segunda-feira, 19 de maio de 2014

Contributos para uma Epistemologia dos pneus



Pequenito e saltitão. Não encontro melhor forma de o descrever. A não ser talvez pelas mãos, eternamente sujas de óleo e borracha.

Deve estar a falar de futebol e mulheres, debruçado no balcão. Aposto que está em bicos de pés. Eu, alheio, estou fixado na sujidade entranhada dos seus dedos, no luto permanente das unhas. Tem as mãos limpas, sei-o. Tão limpas quanto as constantes lavagens podem permitir. Não sai.

- Ficam sempre assim Silva, nada a fazer - reparou. É demasiado tarde para disfarçar ou inventar. Mesmo que não seja, é segunda-feira e a minha energia está perigosamente no vermelho. Nem me esforço.

- O trabalho marca-nos meu caro, é fatal. Eu cheiro sempre a vinho e comida, mesmo no banho - afinal ainda me sobra a lucidez de me irmanar, tornar-me parte da comunidade: sou como tu, não te estava a julgar.

- Mas sabe, é uma arte isto dos pneus. Quando sei que estão a olhar enquanto trabalho, torno-me o Ronaldo da reparação pneumática. Volteio e saltito, traço gestos largos a aplicar a jante, bailo. 

Depois sinto-me estúpido porque sei que me julgam estúpido por fazê-lo. Mas são eles que não percebem nada da minha ciência.

Preocupam-se com os pneus. Bem sei que são eles que se lhes furam e os impedem de prosseguir. Têm que meter o sobresselente e procurar-me. Mas esses são fininhos, só os deixam andar uns quilómetros, devagar, devagarinho. É como se ficassem com as vidas suspensas de um naco de borracha. Mas veja aqui - mostra-me uma fotografia no telefone.

- É, falta o pneu.

- Não é isso Silva. Isto é o cubo da roda. É o que está por baixo. Depois há jante e há pneu. Mas na verdade, é esta peça feia que faz rodar a roda. Sem isto, escondido no fundo, não há borracha que valha. Por si só, um pneu não é grande coisa - guarda o telefone. Como que embrulha em seda e ecrã tátil a sua relíquia: o cubo da roda.

- Uma espécie de alma da roda. De amor da roda. O pneumático é só roupa. O cubo é a chama, a força, o rasgo - concluo com o brilho de ter chegado lá sem explicação.

- Nada disso Silva. É uma peça. A chama é o motor. E não é um carro meu caro, é a Vida - engole a mini, dá-me uma palmada no braço, condescendente, e saltita para uma mesa que se começa a rir ainda antes de ele ter feito a piada.

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