terça-feira, 15 de maio de 2018

Os olhos e os óculos

Lamento, mas existe uma probabilidade estatística não negligenciável de que sejas menos bonita do que te vejo. Embora seja certo que não te minto e que te olho. Ainda que me afaste, posto nos meus óculos já progressivos, com as mãos atadas atrás das costas, impossibilitado, portanto, de acrescentar tato à visão, és-me assim tão linda. Está claro que me recuso a enfiar um saco de plástico na cabeça, com buracos rasgados por altura das vistas, ainda que disso beneficiasse a exatidão do resultado da experiência. Anularíamos o efeito do olfato, esse sentido primordial, animalesco, que me traz no teu cheiro a minha casa. Por outro lado, correria o risco de asfixia o pobre sujeito posto à prova. Um teu criado. Recorramos a uma mola, pronto, que me vinque o nariz a bem da ciência. Sendo seguro que a esta segura distância não te provarei, espetem-se dois tampões nos respetivos ouvidos, não vá à tua gargalhada estragar os pressupostos do ensaio, e teremos anulado todos os sentidos, exceto esse de ter olhos e ver. 

Se uma comissão de estudo, um conselho de sábios, uma máquina espantosa, uma nova tecnologia alienígena, puder comprovar que te vejo mais bonita do que aquilo que és, então é porque tenho as portadas escancaradas para um pátio em Aboim, onde um ruminante improvável pasta os arbustos rentes ao muro. De dentro do quarto, a minha Alma vê-te passar, lenta, lânguida, descendo a estrada - será um caminho de terra batida? - em direção ao terreno da festa. Uma coluna presa ao poste de iluminação pública, virada diretamente para os meus ouvidos, debita - ainda não deram as sete - Avés a esta Maria, Senhora do lugar e das Almas que se atreverem - oh tu, meu pobre - a olhá-la através das suas janelas. Tão bonita.

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Sou-te assim honesto, porque me debato com a irremediável dissonância entre Eu na minha mente e Eu no meu espelho. Nosso.

Regressemos aos meus óculos. Esses que uso para trabalhar, que têm uma griffe que agora não me lembra, à conta de uma promoção qualquer na compra das lentes. Como se tivesse sido imprescindível mudar as vidraças e, nesse caso, já se aproveitou e trocaram-se também os caixilhos.

Ponho as lunetas e o meu cérebro diz-me Clark Kent, intelectual sexy, maduro ma non troppo, os olhos meramente cansados de tanta letra, fantásticos poemas, donzelas arrebatadas, horas de estudo aturado dos Grandes Mistérios, hmmm disse sutra, cavalheiro com o seu ar Nespresso, what else?

Posso tirar a camisola, certamente, e deixar arejar os peitorais e o abdómen desinchado, talvez possa reparar nos pequenos traços dos músculos costais, e passear-me assim, os meus soberbos óculos nas ventas, pela casa, ao calhas. Quem sabe nos cruzamos no corredor, tu incauta, eu irresistível, o gato por entre as nossas pernas.

Pelo caminho o maldito espelho. Em dependendo do comprimento das barbas, um velhote de óculos ou um labrego em tronco nu.  E lá nos chocamos, inevitáveis, a meio caminho da casa de banho, tu compenetrada, eu um urso, o gato a exigir que o sirvam.

Deve acontecer, porque é uma regra implícita da tendência do Universo para o equilíbrio, que também tu sejas múltipla. E eu guarde nos olhos apenas a verdadeira. Tão bonita.

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Deste desequilíbrio da beleza entre nós, resulta uma meia-verdade insofismavel, como os atrasos da ferrovia portuguesa: podias arranjar melhor. Só meia, porque mas.

Olha, logo para primeiros, podias enrabichar um moço novo, todo ele photoshop, passa-lhe uma pessoa a mão e nada se gelatina, tudo rijinho - não seja porca, minha senhora - tudo definido como deve de ser. 

Mas ías acabar a rir-te comigo, numa visita esporádica em nome dos bons velhos tempos, da pressa desajeitada, do fôlego mecânico, do tédio de não saber aproveitar o tédio. 

Os meus pés sujos da terra ocre, estendidos para fora da sombra do alpendre; o escuro do interior da casa, onde as moscas se refugiam do calor, a contrastar com a alvura do teu vestido de linho. Depois ias dizer “mas a pessoa passa-lhe a mão...” e eu ia disparar pelo caminho colonial mal alcatroado, montado numa motocicleta, direitinho à liquor store em Hikka. No portão, o teu vestido esvoaça numa última gargalhada que a velha empregada desdentada partilha - como se percebesse uma palavra, raisparta a mulher - e guarda no sari gasto. Voltarei mais cedo e menos bêbado do que o aconselhável para o aumento da tensão dramática, a velha terá feito biryani de galinha, com vegetais cortados muito miúdos, como tu gostas - como raio podia saber? - e condimentado na medida certa de uma Lion lager. Comeremos os três com as mãos, no quintal, e tu anunciarás que tencionas prolongar a estadia, ao que ripostarei, implacável, que não podes ficar mais do que cem anos.

Um século depois, encaixados na rede pendurada das palmeiras, dir-me-ás ao ouvido, afagando o meu peito enrugado, “uma pessoa passava-lhe a mão e tudo o que lhe apetecia era o teu caril de frango”. Felizmente, comprei a liquor store de Hikka ou teria que ir afogar a raiva para a dependência de algum banco. O progresso, como nas lentes dos meus óculos. 

Antes de a motorizada desaparecer no pó da curva, ouvirei o anúncio da Toda Poderosa: fico só mais cem, não vás esquecer-te de alguma data importante.

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Eu bem sei que é fraco argumento, este de combater estupendos abdominais com especiarias. Mas é só porque as pessoas tendem a não perceber a importância do picante na língua. O modo como ela procura apaziguar-se em paladares doces, texturas macias, como se fosse absolutamente necessário desfazer as camadas de uma fatia de bebinca uma a uma. Na boca. Liquefazendo-se. 

Tu não subestimas estas indiossincrasias orais. É uma vantagem nossa, dos que nascem com a língua a arder, que tenciono utilizar em meu favor. E em teu, sempre que me der sede. Não me vou agora por a mudar uma equipa que ganha consecutivamente há tantos campeonatos.

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