terça-feira, 6 de junho de 2017

A Mesa do Canto: A dieta do senhor Bertocchini (com o próprio)

Está quase...

- Oh Xilva, 'shtáli aquele xeu amigo, o Xorche... - Interrompo:

- Qual dos Xorches, Berto?

- O Italiano... - Interrompo:

- Epá, faz-me um favor e diz-lhe que vai ter que esperar um pedaço. Ainda tenho o molho a apurar. Olha, leva-lhe um fino para o entreter, importas-te? - Atarefado atrás do balcão, felizmente cheio.

- É que ele mandou dicher que quer xó uma xaladinha, oh Xilva.

- Hã? O Bertocchini? - Tento ver por entre as cabeças e os gestos das conversas animadas. Não o encontro.

- Icho mesmo! O Bertoxxini. Xó uma xaladinha, ouvi muito bem.

- Opá, chaladinho estás tu, majé da tola. - Rio-me. - Alguma vez? O Xorche? Nem pensar! - Ele fica um pouco vermelho.

- Oh, vai lá tu então, quero cá xaber dicho. E eu diche xalada! Não diche chalada. Xe foches gojar com a tua prima...

De pano ao ombro, avanço por entre as mesas, direitinho à do canto. Ele lá está, absorto no seu espertófone. Atiro-lhe a dois passos:

- Xaladinha, xenhor Bertoxxini? - Sei que ele adivinha o meu sorriso irónico. - Estamos doentes?

- Goza já tudo de uma vez, se fazes o favor. Que isto já é difícil que chegue, sem inteligentes a azucrinarem-me a careca. Simples: Di-e-ta. Importa-se, senhor Silva? Ou esta casa de pasto não serve erva?

Olho para o balcão, onde o Berto dá largas à sua vocação de taberneiro e despacha fregueses eficazmente. O molho borbulha de vez em quando, muito brando, aposto. Está lá a minha maçã-relógio-de-cozinha, há-de apitar. Abanco-me.


...

Digo-lhe:

- Há um lado asceta das privações voluntárias que raramente se aborda. Um caráter contemplativo que não se compadece com os prazeres mundanos. Olha, por exemplo, as dietas. 

Não é como se eu achasse que haviam de beatificar as gajas todas entre abril e agosto - estão todas de dieta, certo? - mas se olharmos para lá da superficialidade, à essência do gesto, o que vemos? Alguém que diz: "Não, não me darei o prazer de me deliciar com este naco de barriga assada no forno, o courato em torresmo, a carne a desprender-se do osso, tenra, o molho na espessura certa, com o seu travo de laranja e maçã, a humedecer as partes." 

Diabos me carreguem se não há nisto um sopro metafísico. Como se fossem vergastadas nas costas, ou votos de silêncio e isolamento. A negação do prazer, por um bem maior. Mesmo que seja só por causa de não lhes cair a barriga em cima das cuecas do biquíni, as mais das vezes. No fundo, é uma espécie de manutenção da castidade estomacal, a reboque da força de vontade e contra muitas vontades.

Será que quando comem bolachas às escondidas, conta como se estivessem a esgalhar uma?

...

Ele levanta a cabeça do aparelho. Abana-a, quase incrédulo.

- Obrigado pela imagem, é bom saber que sempre que precisar de purgar pela gaita posso pensar em muffins de noz ou numa malga de empadão e ganhar inspiração. 

Não vejo as dietas à luz da metafísica, é difusa demais e põe-me a pensar em gregos de toga e vem-me à cabeça o Katsouranis e não quero ter nada a ver com esse cabrão, nem à canzana. Mas compreendo o conceito de auto-flagelação gastronómica, com chibatada no lombo e aventais com tule de lojas chinesas, apesar de não ser o meu intuito. É antes uma opção por um caminho menos tortuoso pela vida fora. Mas como te disse, percebo o teu approach. 

É um estado mental, um alheamento da felicidade momentânea, com um objectivo mais profundo que se vê ao longe e se sabe que se consegue lá chegar, mas que custa de caraças. Consegues ir pela auto-estrada a ver os cartazes todos cheios de luzinhas e gajas esticadas ao comprido a enfiar os dedos na boca, enquanto dão uma ferradela num morango coberto de chocolate, sem pensar em comer? Uma ou outra? Uma com a outra? Se atinges esse nível de desinteresse, estás prontinho para abdicar do repasto e de algumas outras coisas, admita-se.

Dá-me jeito fazer dieta, para ver se vivo mais uns anos. E também dava jeito ver a gaita mais algumas vezes, até a ceifeira mandar a porta abaixo. Chama-me inseguro, mas saber que está lá só pelo tacto, já me chegou nos quartos escuros da adolescência.

...

- Ui, obrigado por não partilhares o que andavas a fazer em quartos escuros. E não sejas tão concreto pá, quero lá saber da tua dieta. Aliás, só para veres até que ponto posso ser solidário, da próxima vez que pedires uma francesinha - e pedirás, meu caro, oh sim, pedirás! - mando-te a Jacqueline ou a Françoise, coberta de queijo derretido. Só. Oxalá não se queime a moça.

Repara, a abstinência subjacente a isto das dietas é, quase sempre, subestimada. Partimos logo do principio que é um disparate. Tipo, lá vem a badocha com a mania das dietas, dass. Que coisinha fútil. E é por isso que te sentiste logo na obrigação de esclarecer: Alto! Dieta sim, mas por motivos de saúde. O resto também, mas isso é porque és o Bertocchini e estás a lixar-te para o que pensam. Se fosses a badocha, não querias ser superficial. Vá que a dieta não corria bem - outra vez - e sempre te podias agarrar a alguma coisa: Oh, tábem, mas podem comer-me à mesma que eu sou bué deep. Deep. Get it? - Só eu me rio da piada seca. Um clássico... Prossigo:

- Eu acho mal esta discriminação pela parte estética. Opá, se a pessoa quer ser mais magra porque lhe parece que isso a torna mais bonita, tem todo o meu apoio. Até pode comer só manteiga à dentada, se achar que isso a emagrece, e morrer com uma embolia. O que a preocupa é emagrecer, não é ficar melhor de saúde. É aqui que entra a metafisica. Para mim, esta malta é tudo Santos.

Oblá, oh mister, isso de querer viver muitojanos com saúdinha, é uma coisa que queremos todos. Porque somos egoístas! Ah e tal, vou é tratar de comer bem, a ver se não quino. Muito bonito isso, sim senhor. 

Mas quereres ficar giro cumócaraças - se pudesses Bertocchini, se pudesses - faz bem a uma parte maior da Humanidade. Porque dá melhor ambiente ao planeta, tájaberohnão? Ou seja, é seres asceta pelo bem dos outros. Sim, porque com aquelas fuças, a badocha pode pesar 20 quilos que ninguém lhe pega à mesma. Mas mete menos nojo.

...

- E tu queres que eu perca peso para o bem da raça!? Só se for nos guizos, porque algum do peso que perdi lá de dentro, acabou por originar uma coisa bem gira que até já obra sozinha, também contribuindo com a sua própria purga para o bem do estrume planetário. Por isso, que se fodam as vacas que a minha vitelinha também conta. 

Mas o ser asceta é bem mais do que uma dietinha e eu garanto-te que não o sou. Nunca fui, nem serei, porque se tiver de me isolar de todos os prazeres, não preciso de fazer dieta nenhuma, porque morro cedo. E tenho prazeres curtos, simples, puros, delicados, atingíveis, meus. 

Espanto-me todos os dias quando vejo gente a esforçar-se tremendamente para se divertir. Aliás, uma das frases que mais febre me tem vindo a dar nos últimos tempos, a par com "temos de reunir para decidir isso" e "és um chato com isso do Porto!", é o "vai ser tão divertido!". Só me apetece responder: "pode ser divertido para ti, seu monte de suburbanidade, tu que não consegues passar cinco minutos em silêncio sem teres medo de ficares sem voz até ao fim da tua inútil vidinha. Vai lá descer o rio ou subir o monte ou qualquer que seja a inclinação que hoje está na moda, mas deixa-me em paz, fazes favor?". Argh, gente que urge terceiros a divertirem-se, devia jogar contra o Vinnie Jones!

Ah, em termos de francesinha, podes mandar-me a Marine, mas com brie a sair-lhe pelos orifícios que não se mostram e a queimar-lhe a chafra toda, para ver se ganha juízo. Assim à medieval, como ela.

...

Grita do balcão:

- Oh Xilva, 'shtá aqui uma machã a apitar!

- Oops, o molho. Tenho que ir. Olha, havias de aproveitar e deixavas de fumar. Doía tudo de uma vez. Já lhe mando a xua xaladinha, xôr Vitor. - Levanto-me, não sem notar a interrogação que se lhe forma por cima da careca: Será?

...

Soundtrack to loosing weight: Too much man for you to take!

...

O senhor Bertocchini opta por escrever na ortografia antiga. Gordo!

10 comentários:


  1. está tudo muito bem e bem dito, mas só tenho uma pergunta para o vítor (das sapatilhas rubras): who the fuck is alice? perdão, who the fuck is Marine? obrigadinho.

    abr@ços a "ambos os dois"
    Miguel Lima | 92° minuto

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Seja muito bem aparecido, xôr Lima. Já cá se tinha dado pela sua falta.
      Abraço.

      Eliminar
  2. Respostas
    1. Sabes que estás em falta, certo Queen Bee? ;)

      Eliminar

  3. sim, sim... saudadinhas, abracinhos e o carvalhinho.
    mas, continuo na minha ignorância: who the fuck is Alice, perdão: who dafuck is Marine*?
    * acredito que não seja esta aqui...

    abr@ço
    Miguel | 92º minuto

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Era a Le Pen pá. Por isso é que o magricelas lhe quer mal...

      Eliminar
  4. A tasca aceita vouchers, equipamentos e biografias do Calos Alex?
    Estou a tirar o curso de árbitros e o verdadeiro 1º Ministro garantiu-me que não há limites para os meus direitos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Só dinheiro mesmo. Em estando no seminário, também aceitamos pagamentos em arte sacra :) vá com Deus, senhor Padre :)

      Eliminar
  5. Dinheiro o sr. Primeiro ministro não nos disponibiliza.
    Só farinha para as hóstias e vales para descontar na Europcar.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Peça ao Centeno. Costuma estar duas cadeiras a lado: O senhor primeiro, o senhor suplente Costa e logo a seguir o tipo da nota. De outra forma, terá que ir pregar para outra freguesia. 😁

      Eliminar