terça-feira, 23 de setembro de 2014

1971 / 82 = 2003 / 14


- Um dia eu tinha 11 anos e juro que o Mundo era mais pequeno e mais longe. A mim parecia-me que os lugares de que gostava, as pessoas que, mesmo sem saber, amava, seriam eternos. Não me preocupava muito a mudança, porque tudo parecia mais ou menos imutável, seguro, permanente. Depois descobre-se que não é tanto assim, mas que isso também está bem. Demorou muito tempo até ter que enfrentar perdas verdadeiras. É a primeira coisa que tenho para te dizer: não temas a morte nem a mudança. O mais provável é que continues rodeada por todos os que amas, mesmo que não saibas, por muito tempo. O tempo suficiente para que sejas capaz de o entender.

Pressinto o plim da Néné, depois o da Rita Rita, a seguir possivelmente o da Cata, no bolso das tuas calças. Neles recordo os assobios na rua, os avisos: está cá alguém, bora malta, hora de sair.  São intemporais os chamamentos para a brincadeira, seja ela qual for. O toque a reunir dos amigos. Oh sim, eu sei que sou pré-histórico e que vocês têm coisas importantíssimas para tratar. Nós nem tanto, visto a esta distância. Nós éramos o Zico e o Falcão, jogávamos hóquei sem patins, de sticks improvisados em madeiras, de sarjeta a sarjeta. E eu era o Xana. Sim, o! Porque havia um que era o Xana e era o melhor de todos e Portugal era o Campeão do Mundo. E tu tens agendas cheias de marcações de consultas na tua clínica, viagens pelo Mundo na tua agência de viagens, pedidos de comida do teu restaurante. Como eu tinha uma biblioteca escolar no quarto da Pinky e mandávamos calar os meninos que falavam alto. Bonecos, como os teus clientes. É a segunda coisa que tenho para te dizer: adoro ter 11 anos contigo. Mesmo que sejam outros tão diferentes dos que eu já tive. Mas contigo posso e prometo que, a espaços, terei sempre a idade que tu tiveres. Partilharemos isso, como partilhamos os dois vincos na testa.

Acho que te vou deixar ir agora. Sei lá porquê mas comovo-me feito um parvo. Como há sempre três depois de duas, a última coisa que tenho para te dizer é que te adoro. Só.

- Mesmo quando eu me porto mal?

- Claro. Sempre.

- Mesmo naquelas alturas em que é meeeeeeeeeeesmo muuuuuuuiiiiito mal?

- Sim, claro. Em todas as alturas. Não quer dizer que não te vou bater...

- Raios!

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