quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Fronteiras a salto



O hippie transgeracional residente, passa os dias a repetir o seu eterno eubemdizia, salpicado com um ocasional nósempredissemos. Escapa, pela sua natureza reservada e determinada alergia à cibernética, à onda de consternação facebookianóinstagramanianóraikuspartissatodos, e refugia-se na sabedoria, segundo ele, milenar do seu filósofo de eleição. A bem dizer, o único que verdadeiramente leu: John Lennon. Dos outros decorou umas citações e, mesmo assim, baralha-lhes os autores, para sempre ofuscados numa nuvem de vapores ácidos e campos de erva fumegantes. Diz-me do fundo dos olhos encovados:

- Ele avisou, Silva: A brotherood of men! Simples.

Enquanto o deixo escorregar para o torpor de una más sem sal e sem limão, noto como os anos me retiraram a capacidade de imaginar. Há sempre tanto porque matar e morrer. E desfilam as imagens de choque: Crianças a darem à costa como alforrecas; lágrimas desesperadas em comboios apinhados; as sentinelas em ombro arma; o arame farpado; os miseráveis a calcorrearem os atalhos do desespero. Agora vemos, noutros tempos outras gerações puderam fazer de conta que não sabiam. E tanta loja de perfume! Tanto noticiário abutreo, tanto hipócrita de gravata e de turbante e de barba profética e de halo angelical. Tanta pomba assassinada!

Afago a imagem deste ébrio no meu balcão. Mesmo sem querer, é ele que está certo. Não há solução. Nem famílias de acolhimento em países plantados na borda do Atlântico - esse mesmo, que olhou desconfiado e temeroso para os seus próprios pródigos filhos quando os obrigou a regressar. Esse que, sem nunca lhes facilitar a vida, lhes pastou a iniciativa e o empenho e o horizonte 50 anos mais largo que trouxeram de Além do Mar. Nem triagens afrancesadas de fugitivos de guerra para aqui, perseguidos para aqui, esfomeados para ali. Daí virá a corrente migratória de todos os que fogem não da bala mas da miséria, a torrente de gente em direção a uma qualquer guerra que os torne aceitáveis no Mundo Bom. Nem a seleção e recrutamento Merkeliana. 800 mil são muitos, mas quais? Não são uns quaisquer, aposto, são ESSES 800 mil. Nem os quilómetros de arame numa fronteira borrada de medo. Nem salvamentos condenados a serem insuficientes, porque cada vida perdida é uma a mais. Nem deixá-los morrer no mar. Que este mar é tão perto, pesa tanto nas nossas noites.

A solução é não virem. É certo que duas ou três bombas numa coluna de gente num caminho de ferro é um belo dissuasor. É certo que não seria difícil encontrar o fantoche que tratasse desse trabalho sujo. É certo que abrir as comportas por um instante, trataria de apaziguar, no pânico e na ganância, as consciências da populaça. Quando se abrem comportas, a inundação é certa e os aldeões aprestam-se a quase tudo. Mas nenhum Próspero Império sobreviveu, nunca!, à pressão dos seus Bárbaros, fortificando-se. Tarde ou cedo todos tentaram, todos caíram. Não podem poucos ter o que muitos outros só sonham. Não quando isso é água ou o direito a não ser chacinado ou comida para os filhos. E vá, acontece no nosso quintal.

Não virão se o risco e a vergonha não compensarem. Se lá nos ermos de onde apareceram, coitadinhos, pobrezinhos, que nem cá se sabia que existiam, - menos se forem Romenos, esses são do piorio, Cristo Credo; ou daqueles que explodem por tudo e por nada; arranjem lá maneira de salvar só os coitadinhospobrezinhos que eu estou aqui a ver - tiverem, por esta ordem: direito à vida e pão para viver. É hipócrita andar décadas a brincar aos Países, e com os Países, a por e a dispor, a explodir hoje para para lá fugir amanhã, a mamar na teta do Ocidente Infiel e do Oriente Terrorista e cheio de petróleo. Está a rebentar? Naturalish! Oh, but it's a long way to go to the border of Mexico. Ou da Ucrânia. Ou da Mongólia. Para já, os velhos Europeus que resolvam. Talvez mais logo o Mundo Novo se preocupe. Já não vimos isto antes?

Junto um copo de shot para mim. Eu preciso do sal e do limão. Chocamos os copos cheios. Ele sorri os dentes amarelados. Eu digo:

- Pois, give peace a chance.

- É isso Silva. Não há arame farpado que contenha o desespero.


...

- Deixe lá que isso não é nada hipócrita. Nãããããooooo senhooooor! Deixe-se de tretas tasqueiro. Por-se aí a dizer que a única solução é uma que é exclusivamente utopia, ajuda à brava! Só se ajudar a atirar-me para baixo de um TIR. Merda pra si! - Grita-me de olhos vermelhos um dos velhos.

E eu fico sem resposta a vê-lo bater no balcão e a sair furioso pela porta. Sinto-me corar.


...

- Ao menos são mais bonitos que o Herrera! - Diz alguém do meio do fumo da zona dos fumadores.

- Hã?! Kékisso tem a ver?

- Então mas não estava a falar de passar fronteiras a salto? Pensei que era dos Mexicanos...

5 comentários:

  1. A solução é a mais simples e a mais complexa de todas. Que a raça humana comece a viver de uma forma inclusiva e não exclusiva.

    Mas isso vai contra a forma egocêntrica de viver neste mundo.

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Se ao menos essa fosse a nossa natureza...
      Abraço

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  2. prefiro a poesia do sr. Jim à filosofia do sr. John. mas, gostos são gostos e não deverão ser discutidos...

    quanto à pertinente temática em apreço, na minha opinião, o problema reside na opinião que a badocha da Merkel terá sobre a dita cuja. enquanto ela não emanar directrizes à restante manada da Comunidade, o trágico destino de muitos milhares de refugiados manter-se-á.

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

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    1. Não Miguel, desta vez a Alemanha tem a posição mais progressista que possas imaginar. Aliás, a badocha por sua conta e risco, provavelmente contra boa parte dos seus eleitores. É a Merkel que apela à Europa para a solução conjunta e que respeite, antes da política, os valores humanitários que fundam a civilização Ocidental. Não chega! Eu acho que a solução não está cá. Está lá! Na paz e no pão.
      Abraco

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    2. Já agora, de acordo quanto à poesia. Mas não se adequava...

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