quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Teoria Política da Higiene Dentária


Ninguém é obrigado a escovar os dentes. Podemos desvalorizar o facto, podemos não lhe conceder atenção, mas lá por isso não deixa de ser verdade que se trata de uma escolha, do exercício do mais puro livre arbítrio. É também destas pequenas, mas significativas, liberdades que se faz a Democracia.

Não devemos descurar a forte pressão social para que todos lavemos os dentes. Há no ato de não compliance com esta norma, um imenso grito de rebeldia. Uma afirmação da individualidade, por oposição ao conformismo das maiorias. Pelo menos, e no caso vertente, da maioria de boca. Isto é, do que se diz, antes do que se faz. Dir-se-ia que estamos perante a assumpção de uma honestidade intrínseca, de um Neo-Liberalismo até, se visto na perspetiva individualista da corrente.

Numa Ditadura, poderia um qualquer líder achinesado, de cabelo à mete nojo, obrigar todas as pessoas a escovar os dentes, as vezes ao dia que melhor lhe aprouvesse. Bastaria decretar que todos os cidadãos tinham que lavar os dentes três vezes ao dia e pronto, aí estavam as fábricas Estatais de dentífrico a bombar quatro turnos diários. Neste cenário, seria inimaginável alguém erguer-se no seu lugar e proclamar, por atos ou palavras: Eu não lavo os dentes. Sob pena de estar a atentar contra a sua própria vida.

Concluí-se pois que há na Democracia uma certa tendência para a badalhoquice e para o mau hálito. Em compensação, encerra-se nela todo um vasto campo de escolhas possíveis e individuais. O que, naturalmente, significa uma maior probabilidade de termos pessoas mais felizes e contentes. Pois que escolhem os seus próprios caminhos.

Enfim, somos leitões, rebolando felizes no esterco.

...

O próprio conceito de Democracia, enquanto poder do Povo, remete para qualquer coisa com cheiro a refogado e chouriço e óleo de camiões e assim, se olharmos de um ponto de vista um tanto elitista. Cagão, vá. O que não se pode, é negar a alegria de belas chispalhadas regadas a carrascão, seguidas de épicos pães-de-ló e renhidas suecadas. Arrotando satisfeitos pela tarde fora.

Já olhando para o sistema enquanto garante da liberdade do indivíduo, devemos sempre atentar aos seus limites. É um cliché repetir que a minha liberdade termina onde começa a do próximo. Ainda que ele esteja atrasado e perca a vez, há que respeitar o seu direito e não invadir com a minha individualidade egoísta a sua bolha privada. Salvo seja. 

Para que se perceba bem, digamos que não é uma consequência do sistema Democrático que eu mije para cima de quem vai encostado à porta no metropolitano. Só porque me apetece verter águas, ao mesmo tempo que tenho vontade de desenhar as minhas iniciais na porta da carruagem. Sei lá, acho giro.

Este tipo de exagero no aproveitamento das liberdades que a filosofia Democrática pretende garantir, pode facilmente descambar num radicalismo, já à beira da Anarquia. Para uma Ditadura do Proletariado, vai um passo. À reação milíciana de Direita Radical, vai outro. 

E lá teríamos camisas negras e fardas de caqui a empestar o metro em hora de ponta, prontas a espetar à baioneta qualquer transgressor. Ou todo o bigode farfalhudo, com as calças a escorregarem abaixo da pança e rego à mostra. A milícia tende a estereotipar o militante de Esquerda.

O facto permanece: É do mais elementar sentido Democrático, aceitar que ninguém é obrigado a escovar os dentes.

...

O adiantar da manhã é sempre demasiado lento, quando são seis horas. E o anúncio do fim do Verão na brisa que se entranha pelos colarinhos, não ajuda. Sobretudo na memória de um corpo amado e quente, que fica para trás à velocidade dos solavancos do comboio. 

É talvez por isso que nem as considerações acima o distraem do insistente som. Grafá-lo é complicado. Opte-se então por explicar: É o som da língua a estalar nas beiças, enquanto percorre a dentadura. Um incomodativo tssshhccc, à distância estreita do corredor da composição ferroviária.

À beira da loucura, o fulano da estranha gabardina agita-se no seu banco isolado. Olha o companheiro de viagem, absorto na sua higiene bucal, com alguma insistência. Mas sem resultado prático. Tssshhccc, tssshhccc, e volta ao siso lá de trás. 

Por um instante detém-se. Apenas porque lhe é complicado deslizar a língua pelos dentes, enquanto enfia o indicador inteiro no nariz. Uma pequena gota, das duas que sobram, aumenta o volume do copo transbordante.

Sem alternativa que se apresente, intenta uma palavra, com a delicadeza que resta no seu frágil equilíbrio:

- Importa-se?!

Do assento do outro lado do corredor, a resposta surpreendida:

- Hã? Tssshhccc. Que foi? Tssshhcc. Tájólhar pradonde? Tssshhccc.

- Importa-se?! - Um tom mais alto.

- De quê, pá? Tssshhccc. Olhameste, olha. Opá, lEmbe-mos! Tssshhccc.

Só no momento em que os canos serrados colados à boca do tssshhquento o impedem de prosseguir tssshhcccando, é que se apercebe que, à luz da Teoria Política, está a ter uma atitude um tanto Ditatorial. Afasta este breve pensamento com a leve e libertadora pressão no gatilho.

A complicação que vai ser, raspar os miolos daquela janela. Seria melhor não os deixarem secar.

...

- A sério, Senhor! Isto é demais. Nem eu tenho estômago. Percebe-se lindamente a Ira Divina sobre este sujeito. É que começa a parecer perigoso. - Indignado.

- Pois, é capaz. - Pensativo.

- É capaz? É capaz? PelamordeSi, há que o colocar na ordem. E é já! 

- Pois, sim, é capaz. Não deixa de ser um barulho muito irritante...

- Não! Não posso crer que esteja a condescender. - Re-indignado.

- Quer dizer, pois, não, não é isso...

- Protesto! Protesto com grande veemência se esta situação passar em claro.

- Oh, claro que protestas. O cachopo bem me contou a figurinha que fizeste na Última Ceia. Tssshhccc, tssshhcc, não é, senhor Pedro? Já lavar essas dentuças, antes de fazer chover.

...

Soundtrack to bloodbath: Public enemy.

14 comentários:

  1. Que bela descrição de Democracia :)
    É fantástica a forma como o Silva pega em simples temas do dia a dia e os transforma numa bela viagem de comboio pela Europa parando numa série de apeadeiros!
    Obrigado.

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sabes pá, irrita-me mesmo que façam barulhos com a boca. Tento distrair-me com tudo e mais alguma coisa. Às vezes, tenho saudades do meu Psiquiatra. ;)
      Abraço.

      Eliminar
  2. Pasta medicinal Couto, sempre.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ora aí está um belo conselho! Capaz de poupar os nervos a muito boa gente. E os miolos a outros tantos... :)

      Eliminar
    2. O COI autorizou o uso de substâncias proibidas para os ginastas duma parte do hemisfério. Esses podem estar isentos de escovar os dentes e não conhecem a pasta medicinal Couto.

      Eliminar
    3. Ou então podem escová-los às cinquiseis vezes ao dia... :)

      Eliminar
    4. kkkkk e a promoção do Iglo?

      Eliminar
  3. Penso eu de que, a democracia mais não é que a ditadura das maiorias, sejam elas absolutas, simples ou geringonçadamente pré-combinadas.

    Já as ditaduras, são o apelo do amor paternal que determinado (s) individuos(s) tem pelo seu povo. Nem que esse amor seja mandá-los pró Tarrafal, Sibéria, ou outros lugares assim tão alegres, apesar de não serem roteiros turísticos.

    Mas a democracia a mim, incomoda-me! Incomoda-me que a maioria diga que a minoria é estúpida, ou se é minoria, é porque fez merda da grossa e perdeu as eleições para se tronar assim pequenina.
    Como a ditadura do proletariado, faz-me mal aos dentes, com ou sem escova! O único líder em quem sempre depositei uma fé inabalável, foi no Pinto da Costa. os outros são tão Maos, que estalinisticamente falando o querido líder norte-coreano mais não passa de uma sopa de abóbora com espinafres.
    Aliás nada como um chulo como o Marx ter inventado essa porcaria, afim da mulher lhe aumentar a mesada!

    Bem sei, e jamais o renegarei, que tenho uma costeleta de direita.
    Fui educado em pleno Portugal a preto-e-branco, com os seus defeitos e virtudes, desde a familia, pátria e amar acima de tudo o clube!
    Foi a minha mãe que em educou, e não a Suzete do infantário de Ramalde! Foi o meu pai quem me levou a ver o FC PORTO e não a visita guiada da escola básica CS + 1 ou qualquer coisa que o valha.
    Sou do tempo em que uma mini-saia nos punha a imaginar o quanto a gaja seria boa dali pra cima, enquanto agora o esquerdista fio dental, leva á banalidade o que se esperava de uma jovem: o seu misticismo corporal!
    Claro que sou uma espécie de ovelha negra para a minha espécie! Ao contrário de Deus, Pátria e Familia, ou proclamo Familia, FC PORTO, Rock'n' Roll e a pátria que se foda que só serve para me carregar de impostos. Já sobre a divindade, a minha opinião há muito está formada: Pinto da Costa no Céu!

    P.S. a liberdade individual de cada um a mim, não me aquenta nem me arrefenta; mas o hálito que muita gente amanda boca fora, minha nossa! Já cheirei peidos mais ecológicos que certas bocas!
    Desculpa pela longa metragem...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Discordo! Acho que a higiene oral é sempre importante, pelo que o adequado uso de fio dental se revela bastante apropriado. O próprio Misticismo pensa o mesmo! :)
      No dia em que a metragem for curta, começas a pagar o tinto!
      Abraço.

      Eliminar

  4. o polvo é quem mais ordena, Silva.
    (apesar de não gostar muito de cefalópodes)

    amanhã, #cincazeroSilva, seguido de repasto? é que só uma sugestão

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Fernando?
      Gostava muito, mas não vai dar. :(
      Não leves a camisola do chinês!! :)
      Abraço.

      Eliminar

  5. @ Felisberto

    nunca, nos tempos mais recentes, e sobre questões extra-bola, me revi tanto num comentário ;)

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

    ResponderEliminar
  6. Respostas
    1. São 6 horas. Ninguém ao lado. Tranquila! :)

      Eliminar