domingo, 25 de setembro de 2016

A Mesa do Canto: Leicenkirchen, Gelsenceister ou lá como se chama (com Felisberto Costa)



O Berto está com um ar um bocado enfadado. Para além de que, apesar do movimento razoável da manhã, está sozinho ao balcão. Ou tem uma canalização menos agradável para desentupir, numa urgência domingueira, ou não lhe agrada a ideia de almoçar carne de porco à alentejana. 

- Então pá, abandonado ao balcão? - Ele encolhe ojombros.

- Oh, quero lá xaber. - Encolhe-os de novo, o que prova que quer mesmo saber. - Até madmira o Xilva não extar ali ao fundo. Vai por lá uma grande animachão. - Tento espreitar por cima das cabeças, em bico dos pés. Só vejo cocurutos meio depenados.

- Quem é que está na mesa do canto?

- O xeu amigalhacho. Aquele muito pouco orichinal, ao nível da onomáxtica.  - Volta a meter o cachaço abaixo das omoplatas, enquanto emborca um fino com Favaios de um só trago.

- O Felisberto? Então o camurso não veio beijar a mão ao padrinho? Vai levar um calduço!

- É. Habitue-xe! Agora é uma extrela, já não liga a tachequeiroj. - Entredentes: - Até o nome tem que copiar óchôtroj, copião...

Deixa lá ver a que propósito é o ajuntamento, em vésperas de Champions...

...

"Num dia de Abril de 2004, à noite, chego a casa e digo à minha mulher: os cabrões dos Espanhóis fecharam-nos a empresa! Tou desempregado!

Um mês depois, o FC PORTO chega à final de Gelsenkirchen, um dia antes do aniversário do meu irmão. Uns dias antes, tou em casa do meu cunhado. Falamos de tudo, menos de futebol. Tocam à campaínha. É o “Chocha”. Boavisteiro dos 4 costados, pergunta-me: ó Berto num bais ber o Porto, carago? Olho para o ministro das finanças (vulgo a minha mulher) como cachorro que falhou o osso de vitela à última da hora. Ela olha para mim e diz: queres ir?

Meia-noite desse dia, o Dragão é um imenso mar de gente. Os Super Dragões, qual guarda pretoriana, controlam a ordem. Eu e o Chocha chegamos a uma barreira feita com dois paus atravessados. O SD pergunta-me: é para comprar bilhetes? – Nã, é para ver a paisagem! Claro que é para comprar bilhetes!

Doze horas depois, um portista e um boavisteiro saem do Dragão com um sorriso tal que nem a Colgate sonharia em fazer publicidade! Fazemos as mochilas, e lá vamos nós prá Batalha, apanhar o autocarro de sonho! A RTP ainda vai a tempo de entrar e, coincidentemente, faz-me uma pergunta estúpida, à qual respondo inteligentemente: se bamos ganhar? Claro, bamos trazer o caneco, caralho!!!

3 longos dias depois estamos em Gelsenkirchen. Chegamos de manhã e aproveitamos para ver a cidade, tirar fotos (que um maldito computador anos depois daria o peido, perdendo eu esta recordação memorável), comer numa roulotte turca, e o turco diz-nos num inglês arribeirado: fuck them, fuck them, ok?

Às 3 da tarde, o Chocha, hipocondríaco por vocação, doente por necessidade, já quer zarpar para o estádio. Oube lá, tás maluco ou quê?. Foda-se, bim ber o Puerto, num bim dormir pró estádio. Bamos mas é apreciar estas alemãs (se bem que algumas com o físico que ostentam sejam mais alemonas!)…

19.45h. Hora mágica. Direito a ver o jogo sentado, apanhamos com os SD. Toca a ver o jogo de pé. A hora e meia de sonho passa fugazmente pelos meus olhos. Dizem que a felicidade é efémera. Não acho. É talvez um bocadinho rápida de mais!

Carlos Alberto, Deco e Alenitchev marcam. Jorge Costa já canta em pleno jogo. Baía salta. Nós saltamos. Creio bem que todo o Mundo salta. Até lá em casa, a minha mulher deve estar aos saltos (salvo seja, não sejam maldosos). Já fui a muitos concertos rock, mas este será sempre o melhor da minha vida! Os solos de Deco, o baixo de Pedro Mendes, a bateria de Baía e os teclados de Alenitchev, ficarão para sempre gravados na minha memória!

Tempo de regressar a casa. Quinta pela manhã. Ao finalzinho da tarde entramos em Espanha. E mais uma vez, os cabrões dos Espanhóis implicam comigo. Quer dizer, não foi bem comigo, foi com o autocarro. Multa de muitos milhares de escudos e autocarro detido por 8 horas…

O Chocha entra em parafuso. Lembrou-se de repente que tem exame de condução na sexta! Apodera-se dele todo a hipocondria que se possa imaginar e desata aos berros. Tá a morrer! Uma a um ou dois a dois, o autocarro inteiro vem ver o que se passa com o gajo. Quer um hospital, diz ele! Como se o S. João ou Santo António estivessem ali ao virar da esquina, ali em terras Bascas! Como não sou médico, nem enfermeiro, radicalizo a coisa: Ó João, qué que foi pá? Foda-se, tás a dar um espectáculo.

- Dói-me a barriga. - Diz ele.

- Dói-te? Então é fácil. Bai lá fora cagar. Isso é merda acumulada. Até tás amarelo, cum caralho!

Sexta de manhã, saímos do aprisionamento involuntário pela guarda Basca – viemos a saber que, apesar de ter 3 motoristas, o autocarro tinha forçosamente que parar 8 horas para descanso. O Chocha, ao meu lado, não se cala com o exame de condução. Farto até aos cabelos digo-lhe: foda-se pá, deixa lá, é menos um morcom a estorbar na estrada.

Sexta à noite, entramos em Portugal por Bragança. E de repente, um cheiro nauseabundo invade o autocarro. Travagem brusca. O Chocha, no seu eterno optimismo, diz que os Espanhóis invadiram Portugal e lançaram gases lacrimogéneos. Se calhar, já nem existe gente em Portugal.

- Vai-te foder, João. Foda-se, quem devia lebar cum gás nas bentas eras tu!

O mistério, porém, é rapidamente resolvido. Um gajo, lá atrás, na “cozinha” do autocarro, já não suportava a comichão nos pés. Como tal, decidiu tirar as meias!

Sábado, 11h da manhã, Batalha. Somos os últimos dos últimos a chegar à casa-mãe. Se fosse uma corrida com descida de divisão, desceríamos logo dois escalões seguidos. Tanto assim é, que as pessoas param, olham para nós como se fossemos ET’s. De repente. a Batalha começa a bater palmas, a cantar PORTO, PORTO, PORTO!

Chego a casa. Antes de meter a chave na fechadura, cofio a barba de uma semana, ajeito o cabelo, meio comprido e gorduroso, com os dedos. Preparo-me para um entrada triunfal! Entro. Vou à cozinha. 

No frigorífico, um simples bilhete: fui à feira, volto já!"


...

Há umas valentes semanas, mandei um e-mail ao Felisberto que, como sabem, faz parte da "malta da Tasca". No meio de um ou outro disparate, dizia-lhe que achava que a Tasca precisava de um toque tripeiro, de um cheirinho de Ribeira e sotaque genuíno, colhido no Bolhão ou assim. E desafiava-o a ocupar, com caráter regular e tempo indeterminado, a "Mesa do Canto". Porque aqueles atributos sei eu que o Felisberto tem. E eu não.

Isto de pedir ajuda para apaziguar a minha preguiça, é algo em que penso há algum tempo. Entretanto, o Lápis fez o grande favor de palmar o melhor título de sempre para um espaço deste género. 

Como um roubo nunca vem só, entre o meu convite e a resposta do Felisberto, dou com ele contratado por um dos grandes. Corrijo: pelo maior! Ora, eu cá, se pudesse jogar no FCP, também não ia para o Recreativo de Trajouce. 

Mas o Felisberto teve a enorme delicadeza de, ainda assim, fazer o favor de enviar o texto acima. Que agora se publica, no contexto que creio mais adequado. Porque é na Champions que estamos a pensar. E porque, pensando, não nos devemos esquecer que somos um dos Campeões. Não somos nós que temos que temer. São eles. Todos. Mas isto só serve para alguma coisa, se esta convicção começar no balneário. No nosso.

A "Mesa do Canto" continuará a ser ocupada pela malta da Tasca. É uma ameaça. 

Obrigado Felisberto.

...

Soundtrack to Mr.Costa: Time marches!



10 comentários:

  1. A honra, o orgulho e a satisfação, é toda minha!
    Sinto-me profundamente feliz por poder frequentar tamnaho estabelecimento.
    E quando alguém me disser ; "oube lá, ó morcom, bai-me á loja"! Já sei onde ir...
    Até porque adoro contar estórias...

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    1. Obrigado amigo. E em nome do mal educado do Costa também :)
      Abração

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  3. "é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa" ...

    se bem que não goste muito da cacafonia da última estrofe, veio-me à cabeça ...
    este espaço é mesmo muito bom ! como chegar a casa ( a nossa, do nosso clube, da nossa cidade, na nossa infância, da nossa alegria, malandragem, fé, inocência, esperteza, um "sei lá do que somos feitos" ... )


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    1. É a tasca da esquina! Missão cumprida! Obrigado.

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  4. Felisberto, o 'joKer' da Equipa de :)

    Parabéns a "ambos os dois", para a Felicidade dos tasqueiros

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

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    1. O que se que quer é a freguesia feliz :)
      Abraço

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    1. O Felisberto? Credo. ;)
      Obrigados, Carrela.
      Abraço

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