferozes headbangers e juro que o homem até mete impressão é o Angus Young! Fosga-se, aquilo é que é abanar o capacete...
      O contrário de headbanger são aqueles tipos que gostam de fado e quando o ouvem olham fixamente para o tecto numa pose pseudo intelectual maduro branco com bolinhos de bacalhau. Alguns até conseguem ver nessa instropecção, uma abelha a obrar! Daí as abelhas obreiras... coisa que muita gente faz quando ouve o Luis Filipe Vieira a ler cartilhas com 10 anos de avanço!

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    2. até cuspi o café 😁
      #TrueStory

      abr@ço forte
      Miguel Lima | 92° minuto

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