segunda-feira, 13 de abril de 2020

CLSVO II

Se fosse um jogo de adivinhar, tiraria, ao menos, algum proveito em diversão. É muito divertido jogar, mesmo quando se joga sozinho. Não é assunto para agora, mas é inegável que ainda que jogue em circuito fechado este jogo de um, tomo partido e escolho um lado. E no fim ganho Eu contra Mim. Ou perco, depende do estado de espírito.

Adiante, não é consciente, acho eu, esta coisa de saber o propósito, a intenção, o que se esconde por detrás do que dizem e até do que não dizem. E é absolutamente frustrante tentar explicar-lhes que percebo porque ficam furiosos, como miúdos apanhados na sua mentira, na incongruência do seu argumento adolescente ou na armadilha da falsa piedade, da bondade a metro, do desapego material de barriga cheia ou do conhecimento profundo que sai como verniz, basta esgravatar um pedacinho.

As coisas vão de mal a pior porque não coloco sequer a possibilidade de estar redondamente enganado. Imaginemos por um minuto - vá, hipótese académica, cala-te, deixa acabar o raciocínio - que falho completamente. Não sabes o que está a pessoa a pensar sob aquilo que expressa, muito menos como se sente em relação a ti ou aos outros. Façamos de conta que as fraquezas expostas não buscam apenas colo, que existem e que há quem não se dê ao trabalho de as esconder e busque honestamente alivio nessa partilha. É claro que não estamos no território da intimidade muito intima, dos amantes, dos irmãos, dos filhos, dos amigos muito próximos
                                                                                                        (cinco, numa vida toda? admitimos o número para a nossa tese? ou deixamos passar como irrelevante, por conveniência do momento e porque, se foda, é a minha voz a conversar comigo e diz o que bem me apetecer?)
                                                                                                                                   é mais no âmbito do jantar com gente que mal se conhece, da rede social, das plataformas quotidianas, o elevador que seja, em que buscam reconhecimento, ainda que por um estropio da Alma, do conhecimento ou do corpo.

Empatiza, anda lá, deixa-te de ser cagão, junta-te. Buscamos, pronto, buscamos, satisfeito? Não me lixes, não é como se escondesse que me agrada, pois não? Mas desta maneira? Em bastando juntarem o molho instantâneo do momento e assim é o seu gosto ? Argh, tu por favor avisa-me se me apanhares nisso. De resto, nenhum receio em reconhecer perante ti, mim, que é bom que me apapariquem. Aliás, porque raio estaria a perder o meu tempo com aquilo do suposto romance se não fosse por esse motivo? Ah a urgência da criatividade, o apelo da veia do escritor. Deixa-me rir, essa história não é tua. Mas qual apelo, amigo? Esforço, muito esforço para vencer a preguiça. Tanta coisa que me apetecia mais - e, por inerência, te apetecia mais também - do que horas à volta de um provável chorrilho de disparates que nem sabemos lá muito bem para onde se dirige.

Oh, está bem, deixa lá, não era este o tema. Se te faz feliz que confesse, que me confesse, também não é por aí que nos zangamos. Dá gozo. É como um 2 Cavalos, demora um bom bocado a arrancar, mas quando entra naquela velocidade de cruzeiro a vapor, desliza suavemente. Para além de que ajuda a ocupar os dias. Pronto, serve para ocupar o tempo que não é de noite e se trabalha, se é que podemos chamar trabalho aquilo.

De todo o modo, o que dizia é que não se trata de um jogo de adivinhar. Espera, tenho que atender. Temos. Sim, mesmo com pouca vontade. E podes tirar esse sorriso parvo, uma vez que nem cara tens. De plástico somos todos. Se queres brincar de novo à honestidade brutal, vamos a isso. Avançamos mais uma vez, correu tão bem de todas as outras, não foi? Não, não, agora fazemos isto como deve de ser e não me voltas a chamar cínico. A nós.

Olá, desculpa mas agora não me apetece falar contigo. Até porque me parece evidente que me ligas a esta hora por mero hábito. Que temos para dizer que seja diferente de ontem? Não te incomodes a responder, eu sei que nada. E de momento não me consigo obrigar a esta conversa de circunstância, ainda para mais a ter que fingir ser doce, por inerência da relação que nos atribuímos. O que eu mais queria era que tu simplesmente reconhecesses este facto, sem tretas, e não levasses a mal. Manda-me um sms a dizer que queres foder e a combinar horas. Sabes o meu horário, olá se sabes, não pode ser tão complicado assim programares o teu dia neste sentido. O meu está definido e haverá sempre esse tempo para nos enfiarmos na cama. Depois podemos ficar em silêncio até eu ter que sair para o trabalho. Porque raio havemos de nos exigir embrulhos para isto? Que necessidade de acrescentar coisas, momentos, ligações, correntes, para lhe darmos uma forma com menos arestas? Isto é algum ovo de Páscoa? Gostamos de nos meter nas cuecas um do outro, talvez porque não tenhamos paciência para procurar diferente. Pode ser só assim?

Vês? É a culpa que desce, esticando os seus longos e escanzelados braços, como uma sombra na parede, e nos envolve a todo Eu. Raios me partam se sei se é pelos outros ou por nós. Se bem te lembras, nunca descartámos completamente a possibilidade de ser somente a nossa incapacidade de lidar com o facto de não nos terem na melhor conta possível. É mesmo muito provável que nos limitemos a não querer sequer pensar. Fica assim: é para não magoar alguém que nos deixamos embrenhar em tantos faz de conta, até tudo ser apenas uma consequência e já não ser preciso preocupares-te. Ah a minha bela vida, à qual te condeno porque és Eu.

Vem, deixa que nos abrace, que nos afague o alto da cabeça, apertando-nos com força o peito, de medo e de raiva. Sentes como é familiar esta culpa que nos explicaram com tanto detalhe que já não a distinguimos de nós? De Mim. O telefone.

- Olá, amor. Não, não, quando atendi já tinhas desligado. Estava a acabar de fazer a barba. Sim, são quase horas de sair. E tu, já jantaste?

...

Honestamente, esta vida de turnos convém-me, do ponto de vista da ambição: um ordenado pequeno, um apartamento a condizer, um carro muito velho, um ou dois amigos muito longe, a família dentro do telefone, mesmo os mortos, uma namorada estranhamente bonita e os horários desencontrados das pessoas. Até gostamos de pessoas, sobretudo lá nas suas lufa-lufas. Por outro lado, é muito inconveniente quanto às desculpas: tenho tempo para o livro, não há vizinhos barulhentos, nem dramas de faca e alguidar com mulher e filhos e o Diabo a quatro.

Em resumo, deveria ser não só mais feliz, como também mais bem sucedido. Está claro que estamos aqui a adotar os critérios de avaliação mais populares. Digamos que estugar agora o passo,  compensando os 2 minutos que não deveríamos ter perdido a fumar um cigarro à porta do café, para conseguir apanhar o comboio, não é o mesmo que inspirar fundo antes de entrar numa reunião muito importante. Mas caramba, aposto que consigo apanhar o suburbano e não tenho a certeza se o senhor doutor não acaba no olho da rua. Corra-lhe mal a apresentação e quero-me rir. Upa, mesmo a tempo, já pode sair da linha quatro. Incha.

Calmamente, o mundo regressará ao seu tom cinza. Que é como quem diz pó. Regressará, mal se escorra o Sábado.
             


sábado, 4 de abril de 2020

CLSVO - I .1


...

Se fossemos mais do que meros observadores passivos, imaginemos antropólogos ou outro qualquer logista, teríamos tido a sorte de apanhar o CLSVO no seu melhor dia. Sabemos que sétimo é o filho clarividente, a onda final, sete os escorpiões de Isis, as plêiades - bem boas, por sinal - sétimo o dia em que Ulisses deu com Calypso e em que o Senhor descansou.

Pelo contrário, perante os nossos impotentes olhos a vida borbulha. Tomemos a vista de um hóspede num apartamento mais elevado do hotel em frente. A varanda acima do muro do CLSVO, o cigarro a queimar lentamente enquanto o café arrefece. Ah os dias de chinelo de dedo, um calção qualquer e cotão no umbigo. Mais cedo do que o resto dos comparsas deste veraneio, aproveitando dois ou três momentos de si próprio, sem ter que gargalhar ou emendar ou instruir ou puta que pariu mais os papéis que lhe estão atribuídos, por Graça de um Deus. Nesta solidão, pode sentir sem culpa que lhe comicham os tomates, soltos na cueca de rede embutida nos calções. Pode coçá-los, essa é que é essa, sem se preocupar com mais nada senão o alivio. Deixar o pensamento assim, boçal, vazio, bestial, e os olhos, elétricos, a varrerem o território. A mente canta-lhe: up here in space, i'm looking down on you. My lasers trace everything you do.

Entra-se por uma passagem estreita, espremida entre a parede do Restaurante e um muro sem serventia. À esquerda, a Ilha dos Gelados, com o seu metro quadrado de relva amarela, onde se apinham os velhos de lenço na cabeça e banquinhos articulados de assentos às riscas, à sombra de uma palmeira antiga. Por detrás dela, a loja ínfima das guloseimas e pedaços de gelo com muito corante. A Meca dos bandos de pardais, quais putos à solta. Ou talvez seja ao contrário, por vezes falha-me o Ary.

Para a direita o País das Escadas, mesmo em frente às grandes portas de caixilharia de alumínio da sala de refeições, eternamente vazia. As escadas, seis degraus corridos em três metros de comprido, são a terra dos escorraçados. Das famílias que vieram atrasadas ao chamamento da espreguiçadeira, dos banhistas arreliados com os seus descendentes, dos descendentes fugidos dos seus arreliados progenitores, dos bandidos que entraram sem cartão, aproveitando um momento de distração dos zelosos funcionários, e dos nómadas. Aqueles que vêm logo antes de almoço, com sacos de plástico cheios de pão e geleiras com bolas de queijo e cervejas mini. E comem às escondidas, benzendo-se em pecado, cabeça ao alto em busca das forças militares da Esplanada, e a Alma, perdida para sempre, a repetir-lhes em letra de forma: "Não é permitido o consumo de bebidas ou comidas ou outros quaisquer mantimentos do corpo, senão os adquiridos no nosso Templo, ámen". Dos que trazem sandes de chouriço para os petizes e lhas dão dissimuladas entre um mergulho e uma chapada e os mandam ir comer para longe. O País das Escadas é um campo de refugiados abastados, uma Alcatraz de prisioneiros pouco perigosos, paredes meias com a Esplanada, Zona 1.

É logo outra vida, outro planeta. O colorido amarelo dos chapéus de Sol chá gelado, a contrastar com o vermelho desbotado das mesas e cadeiras de cevada e lúpulo. Ali postadas em pleno cimento, vanguarda das suas irmãs finas, em tábua de madeira, que se abrigam no alpendre elevado do Restaurante. Se nas primeiras é o bulício dos salpicos, a revoada de toalhas molhadas, as banhas a cobrirem as cuecas dos biquínis nas posições sentadas, o tilintar das garrafas de cerveja; mais acima é o reino do páreo, do chinelo de piscina com pêlo farfalhudo, dos óculos no topo da cabeça, cabelo amarrado em rabo de cavalo e o som suave do gelo a rodar nos copos de gin. Só as banhas permanecem, mais discretas, sob o olhar invejoso dos escadistas que se atrevem a deambular pelo CLSVO.

A fronteira é delimitada por mais caixilharia de alumínio e vidro simples, atrás do qual se ofusca o self-service dos gringos com pensão completa e as mesas interiores para hambúrgueres, cachorros e pregos em prato, bitoques se vos for mais conveniente que estejamos a Sul. Da entrada até este exato local, o Restaurante está nas costas de toda a Vida. Escondido pelos seus vidros, mas omnipresente no quotidiano de todos.

Digamos que vimos subindo em intensidade e poderíamos culminar aqui, em Bar. Os gritos e a azáfama de um bazar, sobre o fundo quaternário - tlim, zuishh, troc, zuishh - da registadora. Na sua simplicidade maquinal, é o Santo deste Altar. Ali, de frente para todos, ainda que seja as costas que lhe vejam, Senhora de todo o espaço, Dona de toda a atenção, Meca, Belém e Lumbini, ponto de confluência ecuménica de todos os homens. Como este que pinga sobre o balcão das imperiais, sejam finos se esta geografia for Norte, sem ponta de dinheiro que se veja, mas sorriso rasgado e cumprimento cúmplice ao pessoal encarregado, pois claro que passa cá a pagar ao final do dia, nem se fala mais nisso. E sai em passo semi-dançante, ginga tropicália, pelo meio das espreguiçadeiras, em gincana, copo de vidro - hã? como assim, de vidro? o plástico quando nasce não é para todos? - elevado, evitando os guarda-sóis baixados pela hora do dia. Um velho da Ilha dos Gelados foi capaz de jurar, a meio de uma partida, que já o tinha visto numa varanda do hotel e no balcão da cerveja, ao mesmo tempo, ubíquo. Nunca alguém se tinha lembrado de uma peta tão boa para desviar a atenção de tamanha derrota no belga, ainda que o velho, ele mesmo, nunca a tenha admitido. À patranha.

Com a vossa licença,

                                  (na maior honestidade, trata-se de uma figura de estilo. podeis bem não estar dispostos a conceder-me licença alguma que não fará diferença. no entanto, e talvez para tranquilidade do espírito apenas, sinto-me compelido a dizer-vos que seria mesmo justo que esperasse pelo vosso consentimento. assim em jeito de retribuição pelo tempo que dispensais a este meu relato. ou dinheiro. ainda melhor.)
         
                                               passaremos sobre a zona do DJ, três paredes de adobe mais caiadas do que o resto do lugar e um telhado de palha, e da sua aparelhagem infernal. Ou divina. Dependeu sempre do estado de Alma do rebanho. Avançamos direitinhos para a Esplanada, Zona 2.

Três mesas apenas, miraculosamente ocupadas em permanência pelos mesmos humanos. Todos os dias. Ao Domingo também. Sem nenhum resguardo do Sol, que não seja o protetor que abundantemente lambuza a careca de um; o chapéu de palha com fita amarela Licor Beirão, afundado até às orelhas do senhor Monteiro da Silva; o escaldão primeiro grau da família de bifes que anexou duas espreguiçadeiras à sua mesa e três cadeiras; e os óculos de Sol, para ninguém ver se ela chorar, da paquidérmica Dama das Tatuagens. Os seus rebentos palmilham todo o Clube sem trela. O que não admira, pois que ao primeiro Cábron!, berrado no intervalo entre um e outro telefonema, não só acorrem ambos os petizes, mas muitos incautos transeuntes de ocasião. Todos despachados com um sonoro Que pedo te pasó, güey? 

Hoje em dia é muito vulgar que se romantizem acontecimentos. Partindo de factos factuais, lá escrevem historietas a seu propósito, dos factos, acrescentando pontos e alterando percursos, dando brilho a momentos profundamente aborrecidos, só para que fiquem bem na fotografia as suas personagens, baseadas em indivíduos que, tendo existido, podiam muito bem ter tido uma vidinha corriqueira, não fosse terem dado de caras com a queda de uma maçã ou coisa que o valha. Afastamo-nos desde já, e ainda nem ao adro chegamos, dessa corrente novelista fácil. Também nós gostaríamos de ir vendo e andando ao sabor da imaginação, tapando os buracos que nos aparecerem com pedaços de reboco inventados.

Nós não! Atemo-nos ao mero relato de como as coisas estão. Como se passaram e se passarão. Ainda que não seja bem certo o pretérito, ou o indicativo, que estamos a testemunhar. Que é condicional e imperativo, isso está claro.

Isto esclarecido, é sobeja a prova documental a propósito do sucesso de haver uma relação de direta proporcionalidade entre determinado toque do telefone da mãe baleia e a taxa de mortalidade na freguesia de Cacia, concelho e distrito de Aveiro, a Veneza portuguesa. Tirando que não cheira assim tão mal e não há noticia de que os ovos moles em Itália sejam grande espingarda. Já em Aveiro, é de a gente lamber as beiças. Os ovos moles e outras iguarias, mas agora não estamos a traçar um roteiro gastronómico, o que é pena. Menos para as enguias, já se vê.

Não que alguma vez tenha havido, ou venha a haver, alminha que se dispusesse a gastar um coche do seu pouco tempo sobre esta Terra do Senhor, qualquer que Ele seja, a estudar a fundo este acontecimento. Digamos que nem Cacia, que é, à sua maneira, também ela Veneza, desperta assim tanto interesse enquanto objeto de estudo, nem o número de mortes por lá foi, é ou será, assim queiram os Senhores, suficientemente estapafúrdio para que chame a atenção. Agora que de cada vez que o telefone da Dama se punha teténéunéunéu friday night and i need a fight, alguém quinava, disso não resta qualquer dúvida.

Se tivéssemos a sorte de estar a inventar tudo isto, agora mesmo viria o DJ à sua aparelhagem e por toda a piscina do Clube Leve Sopro de Vento do Mar estremeceriam os esqueletos, ao som de arranque de uma motorizada de alta cilindrada, ao mesmo tempo que as moças se humedeceriam por baixo, os moços esverdeariam de inveja, enquanto colocavam apressadamente perucas loiras de cabelo ripado e vestiam Speedos que os esterilizariam para sempre. Parecendo que não, ter os tomates apertados nunca fez bem a ninguém. Note-se com curiosidade que aparenta termos completado um circulo, de tomates a tomates, o que será talvez indício de que devemos deixar por ora este esquisito desacontecimento. Mais tarde poderá alguém chamar-lhe coincidência, o que estará errado, já sabemos.

Contemplemos antes a entrada majestosa da Dama, um mastodonte resoluto, percorrendo os seus passos lentos, o chão estremecendo, a cadeira vazia, aguardando por entre a falta de espaço que se vive em todo o CLSVO, menos ali, na clareira com cheiro a burrito e sabor a tacos. Atrás, o alvoroço das crianças, arrastando os seus unicórnio e golfinho de borracha flutuante. E de guarda-costas estamos conversados.

Nas costas da Esplanada, Zona 2, o muro branco que oculta o território não cartografado da Terra Reservado a Pessoal Autorizado. Que não somos, por muito transtorno que vos possa causar.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A Mesa do Canto: O som do silêncio (notas do correspondente em Madrid)





Nota-se logo que estamos à beira da Páscoa. Um tipo não pode abrir o postigo para aviar umas bifanas em take-away que aparece logo um espanhol. Chiça, oh homem, fale de longe que vocês se perdigotam bastante, coño. Olhe, ainda melhor, pegue lá esta resma de papel e escreva aí o que quer que eu depois recolho. Grandes saludos e tudo e tudo.

E ele escreveu.

...

Conseguem ouvir? É o silêncio, o bendito silêncio.

De todos os dramas e tragédias sai sempre algo positivo. silver lining, dizem lá para terras americanas. Nestas últimas semanas, para os que gostam da bola quase tanto como gostam de liberdade, o triunfo tem sido o silêncio. Já não se ouvem aqueles intermináveis zumbidos catatónicos de painelistas e opinion makers, em horas e horas de tertúlias e shows televisivos dedicados ao futebol. As contas dedicadas a espalhar ódios, mentiras e polémicas, a soldo dos clubes ou de interesses turvos, estão caladas. Os ultras, dedicados a perseguir os companheiros de clube que não pensam como eles são agora tumbas. E diz que o Manafá está a ver vídeos do Beckham para melhorar os centros. Pelo menos a bola já não anda a partir as janelas dos vizinhos. 

Na cultura de mediocridade criou-se a sensação que esta gentinha sem escrúpulos, que funciona como sangue-sugas, é parte do jogo, parte fundamental. Eles gostam de acreditar nisso e a muitos têm deveras enganado. Mas os que temos saudades de ver a bola rolar, os que andam a ver jogos antigos, a jogar jogos virtuais e a sonhar com tocar ou ver mexer o esférico, finalmente perceberam que esse esterco não tem lugar no futebol. Que sem eles tudo é mais saudável. Porque tudo isto tem mostrado que nós, os adeptos, os que não lucramos nada com isto do jogo e que até perdemos dinheiro, paciência, anos de vida ou cabelo à custa do stress que ganhamos quando a bola chega aos pés daquele lateral que não sabe centrar, temos descoberto neste vazio que somos quase todos iguais e que é muito mais aquilo que nos une, como adeptos, do que aquilo que nos separa. Ao invés do que uma cultura de ódio sempre quis fazer crer.

Ao contrário do dono desta tasca, sábio a gerir o seu tempo livre, eu perdi muito do meu a ver jogos. O FC Porto é o meu clube desde que tenho memória e, só ao vivo, devo ter visto mais de duzentos jogos, para não falar nos televisionados mas, realmente, essa percentagem é pequena se comparar com os milhares de jogos que vi desde tempos imemoriais até há três semanas atrás. E sabem o que me chama sempre a atenção? Que somos todos iguais. Somos, os adeptos. Ouvimos no estádio cânticos que a claque copia de italianos dos anos 90 (vejam um Fiorentina vs Lazio de 98 e vão entender), todos achamos que nós somos o clube da mística, da raça, de fazer as coisas bem, todos nos sentimos especiais ao abraçar um emblema, umas cores. Todos repetimos o mesmo discurso, porque todos estamos apaixonados e a minha mulher é a mais bonita do mundo e de certeza que é mais do que a tua (que não deixa de ter umas boas coxas, atenção) e fazemos isso desde a crença, desde a positividade. Encontramos, ou encontraram por nós, slogans em que acreditamos a pés juntos, mas repetimos todos o mesmo padrão de comportamentos dentro e fora do estádio. 

Os roubos são sempre CONTRA nós, os árbitros são sempre comprados pelos OUTROS, os meus jogadores são os melhores e quando são maus são os piores. Como assim o teu lateral direito é pior do que o meu? Todos tivemos ídolos que foram os maiores, decepções que foram as piores, transferências recordes porque nós é que valemos ou negócios que falharam, porque nós é que sabemos negociar. A frase é sempre a mesma, muda a cor e nada mais. 

Sentem-se a ver tranquilamente um jogo ao lado de alguém de um clube rival e vejam como são vocês, a cruzar o espelho como a catraia. Não há rivalidade sem futebol e futebol sem rivalidade. É saudável e alimenta a alma. mas vejam The English Game e entendam que até no início havia rivalidade. Mas também união. Há países onde isso se perdeu, outros onde nem tanto, mas essa é a realidade e para interesses próprios foi substituída pela cultura do ódio. 

Há uma diferença. Eu posso sentir rivalidade com um clube, querer que perca para que o meu ganhe (ou para que perca, simplesmente) mas isso não significa que os odeie ou que sofra se cumprirem os seus sonhos. Há que amar e empatizar com o próximo (namasté). Mas esse ruído sujo e lamacento que agora, curiosamente, não se ouve, tem-vos dito que aquele presidente é um malandro, que aquele treinador é uma besta, que aqueles adeptos são TODOS – sejam 5 ou 5 milhoes – uns animais e que tens de carregar no botão do ódio e ir vomitar para as redes ou para as bancadas esse peso. E não tem que ser assim. Estas semanas demonstram-no bem. Tenho visto, admirado e invejado, no bom sentido, como existe em outros clubes que não o meu uma bonita cultura de clube, gente com projetos bem estruturados, independentes, dos adeptos, que estão a matar este imenso tempo livre com amor ao clube. Não a vomitar ódio ou dissidência, mas a criar comunidade, seja entre os seus, seja entre os que gostam de bola. E é bonito, seja qual for o clube de cada um. 

Mas depois faço introspeção e olho para casa. E vejo quase só silêncio. O mesmo silêncio do início, desse esterco ambulante que contaminou o ambiente durante anos e que não existe se não há ódio, confrontação e luta. E penso nas contas de redes sociais caladinhas e quase todas são da minha cor. E vejo que noutros clubes há muita gente que polemiza que agora se está a dedicar a falar do jogo, da comunidade e olho para o mundo azul e branco e vejo pouco e ouço pouco. Não há praticamente projetos que façam clube, comunidade entre os meus. Não há quem recupere a história para que ninguém esqueça que sempre fomos um clube maravilhoso, mesmo antes de 1978. Não vejo canais de YouTube ativos, raramente há podcasts que debatam o clube e a quantidade de contas tão ativas a denunciar polvos e padres e dramas, andam caladas quando podiam estar a falar do Hernâni, do Bibota ou do Alenitchev. E chego à conclusão de que se calhar há clubes que nunca perderam a noção de quem eram e outros que abraçaram tanto a cultura do ódio, do confronto e da luta que em tempos de paz não sabem atuar. 

Foi-lhes dito que só se olha para o presente e para a frente e muitos idolos saíram sem o seu merecido aplauso. Apagou-se uma enorme parte da historia do clube porque não encaixava na narrativa da neolíngua e agora as pessoas esqueceram. A mordaça que rodeia grande parte do clube atontou os adeptos que são incapazes de se organizar e mexer, sem que tenham de passar pelo filtro de nós contra todos. É comê-los, carago! E tudo isso importado de outros lados porque aqui ninguém inventou nada. 

Numa época em que todos estamos a perceber que valemos uma merda, que a nossa vida e a dos nossos pode voar sem se dar por isso, é ainda mais doloroso lembrar que quando se marca um golo no Dragão ainda há quem se lembre primeiro de um rival e depois de si próprio. Se esta crise humana brutal nos está a ensinar algo, é a colocar tudo no seu devido sitio e o ódio e a falta de empatia e amor deviam ficar definitivamente à porta, sobretudo de um estádio de futebol. Mas, se calhar, é por estar rodeado de pessoas a morrer e não a tomar um café na marginal de Gaia que me dá para pensar nestas coisas. Se calhar. Bota lá mais uma que nesta tasca até o silêncio é diferente.



...

sábado, 28 de março de 2020

CLSVO - I

I


Na piscina do Clube Leve Sopro de Vento do Oceano desde manhãzinha que se nota o caráter festivo da ocasião. Há um acordo tácito para a lassidão: os cartões de utilizador certificado, diplomado, autorizado, merecedor de entregar a pele a uma quantidade absurda de desinfetante e cloro - não há fungo que resista, senhor, veja também por esse lado e aproveite para passar na nossa loja, a promoção de colírio para os olhos vai-lhe parecer encantadora, sobretudo do ponto de vista do seu olho esquerdo, o bastante inflamado - enfim, o retângulo de cartão que franqueia as portas desta autêntica Babel dos tempos modernos, o caldo antropomórfico que talvez o Criador desconheça, dado que se exponencia precisamente a este dia sagrado, aquele em que o Senhor está, vá, menos atento.

É certo que o CLSVO não é um elevador, mas se por qualquer coincidência cósmica lhe acontecesse tornar-se num, estaríamos metidos num belo sarilho, já que o excesso de peso, total e per capita, impediria o aparelho de cumprir a sua função de se elevar, a si e à sua carga, a patamares mais altos. Poderíamos até estar no inicio de uma bela e significante parábola, não fossemos arrancados a estes ainda imberbes pensamentos pelo DJ residente, empregado de mesa permanente e comediante interno, anunciando o inicio da animação e anotando mais dois tímpanos perfurados à sua coleção - as espreguiçadeiras junto ás colunas estarão sempre vazias por algum motivo, cara senhora obesa - enquanto o Universo parece chiar de dor ou talvez esteja apenas a bater o pé com os primeiros riffs : Tã! Tã-tãã-tããã! Tã-tãã-tããããã! Risin'up, back on the streets...

Do bordo da parte mais funda, um pré-adolescente Dukakis maravilha toda a populaça com os seus saltos acrobáticos para a água, mesmo ao lado do enorme cartaz de "Proíbido Saltar / No Diving / Ne Pas Plonger", rematado pela nota de rodapé: O Nadador Salvador está fora de serviço. Diga-se, de forma a que a verdade perpasse desde já esta nossa, como lhe chamar?, conversa?, que o aviso, sustentado em dois barrotes de madeira pintada, é um dos ex-libris do reputado CLSVO. Uma peça fundadora até, estrategicamente disposta, de maneira a ser vista de todos os ângulos possíveis e imaginários e fantasiados pelos banhistas. Ainda hoje o pedreiro que berrou a plenos pulmões, dealbava 1987, ano de Campeões em Viena: "Põe essa merda no topo, caralho! Onde toda a gente a veja. Assunto resolvido.", peregrina ao Santuário da Sua Ideia Boa, por sinal a única, pelo menos é o que lhe diz o auto-juízo. Ah, sim, os anos passaram também por ele, disso não resta qualquer dúvida. A guedelha meio encaracolada dos 80's e as camisolas de manga cava - na verdade tshirts com as mangas cortadas à tesourada: Whitesnake, AC/DC, Bon Jovi numa branca, para sair à noite e impressionar as raparigas, que nunca usava ao pé dos amigos, por vergonha - foram dando lugar a camisas simples de xadrez básico, que herdou do avô e depois do pai e qualquer dia do sogro. Roupa não compra ele muita, lá isso não. E nas suas religiosas visitas ao CLSVO, já cantarola Walk like an egyptian I wanna dance with somebody e até o C'est la vie que, vá-se lá saber porquê, faz as delicias dos emigrantes em férias. No entanto, é evidente que só um Here i go again ou Livin'on a prayer, nos poucos anos em que teve a sorte de os apanhar, transformam a sua viagem num acontecimento de profundo significado e descoberta interior. Porque é que no CLSVO se toca quase exclusivamente música de 87, é um mistério que nunca se predispôs a investigar. Aliás, nem sequer lhe passou pela cabeça, essa é que é a verdade. Foi apenas um subterfúgio parvo que o narrador utilizou para chamar a atenção para o facto. Que me perdoem, mas pareceu-me adequado. E não virá dai mal ao Mundo.

Outro facto indesmentível é que nunca os EUA tiveram um saltador para a água chamado Dukakis. Porque é que é sempre Dukakis que me vem à cabeça, não sei, já que é Louganis que se chama a pessoa. Está claro que é este som grego que causa a confusão da mente. Por grande coincidência, o pai, treinador e mentor do pequeno Dukalouganis, sempre que lhe vem o nome Dukakis à mente, lembra-se de uma comédia romântica acerca de uma família grega emigrada na América. O que é muito estranho, pois que Dukakis não é conhecido por ter feito comédias. De todo o modo, não românticas, pelo menos. E se os mais informados de entre vós estarão a notar a coincidência das datas, lembrando a candidatura de um Dukakis a POTUS em 88, o que dirão do

                                                                                                      ( sinceramente, não sei se deva. antevejo uma natural dificuldade em ser acreditado. do verbo acreditar, que não no sentido burocrático do termo. mas vou assumir que é um espinho que vem com a missão, embora o pagamento seja parco e talvez não justifique o risco)

                                                                                     profusamente documentado facto de sempre que o petiz executa um duplo mortal perfeito no CLSVO, a emissão de todos os canais estatais de televisão junto à Linha de Controlo, em Caxemira, ser interrompida e começar a passar uma comédia romântica acerca de uma família grega emigrada nos Estados Unidos?

Enfim, será provavelmente um desvio bem-vindo ao quotidiano de sangue das gentes. Sempre se riem um pouco, mesmo que já conheçam de cor as falas. Diz-se que alguns imãs do lado paquistanês chegam mesmo a decretar breves suspensões da xaria durante estas interferências, o que é celebrado com gritos de Azadi pelas ruas de Srinagar, perante os olhares tensos dos jovens soldados indianos que não conseguiram, até hoje, perceber como flui a informação de um lado ao outro da Linha, como se fosse um único país. Assim se explica que boa parte dos militantes caxemires tenham, desde tenra idade, uma admiração especial por uma série de atores que julgam chamar-se todos, eles e elas, Dukakis, para grande moléstia dos produtores de Bollywood.

CLSVO - Intro





Mas é Domingo. Como que acordam já engraxados os sapatos e vincadas as camisas, entendeis? Até a missa das 12H00 se molenga para as 12H15. Um atraso bilingue, não vão os bifes ficar amarrados à sua bizarra pontualidade, em enormes números garrafais para que não reste qualquer dúvida: até ao quarto de hora, o Senhor não dará acordo de Si.

Afinal, este é o dia sétimo. Ou porventura julgais que o ar feliz e rosado nas faces da canalha que corre pelo adro se deve às bolhas que os sapatos de verniz demasiado duros lhes provocarão? As crianças sabem que este é o recreio, o dia em que o Senhor descansa, a aula sem professor, o dia em que o Senhor dorme. Credo em cruz, cochila, que Ele nunca dorme, pobre Diabo. Credo em cruz duas vezes, Nossa Senhora me valha pelo lapsus linguis ou então saltou-me a pena para a Verdade. Em qualquer dos casos não merecerá esta Alma severo castigo por reconhecer a Totalidade do Senhor, que é Alfa e Ómega e Principio e Fim, logo será natural que seja Ele Mesmo e o Seu Contrário.

O dia da Liberdade, do Livre Arbítrio sem videovigilância, o dia que é hoje, o dia de Domingo. Claro está que para quase outro tanto do Universo conhecido é só o primeiro dia da semana, vá-se lá compreender porque é que os kafir teimam em começar as suas pelo dia dois. E chamam-lhe até assim: Segunda.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Balanço 18/19 - III: Future World



Nas últimas eleições defendi, acertadamente, como é evidente, que Pinto da Costa se deveria recandidatar e, está claro, ganhar. Porque me fazia, e ainda faz, sentido que tivesse um mandato que lhe permitisse arrumar a casa, sair do jugo da troyka uefeira e retomar o ritmo de vitória. O que, per si, significaria combater com sucesso a lama pestilenta em que chafurda toda a nação. 

Defendi igualmente, com o mesmo acerto, que estas tarefas configurariam a grande missão do mandato: preparar o futuro. Já se vê que olhava para ele como sendo o último.

Hoje... penso da exata mesma forma, ainda que pouco do que advoguei se tenha cumprido. A casa está pouco mais ou menos na mesma, mudando uns nomes aqui e ali; a uma vitória não se seguiram outras; e o Presidente não parece ter preparado o caminho da sua sucessão. Da questão financeira, creio, apesar da minha confessada inépcia para a função contabilistica, que vamos saindo, Não sendo fácil, é o mínimo que se exige aos que aqui nos trouxeram.

É evidente que Pinto da Costa será o eterno presidente do FCP, mas isso não teria forçosamente que se cumprir de forma executiva. Mas vai. Kind of...

Isto para dizer que não se me afigura provável que haja um plano. Há coisas que acontecem, oportunidades e ameaças a que vamos reagindo, umas vezes melhor, outras nem tanto, sem que se vislumbre um propósito estratégico ou a proatividade enérgica que nos leve a criar o nosso próprio futuro. Vamos cá estando, reagindo e adaptando, sendo pouco parte da mudança, mesmo que, e muito bem, nunca tenhamos abdicado da importância que temos e reclamamos. Queiram os octópodes desta vida ou não.

...

Se vamos falar de bola, a situação é rigorosamente a mesma. Eu acho que devia haver um plano. Eu creio que não há plano nenhum. Há uma vontade, isso é indiscutível, haverá esforço e trabalho, certamente, mas navega-se à vista, enquanto a máquina vai funcionando. If you know what i mean.

Por mim, teríamos um modelo, uma espécie de Guia de Acolhimento transversal a todo o futebol do clube, que explicasse o que se pretende que seja um futebolista do FCP, quais as características que o devem distinguir dentro e fora do campo, quais as ferramentas que o clube lhe proporciona para que atinja a plenitude do potencial que lhe detetámos e, muito importante, qual a estrutura com que trabalhará. Quem manda, no que manda, em quem manda, com que objetivos. Enfim, accountability, transparência, propósito.

Faz de conta que neste campo restrito era eu que mandava chover. Teríamos uma coordenação geral, responsável por todos os escalões até à equipa B, liderada por alguém a quem, conhecendo o clube e o contexto, fosse reconhecida a capacidade para contribuir para a definição do tal “modelo de futebol FCP” e implementá-lo. Ou seja, criar o fio condutor, o elo, que tornasse formal e imediatamente evidente a transversalidade do modelo. Eu gostava de reconhecer a marca FCP em qualquer escalão da formação, independentemente de quem fosse o treinador. Ah mas isso até acontece, dirão. Talvez. De forma informal as pessoas vão-se acertando, dada a proveniência transportam alguns dos valores do clube, têm impressa a memória do que eles próprios viveram. Agora plano? No lo creo.

Ainda por cima, há gente perdida pelas Arábias e pela China a quem assentava que nem uma luva este papel. Malta que, empossada, não se deixaria engolir pela máquina, espero eu, como um Castro da vida. E, ao mesmo tempo, capaz de perceber que a função termina no degrau que antecede a equipa principal. Aliás, todo o seu trabalho tem como fim último o sucesso galáctico de um terceiro.

Ora, quem defende isto e se confessa adepto, sei cá, de um Oliver Torres, do bom do meu sósia Pep e assim por diante - mas também do nosso Mourinho, de Messi, mas igualmente de Ronaldo, com latitude para apreciar uns e outros - não poderia entregar o zénite desta estrutura a Sérgio Conceição. Quanto mais não fosse, porque teria toda a gente estado a bulir pró boneco. 

Ter um plano não significa acabar com a criatividade individual, significa apenas enquadrá-la e colocá-la ao serviço do que é comum. Reconhecer o génio, sim, mas ter claro que só é genial o que contribui para fortalecer e cumprir o propósito. O resto é foguete. Parecendo que não, fica implícita estabilidade e coerência. E é um modo de agir que se dá mal com estados de humor e truques de comunicação.

É mais ser o puto meio enfezado, de óculos, que tira sempre grandes notas e por quem ninguém dá um tusto quando chega a hora de andar à porrada. Da primeira vez. Porque afinal, vai-se a ver, o gajo sabe karaté e judo e krav maga e o caralho que os fodeu a todos. Um gajo com um plano.

Em resumo, dentro do que racionalmente eu defenderia, pelo menos de momento, a conclusão do post anterior não poderia ser outra: bye!

...

Dá-se o caso de Pinto da Costa não estar nada de acordo comigo, o que lhe fica mal, já se sabe, e olhar para o próximo como apenas mais um mandato da sua já longa caminhada em defesa do FCP. Este não foi o último e o próximo também não será. Ao mesmo tempo, parece provável que continuemos com o plano de não ter porra de plano algum.

Assim sendo, a nossa única hipótese é ir lá na marra. Porque somos adeptos e queremos ganhar e fazer festas e não ter que levar com os outros a ficarem com as nossas alegrias. Vai daí, é apostar as fichas no que podemos fazer. 

Se não somos o puto com um plano, é melhor que sejamos o matulão cheio de músculos. Vamos sacar uma ou outra garina, belas prateleiras, excelente rabo e assim, que não terá paciência para nos aturar por muito tempo. Calha bem que também mudamos depressa de gostos e vontades.

A questão é que se não conseguimos ver um caminho pelo meio do nevoeiro da floresta, a alternativa é ir em frente. O que significa que é muito provável que espetemos com os cornos numa árvore. É bom que tenhamos uma cornadura grande e forte e hiperdesenvolvida, maximizando as hipóteses de ir a árvore abaixo antes de se nos partirem as hastes.

Quer dizer que duvido da aposta na formação, porque o que formamos não manda carvalhos ao chão à cabeçada; duvido que a política de contratações tenha o fito de preparar solidamente o futuro, sendo mais do que uma coleção de oportunidades; duvido que a equipa B seja o estágio à Ordem dos nossos melhores alunos, porque nem chegamos a ser uma escola organizada; duvido que tenhamos sub 23, libertando a B para aquilo que aparentemente se pretende dela: minutos para os A que não jogam e castigo para meninos que se portam mal.

Do que não duvido é que tenhamos uma equipa competitiva, cheia de garra e raça, unida, com fome de vencer. Não me parece que vá jogar muito bem, mas acredito que pode ganhar. É por isso que, mesmo eu, agradeço que Sérgio Conceição fique. Porque é o nosso melhor plano. É o único, na verdade.

Assim sendo, por justiça, há que convir que a renovação com o treinador é um lúcido ato de gestão. Bem o Presidente. Agora é assumir que lhe deve ser entregue a batuta, deixar claro, se não estiver, que Luís Gonçalves tem que ser um moço de recados do treinador, fazer o que ele lhe disser dentro do que a SAD quiser pagar e seguir a voz de olhos fechados. Nós cá estaremos para empurrar.

Espero que também estejamos, porque a altura virá, para julgar os resultados. E esses vão um pouco para lá dos títulos que se ganham. Radicam igualmente no potencial que reconhecermos para repetir as vitórias. Ou não?

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Entretanto, tudo começa com execelentes noticias: esta época não precisamos de ir ao Batalha para ter espetáculo! Uma vez que o preço do meu lugar anual subiu e já está ao nível do bilhete de temporada do São Carlos, tenho a certeza que me vão dar ópera todas as semanas. #SADbem

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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Balanço 18/19 - II: Trial by fire



Pois claro que é um orgulho os sub-19 serem campeões europeus e nacionais; naturalmente que é maravilhoso festejar os títulos do hóquei e do andebol; raios, venha até a natação, que ganha sempre qualquer coisa e ninguém liga nenhuma. Ganhou?; ah, e o bilhar, evidentemente, porque não queremos deixar o Figo mal visto.

Maaaaas, quando se calam as redes sociais, o Porto Canal, os grupos de Whatsapp e o cansaço me empurra a testa para a almofada, a enorme testa de melão que transporto, lembro-me dos meus amigos lagartos e das festas que foram fazendo ao longo dos anos. O passado aqui é que me fode, porque é o meu presente. Raisparta!

...

Isto a propósito de ter dito a pessoas várias, aqui há atrasado - no dia menos um - que SC me fazia lembrar alguém. Uma aura Jesuíta, chamei-lhe. Isto dos podcasts é giro, porque depois se pode dispensar testemunhas.

Anos passados, devo desde já esclarecer que, para meu descanso, se confirma uma diferença abissal da qual, apesar de tudo, desconfiava: SC tem muito, mas em toneladas, mais classe do que JJ. Basta assim, não preciso de esmiuçar isto. Classe, em tudo.

Fiquei ainda muito agradavelmente surpreendido com outra característica que os demarca tão claramente que parece que foi lavada com Omo: SC gosta mais do FCP do que JJ alguma vez gostará dos clubes que treinou/treinará. Todos juntos. No contexto em que chegou e em que se vai movendo, no esgoto que é a nossa Liga, esta diferença é de uma importância vital. Creio que não teríamos ganho nada se ela não existisse. Bola!

A terceira diferença é ainda melhor: Europa! O nosso Sérgio quer ganhar. Sempre. Até a Taça da Liga, quanto mais as competições europeias. Sem pestanejar ou pensar na mossa que uma goleada pode fazer na sua imagem. Ao contrário dos que abdicam à partida e apostam apenas naquilo que lhes parece menos improvável poderem ganhar. Nisto também reside a capacidade que SC teve de reanimar o espírito do Dragão. Para lá da chatice da dança de abertura de época, espada incluída.

De resto, está lá tudo. A abordagem atacante ao nosso campeonato, embora com menos experiência e mais ilusão, o que leva a que se privilegie sempre o músculo à razão; o messianismo consubstanciado naquele “como isto estava antes de eu cá chegar!”; a culpa que é sempre de outro qualquer, mesmo enquanto se está a dizer “eu é que sou o líder, a responsabilidade é toda minha!”; o esticar jogadores para lá dos limites adequados; a incapacidade de perceber que fazer diferente não é ser derrotado nem revela pouca convicção; o facto de faltarem sempre opções de qualidade, jogadores que pediu e não tem e que deveriam ficar no lugar de jogadores que tem mas nunca vai utilizar. Porque não os pediu!; a gestão minuciosa dos momentos e da forma de comunicação, muitas vezes, que não todas, sob a capa da genuinidade, do coração ao pé da boca e da frontalidade; e, claro, o número de vezes que um jogador da formação tem que nascer para caber numa sua equipa. A menos que seja à força. Viva, Diogos.

Nesta questão da formação, diga-se que entendo. Dado o modelo e a forma de jogar, comparando com o que os miúdos aprendem no FCP ao longo da formação, dificilmente poderiam ser solução para uma equipa de SC. E era urgente ganhar! Na minha opinião, a Direção sabia disso quando escolheu o treinador e lhe pediu o que terá pedido. Se não sabia, é incompetente. Oh wait...

Posto isto, num país normal, fosse também eu normal e o futebol um desporto normal, a avaliação do trabalho de SC teria que andar entre o brilhante e o muito bom, sim senhor. Duas épocas de limitações financeiras: 1 título;  1 supertaça; 1 final da taça perdida nos penalties; 1 final da taça da liga perdida nos penalties; 1 presença nos 8 melhores da Europa e outra nos 16; segundo lugar no campeonato, em luta até à última jornada. Comparem lá isto aos anos anteriores. Como diria - e disse! - SC, como isto estava antes de ele cá chegar. Está claro que se esquece que “isto” vai muito para lá dele, envolve outros que também devem ter trabalhado melhor ou então - ah poijé bebé - nem puderam estragar, tão pouco era o dinheiro que circulava. Cá está um pretérito imperfeito que me assombra.

Só que há os adversários. O estado em que uns se puseram e nós conseguimos pôr outros, do qual tratámos no post anterior, não pode ser passado a pano. Na verdade, repito, em dezembro isto estava mais ou menos resolvido. Todas as características que analisámos antes se conjugaram, aliaram-se ao que deveria ser o último estertor do fétido polvo encarnado e deram uma bosta de proporções épicas. Ou seja, sim, há culpas próprias e, para mim, boa parte delas, atendendo ao contexto, são do treinador. De todas as outras está ele ilibado E, como sabemos, não são poucas, não senhor.

Este é o homem que não aposta em Oliver, que prefere sempre Fernando Andrade ou André Pereira a Adrian, que é possuído por NES quando olha para Brahimi, que opta por jogar, no campeonato nacional!, com Militão à direita, que baseia o seu jogo no duelo e na segunda bola. Sim, porque não podemos dizer que queiramos ser uma equipa basto criativa e que protege o Felipe dos seus escorreganços. E é isto que torna Marega imprescindível.

Se repararem, tudo o que mencionei só é uma crítica do MEU ponto de vista. Porque olhando ao que são as características de SC, faz todo o sentido. Quero com isto dizer que são escolhas coerentes e que entendo perfeitamente. E sim, são as mesmas que nos deram um campeonato que tínhamos absolutamente que ganhar. De todo o modo, não gosto delas. Por isso, a azia de agora ter perdido transforma-se em fúria. Mas vá, tenho noção disso, ao contrário dos que defendem o oposto e raramente, quase nunca, conseguem falar de bola. Só de espírito e raça e intensidade e quais são dos nossos e quais são contra nós. que é todos os que se atreverem a discordar, naturalmente.

E lá voltamos à Ordem dos Jesuítas. Eu sei bem o que disse quando JJ esteve perto de ganhar tudo e tudo perdeu. Lembro-me bem do que ouvi a minha gente berrar aos ventos: Aqui? Nunca seria possível! Rua, na hora.

Pois bem, aconteceu. Foda-se! Até o discurso do “excelente época, estivemos nas decisões todas, isso é que é!”, até isso - só mais tarde corrigido - aconteceu. Não sei se por se recordarem do que JJ ganhou depois disso, se por - e é mais provável - este ser dos nossos, lágrimas na derrota incluídas, o veredicto agora parece ser muito diferente. Conviria talvez recordar COMO JJ ganhou depois de ter perdido. Aliás, como o próprio ameaçou fazer a determinado bandeirinha, quando defendia outras cores. Amigos, esse tipo de reforço não teremos. Continuaremos a chafurdar na lam...na merda! de competição e de país que temos.

Ou será que alguém pode duvidar que, fosse Sérgio Conceição treinador do 5LB - ou venha algum dia a ser - já seria - ou virá a ser - um herói nacional? Elevado a mito, ao nível do melhor Mourinho? Que digo? De um Cristiano Ronaldo! Sendo nosso, e dos nossos, é tratado como um grunho. Que está longe, mas tão longe, de ser.

Por outro lado, não enfrentaremos um período de continuidade e estabilidade. Teremos que refazer a equipa e, com ela, o projeto. Se havia e vier a haver algum. Estaríamos pois em tempo de tomar decisões estruturais acerca do tipo de líder que queremos. Estaríamos! Porque não estamos, uma vez que a decisão foi tomada antes do jogo no Dragão contra o toupeiral corrupto. Está decidido, está decidido, mais à frente falaremos do que, para mim, isso deve implicar.

Não, não fugi com o rabo à seringa neste suposto julgamento pelo fogo: eu terminaria aqui o ciclo. Fim. Obrigado. Next please.

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domingo, 26 de maio de 2019

Balanço 18/19 - I: Flashback e Contexto



Direto. Diríamos grosso, porque sabemos que curto não será quase de certeza. Mas, tirando estes, sem floreados e metáforas e segundos sentidos. A Tasca agora é exclusivamente o que me apetece, quando me apetece e para o que me apetece. Desta vez é bola. Pura. Acabou a época e eu estou a ponto de sufocar se não disser umas coisinhas. Bem, umas quantas. Bastantes. Tantas que não me chegará a jornada de A Culpa é do Cavani que, certamente, tratará destes balanços. Por outro lado, tenho saudades de partilhar estas conversas com malta que, eventualmente, nem sequer ouve o podcast. Prontos? Na verdade, quero lá saber se estão. Eu estou! É quanto basta.

Por hoje, ficam as duas primeiras partes: Flashback e Contexto. Ficarão a faltar outras duas: Trial by fire e Futuro.


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FLASHBACK

Saberão, e se não sabem fica já dito, que não sou propriamente uma groupie do nosso treinador. Aliás, não o teria escolhido sequer. Até porque nunca percebi porque o deixámos cair num dezembro, para depois o trazer num agosto. Será uma questão de mês? Ou depende da graça de quem trás pela mão os negócios que fazemos? Pois que não sei, nem agora interessa nada. Como sempre.

Dito isto, estive à vontadinha para me deixar estar fora do band wagon que logo se montou. Aquela coisa do "ai pobrezinho que não tem jogadores, é uma cambada de pedreiros e de enjeitados da vida, como pode ele arranjar rosas se nem um papo seco lhe dão?", you know the drill. Defendi na altura, e defendo hoje, que, limitados que estávamos, mantínhamos argumentos para competir e ganhar. Como bem o provou Sérgio Conceição, ganhando um dos mais importantes campeonatos da história do Futebol Clube do Porto, impedindo o desígnio nacional de oferecer um penta de títulos, sujos e falsos, ao clube do regime. Tivemos pena, só que não. 

Sendo uma vitória de todos, foi sobretudo do treinador. Havia um esforço de denúncia feito pela comunicação do clube que abalou o gorduroso e fétido status quo, deixando, momentaneamente, o viscoso polvo sem saber como reagir, de gordo e pastelão que estava. Mas nada teria produzido qualquer efeito se não trouxesse consigo o Mar Azul. E no futebol, não há mar que resista à derrota e à resignação. Imaginem a época passada com NES. 

Por isso, Sérgio Conceição foi o grande obreiro daquela conquista. Não porque tivesse conseguido produzir qualquer milagre futeboleiro, mas porque conseguiu trazer de volta o espírito do Dragão - e poucos conseguiriam - e, ainda mais importante, somou vitórias, esse combustível infalível para a nossa chama. Pelo que leram acima, sabem que não posso ser mais honesto do que isto. Tendo perdido, teria a mesma responsabilidade de qualquer treinador do FCP que perde. Tendo ganho, é apenas justo reconhecer o papel que desempenhou nessa vitória: o principal!

Do lado da bola propriamente dita, nenhuma surpresa: fraquinho. Como todos, fui no Mar, dentes cerrados. Mas de olhos abertos. Não jogámos grande merda a maior parte do tempo. Mas hey, ganhámos! Vinha lá uma época toda nova, para crescer, equipa e treinador, e voltarmos a ganhar e, agora sim, começarmos a encantar. Está feito o flashback, vamos lá ao que importa.

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CONTEXTO


Já todos lemos, ontem, a última página deste livro, portanto permitam-me apenas que, para não nos perdermos, contextualize esse epílogo:

Em dezembro eu sentia-me Campeão Nacional. Bem me disseram pessoas ponderadas que era demasiado cedo. Malta dos números recordou-me o avanço desperdiçado no ano anterior. Mas eu sentia-me campeão na mesma, porque o espírito tinha voltado e, ainda que por motivos de força maior e, sobretudo, alheios à vontade do nosso treinador, o futebol ameaçava melhorar. E tínhamos seis pontos de avanço para o segundo à 16ª jornada. Sim, seis. Para o Braga! Sete para os lampiões, que vinham em terceiro, oito para o Leça, digo, os lagartos. Com quem, aliás, jogámos a última jornada da primeira volta, em Alvalade, e logo aí deixaram claro que, por eles, empatar todos os jogos contra o FCP estava muito bem. Virámos o campeonato com 5 pontos de avanço sobre o polvo. Juro-vos, ingénuo, achei que lhe íamos dar a porrada fatal.

Olhemos agora para os adversários. Em consequência do que era a demonstração de superioridade do FCP, o Padrinho entregou o campeonato. Fez uma retirada estratégica, despedindo o sonso Vitória para agradar às massas, arrumando o orçamento ao despachar as grandes estrelas que havia contratado na pré-temporada e nomeando um treinador interino que foi buscar à equipa B. Que me tentem convencer que tudo isto era para ainda serem campeões é lá com quem come gelado com a testa, eu não. Tenho claro que o Padrinho se preparava para passar meia época a preparar o ano seguinte. As palavras do novo sonso são prova bastante: não me pediram nada. E também não lhe deram nada. Ele que se arranjasse com os putos da B. Isso que agora chamam de "aposta na formação", "os meninos de ouro do Seixal", há menos de meia dúzia de meses era a direção a desistir do campeonato. Eles sabem que sim, eu li-os nas redes sociais e ouvi-os nos cafés.

Do Sporting da Covilhã todos sabemos tudo à saciedade. Até porque eles próprios - diz que pela mão do atual Croquete Mor até - fazem questão de passar para fora o que se passa no balneário. Sejam massagens com as mãos, abertas ou fechadas em punho, sejam festinhas com fivelas de cinto, enfim, o costume. Sem plano, sem treinador, sem equipa, lá se fizeram à estrada. São estas duas as equipas que em 2018/19 tiveram troféus para comemorar em Portugal. Nós não!

Em janeiro, o treinador pediu e recebeu um avançado versátil, um médio defensivo e um lateral direito. Do nada, chegou ainda um multi-titulado defesa central que, para mim, é o segundo melhor do plantel. O que se decidiu fazer com esta gente, não é responsabilidade de mais ninguém senão do próprio Sérgio Conceição. Acredito que preferisse Mbappé, Canté e Meunier, só para ficarmos em malta que fala francês, mas isso não pode ser razão para desperdiçar avanço para adversários no estado anteriormente descrito.

Achar que isto pode acontecer exclusivamente pelo ressurgimento em força do polvo vermelho, é contribuir para perpetuar este estado de coisas. É falso! Assim como a nossa força em campo o abalou, foi a nossa incompetência na relva que acabou por torná-lo relevante novamente. Não que isso justifique a batota. Nunca! Sermos fracos não implica que nos roubem para que outros, ainda piores, possam fazer de conta que ganham. Digamos que numa terra com justiça teríamos vencido apesar de nós mesmos. O que não nos tornaria melhores.

Nada apaga a pouca vergonha a que assistimos em Braga, em Moreira, em Vila do Conde, em Freixo de Espada à Cinta se fosse preciso. Como nada apaga o facto de termos perdido tudo para as equipas descritas acima. Porque aconteceu? Porque ao roubo instituído como normalidade numa Nação completamente falhada - que somos! - juntámos o nosso futebol: fraquinho. Perfect storm.

Quem decide do nosso futebol? Sérgio Conceição. Tendo perdido desta forma, é apenas justo reconhecer o papel que desempenhou nessa derrota: o principal.

Já fora do campo se adivinhavam sinais preocupantes. A Comunicação perdeu gás e quase pareceu uma caricatura de si própria, mesmo quando não esteve mais preocupada com interesses pessoais, porque de pessoas, do que com os do clube, numa espécie de roda-livre em auto-gestão. A verdade é que não há porque acreditar que antes houvera uma estratégia do clube, ao mais alto nível, depois colocada em prática por segundas linhas executivas brilhantes. Tudo teve sempre o ar de carolice e abnegação e fervor clubista. Como que por acaso. 

Portanto, é natural que em alguma altura se esgote.  E esgotou. Esgotou tanto que nos demos ao luxo de "calar" o treinador durante boa parte da época, no que toca às arbitragens. Aquele que, cavalgando a clara injustiça com que temos que nos confrontar semana após semana, trouxera de volta o espírito do Dragão, via-se desautorizado, em direto, por um qualquer invertebrado com tempo de antena. Por alma de quem o tem, não sei, mas gostava. Até porque depois tenho que aturar as redes sociais que acham que A Culpa é do Cavani não deve transmitir aqui ou acolá, porque são vermelhos ou encarnados ou rubi. Já esta contribuição, sei lá até que ponto decisiva, do canal do clube para a bela merda que foi esta época, epá, lá acontece, merdas que já se sabe, é correr com o gajo, siga. Siga tudo na mesma, portanto...

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terça-feira, 14 de maio de 2019

Casa Velha

(Inevitável e espesso, o silêncio vai escorrendo por entre as horas, as tarefas - reais ou inventadas - as ausências e tudo o mais que teimas em acumular para que se te encham os dias. Como magma incandescente, destrói as barreiras que laboriosamente ergueste. Um rio calmo, mas inexorável, serpenteando pelo vale, encontrando caminhos pelo meio das rochas, correndo tranquilo, sabedor de que será mar.

Ei-lo, como sabias que estaria, esteve sempre, estará, virá, tarde ou cedo: o silêncio perante ti. O que resta.)

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A ver se consigo explicar:

É como um velho paço senhorial que se esboroa. Baço dos anos, ganhando o contorno da paisagem, do mato que o vai lentamente engolindo, camuflado pelo verdete nas paredes de pedras grandes. O torreão Sul já sem teto que se note, deixando entrar toda a luz do Universo, para que inunde as clarabóias e os ninhos de andorinha em pleno salão nobre.

Valham os pássaros e bichos rasteiros que se esgueiram entre cacos de mobília, agitando os fetos que comeram as tapeçarias antigas, para quebrarem o silêncio. A Vida persiste em formas outras, mesmo que as dobradiças de aço que resistem nas ombreiras chorem de saudades nossas.

Há crianças que passam as tardes do início do Verão a correr pelas colinas suaves, enchendo a charneca de gritos alegres e embarcando em expedições pelo corpo principal do edifício. Ali, onde ainda há quadros pendurados e fotografias que se rebelam contra a humidade; quartos onde ainda se sussurra a nossa história, ora alegre, ora um pranto, um minuto festa, outro tragédia, uma gargalhada só.

Do que pudemos deixar descobrem quem querem que tenhamos sido. Luzes no céu, Santos, dores reminiscentes que não podem explicar, água nos olhos dos adultos, lembranças vagas de fumo e produtos adicionais. E silêncio. O espesso silêncio que a simples repetição dos nossos nomes faz descer sobre a parte conhecida do Cosmos.

Designados proprietários da enorme chave de ferro que continua abrindo a porta desta aventura, sabem exatamente onde encontrar os esparsos sinais de vida na Casa Velha.

Ao fim do dia, correndo livres por onde é provável que tenha sido o jardim de rosas brancas, regressam à Casa Nova. Paredes meias, o mesmo território, um planeta diferente. E contam em algazarra as descobertas - um penico debaixo da cama, no quarto colado à parede Norte, aquele que ainda tem uma cómoda - puxam pela memória dos pais, detetam-lhes as incongruências e respeitam os silêncios magoados. Sempre ele, escorrendo como magma.

Aprendem-nos.

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A ver se consigo explicar:

Um velho de tez por algum motivo tisnada, seco, de rugas fundas, segura com as duas mãos o chapéu preto à frente do umbigo. Um fato de três peças negro, a camisa branca, cabelo nenhum, muito direito contra a luz que se despede de uma casa velha, a cair lentamente em grandes pedaços.

Uma revoada de putos dispara de dentro do edifício na sua direção. Diríamos um enxame de abelhas a rodear um girassol único, grande e cansado. Levam-no pela mão, falando todos ao mesmo tempo, cada um como se tivesse uma etiqueta que lhe marca a proveniência, um traço distintivo, de fábrica, que na maior parte das vezes evita que lhes pergunte: e tu, de quem és? Ouve-se ao longe, enquanto o chapéu já vai de cabeça em cabeça: sim, um penico!

Deixam-no numa poltrona e, ainda que já cá não estejamos para ver quando acontecer, virá uma velha de vestido florido sentar-se ao seu colo. Soltarão ambos um gemido de articulações gastas e joelhos abusados e os outros estarão ocupados a temperar o resto das carnes, enquanto os miúdos lavam as mãos. Partilharão um breve momento de silêncio. A Casa Velha deixará cair uma telha. Nada a dizer.

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A ver se consigo explicar:

Olá, sou eu. Como estamos hoje, meus Amores?

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terça-feira, 30 de abril de 2019

Panquecas, sempre!



Tenham em conta que eu sou um fulano que passa imenso tempo em comboios, em trânsito daqui para lá e volta. Nem sempre me dá para trabalhar, nem sempre me dá para dormir. E o tempo tem que se desfiar, certo?

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Reunidos, fumando. É possível que haja uma ou outra cerveja, das médias, mas desta perspetiva não podemos ter a certeza e ainda faltam uns tempos para haver VAR.


- Vamos rebentar isto tudo pá. É o que vos digo, isto só lá vai à bomba pá.
- Tem calma Óscar, estamos só a organizar uma manif. Se os tipos dos camiões de gasoil podem, nós também podemos. E então pessoal, Terreiro do Paço ou Palhavã?
- A mim dava-me mais jeito Palhavã que ia de metro. Haviam de fazer metro até à Praça do Comércio.
- Sim, sim, pois claro, até Santa Apolónia, já agora. - Gargalhada geral.
- Ao Aeroporto! - Mais risada.
- No Porto! No Porto é que haviam de fazer metro! - Gente agarrada à barriga.
- Oh, tábem, estava só a dizer, chatos do caralho.
- Leva-se umas Berlier e cabe a malta toda, não?
- Eu cá levo os petardos pá.
- Os panados, Óscar, os panados! Ainda nos vai arranjar problemas com a bófia, este.
- Está bem pá, majentão vamobora que já me está a dar o nervoso miudinho pá.
- É só amanhã, Óscar. Sossega o facho. Não te esqueças que é uma cena pacífica, contra a guerra e a opressão e essas coisas beras todas, ouviste bem? - Desconfiado.
- Quem é facho pá? Detono-te essas trombas que nem a tua mãezinha te reconhece pá! - Depois, entre dentes. - Panascas pá.
- Hã?
- Panados pá. Vou buscar os panados, era isso.
- Ooooordeeer! 

(Eu sou um mero narrador de mim mesmo, não tenho como explicar o facto de o tipo das gravatas garridas do Parlamento Inglês estar metido no 25 de abril. Aliás, cá está um dado histórico que escapou, até hoje, a quase toda a gente. Menos ao Marques Mendes, está claro. Esse de certeza que sabia ou, pelo menos, desconfiava. Pá.)

- Ora foda-se pá, se vamos ficar aqui a fazer sala, ao menos liguem o rádio pá. - Fazem-lhe a vontade.
- Eish, outra vez o Paulo de Carvalho! Já não há pachorra para o Paulo de Carvalho.
- Havíamos de ir lá e rebentar a Emissora Nacional pá.
- Lá estás tu com isso de... quer dizer, ao menos já se calava o Paulo de Carvalho...
- Estou-te a dizer pá.
- Safoda, eu alinho com o Óscar nisto da Emissora!
- Epá, então e nós ficamos aqui a ganhar mofo? Se é pra isso, também vamos andando. - Levantam-se todos menos um.
- Eu cá não quero ir já. Há panquecas ao pequeno-almoço, arranjam sempre merdas para fazer no dia das panquecas. Gosto das putas das panquecas, carago. Depois chegamos muntacedo e ficamos lá na manif montes de tempo sem fazer nada. Ainda por cima, toca-me sempre aturar as catraias do Mortágua. Haja paciência!
- Alguém tem que tomar conta das crianças, não te parece?
- Podiam deixá-las em casa, sei lá...
- Tás paneleiro do raciocínio? É uma manif, oh atrasado. Como queres que as pessoas saibam que é uma manif se não aparecer nenhuma mana Mortágua? Pensa, estúpido.
- Então sigo com o Maia, é?
- Sim, ide lá. Não te esqueças das fraldas e dos Dodots.

(Esta menção anacrónica não teve o patrocínio da marca citada, o que é uma manifesta infelicidade para este que vos escreve. Atentamente.)

...

- Oh Maia, olha lá, juntou-se aqui mais gente que povo, chiça. Isto não é a mesma malta que esteve aqui há uns dias a aplaudir o Caetano em Alvalade?
- É capaz. Eu não ligo à bola.
- São pois. A propósito do que o Caetano é que dava jeito que aparecesse na manif. Era sucesso garantido. Já se sabe que onde está um Marcelo, está a CMTV e depois vêm os outros todos ao cheiro da Laranjo.
- Não é mal visto, não senhor. Liga aí ao gajo.
- Ai liga! No meio desta multidão, só chego à cabine telefónica de chaimite. Para além de que tenho que ir mudar a fralda à Mortágua. Arranja-te Maia, eu estou cá só de baby-sitter, bebé.
- Oh Coiso, vê lá se apanhas alguém que esteja ao pé do Carmo pelo rádio. Diz para chamarem cá o Caetano. - Acende um cigarro e contempla a fragata que desliza no Tejo. É uma bela embarcação, não haja dúvida. Haviam de fazer daquilo um cacilheiro. Todo ele envolto em crochet. Era coisa para ficar engraçada. Estilhaçam-lhe a criatividade com um berro.
- Oh Maia, ele manda dizer que não está lá. - Encolhe os ombros como um emoji.
- Opá, preguiçoso do caraças! Não levanta aquele cu nem por nada. Qualquer dia também se esbardalha do assento e depois quero ver. Vou lá buscá-lo a ver se isto anima. Puta de manif mais chata. Se sabia tinha deixado o Óscar trazer petardos.
- Por acaso já ia, oh meu Capitão.
- Hã?
- O panadinho. Será que alguém se lembrou de trazer médias?

...

- É como lhe digo, caro Maia, fartinhos de tocar à campainha e nada. Ninguém responde. 
- Estará avariado o video-porteiro, talvez. Oh Coiso, chega-me aí o megafone...

***********************************************

- Não pode ser! São os piços das Caldas outra vez? Estou? Estou? - Bate no telefone negro, de disco. Sim, existiu disso. - Está lá?
- Problemas, senhor Presidente do Conselho?
- Sei lá. Pelo sim, pelo não, vamos para o Carmo.
- Eish, isso é que não me dá jeito nenhum. Tenho que estar de madrugada em Santa Apolónia, para apanhar o comboio correio para Santarém. Ir agora para o Carmo...
- Quer cá saber do comboio, homem. - A exasperar.
- Ainda se houvesse metro até Santa Apolónia, podia ser que... - O outro desata a rir.
- E até ao aeroporto? Não lhe dava jeito o metro, não? - Ri alto. - Ora deixe-se de lérias e chame um carro. Avançamos para o Carmo que parece que há movimentos estranhos na Praça do Comércio.
- Alguma manif que desceu da Avenida da Liberdade, talvez?
- Não pode ser. É a tropa.
- E a tropa não se pode manifestar, senhor Presidente do Conselho? Se calhar está a tropa farta da guerra.
- Pois claro, oh Coiso, e depois vem a Polícia e faz greve ou assim. Olha, invadem os degraus da Assembleia, por exemplo. Deixe-se de parvoíces e providencie o automóvel que lhe pedi! - Já muito vermelho.
- Já vai, senhor Presidente do Conselho, já vai. Por acaso, ainda outro dia estava a pensar. Isto bem esgalhado era a gente pegar no telefone, marcar um número e pumbas, os tipos no automóvel saberem logo a nossa morada e aparecerem-nos aí à porta. Não era catita, senhor Presidente do Conselho?
- Não, Coiso, não era catita. É estúpido, só isso. Havias de ter ido para Parodiante de Lisboa, tu.

...

- Batem à porta, senhor Presidente do Conselho.
- Não abras, Coiso! - Pálido.
- Oh, tanto me faz, já não chego a horas a Santarém e não. Tenho o dia todo para fingir que não está cá ninguém. Gostava era de perceber porquê.
- Não sei Coiso, parece que foram rebentar a Emissora Nacional. Diz que foi o Paulo de Carvalho. É um ataque coordenado às rádios. O comuna do Zeca atacou a Renascença. - Benze-se.
- Ui, agora é que nem à hora de jantar lá estou. Olhe, parece que é o Maia que está lá fora a chamá-lo.
- É a revolução! - Procura esconderijo, feito barata tonta.
- Ora, que exagero senhor Presidente do Conselho. Vai-se a ver é para irem ao Martinho tomar um xiripiti. Olhe, lá está outra: metro no Terreiro do Paço. Hein? Diga lá que não dava jeito.
- Fartinho dessa história do metro, chiça, penico, cocó. - Aos pulos como uma criança mal educada.
- Não pragueje, senhor Presidente, olhe a sua tensão.
- Você tira-me de mim, Coiso! Sempre com a trampa dos transportes. Táxis por radiotelefonia, metro aqui e ali e no caralho mais velho. E depois essa fixação em apanhar o comboio para Santarém! Tenho os nervos num frangalho. - Deixa-se cair numa poltrona. Derrotado.
- Ofende-me,  senhor Presidente do Conselho. Procuro servi-lo da melhor forma, cumprindo com os meus deveres com todo o brio. Está claro que, de momento, deveria estar descansado em Santarém. Apesar disso, aqui estou, firme no meu posto, a ouvir estes disparates de uma suposta Revolução. - De beicinho a tremer.
- Mas afinal, porque é que você está tão interessado em Santarém? - Já sem esperança.
- Panquecas, senhor Presidente do Conselho. - Diz e bate as palmas. - Hoje é dia de panquecas. Todos os 25 há panquecas. Bem boas, as panquecas do quartel de Santarém. 
- Oh foda-se, desisto! Vá lá fora e informe o Maia que entrego o poder. Quero ir para a Carregueira imediatamente.

...

- Hã? Mas qual poder?
- Pois é como lhe conto, estimado Maia. O senhor Presidente do Conselho manda dizer que lhe entrega o poder e pede encarecidamente que o leve daqui. - Olha, outra vez o emoji dos ombros.
- Oh jovem, eu lá tenho tempo para essas brincadeiras? Tenho que voltar prá manif. Não tarda, está lá o Mortágua para levantar as petizas e se eu não estou desata logo a abusar e ainda gama alguma Berlier. Parecendo que não, as Berlier não crescem nas árvores.
- Pois, não sei que lhe faça.
- Só se pedir ao Spinola que passe cá e receba a encomenda.
- O poder.
- Ou isso, tanto se me dá. - Vira as costas, avança um passo. Detém-se, volta atrás. - Oh Coiso, eu não o conheço de algum lado?
- Sim, Capitão. Já nos cruzámos em Santarém. - Com um largo sorriso.
- Ah, costuma lá parar, é?
- Todos os 25, meu capitão.
- Panquecas hein? Seu lambareiro. - Sorriem cúmplices.

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Viva este pouco que ainda nos vai restando: Liberdade!
Peço imensa desculpa. Grato pelo vosso tempo. Eu saio sozinho, obrigado.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Passadiços de Colombo


Sabem quando a vossa cara metade vos pergunta: Ôblá, quem é a Josineide/Armandão ? (riscar o que não interessa) E vocês desatam a dissertar sobre os motivos pelos quais o micro-ondas anda há seis meses a fazer um barulho estranho? Fazem-no com tanto pormenor que a contraparte pensa de si para consigo: Oh fuoda-se, a Josineide/Armandão (já é a segunda vez que alguns de vós mentem a riscar) que te ature! E diz: Olha, deixa lá isso, vamos antes comer uma francesinha. (A ver se te calas maizámerda do electrodoméstico – isto só pensam, não dizem. Dissimulados/as pá!)Ora bem, os Cavanis tinham sobre a mesa o FCP vs Sta Clara. Pois claro que falámos do Varzim, do Lourosa, da Ovarense e do Omónia Nicósia. 
Qual jogo no sábado? A torradeira parece que cheira a queimado, não? 
Prá semana é que é!
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